ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

terça-feira, setembro 30, 2008


Será que alguém realmente acredita que só as mulheres nunca esquecem a sua primeira vez?

Ou melhor, é possível conceber que alguém, seja quem for, esqueça a sua primeira vez? Tirando os infelizes e terríveis casos de abuso e justificados traumas subsequentes, haverá realmente alguém que o esqueça?

É também algo comum a ideia de que esse é um momento banalizado pelo sexo masculino, quase como uma espécie de rito de passagem onde um suposto egoísmo inerente faz com que o rapaz ou homem passe por cima de tudo, desde que aconteça, desde que finalmente aconteça. Como se ao sexo masculino fosse retirado qualquer sendo de medo, de receio primordial relativo ao corpo, ao toque, ao cheiro, ao comportamento perante o desconhecido, à pressão da performance. Como se, (e acho que qualquer mulher mais ou menos experiente que tenha ajudado algum rapaz ou homem a conhecer os prazeres terrenos da carne o desmentirá rapidamente) o desconhecimento e o receio da trapalhice não fosse uma questão, e a suposta virilidade de explicasse a si mesma e resolvesse tudo.
A verdade é que julgo que os homens também nunca esquecem a sua primeira vez. E tudo o que a envolve, desde a pessoa, ao local, a todo o ritual de campaínhas na cabeça que lhe dizem que finalmente vai acontecer, e ai caraças, o que será, como será, e daqui em diante como é que vai ser, e por aí fora. E se o toque da mulher não for o correcto, especialmente se a experiência estiver do lado dela, podem criar-se muitos problemas e reacções que se eternizam como erróneas. Há muito da primeira vez que pode condicionar o comportamento do rapaz que se torna homem, e a sua visão da mulher. Há muito no toque e na forma como este é conduzido para criar ou arrasar o ser sexual em construção, enchendo o descobridor de falsas conclusões e sobretudo de tiques que mais tarde apenas simplificam demasiado aquilo que é sempre complexo, mas nunca complicado.
Os homens também se recordam da primeira vez. E também este momento se eterniza, por mais que uma certa bravata da testosterona o transforme numa espécie de troféu descritivo. A verdade é que há muito mais medo, erro e dúvida na descoberta masculina do que aquilo que por vezes se julga. E o receio de não se saber é bem maior que qualquer tirada sobre egoísmo possa explicar, porque este normalmente surge da forma errada como se molda o impulso hormonal em meio à emoção da descoberta.
As marcas são assexuadas. As boas e as más, e sobretudo, as condicionantes.
E em alguns casos, nunca se agradece o suficiente.






A propósito deste pedaço de filme, (boa) perturbação à parte, fala sobre uma particular forma de coragem íntegra que admiro, embora raramente a consiga professar. E não o professo porque a acho, a espaços, idiótica, mas porque é uma forma de simplesmente ultrapassar uma contrariedade emocional da forma mais profunda e total que consigo imaginar.
Funciona quase de forma auto-fágica, como se a afeição que se tem pudesse ultrapassar-se a si mesma, e gerar mais que uma justificação. Gera um segredo, uma lógica na qual se cristaliza muitas vezes o que o objecto do desejo não é nem nunca será. Permite, no entanto, imaginar algo real por um instante, e como tal, não ceder ao amargor do desperdício que significa poder sentir ou ter sentido antes que a explosão de realidade pudesse desmembrar qualquer justificação para tal emoção.
No fundo, e paradoxalmente, é a forma mais eficaz de esquecimento que existe. Porque nasce não da ideia de esquecimento mas de absorção, de algo que é devorado pela própria consciência inegável das coisas, e que fenece ao tornar-se parte de um todo aceitado, já sem destaque.
Somos o que amamos de facto, e não o que nos ama, mas acabamos apenas por singularizar aquilo que permanece se este denuncira vida própria, já que a unilateralidade, por muito preciosa que seja, é somente uma simulação de vida, uma ilusão doce, uma justificação que lhe assenta como a qualquer sonho agradável.
Como digo, esta é situação que não assimilo, mas à qual tiro o meu metafórico chapéu. É estranho mas admirável como se consegue contar uma história assim, para uma tal ausência de destinatários, e ainda assim sentir algo gerado.
E a espaços, é isso que impede tanta gente de gerar fel no que supostamente tem origem nobre.
Acho eu...




O que será que as pessoas realmente vêm nas outras. Ou melhor, o que será que desejam ver? O que é que está em cima da mesa, o que significa identificar o outro?
Como é que realmente as pessoas estabelecem ligações? O que é que faz a diferença? Qual a chave para que nos sintamos realmente visitados? Quem é que nos conforta? Melhor, como é que nos confortam? Como é que essas pessoas, tão raras como reais epifanias no decurso dos nossos dias, conseguem pela sua naturalidade, simplesmente saber onde estamos? Quem ou o que somos?
A verdade é que julgo que tudo se resume a observação. Parece assim um bocadinho seco, é verdade, mas não há nada que não seja absolutamente magnífico acerca da capacidade de ver. De descodificar como se respira, e colocar a mão no local onde a pele esfolada se retrai e amaldiçoa qualquer espécie de luz.
Dizem que vivemos num mundo desumanizado. E em parte, isso talvez seja verdade. Viver num cenário urbanizado, um pouco próximo do "sucesso", é meter parte da mão num triturador de carne e esperar que não esteja ligado à corrente. E no entanto calculo que muitas das dificuldades são cegueira. De várias espécies. Amorfa. Possessiva. Cansada. Insuficientemente cicatrizada.
Essa cegueira impede-nos muitas vezes de observarmos a liberdade do espírito dos outros, daqueles a quem queremos dar e para quem queremos ser alguma coisa. Impede-nos de saber que o caminho que seguem só pode ser acompanhado, ou descrito numa ternura de entendimento. Impede-nos de colocar a mão por baixo e deixá-los dormir. Aceitar a paz de um porvir limitado que não confunde paz com morte, mas prefere histórias, caminhos e curiosidades.
Haverá alguma alternativa a olhar realmente?
Os ingleses falam em conexão. Alguns empatia. Outros preferem mergulhar no simplesmente inexplicável e agir indirectamente no sentido de construirem uma imagem. Outros ainda procuram, escavam, e sorriem em meio às suas tentativas, ao parcelar que nunca cessa de ser uma viagem até junto de alguém que tem apenas algo para dizer, e muito para existir.
Somos visitados, creio eu, por quem conhece os cantos à casa não porque a tenha visto, mas porque a paixão pela arquitectura lhe dá uma forma quase imediata de absorver a realidade que se quer ver. É como descobrir e reverter logo a aprendizagem entre dois batimentos cardíacos. Daí que pareça uma pré-compreensão.
Somos conhecidos por aqueles que chegam até nós mais expostos do que alguma vez estamos. E por vezes nem sabem que o fazem.
Somos de alguma forma parte do lar de quem mais nos acolhe. Osmose e troca fazem a massa da empatia. A capacidade de querer ver o invisível e perguntar o absurdo fazem o resto.
Ainda que por vezes a duras penas.
Felizmente...




sexta-feira, setembro 26, 2008

Dizem que nos dias e hoje o sexo vende tudo, ou que há sexo em tudo. O mais engraçado para mim é pensar que as pessoas se referem a esta situação como sendo "hoje em dia", como se o sexo não fosse arma de arremesso ou instrumento de poder desde a Cleópatra, e como se isso não fosse verificável já nessa altura.
Julgo, em bom rigor, que muitas pessoas temem o que está mais à vista, como o reflorescer das cores de uma certa verdade que pode ser desconfortável para algumas pessoas, mas é certamente mais certeira na sua avaliação do estado de coisas em que vivemos. Acho que há um temor em aceder à tentação de nos verificar como seres com apetites, tendências e lógicas que por vezes não são confortáveis para a linearidade em que alguns gostam de encaixar a vida quotidiana.
Há por aí uma alternância entre as clones do Sexo e a Cidade, e uma espécie de emissárias do sentimento real e ajustado (seja lá o que isso for) que propalam a lógica do amor como fundamento de todas as pulsões, paixões, actos e verdades sensoriais, e pior, proferem julgamentos moralizadores. E é destas últimas que me ocorre falar.
Existe uma espécie de voz, que leio em muitos locais, que falam do sexo casual, ou do sexo sem amor duradouro, ou seja lá que forma for de ligação que esteja abstraída de qualquer fundamento de relação com compromisso, como uma espécie de perversão do que deveria ser o impulso para tais práticas. Falam da ausência de amor romântico como uma espécie de amoralidade, ou moralidade baixa, onde as pessoas agem com um total despudor e despojamento de si mesmos, e vulgarização de tudo o resto.
Ocorre-me dizer muita coisa acerca disto, mas a primeira de todas é o desplante moralizador e julgador que surge dese discurso. É a posição de sobranceria que aparentemente coloca as pessoas estritamente emocionais num plano acima das outras, e não apenas num plano diferente. Em suma, quem fode sem amor compromissal, é putedo ou gente de moralidade duvidosa. E acrisolam o discurso em coisas muito bonitas, cheias de lacinhos e lógicas retorcidas que atestam como o impulso sexual não pode viver sem romatismos arrebatados, mas está lá o qualificativo. Uma espécie de pretensa baixeza de carácter, como se aquilo que pudesse unir duas pessoas fosse apenas emoldurado com pincéis das irmãs Bronte.
Além de injusto, preconceituoso e limitado na análise, esta análise é presunçosa. É partir do princípio que só há uma forma de sentir as coisas, e sobretudo, de as fazer. Aí concordo em parte. O que é necessário e obrigatório é dizer a verdade, ou pelo menos não embandeirar em arco. Há coisas com as quais não se brinca, e adaptar um romance de Camilo ao discurso só para sacar nabos da púcara, é indecente. É indecente porque não se brinca com os sentimentos das pessoas. O Amor já é frágil e descreditado o suficiente para levar porradaria indirecta, trazida pelo conhecimento dos desejos alheios como forma de dobrar os joelhos. Não se deve senão dizer o que se passa, o que se sente, o que motiva a atracção e o toque, o que pode incuir desde o Amor a uma atracção física ou intelectual profunda. Caraças, há pessoas que se agridem e depois fodem no calor da discussão como se não houvesse amanhã. Quem sabe ou pode definir o que passa pela cabeça de quem decide ou sente que pode fazer isto ou aquilo? Quem pode definir o que é moralmente correcto, quando estão em causa dois adultos anuentes?
Era o Poe que dizia que "There are chords in the hearts of the most reckless which cannot be touched without emotion."
E sinceramente, desde que não haja violência não consentida, privação de liberdade ou engano emocionalmente doloroso, destinada a causar amor que não se quer, só para obter um prémio, parece-me algo sobreanceiro e limitado dizer que as pessoas que se tocam por qualquer outra razão que não o Amor, são perversões de si mesmo, e que estão simplesmente associados a uma moral baixa, incompleta e abjecta. É estúpido, é injusto, e é próprio de uma visão moralizadora do mundo que muito tem de julgamento e pouco de ideia de compreensão.
É o "anti-Samantha".
E como qualquer par de extremos, ilustra de forma ainda mais pungente, que toda a vida se gera entre ambos.
Sinceramente, prefiro pensar que as pessoas podem pensar em foder quem quiserem, seja porque motivos for, do que façam o mesmo juízo com a capacidade de ser violento e prejudicar pessoas.
Mas isso sou eu...




quinta-feira, setembro 25, 2008

No outro dia ouvia um conversa entre duas pessoas, numa esplanada, e ocorreu-me uma pergunta.
Existirão realmente pessoas divididas por "campeonatos"?
Eu elaboro.
Julgo que muitas pessoas já se depararam em algum momento da sua vida com alguém que os intimidou ao mesmo tempo que encantou. E das entranhas da mente surgiu talvez algo parecido com um juízo não de inferioridade, mas de limitação. Algo como "não sou do campeonato desta pessoa", ou "daqui não levaria nem as horas do dia", ou "caraças, quando é que eu vou conseguir dizer alguma coisa que esta pessoa já não tenha pensado, dito, e ainda por cima com espirito e originalidade", ou o mais comum, "que pena que estou irremediavelmente vestido de invisível para esta pessoa".
Existirão pessoas que estão aprioristicamente fora do campeonato de outras? Sim, claro que sim, é tentador pensar, mas sempre me ocorreu o que poderia passar-me na mente dessas pessoas. Pessoas que, por uma razão ou por outra, lidam com o desejo alheio à guisa de rotina diária, detendo um poder quase imediato de escolha, de selecção apriorística.
Como pensarão essas pessoas? Quero dizer, perante a gravitação de quase tudo ou todos, o que operará como diferenciação?
Quando era mais miúdo, conheci uma vez uma rapariga muito bonita, inteligentíssima e até (relativamente) acessível, que se queixava, com bom humor, que as pessoas fugiam dela a sete pés. Que muitos homens olhavam para ela e arrepiavam caminho para outro lado. Eu falava com ela e ria-me internamente, porque não fora ela ter sido apresentada por um amigo comum, e dei comigo a pensar que faria exactamente o mesmo percurso que os outros. E não porque a julgasse superior enquanto ser humano, sei lá, mas porque havia ali algo de composto, de belo e articulado, que parecia colocar fora de cogitação qualquer capacidade de negociação da minha parte. E dava comigo a pensar o que lhe passaria pela cabeça. Quem acharia ela atraente, fora do comum, autorizado a aproximar-se? E como poderia ela não contaminar-se pela sua própria suposta capacidade de atrair outros.
A verdade é que, à minha semelhança, naquela altura certamente muitos sentiriam que a aproximação granjearia apenas um olhar desdenhoso, ou pior, condescendente, semelhante à compaixão comedida que se sente perante uma incapacidade. E ficou-me desde aí. O que pensará quem é capaz de provocar desejo, seja porque o contorno desafia qualquer relativismo estético, e porque da boca sai a coisa certa em quase cada momento? Como lidarão essas pessoas com esse poder? Como sentirão o medo alheio, o receio, a desconsideração por um suposto juízo de superioridade? Como sentirão as pessoas que são julgadas de um "campeonato" acima, de outro desporto, quanto mais liga?
Calculo que muitos(as) lidem com isso com o gozo ávido do exercício de poder, e que a possibilidade infinda de escolha faça do dia a dia uma descoberta em catadupa. Mas desconheço o que sentirão os que podem, os que fazem, os que mudam as moléculas do ar em cada local onde entram e a cada palavra que proferem. O que causam aqueles que corporificam o "inverbalizável" mas sempre tão sensorial teor real do charme.
Existirão realmente campeonatos?
O gregarismo da atracção será mesmo regulado por reconhecimento, que próprio, quer alheio?
Ou será tudo muito mais Taça de Portugal que campeonatos federativos?
No fundo, quem sabe o que tocará aquela pessoa que parece poder ter o mundo consigo?
Sempre me intrigou, confesso.


terça-feira, setembro 23, 2008


Dizem que as pessoas nunca são boas avaliadoras de si mesmas. Eu tendo a concordar, mas tenho algumas ideias um pouco diferentes. Talvez não concorde completamente.
A verdade é que no final sabemos sempre o que acabámos por fazer, e que o melhor que pudemos fazer talvez não baste. Somos, no escuro, os melhores avaliadores, ainda que de consciência dormente, especialmente quando talvez odiemos algumas coisas a meias com tantos outros olhos.
Há um toque de escape em cada exercício de liberdade, que é em si um dente recurvo na consciência, e ao mesmo tempo uma inevitabilidade nunca bem entendida. Pelo próprio, quero dizer, quando almejamos ser tão mais perfeitos, ter tantas respostas e desenhar impecavelmente tantos cenários.
E o podemos perceber, em meio ao silêncio, é que há mais de uma forma de nos analisarmos, que podemos pedir desculpas a nós próprios através da tradução dos pequenos triunfos, ou das mortes conceptuais ou morais que nunca nos afectam totalmente.
Somos óptimos avaliadores de nós próprios no silêncio da consciência, no vazio de escapatórias, onde nos fechamos e avaliamos, de faca em riste. Mas espero que nunca unitários, que o sol a par dos lados lunares que dispensamos nunca seja senão a tradução da capacidade existente e tradutora de uma liberdade de sentir, expressa em garatujos que por vezes são de leitura difícil.
O que quero dizer, é que ao nos avaliarmos, também podemos sorrir, ou tentar. Podemos evitar considerar os opróbios um berro e os feitos um sussuro. Acho que de certa forma, há algo na largura das costa que, se apoiado numa constante tentativa de ver de forma diferente, transmuta a liberdade também num veículo movido a luz.
Afinal, da culpa (existente mas aqui nunca católica) algo generalizada, poderá tambem surgir a ideia de que nada é estático no universo daquilo que podemos, queremos, e tentamos fazer.
Gostar das pessoas é constante, a tradução é pode ser falha, mas é para isso que serve a revisão.
De ser, não do intentar.
Esse já surge ao pensarmos nisso.
Quando (nos) avaliamos, não é?



sexta-feira, setembro 19, 2008

Não há boa intenção que mascare o mal que fazemos, ainda que inadvertido.
E por vezes, ainda assim, não há como colocar o nosso peso acima de certas suspeitas. Fizemos merda, magoámos, tivemos pouca consideração, e temos de assumir essas fatalidades. Não foi a primeira, não será a última, e julgo que a maior das sortes poderá continuar a fazer o melhor que se consegue.
Se a preocupação se apaga, tudo o resto segue de arrasto. E a confusão, conforme a vida gira, só se torna maior, e a necessidade de cuidado mais abrangente. As culpabilizações serão muitas e as desculpabilizações poucas. O espelho pouco caridoso e a mão da dúvida tem unhas afiadas ao coçar as costas.
Há que interiorizar que não se fez bem e aceitar a punição. Especialmente a auto-punição, aquela que surge, mesmo em meio à melhor das intenções, e dentro dela exibe aquele brilho negro ofuscante.
Mea culpa, vinte vezes, como uma oração.
Da próxima vez fazer melhor.
Manter o rumo.
Até ao que mais se aproxime de perdão.
Nosso e de quem mais interesse.


quinta-feira, setembro 18, 2008

O ciume é velha questão.
É também vexata quaestio. Desde sempre, acho eu.
Diz a sabedoria popular que, quem são se sente não é filho de boa gente. E que de alguma forma, sermos ciosos do que é '''''''''''''nosso''''''''''''' é sinal de inteligência e até de uma forma diferida de valorar o outro.
Bem, eu cá tenho um ou dois ossos a roer no que diz respeito a essa opinião.
Não é que nunca tenha sentido tal coisa. Há uma espécie de ressentimento perante o estado de coisas, onde a intersecção da pessoa com uma suposta realidade concorrencial(??), normalmente outro indivíduo, causa desconforto. E, como me dizem por vezes, há uma irracionalidade que gerou um sentimento de desgosto, de insegurança perante aquilo que parecia a entrada numa realidade por parte da pessoa, que ao fazê-lo, me excluia de alguma forma.
Mas a verdade é que era mais novo. As coisas surgiam-me um bocadito em bruto, associadas a todo um crescimento assente no que era vox populi relativamente a estas realidades.
No entanto, sempre foi fenómeno raro, e irrita-me supinamente (eheh) que as pessoas qualifiquem a ausência deste instinto, (o ciume associado à posse, a mais das vezes, não parece afastar-se muito de uma espécie de marca no gado), com uma ausência de afeição. Como se a irracionalidade que pode tomar conta de nós relativamente a alguém tivesse de manifestar-se num ressentimento raivoso acerca de uma suposta invasão de espaço.
A verdade é que o sentimento de exclusão em função de um outro alguém gera tristeza, é verdade, mas que diabo, não é a manifestação de um desagrado de proprietário que vai impedir o que quer que seja. Se a pessoa estiver auto-determinada a fazê-lo, fá-lo-á. Além disso, a partir do momento em que tivermos de avisar alguém para se portar bem e ter juizínho, a batalha já está perdida mesmo antes de começar. O condicionamento comportamental do outro não substitui nunca a real percepção de que aquilo que é forçado assemelha-se a um bypass, no qual o coração só bate com ajuda.
Nós somos seres gregários. A panóplia de estímulos é gigantesca, e a determinação do ser passa por uma multiplicidade de interacções, de vivências estreitamente conectas com aquilo que alguém vem fazer à nossa porta, e em que medida ou não acaba por entrar. E se algo nos liga a alguém, é essa ligação que transparece e desmistifica o monstro dos olhos verdes. Se ela se quebrar de alguma forma, não é o sentir que pode estar em causa, mas sim a forma como agimos perante isso. Pessoalmente, creio que a melhor coisa a fazer é deixar a pessoa emersa na sua liberdade. As escolhas que possa fazer terão efeitos, mas assentam na lógica, em meu ver sacra, de que a naturalidade de alguns comportamentos revelará o recorte da pessoa. Daí em diante, surge ou não um mecanismo de aceitação, e esse também deve tudo ao livre-arbítrio.
O ciúme pode ser tão inevitável como o sentimento que supostamente lhe dá origem. Mas a exteriorização, quando se aproxima minimamente da reclamação de posse, ou de um dever-ser, cria duas surpresas, e ambas desagradáveis. A primeira gerada pelo auto-reconhecimento de que o que se deseja que seja ultrapassa o que realmente é, e a segunda que agimos como condicionadores, afogando aquilo que supostamente nos atraiu, enamorou ou encantou na naturalidade da pessoa.
Não é com vinagre que se apanham moscas, lá diz a minha mãe, e neste caso, o ciume sente-se, e de forma inevitável, é um facto, mas pode agir-se relativamente a ele como perante uma amante egoísta e exigente. Ao rendermo-nos, somos devorados e perdemo-nos no primitivo do senso da posse. Ao combatermos, simplesmente aceitando a tristeza que advém, mas sem tentação de "repor o estado de coisas" à força, sabemos que o ciúme se esboroa num desejo que se gostaria que fosse, e na persistência dessa desconexão entre desejo e realidade, embala-se a morte da tal fundamentação do afecto.
O ciúme sempre me surgiu como uma espécie de correctivo diferido.
E posso mostrá-lo, mas nunca, nunca, sob a forma de uma mimetização da minha vontade onde deverá reinar a da outra pessoa.
Se me querem, sabem onde estou. Se tenho de fazer sinal, de corrigir, já não estou lá, porque afinal, não me viam...



segunda-feira, setembro 15, 2008

sexta-feira, setembro 12, 2008

Tragam-me algo.Ideias, conceitos de beleza, daquela que se deseja universalizar como a ausência de um conceito de posse, mas somente de acompanhamento, de empatia experiencial.
Tragam-me cérebro, verve e ideias.
Tragam a provocação de um lado negro e a luz que não deixa que este domine totalmente. Tragam perguntas, questões, dúvidas.
Tragam a insegurança como contraponto da evolução, vida intensa por razão do medo da morte. Tragam a formulação de uma ideia de toque. Do limite feito da ausência dos limites transposta na liberdade de os pensar.
Tragam-me originalidade. Disparates encerrados na personalidade, como uma vestimenta necessária e envergada por dentro da pele.
Tragam-me curiosidade. Inquietação, paixão por algo que mova os actos sem que se deixe de pensar neles.
Tragam beleza.
Tragam a percepção do corpo como o veículo necessário, em nada abstraído da evolução de um todo. Mas a melhor auto-percepção, traduzida da identidade onde se reconhecem.
Tragam a vida, mas sobretudo que entendam a periclitância de um estado de alternância entre a dor e o gozo, e o respeito quase solene pela antecipação desses dois estados, que geram a real paixão afectiva pelo que me parece humano.
Em suma, tragam-me quem são.
E eu tentarei não ser de menos...


Há uma corrente maioritária de opinião que parte do pressuposto que a sensibilidade masculina é integral e genericamente admirada pelas mulheres.
Além de ser uma completa falácia, porque existe uma boa mancha de mulheres que perante a demonstração de vulnerabilidade, são capazes de mastigar o desgraçado que lhe revelou o que o magoa, o que o sensibiliza, o que o reduz a algo menos forte em si mesmo, mas tão grande como aquilo que é.
Para algumas mulheres (e claro está, muitos homens, mas falamos aqui na perspectiva do olhar destas para com aqueles, daí o âmbito restrito - disclaimer dixit), a sensibilidade, quando transformada numa capacidade de sentir e, em alguns aspectos, carregar algum peso do mundo aos ombros, é entendida como falta de força. Como uma debilidade que julgo emprestar um carácter complexo que, como é apanágio de uma vox populi algo preconceituosa, é prerrogativa feminina.
E bem sei que muitas resmungarão, a dizer que não é nada disso, mas na realidade, muitos sabem que é assim mesmo. Que a noção de um impacto de vida que aparentemente tolhe uma qualquer percepção meio obstinada em ultrapassar tudo, (como se nada ficasse de peso), é um handicap. E isso é inegável. Não generalizável, claro, mas inegável.
O mundo toca-nos. Por vezes é tão imenso que parece que nos afogamos nas suas mão imensas. Por vezes é tudo tão grande, tão quente, tão avassalador, que temos sorte em escapar ao horro existencial diário com apenas um ou outro arranhão.
Por vezes os sorrisos, os toques, a simples capacidade de sofrer com doçura pela manifestação da suprema beleza das coisas, sejam elas palpáveis ou não, dá um peso ao espírito, mas não escuridão. Dá uma noção das coisas, das perspectivas, da forma como nos tornamos humildes por algo que nos faz sentir vivos, e em certa medida, ultrapassados por essa capacidade de interiorizar que pode simplesmente rebentar-nos por dentro, até voltarmos a assentar tijolos na pós terraplanagem.
É por isso que ouço a maravilha em anexo, leio a letra, e sinto que por vezes algo não cabe cá dentro. E que tenho a sorte de, mesmo perante a inconfundível mistura de negro no meu tecido, sinto-me feliz por experienciar algo que tanto me transcende.
E se isto, em certa medida associado aos períodos necessários de negrume que me constituem, são fraqueza, so be it.
Sometimes I don't give a rat's ass about that, to be honest. Soon, It'll be all the time like that.
Enjoy.










terça-feira, setembro 09, 2008

Algumas pessoas, muito poucas, injectam incondicionalidade na forma de as encararmos. Quando damos por nós, já estamos a fazer, a ir, a dar. A perceber que perante aquele pequeno punhado de pessoas só somos nós se elas também contarem. E embora por vezes façamos asneirada, a verdade é que essa percepção contém uma ideia de perenidade que desafia qualquer lógica. É como a integridade pessoal ou a orientação sexual. Está lá e emerge como algo instintivo. Todos temos essas pessoas. Eu tenho as minhas.
Mas a verdade é que a incondicionalidade, em alguns casos, tem tanto a ver com a nossa vontade como fechar os olhos ao espirrar. É uma teimosia de estrutura, acho eu. Algumas pessoas ficam e simplesmente acham os interstícios da pele, ferrando dentes e assentando arraiais. Em casos ainda mais raros, infectam ocasionalmente, e o sangramento inevitável surge da forma como não se consegue evitar as unhas por cima da comichão. Por vezes a incondicionalidade quase que envergonha. E embora seja gigantesca na forma como expressa a capacidade de dar, se porventura se esgotasse aí seria uma imensa tristeza, uma profunda angústia por significar a única fonte de entrega real que podía possuir. Perante alguns somos quase incondicionais, creio, porque sendo parte da construção, seria quase como ignorar um membro ou ou tique. Damos porque parece que não temos alternativa, porque é necessário de acordo com um código que julgo que se possui mesmo antes de darmos conta dele. Mas dizem que nada é imutável, e assim sendo...
Algumas pessoas ganham essa incondicionalidade e merecem-na. Algumas pessoas são simplesmente o veículo pelo qual conseguimos estar vivos. Aqueles que testemunham as piores e mais vergonhosas chamadas de telefone e há algo neles que sabemos ser nosso porque é já indissociável. São pessoas que dão, ainda que sejam duras. Contam, ainda que não poupem. Mas no final de tudo, simplesmente são capazes de entrar onde somos frágeis, onde estão as coisas que menos damos não por falta de vontade mas por terror puro, e fazem desse local, por vezes inóspito, uma casa. São aqueles que conseguem ver, aqueles que sabem enumerar as salas quando parecemos casas, ou que simplesmente entendem a passagem dos dedos esqueléticos de uma tristeza que pode abandonar-nos, mas nunca o faz completamente. E sabem que o que conseguimos fazer ou ser, nasce daí. E que a alegria simétrica surge precisamente porque não se foram, não julgaram, esperaram para ver...
Afastam muito do medo.












Tendo em conta que cada pessoa terá a sua concepção acerca de praticamente tudo, essa ideia será igualmente real no que diz respeito à sua forma de encarar a relação com os outros, especialmente no que concerne ao que será ou não exigível.
E uma vez que estamos quase entalados entre o que é demais, o que é de menos, o que é chatice, o que é solicitude, o que é problema real e o que é sindroma de vitimização, a confusão é mais que natural. Mas ainda assim, não me parece tão natural como isso, desculpar-me-ão alguns.
Até que ponto é que devemos intervir? Até que ponto somos efectivmente necessários numa lógica de percepção das realidades alheias, e até que ponto somos efectivos quando algo de mau se passa?
Bem, a experiência diz-me que pouco podemos fazer pelo que é efectivamente danoso ou mau. Porque por muito que até quiséssemos transferir a maleita de alma para nós, a verdade é a proximidade pode fazer-nos um veículo de percepção das mágoas ou dores.
Mas por mais insuportável que isso possa ser por vezes, ou mesmo a constatação de uma certa ineficácia, a ausência é muitíssimo mais danosa. Os ecos, os espaços vazios, sentir a chegada da noite com os silêncios próprios da imutabilidade é algo que não deve nunca ser ultrapassado sozinho. Nem que quem acompanha, quem pergunta, que está, não mais faça que simplesmente manter uma conversa ou arrastar para outro local. Isso é de uma preciosidade para além de qualquer definição ou relativismo. Quando o espírito recupera, o ganho gerado por essa presença cria empatia e cumplicidade. Mostrámos a essa pessoa a nossa carne, o lado vulnerável. Mostrámos o quarto desarrumado ou o quadro mal pintado, mas que é tão nosso que faz com que algo de nós passe a estar profundamente com essa pessoa. Não há nada tão precioso que se possa ver ou experimentar perante outrem. Não há maior privilégio que ouvir as histórias do lado mais escuro, mais imperfeito a espaços, mais completo noutros. Não há maior privilégio que podermos mostrar quem somos, assim como não há nada mais raro. E é na perspectiva de que possamos fazer sempre algo (pelo menos parecido) por alguém de quem gostamos, que a solicitude, a originalidade em contrapor as resistências da timidez que a dor traz, faz toda a diferença entre quem conta, e aquilo que conta.
Há que prestar atenção.
Ver a jugular, e por uma mão por cima, arriscando um corte próprio.
Quem o faz, cria um mundo inteiro, e são uma pérola para além de qualquer preço.
O meu chapéu para eles...



segunda-feira, setembro 08, 2008

Como será dormir e conseguir sonhar assim?


À mesa estavam os mesmos do costume. J. o dito “grávido”, o D., ainda mais descrente que eu, o P., recém-divorciado às voltas com a custódia do miúdo, o V., talvez o único tipo ali minimamente satisfeito com a vida pessoal que tinha e o A., que fazia destas saídas uma das três únicas escapadas da redoma em que enfiara com uma mulher que se tornara objecto de um sétimo das piadas daquela noite e outras similares.
Gostava muito deles mas não me conheciam. Havíamos palmilhado caminhos mais ou menos paralelos durante quase vinte anos. As histórias de vida vinham para cima da mesa durante todos esses anos, mas ninguém tinha real ideia de quem eu era. Se quiser se honesto, talvez eu também não fizesse ideia de quem era cada um deles, ou então partisse das mesmas premissas erradas que certamente me aplicavam.
O J. lá dissertava, bem como todos nós. Entre o encorajamento e os alertas supostamente bem-humorados de todos, podia sentir-se o estalido de um mecanismo a encaixar uma das engrenagens principais. Era um som surdo mas assustador, talvez só ultrapassado em horror pela expressão que emergia de cada uma das faces. Uma percepção surda, maldita se alguma vez pronunciada, e no entanto misturada com o senso de caminho e progresso onde todos nos reconhecíamos. Ou onde temíamos cair pela implacável noção dos chamados tempos adequados e etapas necessárias.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Wall-E - Obra Prima
(atenção, alguns spoilers!!)

Quando há mais de um ano, por volta da exibição do igualmente assombroso Ratatouille, vi um pequeno trailer acerca de um pequeno robot que deambulava por uma paisagem desolada e aparentemente distópica, algo me cativou imediatamente a atenção. Havia algo naquele personagem. A começar pelo facto de ser feito de arestas, rectas e no entanto ser ao mesmo tempo ternurento sem cair no terrível quintal do "fofinho"
Cheguei a casa e andei com o You-Tube para trás e para a frente, à procura de Wall-E, o projecto da Pixar anunciado com cerca de um ano de antecedência. Se considerarmos que o sonho de Andrew Stanton começou há quatro anos, percebe-se que o homem deveria andar morto para deixar sair alguma coisa cá para fora, e em boa hora o fez. Esperei por 2008, pacientemente, como agora espero por "Watchmen", que se for minimamente fiel ao material de origem será um filmaço, pelo filme que traria este pequeno robot que olhava para o céu, exibindo um par de binóculos com mais alma do que metade dos actores que vi até hoje, e muitas das pessoas com quem me cruzei.
E eis que pelos sites de cinema e revistas, que sigo religiosamente, se anuncia a data de estreia de Wall-E e a net começa a ficar pejada de um ou dois trailers vistos até à exaustão, como se cada visionamento pudesse trazer algo de novo. E, como o filme completo, trazia. Fui vê-lo três vezes, e a cada visionamento há mais uma coisa a ver, mais um suspiro de maravilhamento perante aquilo que considero sem qualquer hesitação uma obra-prima, um rasgo de génio, originalidade e coração que colocará dificuldades à Pixar, por ter subido tão alto a fasquia de qualidade. O meramente simpático mas divertido Kung-Fu Panda é uma pálida sombra perto da saga deste robozinho chaplinesco com alma de herói.
Apesar de todas as promessas, esperava algo de bom, consciente do risco de queda de tais cavalos. Mas a cerca de vinte minutos de filme, estou embasbacado perante a brilhantez de uma história de metal puramente de carne e sangue, a subtileza visual e conceptualmente sublime de uma distopia com coração, e como a ausência de discurso em nada atrapalha este momento de inspiração.
A primeira metade do filme, antes da chegada à Axiom, é um deleite. Wall-E é um herói sensível, adorável, vivo, pulsante. Um coleccionador, uma personalidade que se maravilha com o mundo que o rodeia ainda que este mais pareça algo saído dos piores dias de Phillip K. Dick. Tem o seu mundo, o seu animal de estimação, e vive o impensável há setecentos anos, encontrando os despojos de um mundo que de alguma forma o deixou vivo, mas só, no meio de uma rocha quase morta de entulho e pó. O desenvolvimento da personagem é de tal forma brilhante que ao fim de dez minutos dei por mim a querer ver duas horas só da rotina diaria de Wall-E, dos seus trejeitos, do seu existir de olhar vivo.
Eva é uma outra maravilha. O seu voo de liberdade na chegada à terra denuncia um espírito livre no impensável do programado e friamente científico, e perante a devastação de um mundo de pó.
E depois ela vai-se. E ele vai atrás dela. E tomara que muitas histórias de amor pudessem ser contadas desta forma e não em deformações delicodoces e Sparkianas...
E a distopia desmonta-se através do optimismo próprio do fim de um sono macilento, com o sol lá do outro lado da janela.
A verdade é que tudo aqui é cinema. Desde os personagens às imagens, aos pormenores do enredo, á sucessiva humanização de tudo quanto parece próprio de uma linha de montagem, sendo "M-O" um hilariante exemplo disso. Muitas referências ao cinema, desde Chaplin a Kubrick, enfim, um tratado de qualidade. Muitas referências desde Chaplin a Kubrick, enfim, um tratado de qualidade.
Fui ver este filme três vezes, e, como disse acima, descobri algo a cada visionamento.
Este não é claramente um excelente filme de animação. É um excelente filme. Ponto.
Para mim, o filme do ano.
Enjoy...



quarta-feira, setembro 03, 2008

Em tempos julguei, sem sombra de dúvida, que os afectos eram ganhos. Quero com isto dizer que conquistávamos as pessoas com as nossas características, mas igualmente com a aplicação das mesmas numa lógica muito simples de dar e receber.
Nessa mesma altura (in)feliz, também julgava que a medida daqueles e daquilo que nos ia acompanhando estava directamente ligada, pelo menos em parte, ao que dávamos de humano, solícito e disponível a quem decidia assim fazer parte do nosso mundo. Era em parte a prática da "qualidade" da pessoa que lhe granjeava o afecto e, com os mais especiais, aquela cumplicidade ou incondicionalidade que faz toda a diferença.
Mas, e também em parte, estava enganado.
Para algumas pessoas nada disso é necessário. Talvez em certa medidas os afectos sejam mesmo aleatórios, e algumas pessoas simplesmente encantam, e outras não. Para alguns, a circunscrição da sua pertença parece surgir-lhes quase como que por feliz acidente, como se emanassem algo de inconsciente que lhes permitisse planar por cima de tudo.
No fundo isso não me chateia nada. Antes inspirar afeição que outras coisas.
Mas dá que pensar quando a nossa suposta conduta pode ser quase irrelevante na solidificação de uma pertença que a muitos custa o tempo de uma vida inteira que foge sem sucesso à solidão, e sem se saber muito bem porquê.
A mim pelo menos dá...



terça-feira, setembro 02, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982


(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FRIO BRANCO"

Parte IV

Fugi daquele quarto o mais rapidamente possível. Apaguei a luz e, quando me aprestava para tirar a mão do interruptor, tive a nítida e aterradora sensação de que algo me tocara. Fora um toque tão leve e rápido como o cair de uma pena em cima da pele, mas suficiente para me fazer tropeçar no tapete que cobria todo o corredor e cair, batendo com a cabeça na parede. Levantei-me, esfregando a mesma, e fechei a porta (ou fora ela que se fechara sozinha?). Apesar do frio, tinha o rosto alagado em suor, o coração em corrida desenfreada e a estupefacção a fazer uma visita de cortesia à minha cabeça. E trazia um amigo. Era o medo, que fizera a sua primeira aparição. A casa pareceu-me então ainda mais escura, a luz ainda mais lúgubre. Resolvi dar por concluída a visita ao primeiro andar. Saí quase em passo de corrida, praguejando contra a minha imaginação, mas tendo a noção clara e indesejável de que algo havia efectivamente sucedido. Tinha ambas as mãos encharcadas, e um ligeiro pingo de suor começou a cair-me da curva do nariz. Num gesto ausente, limpei-o com as costas da mão, e um dos dedos perpassou-me pelos lábios, provocando uma ligeira surpresa. A água que escorrera das paredes e me encharcara as mãos era salgada e ligeiramente oleosa.
Enquanto descia para o salão, a campainha da porta tocou. Não havia vivalma em casa, e eu já não ouvia o cão lá fora. O meu amigo deveria ter-se ausentado. Estava dentro de casa de alguém, obviamente abastado, e sendo eu um relativo, senão total desconhecido para aquelas pessoas, a sua despreocupação era desconcertante. Eu poderia escapulir-me dali com meia casa às costas e ninguém daria por isso.
Enquanto pensava nestas coisas a campainha continuava a sua sinfonia de uma nota só. Quem quer que fosse que estivesse à porta estava determinado a ser atendido. Ou talvez fosse um dos membros da casa que tivesse antecipado o retorno do seu passeio e não tivesse chave para entrar. Foi aqui que tive a noção de que o meu amigo se havia evadido para algures. Desci as escadas e sentei-me na sala esplendorosamente confortável. O lume crepitava agora de forma mais suave tornando a sala quente e sonolenta. A campainha continuava o seu solo. O visitante não ia desistir. Resolvi dirigir-me à porta, tirando os sapatos para evitar que quem açoitasse a campainha daquela maneira se pudesse aperceber de uma qualquer presença dentro da casa. A porta tinha um daqueles orifícios oculares que permitia ver quem estava do outro lado. Pasmei-me um pouco ao ver um homem que deveria rondar os sessenta anos, de barba branca farta mas impecavelmente arranjada e cabelo branco algo longo e abundante. Tinha um olhar triste e os trejeitos denunciavam alguém extremamente cansado e amedrontado. Fiquei sem saber o que fazer e, no entanto, por razões que até hoje desconheço, resolvi abrir a porta e deixá-lo entrar. Olhou-me com estranheza espelhada num par de globos oculares mesclados de sangue e semelhantes a vidro branco opaco estilhaçado. Era alto e de compleição robusta, mas estava nitidamente magro. Os ossos malares saíam da pele, esticando-a, e os papos debaixo dos olhos muito abertos indicavam um padecimento qualquer. Num segundo, passou por mim e perguntou-me quem eu era. A voz era grave e troante. Tinha um toque de agressividade, própria de quem está constantemente na defensiva, mas era educada. Respondi, como havia respondido ao meu amigo, que realmente desaparecera. O homem olhou-me e sorriu com uma expressão terrível. Era apenas um sorriso de lábios. Nem sequer me lembrei de lhe perguntar quem era, ou porque tinha entrado sem que eu lhe desse sinal para isso. Mas também, a casa não era minha, o que ia dar ao mesmo.

Então o senhor é o advogado da minha filha...

Alarme. Uma campainha agora, mas dentro da minha cabeça... diante de mim estava o autor da carta que a minha cliente trouxera para que eu lesse. Era o tipo que proferira, por escrito, palavras amargas e ameaçadoras à própria filha. Abriu uma garrafa de “whisky” velho e encheu cerca de meio copo. O líquido faiscou de encontro ás chamas da lareira. Lá fora começava o ribombar dos primeiros trovões. O meu anfitrião movia-se bruscamente. Os gestos eram rápidos, como se temesse tocar demasiadamente nas coisas. Os olhos estavam sempre escancarados e era difícil fitar aquela expressão. Eram de um azul glacial e penosamente penetrantes.

Sente-se, por favor. Quer beber alguma coisa?

Sim, muito obrigado.

Encheu-me um copo, como fizera para si. Sorvi um golo e aqueci imediatamente. O sabor explodiu suavemente na boca, e senti-me um pouco melhor, desde a primeira vez que ali chegara. Olhei para a garrafa. James Martin 25 anos. Claro. Sentámo-nos um em cada sofá, com o “whisky” na mão, olhando para a vista que se perdia na orla do bosque e no céu cinzento e trovejante. Propus-me falar do que fora que me trouxera ali, mas ele não me deu essa oportunidade.

Diga-me, doutor...

Gabriel. Gabriel Gusmão.

Dr. Gabriel, já alguma vez teve medo?

Olhei para ele sem entender muito bem a que se referia.

Sim, penso que sim. Acho que todos nós já tivemos em algum momento das nossas vidas. É uma coisa normal.

Sim, mas eu não falo em passar numa rua e ver um cão que nos olha de uma forma esquisita e rosna. Ou um grupo de pessoas encostadas a uma esquina que...

O primeiro relâmpago fez a sua aparição e, poucos segundos depois, o trovão abriu as goelas.

... que nos olham de uma forma estranha e demasiado fixa. Eu falo de medo. Medo pela vida, medo por algo horrível e não concretizável pela imaginação mais fértil. Aquele medo que incapacita os movimentos e embranquece os cabelos? – disse, tocando nos seus.

Olhei para ele e senti uma mão invisível perscrutar-me por dentro. Comecei a tremer, talvez ainda antes de dar por isso. Mais um relâmpago. Um trovão. Desta vez muito mais alto. Os copos de cristal protestaram um pouco dessa vez. Dei um pulo no sofá. Tinha as palmas das mãos suadas e o estômago contorcido.

Bem, a esse ponto, talvez não.

Que sorte que você tem e nem sequer sabe. Acordar todos os dias e ver que nada mais tem a temer que o normal.

Olhei para o canto mais afastado da casa. Estava completamente escuro, como de resto pareciam estar todos os cantos de todas as divisões daquela pequena mansão. O meu anfitrião falava-me de medo, de passar os dias em antecipação e angústia, de olhar para trás de cada porta, desconfiar de cada ruído aparentemente inocente, e nunca pôr em causa o grito de alarme dos instintos. A sua voz ia ficando cada vez mais cansada, mas eu olhava somente para aquele canto. Ele não reparava, uma vez que olhava para o céu escuro lá fora, para a chuva que zurzia a terra e as árvores. Conforme ele ia falando, eu senti o aumento do tremor. As palmas da minha mão estavam agora suadas ao ponto de deixar marcas no copo de “whisky”. A sombra no canto parecia estar a aumentar. Poderia ter pensado que tal era consequência do passar do dia e do fenecer da luz solar, mas eram tretas a mais para descansar um só espírito, e além disso, o toque na mão e o sal na água que havia provado antes não me saíam da cabeça. Para ajudar ao sentimento de medo e paranóia, o ruído que ouvira desde que ali entrara estava agora mais audível. Era algo misturado, que reunia algo semelhante ao miar sofrido de um gato no período de cio e o desfazer de alguma coisa húmida e orgânica, como o separar de peças de carne húmida. Era o som mais horroroso que ouvira até então. A sombra naquele canto, e em todos os outros, aumentava de dimensão. Tentáculos negros emergiam do negrume oculto, e pareciam juntar-se em camadas. A sombra crescia, viva, em movimentos anti-naturais, como se algo com capacidade de se mover e de crescer resolvesse aumentar um pouco o espaço sob seu domínio.
Não tenho vergonha nenhuma de dizer que tremia por todos os lados. O meu anfitrião perdia-se a discorrer sobre o medo, e eu ouvia-o. Estava a perceber cada vez melhor o que ele queria dizer e senti que toda a segurança e normalidade do meu mundo estavam a desaparecer, como uma vela de encontro a uma chama forte que morre rápida e em agonia surda. O meu coração voltava aos solos de bateria. Quando os cantos escuros cessaram o seu crescimento, o ruído caiu igualmente para os bastidores, sendo ultrapassado pelo crepitar da lareira. O meu anfitrião fitava-me agora e vi pela primeira vez no seu rosto um sorriso parecido com uma emoção humana normal. Era um sorriso de cumplicidade, de candura, o que me fez entender. Entendi tão bem, que quase me levantei do sofá para correr dali para fora. Porque não o fiz, ainda hoje não sei.

O dia passou, mas nem sinal da restante família.
O meu amigo retornou ao fim da tarde, o que em termos de vigília solar significava já noite cerrada, e serviu-nos um jantar fabuloso. O anfitrião mal tocou na comida, tendo mordiscado meia fatia de carne de vitela e duas pequenas batatas. Emborcou uma garrafa de vinho só à conta dele e no entanto, quando se levantou, os seus gestos e equilíbrio permaneciam inalterados. Dirigimo-nos ao salão e continuámos a nossa conversa. Os temas diversificaram-se, passando pelo futebol, política, religião e outros. O meu anfitrião era um poço de cultura. Falava quatro línguas, entre as quais o russo, tocava dois instrumentos musicais, e era enciclopédico no seu saber. Eu ia conseguindo acompanhar, mas apenas quando ele não elaborava demasiado. Não mencionava o resto da família, e eu não perguntei. Estranhava muito, mas não perguntei. Conversámos até terminar o serão e dirigimo-nos para os respectivos quartos. Deitei-me e dormi que nem uma pedra, pelo menos enquanto a noite o permitiu.
Por volta das três horas da manhã, acordei de um pulo. Acendi a luz e apanhei um susto tremendo. Ao contrário daqueles que são momentâneos, este permaneceu como que parado no tempo, roubando-me a capacidade de raciocinar ou mover com a costumeira agilidade. Sentia como se de repente um capacete invisível e moldável me pressionasse para baixo. Aquele ruído estava agora mais audível e espalhava-se como uma doença, revelando em uníssono vários gatos em agonia e pés em cima de lama ensopada. Levantei-me obedecendo a um acto reflexo motivado pela estranheza. A noite estava furiosa, mas os trovões ouviam-se muito por detrás daquela parafernália de som. Saí do quarto, de pijama e ténis, uma vez que me esquecera de trazer chinelos. A sola de borracha chiava ligeiramente em contacto com o chão de madeira limpa e encerada, mas em meio aquela zoada nem sequer era audível. Premi o interruptor e a mesma luz combalida entrou em cena. Em meio à noite escura, era ainda mais débil e enjoativa.
Olhei para as janelas. A chuva caía em catadupa, embatendo violentamente nas janelas, sempre de mão dada com o vento. Soprei um pouco e o meu bafo desenhou uma pequena nuvem à minha frente, como se fumasse. Estava um frio de rachar. De morte.
Passei pelo quadro e ao contrário do que se passara na tarde anterior, não senti qualquer alívio ao fitá-lo, já que a tristeza imanente da pintura passou para mim. Experimentei um desânimo estranho e incomodativo. Todas as minhas reacções e muletas mentais começavam a fraquejar nitidamente, como se o peso que sentia no corpo e na respiração tivesse encontrado forma de chegar ao meu espírito. Cada vez que fechava os olhos via os cantos da casa a crescer em escuridão, alternando com o olhar faiscado de sangue do meu anfitrião e pensava na insanidade que não me permitira fugir a sete pés.
Desci as escadas e entrei na sala principal. Estava quase escura, à excepção das pequenas brasas que ainda ardiam na enorme lareira da sala, já moribundas. Tacteei as paredes em busca do interruptor, até que o encontrei, e a luz que emergiu era feita do mesmo brilho enfermo que existia por toda a casa. Procurei uma lanterna, para que pudesse iluminar melhor a sala e, porque não, os cantos. O som omnipresente estava lá, incontestado. Sentia tudo isto, mas em abono da verdade, não posso dizer que visse alguma coisa. Como não encontrasse qualquer lanterna ou uma vela que fosse, acendi um dos candeeiros que ficavam perto das mesas pequenas e resolvi perscrutar a estante repleta de livros. Ao lado de um antigo exemplar de “Wuthering Heights” estavam os misteriosos volumes pretos, magnificamente encadernados. Cada um deles deveria rondar as cem páginas A4. Sem pensar no que diria aos anfitriões, caso algum destes me apanhasse a remexer nos seus livros em plena madrugada, resolvi tirar o primeiro volume e folheá-lo. Li a primeira página, escrita numa caligrafia cuidada e elegante e notei que o discurso estava escrito na primeira pessoa, levando-me a concluir que se tratavam de palavras escritas pelo anfitrião. A meio da segunda página, dava início a uma narrativa das suas vivências e, acima de tudo, um discorrer acerca do medo paranóico que começava a viver nessa altura, por volta de Agosto de 1990. Fiquei como que preso naquela cadeira, lendo a narrativa de medo, de desesperança e de horror. Era mais do que eu podia suportar, mas não conseguia deixar de ler as páginas que me consumiam, com relatos de um sofrimento inexplicável. Desde o início da narrativa, o anfitrião falava da mulher com uma paixão incontida. Da sua beleza, da vida que lhe trazia, de tudo aquilo que com ela fizera, desde as viagens ao estrangeiro, ao sexo, tudo descrito de forma clara, mas não muito desenvolvida. Aquilo que surgia mais desenvolvido e absolutamente recorrente eram as suas suspeitas, os seus medos, e os efeitos que lhe causava. Era tão vívida a sua descrição que a ocasional náusea parecia rastejar para fora das palavras, como uma excrescência demasiado poluída para ser retida pelas letras. Era como tocar com a mente em algo radioactivo ou infeccioso. Falava de outras coisas igualmente medonhas, constituídas em pano de fundo por uma suspeita hedionda, a qual envolvia os filhos e a dita mulher. Uma desconfiança que parecia provir das inacessíveis montanhas da loucura mental, tocando-me com dedos obscenos feitos da lástima e do medo que mantinham aquele homem preso a este local e ao que temia.
Fechei o volume quando passava pouco das cinco e meia da manhã. Não fora apanhado, mas tinha agora receio em circular pela casa e de me aproximar dos cantos sombrios. A imagem do quarto inundado parecia pulsar-me na memória como um dente terrivelmente infectado, lançando uma escada ao pânico.
Porque não me fui logo embora? Pode ser muito simples, ou muito complicado. Mas nem sequer vou arriscar uma explicação. Talvez porque certas coisas sejam assim. Inegáveis na sua existência, mas inexplicáveis quanto à essência que as constitui ou a uma qualquer vontade que as justifica. Subi as escadas, sentindo-me cansado e vazio. Escusado será dizer que tive um sono atribulado, cheio de sonhos hediondos e inconfessáveis, enclausurado no que seria um provável início de loucura.

Já o sol ia bem alto quando fui despertado por um som leve na minha porta.
A princípio pensei que era algo dentro de meu sonho, pleno de sons, ecos, figuras endemoninhadas e liquefeitas, que se transformavam uma e outra vez à semelhança de algo que se comia e regurgitava a si mesmo. Ao acordar, verifiquei que a minha pele estava ensopada em suor. Os lençóis fizeram um som húmido quando os afastei da minha pele, o que era estranho, considerando que o dia amanhecera frio. Passava já do meio-dia. Os pássaros não cantavam, o sol não tinha saído do covil de nuvens que o circundava. Estava frio e as sombras eram fracamente banhadas por uma luminosidade metálica, em cinzentos esbatidos e tristonhos. Levantei-me da cama, sentindo-me ainda mais abatido que no dia anterior. Cada olhar que dirigia era despido de cor, como se eu fitasse algo ou alguém marcado para morrer.
Era o meu amigo que batia à porta. A jovialidade expressa na voz contrariava todo este cenário, mas não era suficiente para o fazer desaparecer. Era como um pássaro limpo e livre no meio de uma floresta queimada. Olhei em volta, e os meus temores concretizaram-se, arrancando-me um arrepio que me fez estremecer quando voltei a colocar os olhos no quadro. Permanecia ali solene e belo, mas algo estava diferente. Era um detalhe que facilmente se poderia atribuir à minha imaginação desgarrada, mas podia jurar que o quadro estava mais escuro, com os tons mais carregados e os negros ligeiramente mais vastos na tela. Atendendo ao que vira até então, resolvi aceitar essa ideia como mais um elemento do que não compreendia, o que começava a juntar a muito fenómenos.
Almocei sozinho novamente. O meu amigo informou-me que o anfitrião estava às voltas com o cão na orla do bosque e que os restantes convivas deveriam chegar naquela noite. Com eles viria a minha cliente, pessoa que eu esperava ansiosamente para poder perguntar-lhe finalmente que diabo se passava ali, ou porque estava eu à espera deles havia mais de um dia. Ou porque é que o pai dela parecia um foragido da masmorra do Drácula, e por aí fora. Mas a curiosidade mais ávida era dirigida a outro facto. Queria ver quem se aproximaria dos cantos da casa e se me podiam explicar o que era aquele ruído horroroso que ia aumentando e diminuindo de volume e que se assemelhava a alguém com voz de gato a despir a própria pele.
Esperei na sala, já com a lareira ressuscitada, e agarrei num outro volume. Fiquei perdido durante mais algumas horas. A tarde foi passando, escura e chuvosa, até ameaçar transformar-se em noite. Os trovões não paravam, bem como o ocasional acender do céu. Senti o medo crescente tocando-me com unhas afiadas na base do pescoço. Transpirava, mas quase não dava por isso. Encontrava-me num estado febril e parecia que todos os sons estavam mais altos, as luzes mais fortes, os aromas mais intensos. Um pânico calmo sorvia cada instante de brandura, que doía no espírito como o mais destilado sentimento de desamparo que alguma vez senti.
Olhei para os lados. Os cantos cresciam e definhavam, como massas pulsantes de uma matéria negra e despida de textura. Os tentáculos subiam e desciam, como algas no fundo de um rio, impulsionadas em várias direcções pelas vontades das águas correntes. O som... Meu Deus, o som era horrível, como o som de ossos a serem descarnados, um som húmido e rastejante. E terrivelmente próximo e indefinível. Como uma pulsação. Viva. Impura mas viva.
Quando acabei o último dos volumes a noite já ameaçava retornar. Fui à casa de banho molhar o rosto e verifiquei que a minha pele empalidecera. Os meus olhos estavam por sua vez ligeiramente desenhados a sangue. As olheiras cavavam sulcos profundos no rosto e todo eu era a imagem de um temor primitivo.
Naquele instante resolvi abandonar a casa, com ou sem cheque de provisão. Não fora para aquilo que fora contratado e a minha cliente certamente o entenderia. Se não quisesse entender, também se arranjaria outra forma de fazer as coisas. Ia para uma bomba de gasolina trabalhar um ou dois meses, pagava-lhe o que devia e lançava toda aquela demência para trás das costas. O medo mordia-me os calcanhares como um cão raivoso, e era tempo de saltar o muro e deixá-lo para trás, ladrando em frustração.
Subia as escadas em direcção ao quarto (era necessário fazer a mala) quando o telemóvel tocou. Era a minha cliente. Pedia-me imensas desculpas, que fora impossível comparecer, que amanhã estariam cá sem falta, e mais umas dez desculpas esfarrapadas. Estive a um segundo de recusar qualquer desculpa, mas ela acabou por conseguir convencer-me. No dia seguinte, tudo seria explicado e o que não pudesse ser constituiria a razão mais que óbvia para desaparecer dali o mais depressa possível. Desliguei o telefone, fui tomar um banho e esperei pelo jantar deitado na minha cama, com o “walkman” ligado e os olhos fechados. Já tinha ouvido e visto o suficiente. Alguém, no entanto, tinha ideias diferentes.

O jantar ocorreu sem novidades. O anfitrião juntou-se a mim, mas o seu aspecto desolador era ainda mais acentuado. Era a figura de um homem derrotado. Os olhos estavam firmemente encovados no rosto, escondidos atrás das imensas olheiras e da expressão alucinada e sempre nervosa. Falámos de banalidades enquanto a lareira tremeluzia. Eu mordiscava o magnífico cherne grelhado enquanto pensava no último dos volumes pretos que lera, em tudo o que acontecera, e na chegada da minha cliente. Tinha a mente imersa numa teia pesarosa. Cada gesto exigia um esforço físico considerável. Olhei-me mais tarde ao espelho e vi que as bordas negras das olheiras começavam a fazer desenhos no meu rosto. Riscos erráticos e vermelhos começavam igualmente a ornamentar a região dos meus olhos onde não havia cor.
O jantar acabou e o meu anfitrião retirou-se. Subia as escadas como quem subia para o cadafalso. Os ombros curvados, os passos lentos e arrastados, uma respiração sonora e doente. Imaginei o velhote no quadro, mas sem qualquer réstia de serenidade. Eu retirei-me em seguida. Estava exausto, e durante a manhã seguinte, tudo se resolveria. Queria simplesmente ir-me embora.

Acordei por volta das quatro da manhã.
O céu tornara a revoltar-se e os relâmpagos davam agora um grande espectáculo. Os ruídos que se seguiam sublimavam a demonstração da sua grandeza, mas não tinham sido estes a acordar-me. Ecoava pela casa inteira um grito imenso e apavorante. Era um estertor de garganta, um brado de medo, raiva e dor excruciante. A atmosfera doente e triste da casa parecia agora um véu diáfano que se espalhava por todo o lado, tal era a sua densidade quase física. O meu coração disparou num ritmo desenfreado. O suor queimava-me os olhos. Tremia sem que conseguisse controlar minimamente o corpo. Os gritos eram altos, terríveis. Eram dor e agonia feita voz.
Foi aí que as minhas surpresas se acabaram. Recordei os primeiros volumes que lera e, de uma certa forma, segui os passos que dei anteriormente, como um pirata demente que segue um mapa de tesouro rumo a uma armadilha mortal.
Saí do meu quarto. O corredor, mergulhado em sombras e povoado de gritos, parecia imenso. Uma bocarra escura e silenciosa, que mal se iluminou com a luz doentia que emanava das lâmpadas. Os cantos das divisões eram agora furiosos centros de ruídos asquerosos e movimentação de sombras vivas. Ou talvez não fossem sombras. Ou talvez eu não quisesse saber o que eram. Sim, acho sinceramente que foi essa a ideia que tive. Talvez até porque já desconfiasse o que seriam. Andei alguns metros até chegar à porta que anteriormente me fora interdita. Os gritos emanavam de dentro do quarto proscrito. Toda a casa fervilhava com uma actividade que não era vida, de sons e enganos horrendos à visão. As ilusões saltitavam por todo o lado e era grande o toque do pavor.
Abri a porta e tudo se tornou claro. Substancial como sangue, mas cristalino como lágrimas recém vertidas. O chão do quarto estava invisível, coberto por uma altura de água que atingia facilmente os quarenta ou cinquenta centímetros. Agora que penso, vejo que a água não escorreu para o corredor quando abri a porta, o que também não me teria surpreendido. Era ali que tudo se tinha de passar. Não precisei de provar a água para saber que ela era salgada. Agora percebia. Meu Deus, como eu percebia e como estaria arrasado ao sonhar, para sempre.
A cama onde anteriormente nenhum corpo repousava, estava agora ocupada por um corpo ensanguentado e semi-devorado. O meu anfitrião berrava em agonia pura, vertendo muito sangue. Ainda estava vivo, embora eu não pudesse entender como. Perto dele enlaçavam-se o que pareciam ser hienas famintas em volta de um leão moribundo, só que tinham o formato de cinco pessoas, nuas, com os corpos untados de líquido vermelho e viscoso. Devoravam o homem que se contorcia na cama. Ou o que restava dele. Das bocas pendiam fios de sangue espesso. Os olhos exibiam apenas uma cor branca e leitosa e os trejeitos eram estranhos, como que desajustados aos corpos que os efectuavam. Eram gestos animais, descoordenados, mal colocados e improváveis naqueles corpos. As posturas eram simiescas e os meneios quase felinos.
Passei por um instante horroroso quando vi o rosto da minha cliente, com os lábios emersos em sangue e segurando um naco de carne com dedos enclavinhados. Das costas destas pessoas, se é que era isso que eram, emergiam filamentos grossos e negros, semelhantes a cordões umbilicais, os quais se estendiam até aos cantos da divisão e fervilhavam de movimento como uma maldição feita carne. Olharam para mim e sorriram todos. Sorriram num esgar demente, com os dentes plenos de sangue e as mãos empunhando pedaços de algo que até hoje agradeço não saber exactamente o que era. Eram sorrisos de tal forma malévolos que senti por momentos o medo a levar a melhor sobre mim, podendo deixar-me ali, prostrado e rendido a uma insanidade irrecuperável.
Saí o mais depressa possível do quarto. Olhei para o quadro e percebi tudo. Nem necessitava de ter lido o último volume para saber o porquê do sabor da água. Percebi com uma dor na alma que ainda hoje é uma chaga aberta, branca e fria.
A casa era uma sinfonia de ruídos de carne e pele húmida que se despegavam, de gritos de dor, ruídos inumanos e trovões furiosos.
Sem saber como, agarrei nos meus pertences e tentei sair da casa. Ia caindo pelas escadas abaixo enquanto conseguia aperceber-me que os cantos das divisões eram agora quase paredes inteiras tingidas de negro vivo, ignorando a luz que as deveria expulsar. Gritei a plenos pulmões, para me lembrar que estava ali e que o instinto de sobrevivência teria de me manter desperto antes de me paralisar numa demência ineficaz.
Abandonei a casa, com gritos que ainda ecoavam na noite apesar da violenta trovoada. Ele ainda estava vivo.... por quanto tempo mais? Passei pela piscina, e vi que o cão se dirigia a mim com o mesmo ladrar afável de sempre. Tinha a língua de fora, arfava e nunca mais me abandonaria. Aliás, tenho-o aqui comigo, aos meus pés, dando-me conforto. Curioso como se apercebe sempre que estou agitado.
Abri a porta do meu carro, que felizmente pegou, e ele entrou num pulo. Como sempre, os animais são mais espertos que nós. Quando liguei as luzes e me olhei ao espelho não reparei imediatamente. Isso só aconteceu quando não podia já ouvir aqueles ruídos de descarnação e dor que me apercebi finalmente. Quando já via a estrada à minha frente e o medo permitia que os tremores acalmassem. Foi nessa altura que reparei. Tinha os olhos sulcados de sangue e olheiras enormes. Mas algo emergia, Algo que ficaria como uma lembrança de leito de morte. Toquei na cabeça, penteando o cabelo para trás, o qual faiscou perante as luzes oriundas dos candeeiros de rua.
Estava totalmente branco.


FIM
Lisboa - 20-05-2005