ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

sexta-feira, outubro 31, 2008

As coisas mais importantes ficam muitas vezes guardadas porque de alguma forma se tornam imateriais quando saem. Como qualquer viajante não poliglota, a transmissão dos pragmatismos acontece, mas todo um universo de expressão é solto como uma espécie de canto de ave involuntário, que aguarda um ouvinte enamorado de composições ainda sem pauta.
Acabo por ser aquilo que conforma a minha capacidade de gostar, porque é através dela que todo o meu universo psicossexual, ético e ontológico ( gnoseologicamente falando) se filtra na construção da pessoa.
Descaio para a rendição perante o que julgo ser o melhor do mundo.


Eis que finalmente sai a alteração ao Código Civil e diplomas conexos relativamente à matéria do divórcio (Lei 61-2008, de 31/10).
Consagra-se, de certa forma, o divórcio livre, a ideia de que a união, para mais contratualizada, não deve perdurar para além da vontade de duas pessoas em manter-se juntas.

Não é, obviamente, uma questão fácil ou líquida, e entendo que possa suscitar reacções perante as várias sensibilidades.

A que me preocupa, de certa forma, prende-se com algumas tipologias de casos nos quais a questão da dependência económica não será resolvida. Mas, verdade seja dita, também não o era perante o anterior regime, e esse coarctava determinadas faculdades que me parecem insofismáveis. Haverá alguma razão, não patrimonial, para que duas pessoas mantenham um contrato que se prende com a vivência afectiva e partilha?

Há quem defenda que se assinou o contrato, estava avisado das consequências. Ora, quererão com isto aduzir que as emoções e laços podem ser estabelecidos por contrato? Que aquilo que motiva alguém a estar perto de outrem e partilhar cama, casa e humores, está sujeito a todo o custo a uma espécie de clausulado que deve perdurar ainda que cheguem ao ponto em que não se possam ver nem pintados de azul?

E se de certa forma alguns casos de dependência económica não ficam resolvidos, muitos outros de violência psicológica, em muitos casos impassível de provar em juízo, (até a física é complicada, por vezes) e que ao abrigo do regime anterior tornavam impossível uma dissolução sem culpa do cônjuge abandonante (ainda que em fuga pela sua integridade física e mental), se tornam agora possíveis.

No fundo, há quem, em meu ver, equilibradamente veja o aspecto daqueles que assim correm o risco de serem abandonados, mas muitos protestam com esta lei por motivos meramente morais. E digo meramente, porque não é a ideia da resolução de uma situação que lhes ocorre, mas a fidelidade a um modelo conservador de institutos como o casamento, onde não raras vezes, e acho que todos já ouvimos isto, se ouve dizer que “as coisas são mesmo assim”, e “são fardos a carregar, mas divorciar é que não”, e quejandos. Dizem-no porque ofende a sua sensibilidade moral, religiosa, uma espécie de sistema de valores onde parece, na minha modesta opinião, que a convencionalidade deveria sobrepor-se aos sentimentos e felicidade das pessoas, como se o casamento fosse um qualquer contrato cível e sujeito à máxima pacta sunt servanta a todo o custo. E isso, na minha opinião, é de rejeitar absolutamente. É, mais uma vez, impedir as pessoas de exercerem a sua liberdade onde esta é suprema, ou seja, na sua esfera pessoal, e de sentirem que são livres de se acharem incompatíveis com alguém, ou perceberem que aquilo que as uniu, também pode surgir na forma da génese de separação. Obrigar duas pessoas que não se entendem a ficar juntas como uma espécie de execução específica de um contrato de compra e venda de um imóvel, é algo que a mim, pessoalmente, me repugna, porque as pessoas são mais importantes que os institutos, e os contratos não regulam sentimentos. Devem sim, na medida da vontade, regular aquilo que os sentimentos consensuais ordenarem que se faça, como direitos sucessórios e outros.

Por isso, e apesar de obviamente reconhecer que há questões melindrosas que esta lei pode não conseguir resolver, prefiro esta modalidade.

Prefiro e acolho um regime jurídico que não compare a comunhão de vida de duas pessoas a um contrato de empreitada, porque há edifícios que simplesmente podem não chegar ao telhado, e a lei nunca deverá intervir e obrigar as pessoas a sentir seja o que for.


sexta-feira, outubro 24, 2008

Ele não era uma pessoa normalmente macambúzia ou tristonha. Sim, era algo aluado, mas sempre o fora. Conseguia rir connosco. No entanto, achava que se pudessem olhá-lo de frente, veriam a marca de algo. Algo que passara momentaneamente mas que perduraria. Uma marca expressa naquela qualidade indefinível que são os olhos mergulhados em intensidade. Uma intensidade triste, sofrida, mas com a forma subtil e silenciosa que todas as dores realmente importantes assumem.
Digo isto porque creio que qualquer dor real é muda e discreta. Revela-se com clareza, mas sem alarde, como uma espécie de impermeável impossivelmente diáfano. Mostra-se como algo omnipresente, mas enraizado na pessoa que domina, sem que esta no entanto perca as suas características. Tais pessoas tendem a vasculhar-nos.
Parecem demasiado vivas, julgo eu.



Ao recordar o Verão, a imagem surge.
O sol sobe, apesar de ser a terra que se mexe, e segue-se-lhe a noite. As coisas vão acontecendo na sua sequência normal embora toda a gente olhe pela janela em direcção ao crepúsculo de Verão, com a noção expectante de um dia seguinte que seja de alguma fora diferente. A pouca brisa que existe arrasta algumas folhas carcomidas pelo sol, e os cães aproveitam o fresco para andar um pouco e procurar comida. As cidades e vilas estão provavelmente latentes, sem saberem se vivem com calma ou morrem em vago e lânguido estertor. Há uma aura de distância em todos os rostos, de espera, de antecipação, de teimosia numa crença inconsciente.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Dêem-me vinte palavras cheias de intenção e significado, e suporto mil silêncios.
Deixem-me ver o descaso e a surdez torna-se necessária e irrevogável com o passar suave do tempo.


terça-feira, outubro 21, 2008

Muitas pessoas dizem que olham para dentro de si. Para aquelas coisas com dentes, para aquelas realidades espinhosas e de garras recurvadas. Locais de aromas pestilentos e no entanto magnéticos, recordações de instantes em que todos os crimes do mundo parecem prostrados diante da percepção da inexorabilidade de cada atitude.
Não é fácil fazê-lo.
Não é fácil de alguma forma perceber onde podemos assentar a nossa defesa e onde somos condenados sem qualquer necessidade de processo. Equilibrar essas duas vertentes é aceitar um terror interno. O medo primordial onde, de quando em vez, agimos como carrascos onde já fomos vítimas. Mudança de perspectivas, de forma mais suave, criminosos com asas nas costas. Alternâncias nas portas do Inferno que só queremos observar à distância, como o fascínio perante uma paisagem terrível.
Não, não é fácil.
Não é fácil aceitar a necessidade de lados menos humanos, menos passíveis de contar numa conversa à mesa ou de de relatar olhos nos olhos. Relatar o enredo de uma história que necessita do seu lado horroroso para ser credível, para poder respirar, para ser parte do mundo.
Apesar de tudo isto, por vezes não há alternativa. E os olhos preparados nem sempre o são, e quando surgem como tal, a totalidade da personalidade recolhe-se, como uma flor tocada no estame que se retrai e fecha.
Reflexo, medo.
Ultrapassagem, aceitação.
Unidade. Completo.
A partir daí, qualquer animal com um mau passado pode apenas tentar fazer uma coisa. Contar a sua história, bailar com os seus demónios enquanto lhes trauteia canções irónicas e tentar fazer o melhor possível. E pensar que há sempre mais alguma coisa a fazer. Mais um detalhe para poder voltar atrás e fazer tudo novamente, arriscando a falha, mas crendo que da acção surge uma reacção e nem todos estamos para além de qualquer espécie de redenção.
Lamber os dentes afiados relembrando que também eles compõem um sorriso.
Ou que também há dentadinhas de amor...



“Seria elegante dizer a todos, como eu dizia em várias ocasiões, que a solidão e a curiosidade se podem combater de formas mais dignas ou sofisticadas. Seria igualmente simpático pensar que se vive numa lógica em que as pessoas comunicam das formas que forem possíveis e que os registos empáticos se encontram, como animais da mesma espécie numa miríade de manadas juntas para beber água. (...)
Para mim a normalidade é apenas uma t-shirt que eu visto mais que uma vez. E se tudo isto pareceria não fazer sentido num dia a dia onde o equilíbrio relacional entre personalidades pudesse efectivamente acontecer, a verdade era um bocado diferente. Porque muita gente tem coisas a esconder. Eu tinha algumas. Muitas. Muitas coisas a esconder ou a proteger ou simplesmente a acomodar. Muitas formas de triagem a operar, muito do constrangedor nos outros a evitar. Pouco a arriscar efectivamente. Num dia que por vezes mal chegava para perceber para que lado a terra girava, ou no qual os minutos por vezes se arrastavam como peso morto, ou onde as palavras de tantos me faziam tanta confusão por me parecerem dramaticamente alheias, podia dizer que valia tudo. Valia tudo porque à vista curta não via nada. Adorava fechar os olhos perante poucos outros e dizer-lhes que isso não me despedaçava os dias, mostrando-os insuportavelmente longos. Que não tinha certos terrores, ou que os desejava ter quase que por empréstimo para que algo me enchesse o sangue até eu pudesse gritar, chorar ou arranhar a pele e não sucumbir asfixiado sob o peso do invisível. Do meu invisível, do ódio aceso pelo que me escapava e a curiosidade ansiosa porque reconhecida por cada diferença nos meus dias que pudessem de alguma forma não demonstrar o que realmente eram.”


E eis que finalmente tenho o novo álbum dos (velhinhos?) AC/DC - "Black Ice".
E sim, toda a gente dirá que é mais do mesmo, até eu concordo, mas a verdade é que estes amigos dos três acordes fazem rock and roll como já não se faz, com uma dose de satisfação descomplicada que torna quase impossível não abanar a cabeça quando ouvimos os acordes do rapazinho Angus Young. Não é música complexa, ou que eu diga que me enche as medidas ao ponto de me arrepiar a pele, mas faz-me bater o pé e abanar a cabeça quase imediatamente. Hell Yeah! Rock On, dudes!!!!
É um álbum tão parecido com outros, mas sinceramente, e tratando-se destes decanos do rock (cuja honestidade aprecio muito mais que as merdas delicodoces que os Aerosmith por vezes cospem, embora seja fã das músicas mais amargas e irónicas da banda), quereríamos de outra forma? Deveriam os AC/DC deixar aqueles filhos da mãe daqueles três acordes e ritmo simples que no entanto funciona (quase) sempre? Não me parece.
Estes amigos vêm cá em 2009, ao que parece, e este vosso amigo vai vestir uns calções, uma camisa e blazer, por um boné na cabeça, e dirigir-me onde quer que eles toquem e prestar homenagem. Estes tipos usam um truque antigo, mas que volta e meia desempoeira o dia. Isto é rock and roll, e não importa quantos digam que está morto, ele volta sempre.
Felizmente.


sexta-feira, outubro 17, 2008


No ginásio que frequento, sim tenho um problema com a actividade física (cada um com a sua adicção) são raros os dias em que não existe uma curiosidade sociológica que leva, pelo menos, a um momento divertido.
Sendo um daqueles locais onde, por depoimentos diversos, se considera que as pessoas mais interagem, à excepção do local de trabalho, é curioso ver as formas como isso acontece, e como se orientam as pessoas. No fundo, onde estão as feromonas, conceptualmente falando, claro.
Sem entrar em cogitações acerca da forma como o físico e a mente se devem entrelação, é óbvio que este é um local onde as lógica, por exemplo da internet, se invertem. Aqui o visto antecede o falado ou racionalizado. Tirando a praia, é aquele local onde não há grandes subterfúgios ou truques cosméticos.
E é engraçado ver como as "tribos" se agregam, como os supostos requisitos se potenciam numa lógica concêntrica, apesar das pessoas o negarem veementemente. E estamos a falar de pessoas com uma dimensão física que ultrapassa muito o "razoável". (Se o que dizem acompanha o embrulho ou não é outra história, mas como não conheço as pessoas, não faço juízos.)
Portanto para uma pessoa dita "normal", que por acaso até se cuida um bocadito, a ideia de que esse bom aspecto pode transparecer num local destes é mera ilusão. Há malta ali que simplesmente não dá hipótese, por muito bem que uma pessoa até se possa sentir bem com a sua carcaça.
É cómico porque o ginásio, local onde os "bens" estão à vista, é o sítio menos provável para o sucesso da "mostra". E isto porque se isso for factor único, há lá gente que pura e simplesmente não dá hipótese a ninguém, tal é o nível de excelência. É um sentimento contraditório mas confortante, ou seja, se a maioria das pessoas não conseguir conversar com alguém por outros motivos, não será pela montra que o logrará, a não ser que seja daquela classe de eleitos moldados a cinzel. O que leva a concluir que de facto as pessoas são, ou pelo menos na minha lógica, só conseguem ser interessantes se de alguma forma conseguirem mostrar toda a extensão do que são, na qual o físico, inegavelmente relevante, tem no entanto apenas papel parcial. E num local onde uma pessoa "normal" se sente invisível, é curioso verificar que por vezes as pessoas interagirão por pequenas coisas talvez inexplicáveis, por detalhes, por acontecimentos fortuitos, como talvez seja extensível ao resto dos locais e situações. No fundo, alguma coisa que brilha e que simples e esperançadamente até possa juntar-se em palavras ao que se vê. No fundo é a graça do mundo que nos permite achar piada à diversidade, aos detalhes, ao instante. Nunca renegando o agrado visual através do politicamente correcto, mas simplesmente aceitar que a complexidade do que nos possa interessar nunca está reduzido a uma só dimensão, seja ela palpável ou não. E num local onde tudo se vê é engraçado verificar como muitas vezes surge a pergunta ou curiosidade precisamente sobre o que não está à vista.
Vinicius pedia perdão às feias, visto que a beleza é fundamental. Mas ao recordarmos o poema vemos que em toda a sua descrição o encantamento está precisamente no que vai movendo, ritmando ou caracterizando o invólucro:
(...) "Olhos, então Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca Fresca (nunca húmida!) e também de extrema pertinência. (...)
(...) Que a mulher seja em princípio alta Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.(...)
Tenho dito...

quinta-feira, outubro 16, 2008

A frase mais desejada e mais contraditória:

"Been there, Done that...."

Prefiro:

"Been there, done that, and there's still so much of this...."
Bem, todos têm os seus guilty-pleasures, monstrinhos de armário estético, e por aí fora, e claro está, volta e meia dá-me para gostar de algumas coisas, pronto, menos elaboradinhas... mais formulaicas, de realejo, a roçar o bimbocas, whatever...
Esta música dá-me sol, que hei-de eu fazer?
Pelo menos o vídeo é engraçado...
Guilty Pleasure all the way!
Hell Yeah....
Siga!



Era o Wilde que dizia que era complicado ficar feliz por aqueles de quem gostamos. Ele circunscrevia aos amigos, mas eu permito-me imaginar que ele nada obstaria a que se alargasse o conceito. No meu caos, não concordo exactamente com a ideia. Bem vistas as coisas, não concordo nada. Julgo...
Qual é a dificuldade em vermos o brilho daqueles de quem gostamos? É complicado ter orgulho naquilo de que são capazes, sorrirmos ao vermos as suas capacidades e qualidades emitirem uma luz perante as pessoas ou os ambientes? Porque carga de água? Porque raios não deverá ser celebrada a qualidade, seja no descobrir de um centímetro de pele, numa piada absolutamente certeira, ou num triunfo pragmático admirável?
Nunca me custou verificar que algumas pessoas(ok, muitas) são melhores do que eu. Isso faz com que deseje melhorar, tentar competir, digamos assim, mas provindo daqueles de quem realmente gosto, o que sobrevém é a oportunidade de aprender, de ser melhor porque eles são melhores.
Não julgo que seja complicado ver o sucesso daqueles de quem gostamos. Ver a sua capacidade transformada em materialidade, celebrar cada esforço para serem melhores, simplesmente ter gozo com a demonstração fáctica das suas qualidades, e na forma como isso nos influencia. E verificar isso, nos meus dias, é simplesmente ter sorte. Sorte em que, por alguma razão, poucas(íssimas!) pessoas escolham mostrar-me o que têm, o que fazem, do que são capazes. E isso nunca deve ficar subentendido.
Reconhecer o valor dos outros que escolhem estar connosco parece-me uma forma de também nos valorizarmos. É indirecto e não intencional porque ao desfrutar do afecto vem essa regalia que é saborear a sua qualidade. Mas sabe bem ficar em silêncio quando essas pessoas por vezes falam, observar quando dissertam sobre algo, quando discutem um assunto, quando confessam paixão acerca de um qual fenómeno, quando criam alguma coisa. Mesmo quando são ferozes.
Por isso não acho que seja complicado lidar com o sucesso dos outros.
Muito menos das pessoas de quem se gosta realmente.
Por vezes só gostava de ter mais um pouco dessa capacidade, desse tamanho, desse brilho.
Para poder acompanhar melhor e ser mais parecido com aquilo que tanto lhes admiro.
Para poder explicar porque me contenta tanto que logrem aquilo a que se propõem, ou cada instante onde ficam ainda melhores.
Se é possível tambem gostar pelos lados lunares, não seria incongruente e ilógico angustiarmo-nos pelo aparecimento (recorrente) da luz?
A mim parece-me.
Por isso, celebro sempre que posso os "melhores" que eu, e que por acaso me dão uma goelita na vida que levam.
Gosto de os ver. Como são. A sê-lo.



quarta-feira, outubro 15, 2008

Embora seja apenas uma análise empírica, é nestas alturas, em que as instituições estatais andam a segurar os efeitos do excesso de risco dos bancos e as consequências disso mesmo, que uma certa ironia surge.
Não se ouve agora o brado dos ultra liberais contra a intervenção estatal, nem as queixas de paternalismo das instituições sobre a máquina económica. A esta altura, sem planos de recuperação e garantias estatais como as que foram implementadas nos ultimos dias, a banca mergulharia num caos que o liberalismo selvagem não teria forma de resolver, e com ela, todos aqueles que a constituem e que lá colocam o seu capital. Sem o Estado a garantir a liquidez, e sobretudo a frágil confiança entre bancos, que no fundo é o que permite o funcionamento do sistema financeiro, haveria recuperações de 11% na bolsa, como ontem em Nova Iorque? Pois, está bem...
Não tenho qualquer simpatia com a intervenção estatal nos direitos e liberdades civis, mas defendo um papel de árbitro e garante do Estado de direito. E obviamente, sem sistema bancário, a economia não sobrevive de forma nenhuma, mas talvez seja de pensar que a selvageria económica tem destas coisas, e que só regras justas e transparentes podem impedir abusos ou imprudências pré-caóticas.
Mas, como digo, é apenas uma análise quase empírica.
No entanto, sem a intervenção do Estado, teríamos provavelmente uma Islândia à escala mundial...
Medo...
Na Rádio hoje:

"Não vire as costas à disfunção eréctil!"

Eu diria que em certos contextos, será o mais seguro, não?

Ou se calhar os criativos precisam de uma reciclagem...

terça-feira, outubro 14, 2008

Ninguém é uno.
Sinceramente, julgo que a lógica que assiste à construção de uma "personalidade", cresce em riqueza na directa proporcionalidade da variedade dos registos, lados, facetas, o que quiserem.
E em certa medida é necessário entender, pelo menos eu assim o considero, que as experiências de vida, associadas a uma curiosidade vital e ao regular embate de algumas dores tão reais como imensas, criam cantos, parcelas e partes da pessoa que nem sempre assentam na luminosidade com que supostamente se deveria encetar qualquer interacção.
E no entanto é também essa parcela de vida que engrandece e enche a pessoa. São esses "defeitos", ou supostas ausências de luz que criam uma integralidade a alguém. Essa integralidade chega a criar paradoxos, instantes onde o toque acre do que é supostamente lunar constitui tanto o elemento atractivo como tudo o resto.
E não se pense que estas pessoas são niilistas ou vorazes devoradoras da felicidade nas coisas, pessoas e eventos. Trata-se tão somente da percepção de um lado mais escuro, de uma percepção do monstro de dentes afiados que espreita, e de uma pequena parcela de angústia ou desgraça necessária que associada a um reflexo existencialista com humor, traz camadas à pessoa. Traz alguma vontade de ver, de perceber processos, de desfrutar das suas emersões, porque creio firmemente que a felicidade também é feita dos estados de alternatividade, do hieraclito em todos nós.
Os lados negros, e a forma como eles se tornam visíveis embora não dominem são factor de integralidade, e sinceramente, creio que só conhecemos e aprendemos algo sobre alguém quando por vezes há beijos a seguir à marca dos dentes.
É preciso é não inverter completamente a lógica das predominâncias, acho eu. Senão perde a graça. Especialmente para os próprios. Calculo eu...


sexta-feira, outubro 10, 2008

Qual é o significado exacto de tolerância?
E sera que o termo se deverá aplicar? Será que a ideia de tolerância não atenta directamente contra aquilo que deverá ser apenas visto como uma opção diferente e não um erro ou desadequação do que pensa a "maioria"?
O significado da democracia é efectivamente tratar o que é igual de forma igual e de foram diferente o que é diferente. A ideia da prória justiça distributiva parece um jogo de palavras, mas não é, e temo que para muitos não passe disso.
Eu sou um homem, (profundamente, talvez até demasiado...) heterossexual e com ideias muito próprias sobre a (falência absoluta) da instituição casamento. Do ponto de vista jurídico, parece-me uma asneira absurda (exceptuando o terreno fiscal), e confesso que me faz um bocado de impressão, para não dizer muita, selar jurídico-obrigacionalmente algo que, no meu modesto ver, deveria emergir de algo que une as pessoas com uma insubstancialidade que algum poeta há séculos dizia que movia montanhas.
Portanto julgo-me isento no que diz respeito ao que hoje vai a votação (condenada) no Parlamento.
E como tal, olhando para aquilo que me é importante, que tem necessariamente a ver com os meus sentimentos e vontades, expressos na absoluta intocabilidade da minha liberdade pessoal, ficaria seriamente lixado se qualquer Estado regulasse algo que dissesse directamente respeito ao que une pessoas pela sua vontade, em directa razão do que sentem e do que desejam solenizar.
No meu modesto ver não há um único argumento que sustente uma razão objectiva que seja contra o Direito o facto de duas pessoas do mesmo sexo poderem contrair matrimónio. Não há nada no regime de sucessão, partilhas, e do próprio casamento que seja contrário à união de pessoas do mesmo sexo. Nada deriva do regime jurídico, a não ser a proibição (cujo fundamento assenta em quê? - procriação? Mas que tem a procriação a ver com o casamento? Tirando para a tenebrosa M. Ferreira Leite, mas ok...) de celebração do contrato matrimonial por pessoas do mesmo sexo. Mas retirar daí elementos de ilicitude? Onde está o dano? Onde está efectivamente o dano social perante o simples facto de duas pessoas quererem solenizar e atribuir efeitos jurídicos a uma união entre ambos? O mesmo sexo? Bem, se a discriminação por orientação sexual é claramente ilícita, parece-me haver aqui um oroboro...
Mas saiamos da questão pragmática.
A unica que coisa que pergunto é se isto não se trata de algo que diz inteiramente respeito á autonomia privada dos potenciais nubentes. Se duas pessoas só casam se quiserem, será o género partilhado algo limitativo dessa liberdade? Com que argumentos? Qual a lógica? Impede-se com medo de quê?
Espanha deu-nos (mais uma) lição sobre isto, sobre o facto de num Estado de Direito e numa democracia, os direitos civis, a liberdade pessoal e a susceptibilidade de constituir obrigações, especialmente estas, dependem da vontade e do respeito pela liberdade dos outros, numa perspectiva sistémica. Sinceramente, não vejo onde é que a união matrimonial de duas pessoas do mesmo género emperiga a sociedade, o edifício do direito, e a liberdade alheia.
Só gostaria que quem proíbe, e defende a solenidade do casamento, acordasse um dia e olhasse para uma pessoa do mesmo género com quem gostaria de ter esse projecto.
Acho que muitas pessoas precisam de ver os Anjos na América, e aprender a colocar-se nos sapatos de outros, e entender que os preconceitos são limitações.
Em meu ver, inaceitáveis.
Tolerância não.
Igualdade sim.




quinta-feira, outubro 09, 2008

Subscrição...

"We can cultivate our power to choose between emotions. We can allow our emotions to arise spontaneously and also recognize that there are real, subconscious, personal reasons for everything that we feel. We can recognize that the complexity of his emotional tensions is due to the complexity of the self; and that, in order to make sense of life, we must be active participants. We must choose and choose wisely. We must love with intentionality. We must discover the roots of our hatred and destroy them. Those who follow text-based morality, on the other hand, deprive themselves of this approach. They ignore self-exploration, thinking it is irrelevant, arrogant, selfish, or purely solipsistic; and, in ignoring the complexity of their own thoughts, they limit their options, and limit their ability to choose. The moral self becomes as thin as the paper it is written on, and as vulnerable. Those who are free and responsible, on the other hand, are integrated beings who understand why they do what they do, who appreciate the meaning of love, who do all things for the sake of love."
Rollo May - "Love And Will" - Ensaio




quarta-feira, outubro 08, 2008

Sem comentários...

Hilariante...

Espantoso...


Algumas pessoas fazem tudo e mais um par de botas, e ainda assim sentem-se aquém. Aquém de uma espécie de arquétipo de exigência ou performance que lhes deverá estar associado, ainda que já concluam mais do que seria expectável de muitos dos seus pares.
Ao deparar com pessoas assim, julgo que algo deve ser dito. Ainda que provavelmente nos ouçam tanto como ouvirão os miados dos gatos perdidos numa noite onde o sono é de pedra, algo deve ser dito. Não sei se é a versão da palmada nas costas, ou a simples demonstração de admiração, mas algo deve sair. Pairar no ar, e exibir-se como um respeito afectuoso por algo que é capacidade, generosidade, entrega e abnegação. E claro está, uma elegância na capacidade, a qual recobre a pessoa, exponenciando um pouco mais o muito que já gostemos dela.
E essa exigência, essa fome de querer de alguma forma dar mais um passo, normalmente envolvendo e por causa do bem estar de outros, é algo que não deve nunca passar em branco.
Deve ser motivo de orgulho.
Nunca silencioso ou subentendido.
Simplesmente fazer justiça a quem o merece, a quem nos cria tal ideia e juízo afectivo.
A quem tanto ensina e envolve.
Uma vénia.



terça-feira, outubro 07, 2008


E na mortalidade do meu tempo, onde palavras más por vezes ousam sair, ainda que para paredes vazias e que enclausuram também um bom punhado de nada, dou por mim a não conseguir evitar um rasgo de gratidão, ou sorrisos idiotas no escuro e recorrências ao que me é dado e assim estimado nas pequenas loucuras que fazem dos meus dias, algo diferente de tudo, porque é assim tão estupidamente meu, e logo causado pela grandeza de (poucos) outros.

Ser grato.

Lição de todos os meus dias.





A vingança surge-me como uma espécie de instinto reactivo. E escolho chamar-lhe instinto porque de alguma forma julgo que é necessaria e parcelarmente constituida por um elemento ausente da racionalidade. A vingança é um produto de uma fúria saída, a mais das vezes, de um sentimento de profunda injustiça ou estraçalhamento da empatia, verificado na agressão àqueles que se ama. Ou àquilo, o que também é uma possibilidade.
Assim sendo, como determinados reflexos, e estou a pensar no medo, por exemplo, a vingança, ou o instinto de retribuição é, em certa medida, inevitável como um espírro. Todos temos um botão, e a questão é saber quem e como é que o vão premir.
No entanto julgo que a vingança, ou a ira pela retribuição tem gradações, e quanto mais calculadas, menos me parecem justificadas. Ou seja, aquelas que assentam num arrefecer da intenção e são geradas apenas por uma paciência meticulosa, normalmente assentam em questões que em grande parte, partem mais de um despeito que de um razoável desejo de retribuir algo merecido. Quando isso acontece, a furia é sempre mais forte, e normalmente leva a melhor. Sim, eu sei que estou a por em causa o velho brocardo de que a vingança se serve fria, mas faço-o intencionalmente. Em meu ver a vingança real, como eu a entendo, nunca pode ser fria. Pode levar anos a desaparecer, mas quando aparece é sempre em turbilhão, fervente, criadora de uma emoção que leva a melhor, e isso afasta-se da minha concepção de frieza. E isto porque julgo que dificilmente se consegue arrefecer aquilo que é importante ou marcante. Mas são opiniões, claro.
Falo especialmente de um determinado tipo de vingança. Aquela derivada do despeito, das dores de abandono ou fim de ligação.
Falo daquelas pessoas que simplesmente não aceitam que algo pode ter terminado. Ou que alguém pode ter tomado uma atitude indecente no campo emocional. Ou que podem ter sido trocados. Ou enganados. E na sequência dessa situação, "seguem" a pessoa até terem uma oportunidade de desferir um golpe, de preferência baixo e pungente, acabando no fundo por simplesmente se tornarem semelhantes ao pretenso algoz.
Não me interpretem mal. Acho que algumas pessoas devem mesmo provar do seu próprio remédio. Mas riscar automóveis, ligar para as novas ou novos amantes, chamadas anónimas, guerrinhas de bastidores com amigos em comum, tudo isto me parece primário e idiota. Surge-me não como vingança, mas como o último estertor de alguém que, perante a impossibilidade de chegar à pessoa por qualquer outro meio, fá-lo-á como puder, através de qualquer forma de violência. Rollo May tinha escrito uma coisa engraçada acerca disto, associando a uma forma distorcida de deixar escapar paixão insuportável, e eu tendo a concordar com o moço. A vingança originária do despeito parece-me oriunda da fraqueza e da assumpção de um poder alheio que o objecto da vingança detém ainda sobre o vingador. Surge-me pueril, como uma troca de galhardetes entre miúdos, ou pior, como se se tratasse de uma espécie de marca da casa por quem supostamente não se deixa tratar mal, e no fundo usa métodos que critica.
A vingança é algo que julgo já ter estado presente na mente de todos, e eu não sou excepção. Já quis fazer mal a alguém, e a pontos em que a determinação chegou a assustar-me. Mas a ideia de punir alguém pelo facto de já não me considerar o suficiente para se deter perante determinados pressupostos ou acções, é dizer que eu de alguma forma sou superior à liberdade que aquela pessoa tem de seguir o seu curso, ou pior, de ter as suas ideias acerca de mim. E isso para mim não é auto-confiança. É algo mais tortuoso, impregnado de uma distorção de soberba. Por mais que magoe, se alguém vai, é porque quer, e perante isso somos todos absolutamente impotentes.
Não ponho minimamente em causa que quem fere ou magoa intencionalmente, de forma insidiosa, deverá provar um pouco do seu próprio remédio. Mas estender este critério, por exemplo, a uma traição, é dar ainda mais importância a quem já a deverá ter perdido, e como tal, tornar-nos ainda mais pequenos perante as acções de quem deveria ter visto de outra forma.
Se alguém ferir aqueles que amo, só não lhes abro a cabeça com um barrote se não puder.
Mas por despeito, por perda, não acho que a vingança tenha qualquer justificação, ainda que já me tenha sentido tentado a fazer isso. Se a visão correctiva não surge como algo intrínseco ao conceito das coisa, então o facto de eu forçar um dano para o comprovar é apenas mais uma distorção.
A vingança, como muitas outras coisas, não é de aplicação genérica.
Em meu ver, é tanto mais justificada e difícil de evitar quanto maior a gravidade da ofensa, e sobretudo parece-me inaplicável quando o que está em jogo seja algo que alguém já não consegue ou quer fazer por mim.
É um pouco como o ciúme, no fundo. Pode sentir-se, mas agir em conformidade é apenas forçar algo que se não ocorre naturalmente, é porque já não poderá fazê-lo.
Mas, como tudo, são opiniões.







A certa altura a queda pára. É a percepção mais velha, dissecada e repetida da história do tempo, mas nem por isso deixa de ser verdade. A queda pára e ninguém viu. Todos viram o voo livre, todos lançaram uma escada de teia de aranha, todos esperaram pelo vento de alguém que teria de aprender a pairar.
Nada de perguntas.
Não as certeiras pelo menos.
E verdade seja dita que nem a real dimensão dos comportamentos foi, a certa altura, capaz de tapar a imensa cratera de carência desiludida.
E no entanto, algo começa a mudar. Ao tactear o chão os joelhos flectem e tudo começa a erguer-se. Há uma raiva de esforço que sulca regatos vermelhos nos olhos. É ferro fundido e inunda todos os contornos, arrefecendo rapidamente. Endurece, torna inexpugnável a câmara onde, como dizia um certo autor, "está enterrado o coração secreto" ([1]). Julgo que quando o último estalido do arrefecimento se houve, ficava uma vã esperança que por entre a terra que o cobre e o ferro que o enclausura, fosse audível o batimento do que é a identidade mais básica e fundamental do que somos.

Talvez seja isso mesmo que as mudanças sejam. Rearranjos. Reorganizações. Mudanças de local e perspectiva, como passar a olhar o mar ou o sol de uma outra janela. O único problema era a expansão da involuntariedade de todos os reflexos, mesmo em período e circunstância em que já não fizessem falta.

Para apagar um fogo corta-se o ar.
Não é?

([1]) Stephen King – The Body - 1982













segunda-feira, outubro 06, 2008

(Pretensa) Morte à Solidão Urbana

Parte 2 - O Ginásio
O ginásio, termo que designa todo e qualquer local onde a modernidade vai queimar calorias ou ter algum juízo com o corpo, ultrapassa no entanto, e muito, estas duas valências. É, igualmente, um local onde as pessoas se encontram, e mais do que isso, podem ver-se. O ginásio é implacável ou felizmente democrático, e inspira uma certa honestidade pungente na análise entre pessoas. Há algo mais à vista, e sem a cobertura piedosa da noite e suas correntes etílicos, e a partir daí "all bets are on".
É, também, um local onde as circunstâncas obrigam as pessoas a fitar-se. Que mais há a fazer senão olhar em redor entre séries, quando os músculos estão numa diatribe interna se insultos surdos após a carga? E, sejamos francos, há uma clara inversão na argumentação de cada pessoa, já que o que está à vista é o principal cartão de visita, e o resto é normalmente acolhido por acidente.
Andando por um ginásio, e fala-vos um praticante assíduo, temos de reparar em vários espécimens, em alguns casos geradores de alguns preconceitos.
Há quem se dirija lá para fazer em duas horas o que levaria quarenta e cinco minutos de treino como deve de ser. Ao final de cada série dão uma volta pelo ginásio, bebem água 234 vezes, e olham com a descontracção possível para tudo e mais alguma coisa. Normalmente tensionam um pouco mais os músculos já tensos da carga, para que o efeito à distância seja mais visível. Não raramente exibem uma tatuagem e ténis cheios de arabescos multicoloridos, mais apropriados para festas da pastilha que treino condicionado. Falam com toda a gente, cumprimentam toda a gente, e funcionam por processo de eliminação. Normalmente a figura não ajuda muito porque como pouco trabalham, o corpo não exibe a resposta muscular que seria desejada a quem lá vive.
Depois existem algumas meninas com as quais a natureza foi generosa ao dotá-las de um corpo naturalmente pleno de um metabolismo que sem exercício as deixa numa forma que outros não conseguem nem treinando seis vezes por semana. Nunca repetem a roupa do treino numa semana inteira, o que não se entende já que nunca a transpiram, e passeiam-se alegremente, quais libelinhas, em pedaços de pano que não dariam para cobrir meia mesa de casa de bonecas, e aproximam-se dos residentes, estabelecendo a hierarquia dentro das quatro paredes onde a malta vai para transpirar.
São esses residentes aqueles rapazes que, quando chego, já lá estão, e quando me vou embora, lá continuam. São provavelmente os responsáveis pelo desgaste nas pegas dos halteres, e andam com dificuldades em baixar os braços ou fechar as pernas, tal é a potência muscular bombada incansavelmente. Normalmente têm ar de quem consegue arrancar árvores de tamanho médio pela raiz, e são prestáveis a ajudar a malta menos experimentada a pegar nos pesos de forma correcta.
E muitos outros, como o típico desportista que vai lá ver se, ao mesmo tempo que melhora as dores no corpo, melhora-o como pode, porque isto de carregar o lombo com peso tem sempre várias motivações, e eu cá não me eximo...
Perante este cenário, é inegável que o ginásio se torna um local onde as pessoas se vêem, onde têm uma desculpa para estar no mesmo local, ter a sorte de se vislumbrarem mais do que uma vez e quem sabe, trocar uma ou outra palavra. Mas debalde. Na maior parte das vezes as pessoas olham, avaliam, tomam notas, mas há uma espécie de distância de segurança mantida, julgo eu, em parte devido à transpiração, outra devido à avaliação mútua (isto, claro está, sem excluir quem vai lá mesmo só para treinar e mais nada).
Realmente não deve ser fácil, e eu subscrevo, chegar junto a alguém e emitir uma palavra inteligente quando o rosto está vermelho pimento, a respiração algo acelerada, e a postura condicionada pelo esforço. Sim, há um plus, e normalmente mais favorável ao corpo masculino, já que em pleno treino os atributos musculares saltam mais à vista, mas com eles surgem as manchas de suor na camisola, e uma certa postura mais para o simiesca enquanto o corpo não recupera o equilíbrio normal.
E que dizer a alguém quando ali ao lado está uma moça aos gritos, acompanhada por mais vinte alunos, que dão socos furiosos no ar e gritam em esforço, ou quando as colunas passam incessantemente a cassete tecno do Tamariz, retirando qualquer enlevo a uma palavrinha supostamente bem metida? O ginásio parece tão bom local para se travar conhecimento seja com quem for como o seria numa praia. Há uma espécie de inversão de rituais, onde o corpo dá a primeira mensagem, e há quem a enleve ao ponto de parecer uma forma de arte, o que aos mais tímidos retira qualquer capacidade de dizer seja o que for a quem assim esplendorosamente se passeia. É o sistema de alertas de proximidade e a divisão em campeonatos em todo o seu esplendor.
Está toda a gente cheia de luz, não há álcool para desculpar as temeridades, e o escrutínio é demasiado próximo. No ginásio, o corpo dá demasiados primeiros passos, e é legítimo perguntar o que passará pela cabeça de alguns cultores do corpo. Há uma interacção quase por castas, onde o que está à vista rapidamente gera os emparelhamentos.
E no entanto olha-se... e olha-se... e olha-se.
A função primordial está cumprida. Ao ginásio vão avaliar-se normalmente os contornos que ou estão fora de alcance ou podem atingir-se, e o que fazem alguns daqueles que, embora pareçam tão curiosos como nós, deixam-se estar à espera que algo aconteça.
Só que o treino acaba. E nada ocorre senão a nudez para o duche.
Local onde estão pessoas sim, mas onde raramente se encontra alguém.

Mas não liguem ao que digo, e pratiquem desporto. Sempre. Essa coisa da alma sem contorno, é chão que já deu uvas...
(to be continued - parte 3- jantares de amigos e blind dates... medo...)



sexta-feira, outubro 03, 2008

(Pretensa) Morte à Solidão Urbana
Parte 1 - A "Noite"
Há pouco menos de um mês conversava com uns amigos, alguns deles solteiros, relativamente ao mundo cá fora. Ou seja, quando as pessoas se viam numa situação de rotura e seguir em frente, e quando se sentiam aptos a ver outras pessoas como mais que um centro de possíveis chatices e desadequações, como é que se fazia?
A não ser que se trate de estudantes tardios, ou de duplas e triplas licenciaturas ou graus académicos, a faculdade ou a escola não são opções depois de uma certa idade. São, mas para gente com perturbações mentais graves que posteriormente acabam por ser limitados na sua liberdade devido a apetites que são demasiado parecidos com a antiga Grécia para que a lei lhes dê, e bem, qualquer margem de manobra.
Passando ao mundo, pelo menos pragmático, dos adultos, surge a twilight zone, a terra de ninguém onde até dá jeito que haja alguém, e as pessoas questionam-se. E como é normal questionar sobre estas coisas, a conversa começou a correr todas as possibilidades.
A "Noite"
Bem, a "Noite". Os chamados locais de diversão nocturna parecem configurar o top das opções, no que diz respeito a encontrar estranhos que até aceitem trocar umas lérias para começo de conversa. Mas a verdade é que em Portugal, tirando alguns nichos especializados, a noite não é vista como um cenário de potencial convívio. Há uma convicção geral que o as intenções estão bem demarcadas, e que, perante tanto barulho das luzes, só resta aceitar uma espécie de verificação apriorística de alguns detalhes para saber se a aproximação se torna possível.
O diálogo assemelha-se à tentativa de troca de ideias sobre John Ford entre dois mineiros em plena laboração. Entende-se cerca de 3 em cada sete palavras, retira-se o resto de contexto, e o riso compensa muitas vezes a ausência de um fio de conversa. A "Merendeira", na 24 de Julho, deve ser responsável por grande parte dos diálogos que o Plateau, o Estado Líquido ou quejandos não permitiram. Claro que há sempre o risco de que o silêncio e a luminosidade mostrem uma gárgula eloquente onde parecia existir uma sereia tímida (isto vale para ambos os géneros, claro), mas a verdade é que as palavras aí têm uma derradeira chance, na qual o cansaço ou as mata, ou as transforma em cápsulas plenas de estimulantes.
Isto, claro, quando o diálogo é possível. O que na maior parte dos casos não é, ou quando acontece, a frase inicial é de tal forma absurda que não vive sequer. Sinceramente, fechem os olhos e pensem numa frase inteligente para dizer a um estranho em meio a pessoas que conversam por cima da música em altos berros e outros que se abanam como nativos após pisar um ninho de formigas bala. Não há Shakespeare, Herberto Helder ou qualquer género de candura que resistam aos gritos do Brian Johnson a dizer que alguém o abanou a noite toda.
Somado a isto há a desconfiança e o facto de que a noite está associada a determinados meios, intentos e processos que vão desde as paranóias da droga do date-rape a um desenho de uma Sodoma de intenções impuras e diabos promíscuos bem vestidos de gente.
Contam-me amigos(as) que desde sovas de namorados insuflados, a mulheres com os rebentos pela mão, viram de tudo. Tive outras que nasceram e morreram para o amor no meio do incógnito porque o D.J. resolveu passar Death Cab for Cutie exactamente no momento do beijo de apresentação exploratório dado àquele moço que por acaso até vive no estrangeiro e não deixa nem traço da sua passagem. E outros e outras que se divertiram. Mas tirando situações que ocorrem àquelas pessoas que iluminam até salas interiores de mausoléus, isto é muito raro.
Tudo somado, a noite é a metáfora da agulha num palheiro, mas com um problema adicional.
Está escuro.
(to be continued - parte 2 - Ginásios)




Nos muitos anos em que partilhei da companhia de mulheres, seja em que registo de proximidade for, uma coisa nunca consegui fazer. (Disclaimer: Entre muitas)
Nunca escrevi uma história em conjunto com uma mulher, ou nunca nenhuma me escreveu qualquer história. É engraçado pensar nisso, e se calhar não faz qualquer sentido. As pessoas não têm de gostar de maltratar um teclado como eu teimo em fazê-lo, mas mentiria se dissesse que isso não me cruzou a mente algumas vezes.
Foi algo que sempre me ocorreu, uma espécie de peça a quatro mãos. Ou então ler algo escrito e derivado da imaginação de uma mulher que escolhia dar-me algo assim.
Não se entenda isto como uma queixa, nem nada parecido. É talvez apenas mais uma curiosidade, algo que por vezes, entre parelhas (de amigos, amantes, whatever), que vão do mais ou menos provável ou normal, cria um segundo universo engraçado e pleno de curiosidades, julgo eu.
E porque a mente feminina tem necessárias diferenças e pontos de vista, como seria uma história vinda de uma mulher? Como teria sido? Como se encavalitariam as letras nas páginas? Negro ou soalheiro?
Curiosidade, nada mais.
Claro que isto é apenas um detalhe, um pensamento. As pessoas também têm de ser capazes de inspirar a criação de histórias em papel, portanto, não vamos por aí...











P.S. Mas quanto a contadoras de histórias...
Que sorte a minha perante aquilo que já me contaram, os pedaços de mundo e de vida com os quais me contaminaram. Os óculos com que me tornaram outros mundos mais nítidos, ainda que por vezes bem acres e desolados, ou a torrente de visões e ideias que me levaram a vê-las como um livro que não se poisa.
Nem toda a gente consegue contar uma boa história. Tive sorte de conhecer um punhado de excepcionais contadoras, com vozes assombradas e visões nítidas a ponto de serem cortantes.
Tenho reparado que não respondo aos gentis comentários que me deixam, o que é uma perfeita desconsideração da minha parte.

Sigo a corrigí-la.

Desculpem.

quinta-feira, outubro 02, 2008


Se há coisa que me enerva supinamente, são os idiotas, e digo-o sem qualquer pejo de qualificar, que dizem combater o estado da política através da recusa em votar.
"Que merda vou lá eu fazer?" - dizem, imbuidos de uma ideia de que a democracia se pode abalar pela inércia. São todos a mesma merda, não adianta, blá blá blá, whatever...
E depois fala-se no voto em branco, como forma de participar o protesto, mas, aparentemente, isso também não serve. A morfologia da democracia constitucional é demasiado incómoda para perturbar um Domingo com exercício do maior dos direitos cívicos, ou pelo menos, o mais eficaz.
Sim, certamente que a classe política está plena de um fedor que não engana ninguém. Os mecanismos de exercício de liberdade e cidadania estão constritos por uma muralha de economicismo e paranóia.
Mas basta apenas pensar que no mundo existem pessoas que morrem em virtude da ausência deste direito. Que qualquer candidato lhes é imposto precisamente porque não há candidaturas. Que a lógica do cidadão ser sempre um potencial governante é simplesmente afastada por autocracias e despotismo.
Basta pensar que em eleições levadas a cabo em países em vias de desenvolvimento, muitos eleitores arriscaram a integridade física, a propriedade privada e mesmo a vida, sua e de entes queridos, só para poder manifestar o seu poder, o único e o maior de todos.
E perante toda esta galharida e muito sangue em séculos de regimes políticos não legitimados pelos governados, agasta-me a posição daqueles que permanecendo na invisibilidade, têm depois a lata de se queixar de quem os governa, de quem os arrasta nas lógicas do contrato social por sufrágio.
À porta da eleição americana, fica aqui algo bem mais pungente e bem feito do que os meus maus fígados. Mas deve ser a ideia a passar.
Esperemos...



quarta-feira, outubro 01, 2008


No dia mundial da música, sinto-me feliz por sentir que esta me interessa o suficiente para me sentir vivo cada vez que cruzo caminhos com ela.
Para sentir que há poucas coisas melhores que descobrir aquela faixa magnífica que fica connosco durante dias, assombrando-nos, e se tivermos sorte, meses ou anos.
Para sentir o gosto magnífico da antecipação perante a notícia de um novo álbum daquele artista cujos bootlegs e gravações pirata são perseguidos até à exaustão.
No dia mundial da música é bom sentir paixão por algo que vive ainda que não tenha vida.
Eis alguns exemplos disso, que também me fazem conseguir não passar os dias, mas vivê-los.
Enjoy!


























Sou uma completa besta...

Morreu Paul Newman e eu dou conta disso hoje...

O imbecil fica assim em silêncio respeitoso...