Existe uma frase, frequentemente trocada entre amigos, que sempre me fez confusão. Também é verdade que ao mesmo tempo sempre se revelou certeira. Pelo menos em parte.
“Um dia ainda te vais rir disto tudo”, dizia um amigo meu, ou melhor vários amigos meus, perante a incapacidade em fazer alguma coisa que fosse para combater o meu suposto estado de mortificação. Coitados. Dá-me sempre pena, porque também sempre me custou imenso, perceber a debilidade da eficácia dos nossos esforços quando alguém nos arrancou as entranhas com as unhas e as deixou em cima da mesa com um bilhete. A presença é tão importante como parcialmente ineficaz, e no entanto, alguns pretensos consoladores são os tipos mais injustiçados da história dos gestos de amizade. E claro está, em meio ao desespero, cospem pérolas destas porque o silêncio é uma alternativa insuportável.
E depois existem outros que ouvem. Que sabem. Raríssimos.
E essas são outras histórias.
1 comentário:
Os sorrisos que surgem nestas alturas são sempre amarelos, despropositados e desadequados. Só mesmo as boas piadas nos fazem esquecer o que nos trouxe até tão ruim estado de graça.
Das situações mais caricatas que vivi do lado de "cá" da história entre o que sou/fui e os meus amigos do outro lado de "lá" desse tão complicado muro de berlim aka muralha da China aka Puta de Vida Madrasta em que estive mais vezes do que gostaria de ter estado, lembro-me acima de tudo, do que dois amigos me disseram.
Um, desligou o telefone a rir-se a pensar que eu estava a brincar e ligou meia hora mais tarde convicto de que a informação estava mesmo correcta e não se tratava de partidas de carnaval ou mentiras de 1 de Abril. Disse-me: "há duas situações em que não digo nada de jeito e acabo mesmo por não dizer nada. uma, é quando morre alguém. outra, é esta"
E ficámos em silêncio.
O outro amigo disse-me "cada um mete-se no buraco que escavou". Sobre este último, fiquei-lhe com uma raiva de morte, mas foi o que mais me fez pensar. E acaba por sempre ser assim, de facto. Escavamos os buracos que fazemos e metemo-nos lá dentro.
Normalmente saimos de lá sozinhos. com mais ou menos problemas de consciência e do que se podia ter feito pra ficar com menos amargos de boca e sorrisos amarelos. Do que sempre podemos fazer melhor.
Às vezes não se pode mesmo voltar atrás no que se foi e no que se é. mas podemos sempre tentar sempre melhores. Reconsiderar as perfeições e imperfeições de cada um, principalmente de nós mesmos. Perceber a poesia do grande todo que todos somos.
Agarrar os 60% da equação.
Apreciar o doce porque já se provou o amargo.
Ser Maior.
Acredito que dificilmente se consiga rir de tudo o que se passou. Até hoje nunca fui capaz...
Beijo enorme e desculpa qualquer coisa.
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