ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, novembro 27, 2008

Existem mudanças que são, ao contrário do que se propala como informação quase auto-evidente, complicadas.
Não são exactamente boas, não são exactamente produtivas, não assentam propriamente num avançar em direcção a um futuro dito "melhor".
São mudanças de sobrevivência, apesar da aparência de uma carapaça intransponível. São passadas afirmativas para algo que não era necessário, mas que se torna imprescindível sob pena da estrutura pessoal se fragmentar para além do que é característico.
É complicado pensar que de certa forma, a aprimoração que segue sempre a estes estados gera-se da necessidade de protecção associada a uma certa ferocidade de desejo que passa incólume. O histrionismo da necessidade parece passar como elemento da sua existência, e isso é afinal doloroso quando o desejo parece invisível e as marcas indeléveis ficam como simulacro de uma impotência humana nas coisas mais simples, mais conhecidas, e no fundo, tão mais complicadas.
E no entanto fica.
Fica a ideia, a percepção, a luz sobre algo que é impassível de negar como visão.
A busca das palavras que torna a ser necessária.
Os rugidos dos ursos chegam longe, atravessam distâncias imensas onde a sua solidão feroz é assinalada. São animais singulares, e a sua passagem é sempre reconhecida.
E vivem muito, muito tempo.



terça-feira, novembro 18, 2008

Tenho um amigo que vive quase desmorto. E o mais curioso, é que essa poderia ser uma condição exterior a si mesmo. Mas, como em muitas outras, enreda-se num princípio muito mais básico e simplificado. Não há cárcere quando nem sequer nos ocorre procurar a porta, mas vociferar apenas que aquela parece ser uma casa demasiado pequena para as elevadas e solenes consequências das suas espreguiçadelas, que mal se confundem com qualquer expressão de desejar.
Se parares dois minutos, ouvires o som dos teus passos, e desenhares o que viste, perceberás o que ficou para trás, de que forma sucedeu, e sobretudo, porque passaste por montes e montanhas onde não te reconhecias, mas onde eras visível e a tangibilidade fazia-se da possibilidade do desenho do porquê do teu contorno e não se eras palpável o suficiente para encerrar no molde da tua própria e avisada morte.


"O que me chateia é que os filhos da puta, depois de mortos, passam a grandes homens" (ou mulheres, que não quero cá sectarismos)
Esta frase é absolutamente sábia.
Aliás, a mim essa premissa chateia-me em dobro, porque a mesma é aplicável a toda a espécie de pessoas. Os gestos, as homenagens, as atitudes mais cuidadas e a revelação de coisas mais preciosas no âmbito do afecto ou qualquer juízo positivo sobre alguém parece adequados perante a ausência do destinatário. E isso é coisa que não entendo.
Muitas pessoas são capazes de falar muito bem acerca de fulano ou cicrano, mas apenas até que este se aproxime. Perante a sua presença, parece vale a inércia do subentendido, onde as pessoas já sabem que valor têm umas para as outras e ficamos assim. "Ele sabe, por isso vamos dizer-lho para quê? Porque raio hei-de ter um gesto consequente à minha admiração por alguém, só pelo prazer de lho revelar, de lhe criar a percepção da afeição que causa?" Mas quando o tipo morre, é uma espécie de tratado do elogio em três capítulos, nos quais desfilam copiosamente as demonstrações, factuais ou em conceito, daquela pessoa a quem, em muitos casos, não se disse uma palavrinha de apreço ou acolhimento real em toda a vida. Talvez julguem que os elogios possam convencer o Caronte, ou coisa que o valha...
E a verdade é que só as palavras, parcas, que possam sair nesse sentido, também não chegam. São necessários alguns gestos. Não é necessário afogar a pessoa em encómios, ou parecerá também uma espécie de juízo acrítico e meloso, que depressa enjoa e faz desconfiar. Demasiados doces dão dores de barriga, e esse é um postulado de muito maior alcance que para gulosos de palmo e meio.
Os gestos são aferidos em termos do instante certeiro em que possam surgir. Por vezes um movimento acertado, um olhar que "percebe", que sabe o que custa, está em jogo ou foi preciso fazer para alcançar o triunfo próprio ou o de outrem, é o suficiente para aliviar uma montanha de peso e solidão. Por vezes perceber que as pessoas admiram e acreditam naquilo que alguém faz, pode fazer toda a uma diferença, e em bom rigor, julgo que fará.
Em meu ver, julgo que um dos verdadeiros veículos da cumplicidade é dizer que se vê mesmo monstros e não moínhos, ou que por vezes a pessoa vai a pontos em que a nossa admiração e afecto não consegue conter a percepção que temos dela, e não nos resta outra coisa que não seja deixar sair.
Adular e reconhecer são duas coisas muito diferentes, e a verdadeira noção de atenção está algures entre o mimo, o desejo de sorriso, o reconhecimento e uma estranha imparcialidade em meio a isto tudo.
Aos que achamos que merecem, digamos. Digamos e façamos coisas. Mostremo-nos. Acho que não vale a pena guardar certas coisas para a surdez da morte ou da distância.
Celebrar as pessoas que queiramos é fazer-lhes justiça, e nada melhor que alguém sentir que a vida que leva não é sempre um disparate pegado, e que lá vai fazendo alguma coisa de jeito de quando em vez.
Eu cá persigo isso, mesmo por entre um mar de disparates.




Estavam 100.000 na rua. Manifestação de peso, pois estas vontades comuns não são assim muito simples de congregar, pelo que deve ser algo que de alguma forma coloca a classe em sintonia de protesto.
Não estou suficientemente informado sobre o assunto, e os orgãos de comunicação social estão mais interessados nos ovos que em explicar às pessoas os méritos das teses em contradita, como de resto é habitual na baderna em que por vezes se tornam os serviços noticiosos.
No fundo, será possível ter conhecimento de ambos os pratos da balança, de forma escorreita, para tentar perceber o porquê de tão generalizado protesto, por um lado, e qual o fundamento do regime aplicado pelas autoridades, por outro? Será assim tão difícil ser esclarecido?
Como digo, não estou informado o suficiente e peço ajuda, mas algumas coisas, numa visão geral e pessoal, parecem-me insofismáveis.
Não deve estar em questão a avaliação dos professores, como qualquer funcionário do Estado. Qual o método? Pois, após esclarecimento talvez se consiga formular uma opinião.
Não julgo que a pedagogia deva sacrificar a ideia de exigência aos alunos.
Mas tudo isto está simplesmente no plano dos princípios, e seria bom ter uma opinião explicativa, com conhecimento de causa, para formular um juízo.
Agradece-se essa visão a quem quiser ter a gentileza.

segunda-feira, novembro 17, 2008


Eis que o ar arrefece, e algo começa a brotar do próprio ar. É como uma espécie de vibração, a qual gera toda uma série de reacções, algumas delas contraditórias com os próprios intentos ou desejos para um período de tempo que tem tanto de agradável como incrivelmente difícil.
Mas o mais curioso é pensar em que tipo de gestos poder-se-ão encontrar as motivações para as viagens pela quadra. E refiro-me exactamente às oferendas, ou melhor, às desculpas que se encontram para as fazer.
Nem sequer vou entrar no discurso purista do espírito de Natal que não se coaduna com as compras e o consumismo e mais o diabo a quatro. Deixo apenas uma ideia - se no decorrer do ano não custa pelo menos pensar em algo que constitua um gesto para as pessoas de quem se gosta, olhar para a escolha de uma oferenda como um custo ou uma chatice parece-me, no mínimo, preocupante. Deveria ser engraçado procurar algo que engatilhe um sorriso, e não uma chatice. Mas falarei disso noutra altura.
Prefiro sim abarcar o outro prisma.
Aquele dos que, como eu, já esfregam as mãos a pensar em que coisas poderão fazer, até mais do que comprar, que isto de crise não é boato.
E há coisas a fazer. Postais a desenhar e escrever. Uma colectânea de música que se grava para dar a conhecer a alguém algo que nos embeleza os dias. Um determinado pedaço de texto trabalhado, uma fotografia certeira num gesto de proximidade pela recordação.
Há, e digo-se sem pejo, um justificado anseio de ser mimado nesta época por aqueles que são capazes de gestos. Há uma legítima expectativa em poder sorrir com um detalhe e uma surpresa, assim como ter o impulso de a fazer ou provocar.
E deixar que o mundo impeça tais gestos durante o ano já é preocupante, mas mascarar essa inércia com uma espécie de resistência ao fenómeno da pressão surge como uma desculpa fabulosa para não se fazer nada senão uma espécie de compra ou aquisição para não parecer mal, mas que, honestamente, parece pior ainda.
Ninguém tem tempo.
Todos têm afazeres.
Mas estas ilhas de inércia que se vão criando entre as pessoas, e a desculpa ritualizada do tempo e das solicitações do dia a dia, são apenas estrangulamentos feitos realidade, e conforme os pequenos crimes entre amigos e amantes vão crescendo, parece que cada vez menos nos preocupamos em encontrar um sorriso inesperado, ou provocar um pequeno oásis de calor no decorrer ritmado de dias afiados.
Por isso digo-o directamente.
Espero cartas, postais, gestos. Brincadeiras, toques certeiros.
Espero algo especial, espero que me apanhem na curva e me obriguem a sorrisos sem jeito.
Porque eu cá já estou a preparar esses dias, e só me atemoriza a possivel falta de originalidade para o tempo que arranjarei, dê lá por onde der, para fazer alguma coisa.
Que comecem as hostilidades de fim de ano!



quarta-feira, novembro 12, 2008


AT THE MOVIES V
(alguns spoilers - passe adiante se não viu o filme)

"IN BRUGES"


Alguns filmes são como algumas pessoas. Como alguns livros, músicas, etc.
Mas em raros casos, talvez só mesmo no filme "Shortbus" terei tido uma surpresa tão grande com a revelação do conteúdo de uma obra como neste "In Bruges".
O que começa como uma espécie de comédia britânica daquelas deliciosas que mexem mesmo com os neurónios, o que já era adiantado pelo trailer, transforma-se numa espécie de cogumelo venenoso. O filme começa a amargar, mas de certa forma nunca larga um certo absurdo por vezes realmente cómico, até que me vi hesitante entre esfregar o estômago devido aos murros que o filme dá, e erguer os cantos da boca num sorriso ou riso sincero pelo humor realmente inspirado se bem que nunca histriónico, quer na sua representação, quer nas reacções que causa. Em algumas situações o riso dá mãos a um senso de culpa semelhante aos risos nervosos perante actos involuntariamente burlescos de classes intocáveis para o humor como as pessoas com deficiência e quejandos. (viram aqui o meu recorte P.C.? Eu sei, não consigo evitar.)
Este é então um filme perturbador com um subcontexto cómico. É horrível e ao mesmo tempo humano e ao mesmo tempo engraçado. É inqualificável e indefinível, e por isso mesmo, de uma originalidade que a mim me parece inquestionável e que me agradou apesar do certo amargo de boca que me acompanhou à saída da sala.
É um filme demente e incómodo, por um lado, mas certeiro numa outra série de coisas. Não é definitivamente uma comédia. Não é nada, e ao mesmo tempo, colocam lá um bocadinho de tudo.
Farrel faz um papel fantástico como um idiota estranhamente puro, um burgesso irlandês que no entanto consegue ser muito mais agradável que o polido frequentador do restaurante a quem o personagem de Colin dá uma pequena sova.
Fiennes está ao seu nível habitual, com uma caracterização demente que é também, no seu desenlace, mais uma das surpresas incómodas mas certeiras do filme.
Mas a estrela de todo o filme é Gleeson com um papel fantástico e um misto de integridade, compaixão e dor no olhar que impressiona pela sua contenção e ao mesmo tempo, tangível e incómoda intensidade, mesmo nos momentos de humor.
Todos são estranhos, originais, incómodos, ou não terminásse a película no meio de um pesadelo de Jerónimo van Acken regado a sangue quanto baste. E no último segundo, mesmo aí solta-se uma gargalhada, já incómoda, mas ainda assim, real.
Recomendo.
Não sei bem que estilo de obra recomendo, mas recomendo-a sem dúvida.
P.S. - Já estive em Bruges e adorei a cidade.


O pior dos estados não é a raiva.
A raiva, como parte dos nossos estados de limite, instila um engano à passagem do tempo, fazendo-o tão incandescente, rápido e volátil como ela própria.
O pior dos estados é a calmaria. A calma derivada da resignação, da aceitação dos estados imutáveis, e ao mesmo tempo, a negação paradoxal das suas consequências. No fundo nunca se aceita. Não é possível. Não há forma, pelo menos ao nível central de todas as traves mestras que nos constituem, de aceitar certo estado de coisas. Ainda que estejamos em dormência, algo não repousa.
De uma forma ou de outra, nunca facilitamos. E nessa medida, porque certa forma de apatia é como septicémia no centro reactivo, faz-se como dizia Bernard Shaw, e tomar o mundo com uma certa desrazoabilidade.
Porque a calmaria sucede-se, ou nasce de uma parcela de incompreensão, e por vezes temos de saber.
Nem que não saibamos exactamente como.
Para sobreviver. Às cegas...


terça-feira, novembro 11, 2008

Julgo que no passar dos tempos, na suposta aquisição de maturidade no decorrer dos dias que se sucedem, enquanto sulcam canais no meu rosto e semeiam campos inteiros de morte na memória, algo surge como inegável.
Talvez como qualquer estado beatifico ou passional, seja ilusório na expansão do seu próprio tempo enquanto simulação de perenidade, mas ainda assim, perduram as questões que lança, e o que perdura transformado em incapacidade de persistir em certa forma de humanização.
O risco de realmente perder a cabeça está a distância de um hálito.
E por isso, hoje é um dia triste e assustador.
Hoje, mas só hoje, só é possível ter medo.
De tudo.


Once upon a time I was of the mind
To lay your burden down
And leave you where you stood
And you believed I could
You'd seen it done before
I could read your thoughts
Tell you what you saw
And never say a word
Now all that is gone
Over with and done - never to return

(chorus)
I can tell you why
People die alone
I can tell you I'm
A shadow on the sun

Staring at the loss
Looking for a cause
And never really sure
Nothing but a hole
To live without a soul
And nothing to be learned

(chorus 2)
I can tell you why
People go insane
I can show you how
You could do the same
I can tell you why
The end will never come
I can tell you I'm
A shadow on the sun

Shapes of every size
Move behind my eyes
Doors inside my head
Bolted from within
Every drop of flame
Lights a candle in
Memory of the one
Who lives inside my skin

Soundgarden - Shadow of the Sun






quinta-feira, novembro 06, 2008

Creio que cada um de nós guarda o seu quinhão de verdade inabalável e permite que as flores aparentes do quotidiano, porque alternam para melhor, se tornem um jardim feito a partir de um pequeno ramo. Claro que o crescimento não dá essas veleidades no seu percurso. Deixa-nos a par e passo com as mais variadas noções de esperança ou expectativa, mas vai mostrando os reais contornos dessa lógica.
É por isso, julgo eu, que crer em alguma coisa é um dos mais galhardos e bonitos actos que podemos praticar. Porque em meio segundo, não queremos saber da realidade para nada, e somos puxados para a essência das nossas mais profundas, ainda que por vezes assustadoras motivações. Tornamo-nos os nossos próprios juízes e decisores. Pregamos uma ideia de uma pessoa só.
No entanto, aquilo que vive para além de qualquer condicionamento está apoiado em três premissas básicas. O reconhecimento, a intensidade e os efeitos.
Um aroma pode ficar connosco durante anos apenas para ser reconhecido. Um tom de voz pode tornar-se um diário. Duas palavras bem esgalhadas podem ser uma carta infinda.
E quem é o responsável por estas situações?
Os próprios, evidentemente. Di-lo-ia num segundo, agente e ofendido. Bifronte.
Mas não só.
Ver é mostrar.
Felizmente...


terça-feira, novembro 04, 2008

"Sei o que estou a fazer".
Todos nós já dissemos esta frase a certa altura. A generalização é intencional porque até acredito que em alguns casos, isso é mesmo verdade. Por vezes sabemos mesmo o que estamos a fazer, porque à semelhança de tantas outras coisas que são divididas pelos habitantes da aldeia, por vezes até temos razão.
Mas por vezes dizemos estas palavras e damos com os burros na água. Dizemo-las porque genuinamente lá nos vai parecendo que passo a passo, a asneira consegue ser mantida ao largo. Felizmente, por vezes, isso não acontece, porque só o próprio reputa tais fenómenos de asneiras.
Mas é genuíno e é ternurento. É engraçado ver a expressão de convicção na face quando a frase é proferida. Gostava de me ver ao espelho e contemplar a expressão plácida de pré-asneira que me percorre os traços quando por vezes acho que sei tanto o que estou a fazer como decifrar uma equação diferencial. Saber o que realmente estou a fazer. E como não tinha qualquer correspondência com a minha ideia inicial.




É muito bom assistir às vitórias ou triunfos dos que nos são próximos.
Especialmente se são merecedores, ou se emergem dos confins de um qualquer gaveto onde outros, ou outras eventualidades, os tentaram fechar.
É bom assistir ao desenrolar de uma glória, ao trautear no solo de passos seguros e cheios daquele ritmo dos dias que finalmente ganham a cor que lhes era devida. Cumprimentar os sorrisos, assistir aos maus fígados dos algozes, sorrir perante a acrimónia perante aqueles que de repente se tornaram incapazes de derrubar o tinteiro sobre a folha de dias azuis claros.
Não há como sorrir perante as horas de felicidade daqueles que a manuseiam como algo que parece fazer parte deles. Ver a recuperação, a tomada de posição, as escorregadelas em direcção ao sorriso, ou à graçola, ou à simples descontração, tão intensa que até a mais aguçada ironia nem irrompe a mais pequena parcela de pele.
É bom ver que aos que conhecem o negro, também se lhes destina o carregar da tocha.
Onde ardem eles próprios e iluminam pela luz que sempre tiveram.