Acontece em todas as vidas, ou talvez a todas as pessoas, o surgimento de algumas aves raras que conseguem ter uma certa chave. É uma chave feita da percepção do nosso projecto, da planta que antecede a nossa personalidade, a qual julgamos a espaços estar erigida. E nessa medida, comete-se um erro. As boas notícias é que esse erro é apenas ocasional, já que tem uma simetria positivista que lança alguma dúvida deliciosa acerca da natureza de qualquer outro fora do nosso espaço mental. As más notícias é que julgo sermos capazes, eu pelo menos sou, de dar o ouro ao bandido com um sorriso, e ainda assim andar anos numa busca pela obtenção de indultos.
Burrice à parte, a verdade é que algumas pessoas entram. Limpam os pés e tocam ao de leve nas cerâmicas, com o cuidado de quem admira e delira por estar num tal local. O sorriso é cordato, o toque em tudo é um misto de gratidão pelo acolhimento e sede de experimentação. E alguns de nós, (eis-me novamente de mão no ar) são anfitriões ansiosos. Daqueles que mostram a colecção de Rembrandts sem pensar que ao mesmo tempo deram a combinação do cofre e a escala dos seguranças.
Ao evoluirmos com alguém, seja em que registo for, a familiaridade e a expansão afectiva exigem sempre uma maior entrega. E não falo apenas em entrega pessoal materializável, como o sexo, um toque na face, um gesto, uma conversa de ossos de fora. Falo daquelas coisas que nos circunscrevem, como formas desenhadas com cantos obscuros e particularidades esbatidas para criar uma sombra necessária à sensação de substância. Falo de unir os pontos para poder fazer o desenho. O mais curioso, é que por vezes alguém aceita esse algo. Alguém aprende a saber onde está tudo, como uma governanta especialmente eficaz, com a diferença que talvez não se pareça com a Mrs. Doubtfire.
E não há nada mais precioso, volátil e perigoso que esse acesso. Que o desligar do filtro que permite perceber onde as fundações estão mais carcomidas pela ferrugem de demasiada água corrida. Talvez porque de alguma forma, essa seja a experiência última, só uma jugular exposta permite que se passe do eco ao real diálogo. E no entanto, em alguns casos, o que somos é apenas uma espécie de escaparate onde se esperam as medalhas e os troféus. Onde a ambição não é medida pelo desejo de progressão e abrangência humana, mas pela suposta grandeza de coisas. Não existe pior percepção de que a ameaça da pequenez, ou que um olhar compassivo pelas piores razões. Essa evolução do que somos não permite ofuscar a dimensão do que deveríamos ter. E aqueles que possuem a chave, colocam-na na fechadura e partem-na com um golpe, na tentativa de nos encerrarem dentro da pequenez que não temos, das dúvidas que não pedimos e da culpa que dificilmente merecemos.
É algo terrível perceber não as diferenças, mas as condescendências, não as características, mas o que supostamente deveríamos fazer com elas. Nada pior que a simulação de uma roda de hamster quando é relva que se sente debaixo das patas, ainda que em alguns casos, seja apenas criada por aquilo que nunca, nada ou ninguém pode encerrar endefinidaemnte. Não há nada pior que crescermos para a pequenez aos olhos daqueles que entraram pela porta destrancada e viveram na casa até a gastar como visitas e nunca como moradores.
Algumas pessoas sabem onde acertar, e fazem-no com uma implacabilidade assustadora. Ou então não o percebem, o que é ainda pior. Ego ou insegurança à parte, aos que entram pede-se cuidado. Compaixão, talvez, ou só mesmo atenção. Porque aquilo que se obtém sobre outrem torna essa pessoa vulnerável durante muito tempo, e algumas coisas são possuem o valor que lhes é dado por quem as sente assim.
É complicado surgir para alguém como uma espécie de atestado de incompetência humana e emocional, especialmente quando o conceito do que éramos nunca fora atribuido pelo próprio. Tão terrível como sentirmo-nos a concretização de um espaço negro, onde antes a luz passava reiteradamente e dizia-se que costumava ficar. Sentir que o conhecimento prévio e rendido é apenas um flanco tenro é um modo de morte parcial. O que vale é que é direccionada...
Algumas pessoas deveriam poder dizer o que quisessem, mas nunca com o conhecimento de causa capaz de acertar no âmago do que nem sequer são verdades ou mentiras, mas apenas diferenças. São pessoas que deveriam esquecer o que sabem, ou pelo contrário, nem se permitirem a relembrar em voz alta, sob pena mostrarem de forma contundente a tristeza que é termos mesmo de nos proteger, e mais vezes do que seria desejável. Mas isto nem passa. E muito menos fica. E as portas estreitam-se mais um pouco ainda, felicitando-se quem saltou antes das reconstruções de quaisquer muralhas.
Assim nos cercamos uns aos outros.
Ferais, em círculo.
Alguns pouco atentos, ou apenas atentos em demasia somente às feridas de outros.
E é pena...
4 comentários:
(só para mandar beijo cúmplice)
Foi difícil desacorrentar-me deste texto, até ao ponto final. A vida tem destas situações de difícil desacorrentamento. Parabéns pela capacidade de expressão.
Muito obrigado.
Mesmo. :)
Ao fim de algum tempo, e de algumas pessoas terem o livre acesso ao que somos perdemos.. vamos mostrando cada vez menos.
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