ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, dezembro 17, 2009

Confesso que andava um bocado arredado desta polémica com o Tiger Woods, mas parece-me que, mais uma vez, é a hipocrisia pequena que esfrega as mãos com o cheiro a sangue e confunde, novamente, o atleta (como ofaz com os artistas) com a sua vida privada.
Não é que o comportamento do moço seja impassível de crítica, que... não é, mas este olhar chocado da sociedade que não sendo perfeita, espera que os seus ídolos sejam semelhantes a lençóis novos todos os dias ou flores de laranjeira, e em muitos casos, saliva só à espera da primeira nódoa, como para justificar as próprias merdas que faz, é coisa que me faz muita confusão.
São muitos, como sempre, os ávidos de julgamento e sentenças em praça pública, como de resto o foram com o caso Clinton. Em ambos os casos, absolutamente irrelevante para a qualidade que ambos tinham e têm naquilo que fazem.
Podemos não concordar ou condenar? Claro que sim. As posturas das pessoas e a forma como se vivenciam os valores são sempre passíveis de discussão e discórdia.
Mas esta espécie de auto-de-fé publicitário, e a moralização como primeira abordagem são, em meu ver, apenas a hipocrisia a um nível nauseante, vinda especialmente daqueles que se esquecem de olhar para a trampa que têm nos próprios sapatos, e como é bem sabido, pregam e evangelizam precisamente aquilo que não praticam.

Pessoalmente, acho o comportamento no mínimo discutível, mas repito quinhentas vezes o que disse Fitzgerald:

"Reserving judgments is a matter of infinite hope."

E claro está, como todos, julgo quando não devo, mas tendo a evitá-lo a todo o custo... Acho que é o melhor que podemos fazer, acho eu, sei lá... :)



quarta-feira, dezembro 16, 2009







Durante muito tempo, e ainda hoje, as pessoas perguntam-me o porquê de tanta dedicação ao desporto, e especialmente, ao desporto colectivo. E para além de todos os argumentos hedonísticos associados (dopamina aos molhos, conseguir relembrar onde fica cada músculo do corpo, estando em maior sintonia comigo mesmo, o praz...er de poder brincar como em idades aparentemente já idas, etc...) a verdade é que o desporto ensinou-me muitas coisas.
Ensinou-me respeito, sacrifício por um bem comum, apreciar que os outros brilhem, e trabalhar para que não só eu, mas todos quanto constituem o grupo fossem melhores. Ensinou-me o gosto por ver alguém a melhorar, a sentir a injecção de lealdade através do esforço em direcção a um objectivo que nos ensinou, pelo menos a mim assim foi, acima de tudo a sermos melhores homens, melhores pessoas, melhores cidadãos.

Esta foi a principal lição (entre muitas) que me foi passada pelo treinador mais importante que alguma vez tive, o Prof. Jorge Adelino, e a verdade é que em tempo algum ela perdeu qualquer significado. Acima de tudo, o que ganhei, além de um amor ao desporto que (ainda, sim, ainda :) pratico), foi um senso de respeito por várias coisas, entre elas, trabalhar para que algo para além de mim, fosse melhor, e ficar contente por isso. E isto é bem superior a ganhar. É, em meu ver, para isto que o desporto, como outras coisas, acaba por servir.

Para sermos melhores, e ajudarmos outros a sê-lo, como nos ajudam a nós.
Ser racional não significa ser assintomático.

Ser racional ou ter a tendência para olhar um pouco mais dissecadamente não significa a morte das intuições afectivas (á falta de melhor definição) que comandam vontades sem grande explicação. Ser racional não significa ser uma arca frigorífica ou um penedo isolado numa encosta invernosa. Ser racional e pensar um pouco sobre as coisas talvez seja um dos maiores elogios que se pode fazer às coisas que se sentem. Porque ganham importância, porque as tentamos identificar, porque ao quererem ser substância, significa precisamente que existem. Ontologia pela questão, sentir pela curiosidade em saber. Algo assim.

Racionalizar não significa dissecar ou reduzir tudo a conceitos ou axiomas. Primeiro porque não se consegue, segundo porque pensar sobre o que se sente é apenas uma parte do que tal significa. Mas alhear tais fenómenos do pensar é, para mim, impensável, e até injusto para com a relevância dos ditos "sentimentos".

Sinceramente, acho muito mais desonesto esconder o sentimento atrás de uma aleatoriedade absoluta, na qual assenta uma espécie de justificação total para tudo com base num impulso acerca do qual, (livrai-nos disso), pensar é um acto sacrílego.

Pensar sobre o que se sente não significa definir e como tal cercear-lhe o potencial. Quanto muito acrescenta-lhe dimensões, abre novas portas, acrescenta perguntas, e torna algo como o afecto num fenómeno ainda maior.

É na sobrevivência improvável dos afectos à realidade (ok racional, whatever) que reside uma das suas muitas grandezas. Porque ao racionalizar surge precisamente o carácter multifacetado de algo que, por um lado, não tem que nos estropiar intelectualmente, e por outro, ganha gozo ao escapar a qualquer definição completa. Pensar sobre os afectos é, também, engrandecê-los... mesmo nas partes que nos escapam, porque também é essa a sua (bela) natureza.

Acho eu...



quinta-feira, dezembro 10, 2009

A relação com a verdade é sempre curiosa. É, como dizer, reflexa. Melhor, dizendo, ecléctica. A malta vai aproveitando enquanto a coisa funciona, enquanto encaixa. A visão é engraçada, é boa, enquanto de alguma forma a perspectiva de alteração parece possível. Aliás, em muitos casos, não é bem uma perspectiva. É mais uma etapa. E então a observação deixa de o ser para ser uma análise. Uma avaliação. E a verdade passa a ser, como dizer, em si um ângulo. Só se olha através dele de quando em vez, porque em breve, ou de alguma forma, ela deixará de ser o que é, para, se tudo correr bem, passar a ser o que "deve".
E é aí que o impacto se dá. A verdade, na sua essência mais directa, e como todas as coisas mais próximas da perfeição conceptual, não tem mutações. Nem ângulos, nem perspectivas. Surge, nunca ameaçando imobilidade ou cristalização, excepto no momento em que existe. A verdade é inequívoca no momento em que é confrontada como tal. Se muda, nunca é a mesma. É outra. Não a mesma noutras roupagens por força do wishful thinking... acho eu...
A relação com a verdade é curiosa.
Muitas vezes é tão directa e transparente que definitivamente não pode ser aquilo...
E depois é...


sexta-feira, dezembro 04, 2009

Pode parecer estranha a banda sonora para o tema em questão, mas o paradigma das contradicções é, só para citar um exemplo, o mesmo encontrado para uma certa beleza achada nas coisas tristes.
A verdade é que de quando em vez vamos ouvindo algumas coisas, também daqueles que em muitas ocasiões (não todas, mas quem é que faz sempre seja o que for?) sabem o que dizem, e as questões surgem ao de cima.
Por vezes fazemos algo durante tanto tempo que nem sequer nos lembramos a razão pela qual se iniciou. Para os mais adeptos do Asterix, faz lembrar a história do burro do tio do Ocatarinettabellatchitchix. :) E no entanto consegue-se perceber o decorrer do tempo, a imensidão dos custos pequenos e parcelares cobrados à forma de viver que parecem assim tão injustificados. Tristezas mantidas a ferros, lembranças carregadas a custo, dúvidas e recriminações auto-infligidas por reflexo, e inexplicabilidades pintadas a negro desde que existe memória.
E que parvoíce. Que parvoíce termos de nos zangar em certa medida para lançar certas coisas ao ar. Que estupidez quase não ter pistas para uma calmaria connosco mesmos, e com aquilo que somos. Que ingenuidade alguma vez pensarmos que seria necessário termos cuidado com o que somos, e pior ainda, achar que pedir desculpa por isso alguma vez traria mais do uma ainda maior predação. Que patetice não sentirmos um calor pelas talvez poucas, mas tão verdadeiras coisas que temos, que nos respeitam na essência do que somos e como na verdade o apresentamos. Que lorpice não perceber o que realmente merecemos.
Posso levar anos até o perceber, mas não sou má pessoa.
Não sou mesmo. E isso, ter pelo menos a percepção disso, é toda a identidade que preciso de sentir como evidente e defendida. Porque o resto está adjudicado a quem quiser ver um pouco mais, perguntar qualquer coisa, e aceitar o que for.
Que inutilidade parece todo o tempo em que não nos sentimos minimamente bem connosco, à custa de externalidades vindas de quem acha que aquilo que somos claramente não interessa.
Que bom é achar que se calhar a culpa não é mesmo toda nossa... :)



segunda-feira, novembro 23, 2009

Ao verificar algumas situações que têm vindo a suceder, verifico a força que possuem as zonas de conforto. Aquela espécie de fio condutor diário, feito de filamentos de poucas perguntas, com um colar cervical para impedir um olhar mais de soslaio. Seja porque descalçar os pés pode ser um drama, porque pequenas coisas p...odem significar exposições que nada mais me parece que a incapacidade de não achar tudo uma chatice, ou porque não há mesmo interesse em divergir um bocadito, em perguntar coisas menos óbvias, em dissecar os disparates, em procurar calhaus de formas peculiares nos lados lunares.

E isto parece-me, entre muitas, uma das razões da proliferação de tanto mal-estar mental e emocional, e do consequente crescimento da ajuda profissional. Olho para todos os lados e vejo ou ouço histórias de pessoas que simplesmente já não conseguem segurar o que as vai consumindo, e recorrem seja ao que for. Aquelas coisas que a sociedade dita "normal" olhava com escárnio e até temor, tornou-se conversa de mesa. Em Portugal falava-se das maleitas do corpo, do ir andando. Hoje em dia fala-se das maleitas da mente. Das panaceias que distam entre o terapeuta e a bruxa (especialmente aquelas que fazem uma mamoplastia anual com o que ganham a escrever que cor é que não devo usar amanhã...), mas a que cada vez mais se recorre.
Muitas pessoas ainda o escondem. Por receio de uma espécie de dúvida que a "moda da terapia" veio trazer. Um número significativo de pessoas tem terapeuta porque tem pinta. O que antes a sociedade reputava de coisas de malucos, agora tem, para algumas pessoas, um status especial. Parece, segundo consta, que dá uma aura de mistério sedutor, o que só incrementa o disparate, caso essas pessoas soubessem realmente o que é lidar com dor emocional que justifique ajuda profissional.

Muitas outras, as que a têm, precisam e beneficiam. E aqui é apenas uma opinião pessoal, talvez precisem porque a tanta gente falta a curiosidade em saber o que de facto constitui o outro. E a essas, que têm tanta dificuldade em e não resta outra alternativa senão entregar o óleo das mais profundas dobradiças a um observador e ouvinte treinado e já agora pago, para não formular juízos ou incompreensões agressivas. ( e ainda me contam que por vezes a coisa não corre exactamente assim...) Para ouvir, que é coisa que por vezes é tão absurdamente mais difícil do que reputam. Ouvir, querer saber, sair da zona de conforto para ver coisas menos evidentes, menos ouvidas, mais próprias de invenções literárias, mas que estão tão mais perto do que se imagina. E aqui o clichê é perfeitamente acertado, porque a realidade, em muito casos, vai bem para além da ficção. Por vezes, dentro da mente das pessoas, passam-se coisas como as que aqui se mostram. E para uns, será parvoíce, para outros será receio, para outros asco, outros ainda não acharão coisa alguma, e outros perguntar-se-ão.

Só resta saber o quê. :)


quinta-feira, novembro 19, 2009

Nos dias que correm, a mastigadíssima ideia do Sartre anda às voltas na moleirinha, talvez pela diametralidade de demonstrações que tenho encontrado.
Por vezes, numa estranheza impossível muito difícil de encaixar despreparadamente, dou comigo a abrir a boca em incredulidade. Ok, em ingenuidade, porque não é por falta ...de avisos que me façam, mas acho que, teimosa e desconhecidamente, nunca acho que seja possível. Acho sempre que as pessoas pensam bem no que dizem, pesam minimamente o que fazem, obedecem mais ou menos ao que os instinto humano (com todas as nuances de afecto e lealdade que isso implica) lhes vai ditando. E invariavelmente, encontro quem o faça, quem o faça alternadamente, que nunca o faça, quem siga o plano mesmo que seja alérgico a folhas de projecto.
E choco-me não com os erros, ou as asneiradas, porque sou praticante activo e proficiente dos mesmos, mas com a convicção profunda, a falta de capacidade de auto-questionar, a inderimível lógica de socialização.
As pequenas crueldades, ou as grandes, e os pequenos crimes que vão sendo cometidos, sem se ter a noção dos seus impactos, envenenam as normalidade, os reflexos afectivos , as quedas suaves nos raros estados de graça que existem porque outros existem connosco.
E no entanto cá andam elas, na descontracção dos dias que se querem cómodos, e como tal, em muitos casos, sem recorte que os faça únicos.
É tudo sem stress, tudo calmo, tudo sem consequências. Sem questões, sem compreensão ou mínimo denominador comum. E se é certo que não podemos evitar fazê-lo parcelarmente, tenho dificuldade em entender todo um passar de vida, de dias, de tempo, assente numa simples falta de eventualidades...
Não sei sinceramente como se faz.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Gabriel recordava-se da primeira vez que vira a Paula.

Recordava-se melhor do período em que ela aparecera. Um período complicado, entre empregos, como dizia – o que era sempre uma forma simpática que ele encontrava de esconder o medo que tinha por se encontrar naquela situação pela primeira vez na vida – com a vida do pai por um fio após um acidente estúpido – o que também era uma estreia. Tudo era uma novidade naquela altura, uma novidade feita de medo, de horror, de ausência. Não havia para onde fugir, não havia porta para fechar, amor para compensar aquilo que ele imaginava como costas nuas perante todas as formas de mau tempo. Nada de intermediários ou protectores. Só insegurança, medo, amanhãs sem resguardo. A mãe encontrava-se num caos de incredulidade, a irmã refugiava-se nas depressões cíclicas que coincidiam sempre com qualquer questão mais complicada, normalmente finais de namoros acintosos, contas para pagar ou esforço de monta, designadamente nos trabalhos que ia perdendo.

No meio desse dia a dia que nada anunciava senão a brevidade do seu porvir, Gabriel foi jantar a casa de uns amigos. Um jantar feito exclusivamente para “o animar”, mas que ele sentia que apenas serviria para realçar o que lhe faltava naquele e noutros momentos. Primeiro recusou, inventando uma gripe de última hora. Depois lembrou-se que um deles era seu colega de trabalho, e que a coisa era complicada de explicar. Pensou, como sempre pensava, que valeria a pena fazer um esforço para não ferir susceptibilidades, vestiu uma roupa menos macambúzia e dirigiu-se à casa do casal de amigos. Felizmente era o único casal são que ele conhecia nos tempos que corriam.

Ao entrar em casa deles reparou numa mulher jovem, esguia e alta, de cabelo loiro e escorrido que lhe cobria as feições. Reparou nela enquanto esta retirava uma bebida de um bar de carrinho ridículo que a Joana, a dona de casa, trouxera de casa dos sogros. Tinha as unhas compridas, mas não excessivamente, o que se comprovava pela destreza e rapidez com que mexia nos copos e garrafas. Ela virou o rosto e sorriu-lhe. A expressão era confiante e até algo petulante, e cobria o destemor de uma aparência que Gabriel julgou imediatamente fora do seu campeonato. Sorriu internamente, como por vezes sorria quando folheava revistas de mulheres impossíveis. Era um sorriso de alívio. A mente fazia-lhe o jeito. A Paula era parecida com aquilo tudo tão irreal que nem sequer conseguia criar substância para sentir qualquer agulhada de desejo. A emoção ensurdecia perante tão alto grito de improbabilidade, de forma que ele nunca chegava a desejar nada. E olhando para ela, agradeceu a imediata percepção desse facto. Bons augúrios, pensou. No segundo em que tudo isto se passou Gabriel arregalou a sobrancelha, num gesto que lhe era típico e inconsciente.
No segundo seguinte olhou em volta para cumprimentar os outros. Três casais e quatro solteiros, sendo Gabriel o único homem. Achou tudo aquilo algo invulgar, mas ficou mais descansado. Ninguém se tinha lembrado do arranjinho ridículo, o que ele tinha temido durante toda a viagem até à casa. No meio de todo o caos daqueles dias, não havia energia para dourar a conversa, para participar quando nem lhe apetecia muito. Não lhe apetecia ser delicado, ou elegante, ou até achar alguém interessante e começar a colocar argamassa nas imensas rachaduras que o atravessavam enquanto pessoa. Queria, no fundo, o absoluto comodismo de alguém que levasse tudo, que puxasse a carroça ou o deixasse em paz no meio da miséria da insegurança, do medo e dos dias correntes que custavam tanto a passar.

Mais tarde recordar-se-ia do perigo que era desejar alguma coisa, porque por vezes os desejos até se realizavam.

Naquela noite a Paula fez isso mesmo. Carregou a conversa, foi encantadora, potenciou o encanto com uma candura que parecia fazer com a beleza explodisse baixinho, sem estilhaços. Ela fez com que ele brilhasse, que diabo, recordava ele, fez com que toda a gente brilhasse. Era arguta e com um senso de humor destemido, o que a deixava à vontade em todos os tópicos, fossem eles quais fossem. Compensava a sua ignorância acerca de um tópico com uma honesta curiosidade em aprender. E dissertava acerca das suas exigências, quereres e sonhos confessáveis com uma fluidez de quem surfava pela vida embalada num gosto pela mesma. Naquela altura nem parecia um profundo complexo de superioridade. Paula conseguia disfarçar de forma brilhante o seu profundo ódio a qualquer espécie de falha, fraqueza ou menor capacidade. Era o mesmo que dizer que a vulnerabilidade a repugnava. Gabriel nunca percebeu se seria porque teima a sua própria, ou porque vendo-se incapaz, lhe gerava um ódio por inveja. Fosse como fosse, naquela noite, e em várias seguintes, ele simplesmente conheceu alguém com tanto para mostrar que nem sequer sabia exactamente onde tinha ido parar. Ela não dava também tempo aos porquês, tal era a omnipotência daquela luz bem direccionada que carregava. E Gabriel, que se sabia tão parcialmente quebrado como uma estátua antiga, não desconfiava que ao ver-se num amor também por vulnerabilidade, criaria um monstro feito do vício do domínio, de inexplicável fixação sexual e ressentimento pela sua capacidade em ser incapaz de sequer desejar a perfeição.

Sim, Gabriel recordava-se da Paula. Demasiado bem.




sexta-feira, novembro 06, 2009

Acho que era a Mary Schmich que dizia:
"Accept certain inalienable truths:

Prices will rise.
Politicians will philander.
You, too, will get old.


And when you do, you'll fantasize that when you were young,
prices were reasonable,
politicians were noble,
and children respected their elders."


Esta verdade é um ponto de partida para um par de ideias muito claras acerca do status quo daquilo que eu julgava ser um mundo tendente à inclusão, ao respeito pela diferença e à clareza de ideias quanto o que é a vida em sociedade, ou em meu modesto ver, o que deveria ser na óptica dessas mesmas lógicas.

E tendo em conta que a política tem uma carraça agarrada que é a corrupção, os jeitos e arranjos, a falta de sentido de estado e honestidade em todas as facções ideológicas, a verdade é que prefiro, e fico contente, que a franja (ainda) vencedora seja uma que tenha em conta o respeito pelos direitos civis, pela diferença, por aquilo que diverge da chamada "maioria".

Prefiro um Estado de Direito onde a descriminação seja abolida do enquadramento legal, onde a argumentação para sectarizar minorias sejam argumentos boçais e primários como as qualificações de "anormalidade". Prefiro um Estado que tem tem mais consciência do que é estar calçado com outros sapatos, que respeita o que surge normal para uma pessoa numa coisa tão intocável como é aquilo de que e de quem se gosta. Prefiro um Estado que procura incluir e proteger aquilo que é uma realidade tão digna como outra, que dignifica aquilo que faz parte de algo tão estruturante como a organização familiar por laços de afecto e não desconchavadas lógicas nostálgicas agarradas a letras da lei que nada mais fazem que estabelecer uma "tendência" que o mundo provou desajustada. Prefiro um Estado que permita que alguém que sofre de "locked-in Sydrom" possa morrer condignamente.Prefiro um Estado no qual pessoas do mesmo sexo que se amam e como tal (e sou insuspeito para falar porque não acredito minimamente no casamento e sou profundamente heterossexual) desejam solenizar e proteger patrimonialmente os seus escolhidos, o possam fazer, não aceitando esse Estado, e bem, que essas pessoas possam ser descriminadas em razão da sua orientação sexual, que é algo que lhes pertence, lhes é natural e próprio de uma liberdade que deve ser respeitada a todo o custo. Prefiro um Estado que realmente não dá ouvidos a argumentos como "não são normais", ou "põe em risco a família" ou "a continuidade da espécie", que são claramente argumentos vazios, sem sustentação real. Gostava que me explicassem porque raio é que se uma pessoa resolver casar com outra do mesmo sexo, a espécie vai estar em risco? Será que, por força desse casamento, os heterossexuais deixarão de o ser? Ou será que esses mesmos, por um truque mágico estranho, deixam de ter vontade de ter filhos, mesmos que não se casem? Hummm esperem, se calhar acham que o casamento gay vai criar uma espécie de vontade irreprimível que toda a gente mude de orientação sexual, ou que deixe de querer ter filhos, ou pior ainda, um crime de lesa-majestade certamente, que o casamento seja o único método para perpetuar a espécie... (pois, a Manelinha tinha dito um disparate desses, claro...)

A verdade é que prefiro um Estado que respeite, tente incluir e consagrar direitos iguais a quem apenas tem uma diferença de gostos, de opções, na naturalidade de afectos que lhes surge e que é tão digna de respeito como a "normal". Portanto partindo do princípo que (some) politicians will (always) philander, gosto de pensar que se caminha cada vez mais para uma lógica de inclusão, de entendimento, de respeito pela diferença e encontro de pontos de contacto.

Fico feliz por um lado que os conservadores estejam mais uma vez afastados e as suas ideias segregacionistas, e tenho muito medo que cheguemos novamente a um estado de coisas nas quais estas liberdades e garantias sejam vistas como sonegáveis porque alguém acha que o casamento gay vai inexplicavelmente por em causa os outros casamentos, como que por osmose. Tenho muito medo que argumentos como a "anormalidade" ( e nem entremos na religião) sirvam para privar as pessoas de direitos que lhes são devidos e para cuja sonegação não há qualquer justificação possível senão um preconceito já vetusto.

E envergonha-me, sinceramente, pensar que partilho o mundo com pessoas para quem a "ghetização" de situações diferentes da sua, que para o seu modo de vida directamente, e para qualquer outro, não representam qualquer ameaça que seja, seja perfeitamente defensável pela simples incapacidade de pensarem como seria se fossem eles os alvos deste tipo de segregação e desrespeito só porque gostavam de poder casar com uma pessoa do mesmo sexo porque era com ela que queriam dar esse passo de vida, ou porque estavam fartos de ser vegetais deitados a morrer lentamento numa cama.

Para mim a inclusão e o respeito não são nem negociáveis, nem debatíveis, especialmente quando esse debate, para uns, se centra apenas num incómodo e nunca numa justificação factual apenas fantasiada por preconceitos e medos que em nada diferem de descriminações raciais que foram e ainda são uma vergonha no século passado e neste em que vivemos.

Prefiro pensar que se alargam direitos, que incluem pessoas e realidades dignas do chapéu do Estado de Direito.
Mas isso sou eu, e felizmente, uma grande fatia de pessoas.
Bem hajam.

sexta-feira, outubro 30, 2009

A verdade é que a conversa continuou, a reunião foi uma merda – desculpe – daquelas nas quais nada se resolve, à boa maneira da “reunite” portuguesa, mas ainda bem, porque se não tivesse sido o caso, não tinha prestado qualquer atenção. Ela falara comigo como se não houvesse nada de anormal, como se eu fosse mais uma p...essoa num qualquer local. Ao vê-la tamborilar com os dedos no tampo da mesa, enquanto um idiota qualquer tecia grandes elogios ao seu próprio plano de marketing, nem fiz esforço algum para olhar para outro lado. Ela olhava para cima, abrindo e fechando os olhos. Por vezes abria-os demasiado. E estava sempre a soprar naquela farripa de cabelo azulado. Parecia um animal pequeno escondido no escuro a abrir muitos os olhos cada vez que aparecia uma luz. Além disso tinha um sorriso aberto, e o pior, era um sorriso… como dizer-lhe… cruel.
O que me caiu logo no goto.
Ignorei, como tentava ignorar praticamente todas as coisas, ou melhor dizendo, todas as pessoas que queria, mas não conseguia deixar de a ver, de olhar para ela. Coisa estúpida, fixação estúpida, para um tipo com um plano tão bem arranjado. Pueril, ridículo, olhe, invente, deite cá para fora os adjectivos que eu não conseguir. Até porque nada tinha a ver com emoção. Era só uma curiosidade. Uma curiosidade terrível, uma coisa sedenta, até incomodativa. Para mim era novo, e o pior que me podem fazer, ou melhor, dependendo da perspectiva, é colocarem-me perguntas. Como é tão raro ouvir uma que realmente me intrigue, quando isso acontece tenho simplesmente que ir lá ver o que se passa. Um bocado como os portugueses e os acidentes de carro, sabe como é. Fascínio pelo medo, curiosidade pelo sarilho, soma de estupidez. Nada de novo, nada de novo, bem lhe dizia.
A verdade é que ela nos deu o cartão de visita no final da reunião, exibindo cada um dos dentes do sorriso malévolo numa cordialidade que lhe digo, era tão à prova de bala que nem os tipos com os fatos escuros conseguiram levar a mal o cabelo azul. Acho que toda a gente sabia que ela significava problemas, e mantiveram as suas distâncias cordiais. Ainda por cima, ela era boa no que fazia.Ninguém parecia querer muitas misturas. Além disso, era notório que não parecia apertar os parafusos todos. Sei que explica pouco, mas não tenho uma forma melhor de explicar os olhos esbugalhados de quando em vez e aquele sorriso de quem simplesmente não queria saber. Era a plataforma de saltos para uma piscina com a ocasional enguia eléctrica. Tristemente típico...


quinta-feira, outubro 29, 2009

"When you’re used to face the denial of your desires, things get easier.
I usually sense that I don't need to protect myself, but in most cases what one really needs is protection from one self. If there is such a thing as love, it begins with the miserable inability you have copping with your desires, and then that incapability is transformed into a sense of admiration and wanting, that you simply can’t or won't ignore. Falling in love is, at least partially, one’s own fault. We create our loved ones, as much as they show themselves to us, I guess. That’s the wonder of it. To find out how much of our construction is destroyed by the person, and to what extent that makes us love her even more than we fabricated. At this time you either smell the trouble, or get ready for the travel. And your chances are only average. Some say that’s the ride’s rush and what makes it worthwhile. Others are simply more logical and see a path. And, of course, there is luck...
And don't get me started on that one..."


quarta-feira, outubro 28, 2009

Tinha uma ideia concreta acerca do que julgava ser uma atitude normal nas pessoas. Quando sujeitas a uma situação onde estejam outras, ou à formação de grupos, espontâneos ou não, julgava eu que procuravam as afinidades. Concretizando, julgava que as pessoas procuravam preocupar-se com aquilo que as poderia ligar aos outros, do mais frequente e numeroso, ao mais remoto, mas sempre com ênfase na ideia do construtivo, do estabelecimento nem que seja de uma cordialidade mais distante. No fundo, pensar "ora o que é que de bom se pode retirar daqui?"?

No entanto essa ideia é, pelo menos numa parte significativa, um erro. Constato que as pessoas, muitas que vou encontrando pelo menos, concentram-se em encontrar, (pelo menos na mesma dimensão que as empatias embora desconfie que em maior volume), coisas para embirrar, para chatear, para apontar. Fraquezas, desagrados, formas de proferir juízos, defesas de confortos pessoais e conceptuais, you name it. Há um olhar cirúrgico à procura do gajo que manca ou da voz histriónica, ou do que quer que seja. Há uma sôfrega tentativa de ver a merda em cima do bronze, de encontrar a rachadura na parede, de disparar contra o descarado que teve o desplante de correr em direcção à cerca farpada ou mesmo à saída.
Encontro, demasiadas vezes, um esforço realmente pródigo em procurar aquilo com que discordar, e o forjar de dissociações como uma espécie de demarcação quase prazenteira daquilo que "não lhes serve".

Não se procura ver onde se concorda e a partir daí forjar uma ponte possível, mas saber até que ponto aquele gajo me irrita os cornos para saber quando e de que forma o posso despachar. Oh, não tenho qualquer veleidade em pensar que não embirro com ninguém, ou que de repente vesti um sari branco e coloquei óculos redondos. Mas o que sei é que essa não é a questão primordial, ou tento que não seja, a primeira reacção perante as pessoas, até porque calculo que chateio muita gente que me veja pela primeira vez. Mas faz-me de facto muita espécie que de facto o sinónimo de conforto para muitas realidades que vou vendo seja um distanciamento afiado de outras perspectivas. Que a imobilidade, nem que seja apenas de conceptualização mental, passe por cartão de maturidade, por inevitáveis da vida adulta nos quais apenas vejo o definhar de tantos planos felizes.

Não colocando em causa que haja mesmo muita gente que mutuamente se irrite, não entendo isso como posição de princípio ou o cão que pomos para defender o nosso quintal até de qualquer espécie de Primavera que o possa de alguma forma colorir...

Não percebo, ou percebo pouco...


terça-feira, outubro 27, 2009

Muitas vezes não sabemos porque nos importamos. Porque prestamos um pouco mais de atenção nos pormenores. Porque entramos numa sala e reparamos primeiro na sombra ao canto. Porque olhamos não para as gotas da chuva mas o espaço que as intervala. Porque ansiamos pelo hiato entre o estacionar dos ponteiros, pelo segundo antes do mais radioso e simples dos sorrisos. Acho que as ansiedades, as procuras, são desconhecidas em parte.
Como os apetites, descrevem as tendências que são os baixos relevos da personalidade. Julgo, em certa medida, que mesmo correndo o risco de parecer desagradável, tenho uma total incompreensão relativamente a quem não se questiona. A quem nada ocorre senão uma sucessão de dias em que nada os assalta, persegue ou contesta nas ditas normalidades. A quem nada parece estranho, deslocado, "perseguível" ou intrigante. Para quem a originalidade mais parece uma coisa perdida ou uma veleidade de juventude anacrónica.
E por vezes é assim. Tudo é algo que se passa em volta, algo que se observa, algo sem som ou impacto.Até que pé ante pé lá reconhecemos onde está a estrada de Frost e vale a pena dar mais um passinho em ramo verde, por razões que não se sabem, como se desconhece o porquê da necessidade de perguntar, ou a angústia pelo facto disso ser uma necessidade...
Não se sabe de onde vem.
Sabe-se no entanto que nunca se vai.


sexta-feira, outubro 16, 2009



Quando ouço coisas como "eu gosto, eu quero, e por isso tem de ser assim" é como sentir que há gente que realmente crê que se dialoga com o eco. Não existem salvo-condutos em razão da tirania do sentir, nem os quereres constituem imunidade ...vivencial. É prático porque surge como identificação, é simples porque não deixa dúvidas, mas é também, em alguns casos(*), demasiado próximo do egocentrismo ou da auto-preservação a todo o custo. Custo alheio, claro...
E ainda por cima é vox populi, e em casos extremos, significado de beleza superlativa.
(Por alguma razão aquela cena do Henry and June, quando Anais Nin inveja uma vida alheia em caos, me irrita um pedaço, porque, às vezes, a malta simplesmente não sabe o que está a pedir, desejar ou pior, a qualificar como legítimo...)
(*) Para evitar a esperada invectiva por causa das generalizações... alguns, alguns, não todos, han? ok?
Por razões distintas, há muito que não vinha a esta casa.
Sejam elas relativas a trabalho, a vicissitudes várias, a escrita noutras paragens e suportes, a questões pessoais, o "meu diário" foi negligenciado.
Talvez por boa razão, sei lá.
A verdade é que até há umas coisas a debater, mas essencialmente presas a experiências empíricas dos últimos tempos. E o mais curioso, talvez possa pensar que até chega a ser mais ou menos genérico ou "normal", é cada vez se chegar a um menor número de conclusões. Não que eu seja fervorosamente socrático, mas a verdade é que, como discutia no outro dia com alguém, a persistência das perguntas incrementa quanto mais não seja a procura de conhecimentos parcelares que podem não descansar-nos, mas ao menos movimentam-nos.
Também me falaram há pouco tempo sobre sermos ou não boas pessoas. Estarmos ou não em consonância com aquilo que cada um considera a sua parcela humana a partilhar e disseminar. Saber, ou ter a obrigação de saber o que é ser alguém para além do afastamento necessário por choque directo com a exigência.
Dou comigo a fazer exames de consciência, a recrutar as memórias para uma inspecção firme e dura, a perseguir as penalizações de cada uma das opções, ou falta delas, perante os cenários de vida que envolvem outras pessoas, outras realidades, outras formas de ver.
Pesado tudo isso, queimada a pele com a vergonha das claudicações, dos erros, das falhas, sobra também a noção da reconstrução, das tentativas, dos esforços, das dádivas, das descobertas. É tudo balanceado num equilíbrio precário, no qual cada pessoa me surge como uma unidade precária de coisas que funcionam e outras que embatem nas necessárias protecções que constituem a nossa forma de ser mais vulnerável e/ou preciosa.
No fundo serve toda esta reflexão para perceber até que ponto uma predomina sobre a outra, até que ponto a tentativa de fazer melhor não é engolida pelo erro inevitável, a crueldade das naturalidades, o tempo das intenções não feito acção. Serve igualmente para perceber o que serei capaz de fazer sem instruções, ou o que adivinhei com meia dúzia de indícios repartidos entre o desejo de conhecer e a verificação quase antecipada.
E as conclusões a que se chega são imensas.
Chego à conclusão que algumas realidades podem passar, mas outras permanecem. São como organismos latentes que perante a fagulha de qualquer vida reconhecível, funcionam novamente como um organismo competente. Ganham vida e carregam-me com ela, no seu entusiasmo, no reconhecimento das suas vertentes de luz bem como no reconhecimento respeitoso do seu enegrecer. E são raros. Muito raros. Por culpa minha, muito provavelmente.
Tenho muita dificuldade em desculpar-me de algumas coisas. Em aceitar que certos acontecimentos são feitos o normal ondular de qualquer personalidade complexa. Da múltipla palete de cores que pintam minutos dos meus dias, entre tons primários de afectos regados a surpresa, e as mesclas de tons neutros próprios das tristezas que não consigo evitar porque são tanto parte de mim como os dedos que martelam estas teclas. São reflexos, inevitabilidades, combatidas ferozmente como outras sensibilidades, mas que no fim, vencem pelo menos em parte, como as baixas necessárias do conflito interno de cada um.
No fundo, rendo-me perante as persistências de afectos assim solidificados, e entristeço-me com a capacidade que tenho de reunir para resistir ao reconhecimento da sua, cada vez maior, escassez.
Mas em certa medida, correndo o risco de que soe a algo quase auto-promocional, mas se o for, temos pena, a verdade é que ainda há coisas, pessoas, personalidades, gestos, singularidades que persistem como parte do meu edifício afectivo e da forma como tento incessantemente entendê-lo. Em parte é uma estupidez, por outro lado é uma das únicas coisas que impede a totalidade de muitos cinzentos na paleta.
Acho que me sinto feliz por perceber que algumas coisas, "pequenas" realidades, sobrevivem na minha inevitabilidade afectiva, perspectivam-se em teimosa perenidade, e impedem o domínio de uma auto-suficiencia que em si mesma é já muito maior do que eu desejaria.
Atrevo-me a pensar ou a temer o que acontecerá a quem o não tenha, a quem não reúna na mente parcos rostos e vozes perante os triunfos, desgraças, maravilhamentos, desejos de partilha universalizante. A quem não saiba, ainda que não possa ou não lhe seja autorizado, a quem gostaria de contar a sua melhor história. Ou ter vontade de encontrar ouvintes...
Claro está, isto vindo de uma besta reservada, mas no entanto com bons intentos de auto-correcção. Valha-me isso.. acho...



segunda-feira, setembro 14, 2009







E finalmente, antes de entrar nas conclusões(???), falo nos casos de sucesso.

O que são casos de sucesso? Bem, na linha daquilo que talvez tenha moldado o meu discurso nestas coisas, são sucessos na disfuncionalidade, ou seja, pessoas que conheço que conseguiram encontrar nas saus linhas tortas uma continuidade nos balanços, e sobretudo, uma empatia dos seus espaços e falhas.

Concorde ou não com os processos, são formas encontradas de fazer funcionar, relações onde o que salta é a capacidade de fazer alguma coisa como motor da vida diária e não o relato de mais um peso, ou um segundo emprego, que é o que muitas vezes surge do discurso e vivência de muitos casais que vejo.

São casos de sucesso porque encontram uma forma de se sentirem acompanhados sem a sonegação da sua individualidade. Porque arranjam forma de se provocarem e rir, de tornar os insultos da paródia num bom rastilho para a cumplicidade. Casos de sucesso porque por vezes, no meio da incapacidade em agir sempre bem, encontram um qualquer mecanismo para divergir a atenção e manter algo parecido a ressentimento bem ao largo.

São casos de sucesso porque embora pareçam uma sociedade, os membros dormem descaradamente um com o outro, há promiscuidade nas funções, confusão nas responsabilidades, confiança na metodologia necessariamente incompleta que cada um encontra para ser quem é.

São pessoas que misteriosamente percebem que a sua voz interior, a mais esconsa, embaraçosa e primitiva surge como caligrafia fina aos olhos de um qualquer atrevido que não tinha nada que perceber meia dúzia de coisas complicadas. São também aqueles que por vezes não sabem bem o que andam a fazer, metem a pata na poça mesmo no extremo do cuidado. São amigos meus que conseguem descascar a sua parede, mostrar o traço baço e mais feio da estrutura, e sem darem por isso.

Casos de sucesso são a minoria daqueles que conheço. Gostaria de partilhar algumas histórias, mas não são minhas para que o possa fazer. Posso apenas dar algumas ideias genéricas sem que lhes fira a esfera pessoal.

Um deles começou de forma improvável, teve uma separação e um reencontro anos mais tarde. Acho que o mais notável nesse caso foi a percepção de que os caminhos que trilhavam, de alguma forma, continuavam a esbarrar um no outro, pelas mais diversas motivações. Sabem rir-se em conjunto, especialmente das suas disfuncionalidades. Estão cientes do mundo lá fora, da imperfeição do seu e das incapacidades de que padecem. Têm a capacidade de rir, e nunca, mas nunca se furtam a fazer coisas. A diversificar dentro do que podem, a ver em conjunto fenómenos inéditos para eles. Concorde-se ou não, vivem com percepções talvez menos agradáveis e mais realistas no que concerne a uma vivência conjunta. No entanto, há algo ali. Ninguém, incluindo eu, percebe exactamente o que é, mas há alguma coisa que quase se pode tocar. Será amor profundo? Sei lá, nem me atrevo a qualificar. Talvez sim, talvez não, mas o que me parece é que eles se invadem mútua e despudoradamente, e no riso das histórias partilhadas surge o sucesso feito da vontade de as ter vivido assim, e talvez não de outra forma. Há o medo da perda, mas não o terror da posse.


Existem outros (poucos) casos de sucesso. Mas este parece-me o mais significativo porque assenta numa premissa que me parece insofismável. A longevidade do amor é feita de riso e da capacidade de acompanhar. De aceitar talvez coisas menos boas, menor convencionalidade, porque, e eu próprio não estou bem convicto disto, talvez o amor se faça apenas e só de uma priorização nunca totalmente exclusiva. Alguns entendem isto como flirts fora da união, outros como obsessões com o trabalho ou o coleccionismo. Outros com a oscilação entre a solidão e o toque ardente da companhia, como se a saudade funcionasse à guisa de fio de prumo. Sei lá.

Talvez, estranhamente, nos casos de sucesso, aqueles que observo nunca saibam exactamente o que estão a fazer. Perguntam e tropeçam muitas vezes, e ao descobrir seja o que for, continuam a viagem. Sentem que chegam a qualquer lado.

Mas só gente com muita sorte consegue estar tanto tempo a viajar.

Sei lá, só podemos adivinhar o que sucede nesses casos de triunfo. Mas justiça seja feita, ainda que eivados pela raridade, eles acontecem. Nunca sei é exactamente porquê. Por muitas desconfianças que tenha, e palpites, ao não saberem exactamente, não são uma teoria, mas uma hipótese de conhecimento que mais não é que encontrar sempre um passo seguinte no que seja a vivência do Amor.

Seria possível que uma coisa assim não fosse rara?

Pois...

segunda-feira, agosto 31, 2009




4 - Liberdade/Espaço Individual




Este é talvez um dos elementos mais complicados de lograr numa dinâmica relacional. O chamado espaço pessoal, a individualização, o local para respirar e a noção da pessoa que existia antes da relação e a que continua a existir.


E aqui há profundas clivagens. No meu modesto ver, modelos muito diferenciados nesta forma de estar provocam divergências insolúveis, porque vão bater directamente ao elemento necessidade (do outro). Mas também não é exclusivamente assim, e num território onde a racionalidade parece maldita, talvez esta acabassem em certa medida por dar uma ajudita.


Ora vejamos.

Há pessoas que passam literalmente a ser uma para ser uma metade siamesa. Passa a haver algo de incomodativo na individualidade da outra pessoa e ao invés de termos Bonnie and Clyde passa a haver Bonnie a sua lingerie. Brincadeiras à parte, a verdade é que para algumas pessoas, os amigos, os rituais, os hobbies, o espaço onde a pessoa normalmente se manifestava enquanto indivíduo passam a ser contendores, e não é preciso ter uma imaginação muito fértil para determinar onde a coisa vai parar. A ligação ao ciúme é quase óbvia, e não são raras as histórias de pessoas que simplesmente desaparecem quando certo tipo de amor lhes bate à porta. É perniciosa a armadilha, porque quando as coisas não correm bem, e sejamos realistas, ou são ambos assim, ou alguém vai correr para a vedação não tardará muito, e se retorna ao mundo, esse retorno parece uma espécie de prisioneiro de Calais, com a corda ao pescoço a pedir misericórdia ao ambiente que talvez nunca devesse ter deixado.

Parece um erro crasso que a pessoa deixe de ter os seus amigos, deixe de conversar com aqueles melhores amigos, ainda que do sexo oposto, abandone os seus hobbies, ou simplesmente deixe de ter uma parcela do dia ou da vida quotidiana que lhe pertença. Primeiro porque essas pessoas deixam de ter histórias para contar, visões e pequenas singularidades para colocar à discussão, descobertas para trazer, como pequenos segredos que são um prazer infindo quando partilhados com quem quer saber como os nossos olhos viram qualquer pedaço de realidade.

É um erro as pessoas não entenderem que há confidentes, pessoas a quem talvez, se tivermos sorte, podemos mesmo dizer tudo. E não há nunca possibilidade de partilha absoluta seja com quem for, mas especialmente com a pessoa de quem se gosta realmente. Porque ninguém tem capacidade de ver ninguém na integralidade, em meu ver, e há coisas que só o afecto intenso mas unicamente fraternal pode assimilar. Claro que, na outra medida, há coisas que só o destinatário do amor terá acesso, e essas muito menos susceptíveis de mimetizar por aí, mas que diabo, há na vida de cada, pelo menos na minha há, poucas pessoas que sabem tudo o que há de escabroso, de talvez menos nobre, menos puro, e podem evitar a torção do nariz.

E poderia continuar, mas a verdade é que a sonegação do espaço pessoal encurrala uns, isola outros, mas em muitos casos, ao fim de algum tempo, acicata o pior que a reacção de liberdade tem. E quando ela surge, acaba por levar muita coisa à frente. Normalmente leva. Eu ouço muitas pessoas desejarem um pedaço de tempo para si, para aquelas coisas que talvez sejam mesmo necessárias no silêncio da auto-conversa. E esse desejo é uma espécie quase de reconhecimento de um peso na vivência. O tom de voz é de um mal necessário, e sinceramente, o amor não pode ser um mal necessário, nem necessariamente mau. Picos e vales sim senhor, mas algo parecido com Estrasburgo, onde não se vê um relevo a quilómetros, bem... para quem não se cansa da pasteleira...acho que está bem...

Os amigos não tiram pedaço.
Quando conheceram as pessoas, já gostavam dos seus hobbies e interesses. Pelo menos toleravam a ponto de não interferir quer na dinâmica relacional quer na predominancia daquilo que era amável na pessoa. De um momento para a o outro achar que o mundo acaba porque o vórtice relacional tudo suga, é, me meu modesto ver, receita para a desgraça e em muitos casos, o primeiro calhau no edifício da separação.


quarta-feira, agosto 26, 2009



3 - O Monstro dos Olhos Verdes
Tomando em consideração os potenciais problemas e as reacções próprias dos estados emocionais/afectivos, o monstro de olhos verdes, vulgo ciúme é talvez dos mais problemáticos. E prende-se claramente com o contraste entre a reacção emocional e a racionalização possível do fenómeno da infidelidade, seja ela efectiva ou potencial.
O grande problema é que o ciúme, pelo que tenho testemunha e mesmo experienciado, assenta muito mais na potencialidade, alimentada a álcool por questões de insegurança, por um lado, e por uma (sinistra em meu ver) tendência para a posse, por outro.
Vamos lá analisar o ciúme à lupa. Enquanto fenómeno, antes de o ver como conceito.
Como surge?
A -Bem, falando de ciumes do presente, ama-se alguém, e este:
1 - É abordado ou aliciado por alguém com interesse nela(e);
2 - Aborda ou age para com outro alguém com manifesto interesse nessa pessoa;
3 - Nem uma coisa nem outra mas, por encanto, brilho, inteligência, whatever, chama a atenção;
4 - É amado de uma tal forma descompensada que qualquer movimento de individualidade é visto como desinteresse e ameaça de perda;
5 - Mais 10.000 razões que alguém encontrará para se sentir desconfortável com algo que julga ver no outro e que sustenta um desinteresse ou interesse partilhado, e como se sabe, quem não se sente não é filho de boa gente.
Ora vamos lá desmontar esta coisa na medida do possível...
A dor subjacente ao ciúme é perfeitamente compreensível (embora o ciúme seja defensável por muitos precisamente por não ter nada de racional), porque é emocional. Porque se sente uma perda e invasão e isso doerá porque no amor há esta coisa do uno e indivisível.
Mas a verdade é que o mesmo é também potenciado, ora que diabo! E no drama subjacente ao ciúme vivem muitas existências emocionais que, quando não têm chatices, ora pois toca lá a procurá-las, exercendo a materialidade do ciúme em todo o seu explendor. Faca e alguidar meus amigos, baba e ranho, cobrança e drama, que é isso que a malta gosta.
Ora o que digo relativamente a isso é o seguinte. O ciúme, bem como a posse, são inúteis. Se a pessoa quiser, se o sentir, se a determinação da vontade for mais longe que qualquer outra coisa, o toque acontece, ou o pensamento ilumina-se e a vontade surge. E o que podemos fazer quanto a isso? A mesma coisa que lograremos quando se tenta agarrar o vento. Nada.
O ciúme sentido parece-me legítimo,e um bom sentido de humor resolve muito mais questões de ciumeira que pratos partidos. Mas não há como negar o apertar das entranhas, o mal estar, aquela sensação que quase parece uma combinação de sabores que nunca se devem misturar, como chocolate e peixe cozido. Algo não funciona, parece que deixa o corpo ligado à corrente, e o incómodo pode ir mesmo à náusea. Sente-se e pode manifestar-se, mas enquanto sentimento, enquanto parte incindível do escorregar agridoce e avassalador que é o facto de se amar alguém.
Coisa diversa é o ciúme/posse, a coisa patológica que julga que pelo controlo e o coartar de uma dimensão individual se leva a água ao moinho. Algo que se apoia numa soberba inaceitável, onde alguém se sente mal não porque algo acontece ou pode acontecer, mas porque aquilo que lhes pertence tem um código de regras não escritas para cumprir. Parece quase uma cartilha, que normalmente se define por uma dualidade paradoxal, ou seja, quanto mais apertada é a malha menos segura qualquer peixe que seja.
Neste caso o ciúme está muito ligado à possessividade, e é a ideia de que as pessoas não poderão ter amigos ou rituais fora do casal que muitas vezes leva á saturação de um deles, ou de ambos. O ciúme assim defino como o ciume praticado, chiça, diria mesmo exercitado, e têm um aroma a drama tão caro a pessoas que, no meu modesto ver, confundem amor com direito de propriedade. E será que não surge como evidente que controlar as pessoas contra sua vontade não produz resultados? Será que não é óbvio que algo que surja na consequência de alguém ser obrigado a fazer alguma coisa, não terá qualquer valor? Amar não é liberdade para se querer fazer algo por outrém? Eu vou mais longe ainda - que gosto tem a ilusão de rendição ao controlo? E a pessoa que aceda a esse controlo se calhar fá-lo-á por amor, por medo, por insegurança, ou simplesmente durante algum tempo e depois estoira, o que a mim me parece a única coisa sã a fazer, mas isto sou eu...
Há, infelizmente, patologias que até derivam em violência, escudadas num amor violento e passional, mas não passam disso mesmo, patologias que na cabeça de pessoas menos equilibradas fazem com que o amor pareça quase um cheque em branco para todo o tipo de exercícios de morte à individualidade. Ironia das ironias, individualidade essa que foi o que cativou o "possuidor".
É um absoluto clichê, mas a verdade já lá dizia o Sting, é que é na liberdade (eu até imagino um imperativo categórico emocional, vejam lá isto) que as pessoas mais se dedicam. É sendo livres que optamos pelas determinações e tirania agridoce do que o próprio sente e se sente compelido a fazer por outro.
O controlo, a posse, a ciumeira praticada em histeria dramática, a desconfiança, o senso de propriedade são, também eles, uma das principais causas de separação ou quebra de laços, ou pior, de gangrenas relacionais por comodismo ou medo.
B - Depois existem os ciúmes do passado, que no meu modesto ver é uma idiotice pegada, pelo que transcreverei aqui o que já disse sobre o assunto:
"Peço antecipadamente desculpa pelas susceptibilidades que possa vir a ferir, mas a ideia de ciúmes do passado parece-me uma perfeita parvoíce. Bem, já o conceito clássico de ciúmes não me é muito simpático, mas adiante. A ideia de que alguém pode andar ou ficar inquieto por causa de alguém que já existiu na vida da pessoa com quem está parece-me claramente ideias de quem tem demasiado tempo nas mãos, está cansado de estar bem e precisa de arranjar sarna para se coçar.A razão pela qual alguém anda inquieto por alguém que já não é factor, é coisa que me esgota qualquer capacidade para argumentação racional.
E depois poder-se-ia dizer que o medo é daquela pessoa, de um artista qualquer que supostamente marcou a pessoa indelevelmente... mas não... normalmente esta patologia estende-se a toda e qualquer alminha que alguma vez se tenha aproximado e tocado na parceira(o), como se a coisa a qualquer momento pudesse repristinar. É competir com fantasmas, arranjar conflitos com base em conflitos que já acabaram, assim como ser-se um cossaco em plena 2ª guerra mundial.
Se é suposto funcionar como uma qualquer espécie de declaração indirecta de amor, pois, sem mais comentários.Os ciúmes do passado são um mecanismo quase prepotente, com pitadas de uma sobranceria estranha, já que se age como se o mundo só existisse a partir do momento em que o ciumento retroactivo tivesse entrado em cena. E, que diabo, presunção e água benta, cacete...E normalmente essas pessoas, que arranjam redomas em torno da pessoa que as acompanha, acabam por redundar numa única coisa. Ficam a falar sozinhos, e aí sim, com coisas que não existem, mais ou menos aquilo que arranjou a sarilhada que os terá levado até essa solidão superveniente."

terça-feira, agosto 25, 2009




A propósito de um pedido de uma amiga minha relativa a testemunhos que digam respeito a separações, por um lado, ou relações concretizadas e felizes, por outro, calculo que seja mais fácil falar da primeira. E isto porque embora isto possa aborrecer algumas pessoas, a verdade é que são mais frequentes os primeiros fenómenos, talvez um pouco na lógica de que é mais fácil destruir do que construir, mas são precisamente essas as ideias que me assaltam quando penso neste assunto. E é impossível falar dele sem o separar em várias circunstâncias, que vão desde a diferenciação de comportamento na corte quando comparado com o que se tem na relação, a valorização do outro, a auto-valorização, a diferença entre cedência e descaracterização, quem "usa as calças", fidelidade e o seu contrário, ciume, etc, etc etc...

O que faz uma relação bem sucedida?

Primeiro, se alguém alguma vez descobrir e patentear, os lucros do petróleo vão parecer migalhas trituradas perto dos proveitos de tal descoberta. Mas colocando esta premissa de parte, tenho uma ou duas ideias acerca do que, em meu ver, borra a pintura a uma relação, e pode ser aplicável a título de testemunho pessoal assim como produto de observação da quantidade imensa de relações que vejo correntemente a estoirar todos os dias à minha volta.

Comecemos:

1 - Dr. Jeckyl and Mister Hyde - A Corte e a Relação

Das premissas mais importantes, e tendo em conta o que uma amiga uma vez verbalizou de forma muito acertada, é a dificuldade em discernir o que são os comportamentos derivados do encantamento inicial, da real essência da pessoa. Se alguém detesta ballet mas vai com o seu objecto de desejo ao ballet com um sorriso (supostamente convicto) na cara, isto é um aviso de asneirada mais que certa num futuro de convivência.
Claro que estou a hiperbolizar, mas que diabo, a velha ideia de que os opostos se atraem, é, em meu ver, uma falácia. As diferenças devem celebrar-se, mas não devem ser fragmentadoras, porque a sê-lo na essencialidade do que pode ser a vida em comum, vão criar ausências do outro nos espaços que nos são queridos. Convenhamos, ir ver aquele filme ou peça de teatro que nos corta o coração e comove sem a presença da pessoa com quem mais queremos partilhar aquilo porque a dita está mais interessada na novela das sete, e vice-versa, é prelúdio de problemas insolúveis. Se isto se multiplicar por tantas áreas do nosso ser e do outro, o que resta não são compinchas sexualmente atraídos que se alimentam da presença de cada um construindo uma parceria no crime, mas pessoas que talvez nem saibam bem distinguir o que as atraiu em primeiro lugar e o mono (sem ponta de gosto, dirão) que lhes caiu lá em casa passado algum tempo.
O encantamento não pode substituir as atitudes, comportamentos, formas de ser que são próprias da pessoa, porque nem mesmo o elenco do CATS representou um papel eternamente, e cedo ou tarde ambas as pessoas poderão sentir-se defraudadas, e aí o melhor mesmo é aliciar o animal da sua miséria.
É por isto que na fase do encantamento há deuses(as) sexuais que passado algum tempo seriam envergonhados(as) pelo mais analmente retentivo dos vitorianos, "party animals" que afinal mudam (apenas!!!) a primeira parte da expressão composta para sofá, silhuetas saudáveis pque de repente acham que a verdade se encontra no culto da bandalheira, gostos culturais semelhantes ou compatíveis substituidos pela velha expressão "eu nem gostava muito daquela porcaria, mas como tu querias ir...", vegetarianos que até não se importavam de comer carne durante algum tempo, etc, etc, etc...
A corte é uma fase onde as pessoas se devem dar a conhecer. Mas a si próprias, caraças, não a uma espécie de versão enfeitada e quase adaptativa para que o outro seja "caçado". É que para muitos, infelizmente, a ideia do "já está seguro" é um elemento ferozmente cancerígeno em qualquer espécie de afecto, mas muito pior para o passional ou emocional/amoroso. Pensar que a partir de uma certa altura as pessoas são garantidas é, acima de tudo, uma profunda falta de respeito, mas já lá iremos.
O que vejo, em muitos casos, é que as pessoas acabam por "levar"gato por lebre, porque algumas passam um cheque durante a corte que sabem perfeitamente não ter cobertura. E muitos dos relacionamentos que vejo a rebentar pelas costuras justificam-se precisamente pela incapacidade que a natureza tem de se contrariar sempre ou constantemente.

2 - A Famigerada "Segurança" - A falta de (auto) cuidado

Partindo do princípio que as pessoas até são compatíveis (gostam ambas de recitar falas de episódios do Star Trek de 1986, mas até preferem música diferente mas que não enlouquece mutuamente), surge a relação. E falamos de uma relação, desejavelmente, com uma pessoa que nos tira o ar cada vez que faz aquela malfada piada que julgávamos que ninguém sabia como nos fazia rir, conjugada com aquele vinco muscular nas pernas quando os sapatos de salto alto estao calçados aham, enfim, adiante.
Surge o facto das pessoas até encaixarem (coisa rara nos dias de hoje) e dar-se uma parceria no crime, como disse acima. "Bonnie and Clyde, tu matas eu esfolo, dizemos os dois tomato e não tomatoe, e regularmente lá vamos fazer qualquer coisa que cada um gosta, mas o outro até torce o nariz". Surgem as cedências, as mudanças, o possível equilíbrio de forças, a potenciação do outro pelo orgulho que temos nele em vê-lo como individuo que amamos e admiramos... pois, isto é o desejável, em meu ver.
Mas muitas vezes surge uma outra coisa - "Agora que já estás (seguro, caçado, preso - riscar o que não interessa) vamos lá trocar o fio dental pelas cuecas da avó, o cinema francês pelos jogos da bola sejam eles do Benfica ou da Sanjaoanense, o cuidado pessoal pela bandalheira, o calor pela convivência dos rituais necessários, e por aí fora". Entra o monstro feio da negligência, ou pior, dar alguém como garantido. Olhar para aquela pessoa como se o facto dela estar ali fosse semelhante a uma obrigação fiscal e não perceber que é desejável que frequentemente a pessoa tenha ideia da razão pela qual lá foi parar, e mais importante ainda, porque é bom lá continuar.
Das coisas que mais me agastam são os olhares pesados das pessoas, a ideia de que quando estão numa relação, aquilo surge quase como uma espécie de fardo e não aquilo que é - algo para melhorar e abrilhantar a vida. Encolhe-se os ombros e acha-se normal, porque afinal, o que interessa é, aparentemente, a entrada no estado relacional. Se uma vez lá dentro aquilo funciona, que diabo, quem é que tem tempo para pensar nisso com os filhos, as compras, as varizes da sogra, a lesão do Liedson e as contas para pagar? Pois, poucos têm, e passado algum tempo está dentro de casa ou de uma relação um estranho que quase não conseguimos reconhecer debaixo de tantas camadas de descaracterização trazidas pelo "conforto", a "segurança" e a "estabilidade" por decreto. Até o sexo é, digamos assim, próprio dos inícios, segundo dizem alguns, e coisa que afinal até nem faz assim tanta falta... medo!
Uma das maiores causadoras de separações é a desatenção. Pelo outro, por si próprio. E o imobilismo que a segurança "traz", porque se acha que o outro tem uma bola de ferro presa ao pé. É o sexo que já não há, o riso que já não se provoca, a brincadeira que já não se procura, o cuidado com o corpo que já não se tem, os interesses e paixões que já não se mantêm, o que se era que já não se é, ou pior, como disse acima, aquilo que se fingiu ser.
Dar-se alguém por garantido é das maiores demonstrações de falta de respeito no seio de uma qualquer relação afectiva, e a taxa de insucesso de tais relações é suficientemente alta para ser auto-demonstrativa. No reino da bandalheira há um indiscutível cheiro a podre, e o que está podre, normalmente está morto.


( A Suivre, como se dizia no final dos episódios do Tintim, teremos - O Monstro dos olhos Verdes, A liberdade pessoal, Exigência e Desejo, Racional vs Emotivo e claro está, casos de sucesso talvez seguidos de algo de directamente biográfico)

Disclaimer - Esta faixa de DMB será repetida em cada um destes textos porque esta é de facto, uma canção de amor como eu entendo que estas devem ser.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Percebo cada vez mais o que dizia Norman Mailer acerca deste moço...
Neil Gaiman é, nos dias de hoje, um dos meus absolutos favoritos. De American Gods, um pedaço de maravilha...

"I can believe things that are true and I can believe things that aren’t true and I can believe things where nobody knows if they’re true or not. I can believe in Santa Claus and the Easter Bunny and Marilyn Monroe and the Beatles and Elvis and Mister Ed. Listen-I believe that people are perfectible, that knowledge is infinite, that the world is run by secret banking cartels and is visited by aliens on a regular basis, nice ones that look like wrinkledy lemurs and bad ones who mutilate cattle and want our water and our women. I believe that the future sucks and I believe that the future rocks and I believe that one day White Buffalo Woman is going to come back and kick everyone’s ass. I believe that all men are just overgrown boys with deep problems communicating and that the decline in good sex in America is coincident with the decline in drive-in movie theaters from state to state. I believe that all politicians are unprincipled crooks and I still believe that they are better than the alternative. I believe that California is going to sink into the sea when the big one comes, while Florida is going to dissolve into madness and alligators and toxic waste. I believe that antibacterial soap is destroying our resistance to dirt and disease so that one day we’ll all be wiped out by the common cold like the Martians in War of the Worlds. I believe that the greatest poets of the last century were Edith Sitwell and Don Marquis, that jade is dried dragon sperm, and that thousands of years ago in a former life I was a one-armed Siberian shaman. I believe that mankind’s destiny lies in the stars. I believe that candy really did taste better when I was a kid, that it’s aerodynamically impossible for a bumblebee to fly, that light is a wave and a particle, that there’s a cat in a box somewhere who’s alive and dead at the same time (although if they don’t ever open the box to feed it it’ll eventually just be two different kinds of dead), and that there are stars in the universe billions of years older than the universe itself. I believe in a personal god who cares about me and worries and oversees everything I do. I believe in an impersonal god who set the universe in motion and went off to hang with her girlfriends and doesn’t even know that I’m alive. I believe in an empty and godless universe of causal chaos, background noise, and sheer blind luck. I believe that anyone who says that sex is overrated just hasn’t done it properly. I believe that anyone who claims to know what’s going on will lie about the little things too. I believe in absolute honesty and sensible social lies. I believe in a woman’s right to choose, a baby’s right to live, that while all human life is sacred there’s nothing wrong with the death penalty if you can trust the legal system implicitly, and that no one but a moron would ever trust the legal system. I believe that life is a game, that life is a cruel joke, and that life is what happens when you’re alive and that you might as well lie back and enjoy it."



sábado, agosto 01, 2009

Eis que termina a primeira semana... felizmente há mais.
Uma semana tranquila, cheia de sono na praia, uma absoluta vergonha, e não tanta leitura como eu desejaria. Pareço sofrer de narcolepsia, talvez em plena retribuição por demasiados meses a dormir mal e porcamente.
A praia é um actividade em si, como se sabe. Ao fim do dia, quando o calor do fim de sol se instala e se prepara o banho, há uma noção de ter feito algo. É aquela moinha deliciosa que a praia deixa, e a antevisão de um duche e comer algo para depois ir desmiolar mais um bocadito para algum lugar onde tantos outros fazem a mesma coisa.
É engraçado encontrar algumas pessoas, conhecer outras. Reencontrar ainda as palavras de mais algumas, sentir o crescendo da saudade calorosa que as viagens, assentes na necessidade de ir porque depois é tão necessário regressar. E bom, diga-se.
A pele escurece, o físico acorda de mais de um ano das suas rotinas escondidas no Inverno e na falta de tempo. O descanso parece, afinal, uma sessão de afinação instrumental.
É, como todos aqueles períodos em que acabamos por nos afastar dos locais de pertença, permite pensar.
Mala às costas, mais do que locais, são tempos para ver pessoas, para ver histórias acerca das passagens do tempo, e congratular o que de laço, seja ele qual for, terá ficado.

Numa nota mais jornalística, arranjei uma ligeira alergia nos olhos devido ao facto de terem colocado o campo de basquet na zona mais ventosa da praia. Em madeira, sem aderência. É circo, como imaginam. Mas ainda sabe muito bem conseguir mexer-me, ainda que o joelho proteste levemente em algumas ocasiões. A alegria do movimento ainda continua a ser uma das melhores coisas a experimentar.
As sardinhas de ontem estavam divinais, e como dizia um amigo meu, são a denúncia em termos de paladar do que é o Verão e tudo o que implica.
Há uma invasão de vendedores ambulantes de óculos, canetas e mala de marca, contrafeitas sabe-se lá onde, e os amantes de bolas de Berlim ainda as comem secas, não importa os protestos.

Ainda não há fotografias. Mas não demorará muito, espero.

Until then, see you soon...

quarta-feira, julho 29, 2009


Bem, é cedo, mas o calor não permite grandes veleidades em termos de sono matinal. Valem as sestas debaixo do chaéu de sol, depois das estiradas de letras entrecortadas com banhos repetidos, porque como já disse, está um calor de cacete.
As férias são de facto a melhor forma de cumprir as ordens dos médicos. E sobretudo quando existe a capacidade de parar, de sentir que o neurónio não quer mesmo mexer. Claro que não dura o dia todo,, nem nada que se pareça, e o bichinho começa logo a perguntar onde se vai a seguir, mas basicamente a areia branca e o vento levante têm ajudado.
O Algarve está cheio, mas é curioso ver como as pessoas evitam os restaurantes. Há mais lancheiras, mais arcas, e sobretudo, parece que a Cofidis se anda a sair menos bem nos empréstimos para férias.
A luz e o cheiro do Sul continuam os mesmos e incomparáveis. A cerveja nunca esteve tão boa, mas também acho que sinto isso todos os anos em que me encontro com ela sob o sol.
O sol traz um ar saudável. E é vê-lo por toda a parte, especialmente nos joggers que palmilham o passeio da Marina de Portimão, empurrados pelo mp3 e o modelito da estação adequado, onde a sapatilha combina com a braçadeira do dito cantante. Eu vou-me arrastando no campo de basquet colocado junto à praia, que em teoria é muma excelente ideia, não tivessem escolhido um piso de madeira que mais parece coberto de sebo, tal é a falta de aderência. Mas a malta diverte-se, e é o que interessa.
A noite é uma passerelle, e lá vai dando para observar e rir um bocadito. É caso para dizer que a saúde ganha no dia transpõe-se para a noite. E andam agora na moda, ou pelo menos farto-me de ver, os calções de ganga, especialmente uns vertente cueca alta, que embora fiquem bem numa elite restrita de abençoadas pela natureza, são perigosos para algumas mais audazes, cujos espelhos devem certamente estar algo foscos... A sério, não é maldade... é apenas um bocadinho de bom senso. A juntar a isso, graça a epidemia das "calças do Aladino", uma espécie de cortina com duas pernas, cujo gancho permite ao mais cataclísmico dos incontinentes usar várias Lindor por baixo. Mal alguém deve ter dito que isto fica bem, e como tal, é ver foragidas das mil e uma noites em barda.
Graças à boa vontade de amigos, estas são férias ausentes de planos. Hoje aqui, amanhã não faço ideia, desde que o fiel Toyota não se importe de me levar às costas.
Hoje um bom amigo faz anos, sendo que assim que fechar isto, lá me vou por a caminho.
Este fim de semana há festa na praia e provavelmente no início da próxima há Isla Mágica.
E sobretudo, nestes dias, reencontrar alguns amigos, que tem sido o mais engraçado, bem vistas as coisas.
See you all soon.