ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, agosto 21, 2008

A pedido de uma amiga repito aqui o seguinte texto.
E a verdade é que não lhe retiro uma vírgula. Creio nele como um religioso comungará, e de alguma forma, aceito que as incompreensões sobre a bestialidade de que sou ocasionalmente feito não colocam de todo a ideia em cheque.
E e será o que me parece.
Como tudo, não passa de uma tentativa.
Porque o melhor que podemos fazer, é o melhor que podemos fazer...
Obrigado, A...
"Sempre achei extremamente difícil contar uma boa história de amor. Talvez porque a natureza contraditória do fenómeno faça com que a sua materialização se deva revestir de especiais cuidados, sob pena de ficar soterrado pelos constrangimentos, e não elevado pela intensidade daquilo que o torna (perigosamente) único.
Também considero que o amor é um “transmorfo” subjectivo. Cada hóspede da sua influência cria um universo próprio para o poder vivenciar, e as manifestações alteram-se consoante a capacidade do seu portador. É como um vírus (a maior parte das vezes benigno, mas nem sempre) cujas mutações correm pelo contorno do seu portador, chegando mesmo a transformá-lo.

Recordo aquele texto que andou a circular na internet, do MEC (A Causa das Coisas continua a ser, para mim, a referência. A crónica "Almoços" é a melhor e mais hilariante crónica que alguma vez li na vida), a propósito do chamado "Elogio do Amor Puro". Entendendo a posição do senhor (e o texto é de facto belo), mas não posso deixar de discordar com algumas coisas, que foram defendidas e assumidas como máxima de vida por uma carrada de gente, começando logo pela designação "Amor puro".
Não sei o que significa. Que vem a ser amor puro? Pureza num conceito tão contraditório, violento e caótico como este parece-me quase como colocar uma tiara de fada na cabeça da MAE WEST. Não joga. Quanto muito existe um destilar da capacidade de querer, a qual torna o sentimento tão afiado e intenso que corta tudo à sua passagem, mas não há nada de puro, nada de cândido ou limpinho. Amor é sangue e pele debaixo das unhas, e transmuta-se como uma segunda pele, adaptando-se ao tamanho e ritmo dos corações. Quando estes se partem, a tal pele estala, e como diz o outro, o vento acaba por levar tudo. O amor é sim o mais contaminado de todos os sentimentos, julgo eu.
Depois elogiar o amor sem razão alguma, aleatório, estúpido, cego e doente, mais parece uma ronda de tiro aos patos. Mas que merda de mania esta de achar que os mais elevados e poderosos sentimentos humanos se caracterizam por uma total ausência de relação "causa-efeito", ainda que seja parcial! Será assim tão nobre e bonito olhar para alguém e, assim do nada, deixar de ter capacidade de “empatizar” seja com o que for porque a suposta rajada aleatória do amor varre tudo à sua passagem? Será que a ideia do valor intrínseco da pessoa, daquilo que nos encanta na sua capacidade de comunicar, de ser, de se mexer, de problematizar, de fazer rir, de deixar sair as contradições que a fazem humana, são meros detalhes despiciendos, perante a tal grandeza da estupidez linda do suposto amor de origem desconhecida? A mim parece-me terrível que algo tão importante como o amor possa ser definido como uma indeterminação arbitrária, onde aquilo que sou como pessoa é simplesmente dispensável, perante o grande mistério totalitarista do amor que não se sabe de onde vem.

Tenham paciência...

Existe, obviamente, mistério no Amor. Porque entre dezenas ou centenas de pessoas que conhecemos, muitas delas com charme, encanto, inteligência, beleza, só muito poucas nos fazem suar com a antecipação do toque. É esta espécie de triagem que constitui o mistério, por uma combinação de coisas cuja matriz desconhecemos, e que nos retira o peso do corpo ao descobri-la. Mas que diabo, o substrato está lá. Há algo que reconhecemos como fundamento parcial daquele ser humano que nos encanta. Olhamo-lo, ouvimo-lo, cheiramo-lo e sabemos que lá está algo que tem coincidência com os nossos pontos de aceitação, com juízos estéticos, éticos, emocionais, e mesmo aquilo que nos irrita compõe o ramalhete. Aceitar a total falta de fundamentação, é, em meu modesto ver, reduzir a pessoa e o próprio amor a uma espécie de esoterismo dogmático, e o amor tem para mim muito pouco de religioso ou de "é assim porque é e o que é que a malta há-de fazer." (E sou tão sensível ao maravilhoso final do "The Dead" do Joyce como qualquer romântico inveterado.)

Se a beleza do amor é a falta de comunicação, a casmurrice, a ansiedade, os gritos, a falta de um mínimo de lógica e senso, as tragédias gregas, e se só isto significa esse algo que entra por nós a dentro e nos desequilibra, nos faz melhores, mais completos e mais vivos, então eu estou mesmo morto e não recebi o aviso lá em casa. Escandaleira, possessividade paranóica e drama não é amor, mas apenas uma forma de exercer poder sobre alguém.

Amor real, para mim, traduz-se em sentirmos que, por causa de alguém, somos muito melhores do que éramos, mais capazes, mais completos, e sobretudo, diferentes. Diferentes porque maiores, porque algo transforma as realidades, que parecem sempre iguais, em algo para o qual existem fundamentos, mas raramente uma explicação cabal.
Amor é perdermo-nos no que somos, e no que alguém é. É perceber que o coração pode partir-se e esse risco pode transformar-se num abandono à realidade que se vê sem cores ou formatos. Amor não é um tom pardacento ou misturado no completo desconhecimento. É passar do cinzento ao vermelho, e viver as gradações como se caíssemos de uma falésia, mas nunca em total desconhecimento.

Amor não é puro.

É justamente o contrário.
O amor é a mais notável forma de contaminação.

As boas histórias (acerca dele) são feitas de perguntas, de descobertas e sobretudo, de reconhecimentos inauditos, braço dado com as novidades de quem levou aquilo que era um pouco mais longe no nosso reconhecimento.

(E, claro está, é também um aroma corporal de fazer dobrar os joelhos e transpirar sem calor...)"

2 comentários:

A. disse...

...

(Algumas pessoas deveriam poder dizer o que quisessem, mas nunca com o conhecimento de causa capaz de acertar no âmago do que nem sequer são verdades ou mentiras, mas apenas diferenças. São pessoas que deveriam esquecer o que sabem, ou pelo contrário, nem se permitirem a relembrar em voz alta, sob pena mostrarem de forma contundente a tristeza que é termos mesmo de nos proteger, e mais vezes do que seria desejável. Mas isto nem passa. E muito menos fica.)


______________________________...

*

A disse...

Às vezes existem coincidências tremendas e ando às voltas desde há uns dias, acredites ou não, com as tuas histórias na minha cabeça.

Não as que escreves, mas as tuas, reais... e não sei como é que isto se veio entrepôr assim, desta forma, talvez em forma de desespero, ou de pensamento, explicação racional para justificar os paralelismos estúpidos que vivemos nos dias que correm.

às vezes resgatas-me e eu não sei como raio hei-de fazer o mesmo por ti. não sei como ser melhor amiga para ti. não sei o que te hei-de dizer para que vejas de olhos bem abertos o todo que eu agora vejo.

e sei que às vezes irritas-me. como às vezes também te irrito (e até podia jurar que o texto acima é um bocadinho para mim, tal foi a dor na consciência com que fiquei desde ontem) e irritamo-nos e dizemos coisas um ao outro que não devíamos, mas sabes q eu contigo não uso muitos filtros. Já me bastam os outros.

Este texto está absolutamente fantástico. discordo de algumas coisitas. mas está mesmo lindo.

Bem hajas.