ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, janeiro 30, 2009

It seems the sun is still sleeping
and I'm feeling so lonely.
Looks like a girl in my sky and bedroom
but don't you worry she's not breathing.

And though your soul's been withered and wisped away.
My grey matter brings me home.

Joe Culver
Olhei para cima, enquanto ela me abraçava, e no céu escuro vi dezenas de planetas. Talvez centenas, de mil cores e feitios, deslocando-se como brinquedos na mão de uma criança incomensurável. O cenário circundante era uma imensa planície de nada, e no meio daqueles planetas que desfilavam num ambiente de beleza radiosa, dois deles permaneciam lado a lado, deslocando-se simetricamente, numa harmonia quase anti natural. As duas esferas eram brancas, com uma mancha negra perfeitamente circular no centro, e moviam-se como dois fantasmas gigantescos, pairando num movimento glorioso. As estrelas que à distância tudo viam, pareciam cintilar reactivamente.
Era a coisa mais bela que alguma vez imaginara poder ver.


quinta-feira, janeiro 29, 2009

Hoje faço 35 anos.
35...
Chiça, dito assim, pergunto-me de onde é que vieram, quem é que lhes deu permissão para se desenharem assim no meu calendário imaginado. Sei que fica bem dizer que não se pensa nisso, mas há um segundinho de pausa necessária, que diabo. 35 anos.
Era uma idade que, quando a observava de outras paragens etárias, associava a um tipo de pessoa diferente daquela que sou, e certamente da que me sinto em algumas coisas. Era uma idade perfeitamente emersa na fase Adulta, ou seja lá o que isso quiser dizer. Aquela idade onde muitas questões estariam já respondidas, e onde a serenidade de outros rituais e formas de estar teriam já aparecido como que por artes mágicas próprias do decorrer do tempo.
Pois, esquece lá isso.
Apesar de 35 anos, sinto que em muitos aspectos vivi bem mais do que isso. Tive a felicidade de ver bem mais coisas do que julgo corresponderem ao B.I.. E lá porque não tenho um fio de cabelo branco na cabeça, isso não me parece prova empírica seja lá do que for. (brincadeira)
Há quem me diga que vi pouco. É justa a inferência. Pelo menos por um lado. Por outro, não concordo com a qualificação, mas as razões são sobejamente conhecidas por aqueles a quem já as apresentei. E por aqui fica essa questão.
Olho para a vida que tenho neste preciso momento, e apercebo-me, como o faço muitas das vezes, que apesar das dificuldades, não posso nem quero queixar-me. Há algo que me tolda o olhar, mas isso faz parte da construção enquanto pessoa. É uma lente com que se olha o mundo, e ela varia consoante as pessoas. Mas não há queixa nesse sentido. São é formas de interiorizar, acho eu. Não que isto soe a explicação, mas fica a ideia.
A verdade é que há uma série de situações que de facto poderiam ser melhores, ou menos confusas. Mas perante a matéria que se me apresenta, as pessoas que lá resolvem cruzar o meu caminho, seja de que forma for, e aquilo que vou sempre aprendendo, fica pelo menos a expectativa. E quando há a capacidade de desejar, o resto é mais fácil, calculo eu. E ser grato pelas coisas, embora por vezes elas fiquem cada vez mais reduzidas em número, é a forma de as glorificarmos como merecem.
Não tenho a dita vida normal. Não estou "arranjado" ou "organizado"como me dizem alguns amigos. Não tenho a vida "orientada", como dizem. E sim, pretendo fazer desporto até ao momento em que talvez acabe com o que resta das minhas articulações (e quanto mais me dizem que já passou o tempo, mais energia ganho no sentido contrário - mau feitio, o que é que querem?). Não me interessa minimamente os chamados momentos certos seja para o que for. Só quero ter a sorte de sentir que progrido, e que há pessoas que fazem essas viagens comigo só pelo gozo de poderem aturar uma pequena parcela da imensa e ocasional confusão que sei que sou para aqueles que gostam de mim.
Aos 35, só espero fazer um bocadito menos de asneiras do que fiz ontem, e assim por diante.
E ter a noção de que algumas coisas, num período complicado como é este para tanta gente, estão ao meu dispor. Tenho possibilidade de fazer, trabalhar e criar coisas.
Por isso importa ser grato, e reverter essa energia para as pessoas, na medida em que o possa, ou por mais protegido e muralhado que sei que posso estar. Por muito que algum negrume faça parte integrante de muitas coisas, mas que talvez seja apeans uma forma de as distinguir ainda mais.
Importa é fazer alguma coisa. Querer. Ir em alguma direcção. Sentir que as coisas nos tocam, transformam e direccionam.
Há que fazer alguma coisa. Tentar sempre.
35 Invernos.
E há tanto para ver...
Obrigado.



quarta-feira, janeiro 28, 2009

Disclaimer:
Este é um post longo, portanto as poucas e gentis almas que por aqui passam talvez queiram seguir adiante.


REVOLUTIONARY ROAD

Eram nove e meia quando entrei no cinema ontem. Sabia que ia ver um filme de SAM MENDES, o homem que realizou o filme da minha vida, e por inerência um dos momentos experienciais mais importantes da mesmas. Seria desonesto dizer que as expectativas não eram altas, embora goste de pensar que tenho juízo suficiente para saber que não haverá, para mim, outro American Beauty. Tal percepção coloca as coisas nas suas devidas proporções, julgo eu.
Após duas ou três apresentações, eis que o filme começa. E começa com uma cena de multidão absolutamente fantástica, acompanhada por aquilo que provocaria o meu primeiro sorriso de entusiasmo. A banda sonora é do meu "amigo" Thomas Newman, o mesmo que compôs a música que podem ouvir cada vez que se abre esta página. E, como sempre, é de excelência. Ouvir a música deste senhor em filmes assemelha-se sempre como o reencontro com um velho amigo. Não um tipo que se conheceu em tempos, mas aquele amigo que realmente se pode qualificar como tal, e cuja visão nos enche de pertença e calor.
Não vou detalhar o percurso da história, mas dizer apenas que é um filme belo, espantosamente bem filmado (o plano de Winslet à janela, quase no desenlace, é de tirar a respiração - diria que Mendes manuseia a filmagem da cor vermelha com um gosto e acerto para além do que é para mim definível), mas é também das obras mais duras e violentas que tenho memória de visionar nos últimos anos. É de uma desolação tão pungente que me perturbou, e cuja perturbação se prolonga muito para além do tempo do filme. Perturbou-me ao ponto de me silenciar após a sessão, coisa que poucos filmes conseguiram fazer até hoje. E perturbou-me porque a violência é constituída, pelo menos nesta metáfora realista, pelo juízo conformador de tudo aquilo que pode circundar-nos. É feito pela comodidade dos pensamentos, pela constricção do suposto adequado, pela cumplicidade criminosa levada a cabo pelos provedores da chamada "maturidade" em vida social. A violência ali expressa é construída por várias armaduras forjadas como resistência senão à verdade, pelo menos a uma série de perguntas tão complicadas como inevitáveis. É, em certa medida, a cumplicidade na morte pelo menos do desejo da diferença, coisa que vi maravilhosamente expressa em "Virgin Suicides", de Sophia Copolla, onde a morte das meninas Lisbon é patrocinada por todo um movimento de conformismo e aceitação por um estado de coisas "conveniente" ou "adequado".
Como diria Stephen King "(...) Someone had make a break for the fence and had to be shot down, that is all. Once the escaped was foiled and the company of prisioners was once again assembled, things just got right back to normal..." No fundo este filme fala, entre muitas outras coisas, de uma das piores formas de crueldade existentes. Aquela que assenta no decorrer quotidiano das nossas vidas, pé ante pé, emersa numa prece para que não seja audível fora de paredes. Fala da inexplicável incapacidade de muitas vezes ser preciso que os reputadamente malucos cuspam cá para fora o que realmente se passa, sejam eles protegidos ou não pela antiga imunidade que se dava aos bobos da corte. Que, claro está, nunca eram eles...
(À guisa de provocação ao Sr. Pascal Noe, talvez não seja preciso partir a fronha da Monicca Belluci no pavimento ou entrar em clubes sadomaso com estintores para que a violência seja eficaz - sim, odiei o "Irreversível" - acho um filme detestável, gratuito, e armado ao pingarelho, mas como todos sabemos, as opiniões valem o que valem)

Winslet e DiCaprio estão irrepreensíveis, mas o filme é dela.
Com a indelével marca do teatro, de onde é originário, Mendes constrói um filme de diálogos, como muitos "close-ups", onde os rostos não têm maquilhagem e tudo é composto e descomposto ao mesmo tempo. Mas é também um filme de imagens, de cores, de composição. Um filmes de transformações subtis porque terríveis, de explosões e contenções.
Uma última nota vai para um fenómeno que me deixou, acima de tudo, perplexo.
Estamos perante um filme intensíssimo, feroz, que morde com dentes farpados e abana, como um cão faria a outro mais pequeno. E no entanto, grande parte da sala onde estava ria constantemente em pedaços do filme que eram, para dizer o mínimo, excruciantes. E o mais assustador naquele riso era pensar que aquelas pessoas achavam aquilo engraçado. Como se aquilo que fosse ali retratado se tratasse, efectivamente, de uma maluquice. Era um riso jocoso, idiota, não sei em alguns casos próprio de um nervosismo mal direccionado, mas não obstante um riso preocupante. Era um riso condescendente, aparentemente próprio das arrumações irrepreensíveis e eficazes que muitos provavelmente acham que caracterizam as suas vidas. Se assim for, então este filme deveria ser ainda mais impressionante, pelo contraste e medo que instila a quem por ali, felizmente, não passa. Mas eu cá tenho outras ideias, que guardarei para mim...
Em suma, se puderem, dirijam-se ao cinema e vejam este REVOLUTIONARY ROAD.









terça-feira, janeiro 27, 2009

Não sei qual a mais usada, aquela que mais vezes é repetida até á exaustão.

Se o massacrado "Carpe Diem" ou a metáfora sobre calhaus e castelos do Fernando Pessoa.

"A thing of beauty is a joy forever..."

John Keats


Catherine Élise "Cate" Blanchett nasceu em 1969, no mesmo dia que a minha mãe, a 14 de Maio.

Trata-se de uma actriz que sempre segui com atenção, seja na pele de Galadriel ou no pouco renomado The Gift", onde a sua beleza sai incontida mesmo por detrás da roupa de sopeira do Louisiana. Do talento então, não se fala. Basta pensar na sua máscara, quando se transformou numa espécie de representação adrógina de Bob Dylan, ou da sua fantástica Katherine Hepburn, às voltas com o Hughes de DiCaprio, ou ainda da sua Rainha Virgem. É uma mulher belíssima, e com uma versatilidade espantosa, que recordo no seu breve mas arrepiante papel da terrível Petal na versão cinematográfica de "The Shipping News".

Mas conforme me havia dito uma amiga, que viu o filme antes de mim, Fincher fez-lhe qualquer coisa. Não sei se há dez quilos de maquilhagem, e sinceramente não quero saber, mas no simultaneamente duro e ternurento "The curious case of Benjamin Button", Blanchett está belíssima. Está tão bonita que até chateia. Perde-se na própria descrição que faz da linha necessária para a dança. É preciso respirar fundo para perceber a imensidão daquilo que se projecta dela. É como estar ali alguém que se tem dificuldade em perceber que existe.


Ao vê-la neste filme, recordo a sensação que talvez esteja por trás das palavras de Eugenides quando adaptadas por Sophia Copolla, no seu magnífico "Suicídios Virgens", as quais aqui reproduzo:


"We knew the girls were really women in disguise, that they understood love, and even death, and that our job was merely to create the noise that seemed to fascinate them."



Há algo de irreal nesta mulher, neste filme em particular. Surge como se de repente o realizador ou o director de fotografia tivessem resolvido criar um quadro cuja perenidade se parece conduzir a uma ideia de referência. Ecoa uma expressão da beleza na simplicidade em que se pode traduzir a sua capacidade para ser universal. Como algo que não se pode tocar, pelo medo de qualquer consequente evanescência. Como nunca se pode chegar demasiado perto de algo quase perfeito, porque necessariamente tememos retirar-lhe essa característica.



Acerca do filme...


O filme em si é belo e igualmente contundente.

Acho que expressa bem a mistura necessária entre o optimismo e o medo da velhice, do passar do tempo, da capacidade de, por um lado, aproveitar a dádiva do mundo, e por outro, sentir a que ponto o temor da perda pode chegar.

É um filme optimista, mas também muito duro em algumas das suas premissas. Talvez por isso surja como uma alegoria plena de real onde temos de conseguir fazer a magia de cada dia o melhor que conseguirmos.

Não sei se foi coincidência vê-lo a menos de uma semana de fazer 35 anos de idade.

Mas é sempre bom pensar, repensar e reordenar, mesmo que o máximo que consigamos é embasbacamo-nos com um instante de gloriosa imortalidade, e simplesmente esperar para ver o que há na estrada menos pisada de Frost.


Blanchett, mantém o cabelo ruivo.

Assenta-te definitivamente.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

ACCEPTANCE

When the spent sun throws up its rays on cloud
And goes down burning into the gulf below,
No voice in nature is heard to cry aloud
At what has happened.
Birds, at least must know
It is the change to darkness in the sky.
Murmuring something quiet in her breast,
One bird begins to close a faded eye;
Or overtaken too far from his nest,
Hurrying low above the grove, some waif
Swoops just in time to his remembered tree.
At most he thinks or twitters softly, 'Safe!
Now let the night be dark for all of me.
Let the night bee too dark for me to see
Into the future. Let what will be, be.'

Robert Frost
Certa dose de culpa é medida necessária da consciência das coisas.
Não deve ser paralisante, assim como não deve dar toda a cor ao cenário.
Mas a auto-consciência existe, morde com dentes farpados e entrelaçados, como um tubarão tigre, e deixa-nos à mercê da imaginação hipotética dos nossos destinos.
E custa muito ir tentando, com cuidado, e ainda assim ouvir o tinir dos estilhaços.
E ainda assim, esperar.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Cantado pela Cat Power ou a Fionna Apple, assim de mansinho, ao ouvido, e pronto, está encontrada a definição. . .


Where are you going?
With your long face pulling down?
Don't hide away like an ocean,
But you can't see but you can
Smell and the sound of the waves crash down.

I am no Superman
I have no reasons for you
I am no hero, oh that's for sure,
But I do know one thing;
It's where you are is where I belong.
I do know where you go is where
I want to be.

Where are you going?
Where do you go?
Are you looking for answers
To questions under the stars
If along the way,
You are growing weary,
You can rest with me until a brighter day
You're okay.

I am no Superman
I have no answers for you
I am no hero, oh that's for sure,
But I do know one thing;
It's where you are is where I belong.
I do know where you go is where
I want to be.

Where are you going?
Where do you go?
Where do you go?
Where are you going?
Where do you go?

I am no Superman
I have no answers for you
I am no hero, oh that's for sure,
But I do know one thing;
It's where you are is where I belong.
I do know where you go is where
I want to be.
Where are you going?
Where do you go?
And where are you going?

Well, let's go.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Gosto muito de pessoas felizes. Humoradas. Pessoas que têm a capacidade de encontrar algum riso por entre coisas que, por vezes, são de uma carga pessoal e emocional complicadíssima. Gosto daquelas que, quando a vida não lhes apresenta qualquer problema de maior, conseguem sorrir com facilidade e falar pressupondo um sentido de humor valorativo dos conceitos, capaz de brincar com eles, mesmo no plano da ironia.
Gosto das pessoas que conseguem contrabalançar, lá por meios seus que por vezes desafiam lógicas externas, as agruras com as benesses. Daquele equilíbrio que dá profundidade, já que, na minha modesta opinião, a melancolia necessária dos estados alternantes de alma dá a consistência suficiente ao real humor. Há poucas pessoas mais engraçadas que alguém triste com domínio da ironia.
O que eu não gosto é das pessoas felizinhas. Dos patetas alegres. Dos sorrisos onde parece que simplesmente não se passa nada, porque quais borboletitas, lá andam elas e eles, felizes de flor em flor, com um sorriso tão rasgado que me pergunto quando é que cairão todos os dentes que têm na boca.
Irritam-me um bocadito aquelas pessoas que regurgitam máxima(s) latina(s) como o estafadíssimo Carpe Diem (desgraçado do Robin Williams não fazia ideia do que nos ia sair na rifa), que "amam a vida" com sorrisos assim a cair para o oligofrénico.
Nao se julgue no entanto que há aqui alguma coisa de Grinch em tudo isto.
Sinceramente, acho que abrindo ligeiramente os olhos para o que se passa diariamente, é inevitável um contrabalanço entre a necessária dimensão trágica e uma, aí sim, energização maioritária no sentido do alegre, do positivo, do bem humorado.
Por isso gosto das pessoas felizes. Daquelas que reaproveitam os escuros para dar consistência ao colorido. Que sorriem "apesar de", e não por tudo e por nada.
Por isso gosto de pessoas (que tentam e lá vão conseguindo ser a mais das vezes) felizes.
Não tenho, pelo contrário, muita pachorra para os felizinhos...

terça-feira, janeiro 20, 2009


A vulnerabilidade é um pau de dois bicos.
Isso não é novidade para ninguém, calculo.
Mas quando penso nessa dualidade, encontro muitas razões, a maioria delas subjectivas, para as chamadas camadas protectoras que são génese do que muitos designam de personalidade.
Mas, salvo melhor opinião, julgo-os errados. A personalidade é o peitoral por detrás da cota de malha. É a coisa mole e pulsante, aberta a ataques proporcionados pela sua consistência irregular e orgânica, mas que ainda assim, é una.
A personalidade apresenta-se pelas coisas que são importantes, algumas delas sem explicação objectiva para tal. Os recortes de realidade que retalham pelo prazer ou dor, os segredos que ficam connosco porque somos mudos e não desenhamos assim tão bem para mostrar como mundo em formas e conceitos.
As coisas que nos humanizam, que nos tornam humildes, rendidos, onde estamos afiados ao ponto do amor extremo, mas como que sem destinatário isolável. Peças de puzzle de carne onde o mundo começa em tudo o que a circunda.
A personalidade, na medida em que a entendo e a ligo à vulnerabilidade, é a tentação de dar uma volta à chave e deixar a porta à vontade do inquiridor, se o houver. É a medida daquilo que nos pode deitar por terra, mas que uma vez violado, enche-nos da força da experiência, quando sabemos que não pode piorar, e que a falta de entendimento não passa afinal de uma espada de plástico.



segunda-feira, janeiro 19, 2009

Há algo que eu acho tremendamente curioso nos sites ditos de socialização.
Diatribes imensas são lançadas para quem quiser ouvir acerca da ideia subjacente a um catálogo. HI5, Facebook, Wayn e o diabo a quatro, têm como primeiro impacto, caso assim se escolha, e normalmente assim é, a imagem do dito "proprietário".
Seja ela real ou não, lá aparece uma cara, ou um corpo, ou um conceito, mas há a inevitável projecção de uma imagem que desperta a curiosidade. É por algo que se vê que se consegue parar um pouco.
Claro que depois surgem coisas como Nicholas Sparks na lista de livros, e não há nada que valha seja lá que visão nessa altura.
Mas a verdade é que muitas pessoas, que lá colocam alguma coisa porque, e deixemos-nos de coisas, também desejam ser vistas, ainda que por critérios apertadíssimos, depois fazem uma coisa engraçadíssima.
Barram os seus perfis, criando uma espécie de barreira onde o transeunte virtual tem de ir lá bater à porta e pedir permissão para entrar. Baseado em quê?... Na pequena imagem que surge e que pode motivar que se diga algo a alguém nesses termos e através desses meios. Parece engraçado e de alguma forma meio esquizofrénico que quem deseje proteger-se um bocado mais dos incautos, se torne visível apenas pelo meio palmo de cara que tem ou não, ao passo que deixando o perfil aberto, pelo menos alguém pode espreitar a lista de livros, de filmes, e uma ou duas frases que não massacrem pela enésima vez a locução latina que deve fazer parte de mais de 95% dos cursos de auto-ajuda.
Mas quem não tem as suas esquizofrenias, verdade?


Numa altura em que não tenho a certeza de coisa alguma, possuo no entanto uma espécie de percepção que me indica algo muito claro.
A observação do mundo é feita do tempo que nos resta para ele, e ainda que possamos estar afogados nas exigências e entusiasmos do nosso pragmatismo, quando retorno, tenho a noção de que é menor a energia para o pintarralgar de cores neutras ou escuras.
Nos anseios do descanso próprio dos neutros, há uma armadilha terrível, suave e convincente. Como a antecâmara de um repouso.
Felizmente, quando se desliga há sonhos, e no final do repouso a vida renova-se como qualquer alternância de qualquer conceito, sem a qual nada verdadeiramente existe.
Vejamos então.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Dizem que a altura que passou é propícia a fazer determinadas perspectivações. Vidas, mortes, manutenções, lógicas, vivências e desejos. Tudo numa sacola que de alguma forma, passará a constituir-nos na direcção que queremos seguir.
Tendo em conta que poderá surgir alguma questão, como me surgiu por parte de uma pessoa amiga, em termos da escolha da própria foto, ela representa a simultaneidade entre um desarranjo necessário e a continuidade da identidade (perdoem-me a cacafonia). Representa igualmente uma ideia de focagem, de percurso, e sinceramente, de vestir certa pele, já que a qualificação do especimen parece ser feita com base nessa mesma.
Para alguns, por muito que se faça, não chega seja lá o que for. Posso ter vivido três vidas, ou surgir logo depois como um adolescente de mais de trinta anos, viver certas agruras com impacto, para que depois afinal surjam como despiciendas ou banais, ter cuidado para logo depois transformar-me na apologia do descuido e da ignorância pela dimensão alheia. Sinceramente, existem duas hipóteses quando e essa situação, e embora a lógica desejável seja uma espécie de opção entre uma ou outra reacção, a verdade é que reúno as tais duas. Se de alguma forma essa consciência causa dano, porque há um desejo de que o esforço produzisse outro tipo de resultados, entendo que aquele passa quase como que uma espécie de acalmia de consciência, como que artificializando qualquer desejo real e humanizado de de fazer o que possa por outros. E sinceramente, tenho a consciência tranquila, porque afinal de contas a voz interna tem as suas traduções, e não sou católico para ter a culpa arrastada como um grilhão em praça pública. Bem sei que ela nunca me acompanha, mas também há a opção de pegar na porra da bola e simplesmente andar mais rápido, e fazer o que se puder com a outra mão. Ou arranjar um alicate ou um maçarico de solda. Se sou anjo, ou diabo, ou planejador, ou infantil, ou experiente, ou sortudo ou cheio mazelas qualificadas como pequenas mas que bem sei que juntas não o são, não me interessa.
Sei o que me motiva, a génese dos meus afectos, bem como a lógica das minhas intenções, e a necessidade de reagir onde a muitos parece existir estratégia. Sou tão ou mais confuso como o próximo mortal, procuro muitas coisas, a maioria sabendo o que são e algumas não tendo a mínima pista. Sou imperfeito, faço asneirada, tento, erro, tento outra vez , e sei que dou o couro e o cabelo para que seja o melhor possível, porque realmente o plano dos terceiros, dos outros, importa-me.
Portanto é o que temos.
Desejo de evolução, por um lado, e assumpção de imperfeição, rodeada da necessária protecção, porque eu já me dou suficiente porrada interna, "muitóbrigada". E se tiver de mostrar os dentes, temos pena.
Agora há um caminho a seguir. Mas claro, como qualquer pessoa, não perco nunca o desejo de ver, aprender, e se possivel, poder ser surpreso e maravilhado, seja porque forma de toque ou interacção, especialmente se for na relação interdependente entre os meus negros, as minhas luzes, e o intermédio mais soalheiro onde me esforço muito por permanecer. E duvidar desse esforço é algo ao qual nem dou crédito, porque será mais do que injusto, falso ou pretensioso, apenas má informação. Se for possível esclarecimento, ele será feito. Se não, então a desinformação é auto-definida.

Como dizia o Vonnegutt"And so it goes"!


terça-feira, janeiro 06, 2009

Uma querida amiga disse-me há dias que eu estava no auge, o que quer que isso quisesse dizer, e que a partir daí é só descer, cair, sucumbir.
Confesso que hesito em interiorizar esta ideia, perdido algures entre a ideia de que ela possa estar mais certa ainda do que eu a julgo, ou que a resistência que ponho a tal ideia é-me certamente cara e como tal leva-se a contrariar a premissa.
Sinto-me como se tivesse passado por vários tempos de vida, e ao mesmo tempo, parece que ela teima em começar em alguns aspectos. É um sentimento simultaneamente aterrador e entusiasmante, como um qualquer fio da navalha, simplesmente imaginado, ameaçasse cortar e suturar a pele num único movimento. Se não passei, pelo menos vi muito. Aprendi como pude.
A verdade é que o trabalho está simplesmente assoberbante, e se por um lado, afoga-me a consciência numa falta de tempo que embora possa ser dormente, gera reactividade suficiente para me sentir alerta e como que afiado, com um propósito, por outro lado gera uma aceleração para a frente que mais cedo ou mais tarde vai pedir contas. As insónias já começaram, por exemplo.
Mas que se lixe. Nem quero saber. Um pé á frente do outro, uma percepção a seguir à anterior, e já que tenho de ter a herança das milhentas conclusões que são retiradas acerca de mim pelas análises parcelares, então farei o que realmente me der na gana, assertivo ou agressivo como já me chamaram em tempos muito recentes, tentando fazer o máximo que possa por quem possa. Não por consciência, mas por escolha. Porque já que perfilho uma liberdade kantiana, que ela seja uma espécie de tempero entre a minha individualidade e a afeição relativamente a alguns que a espaços mal consigo racionalizar e conter dentro do aceitável.
Faltam-me escrever algumas cartas, e por isso, as minhas escusas aos destinatários que não ignorarão quem são.
Mas é tempo de aceitar alguma (alguma...que piada) imperfeição ao considerá-la inaceitável.
Até onde for possível, grato pelo facto das coisas não serem ainda piores, e ansioso q.b. para que de alguma forma arrisquem a melhorar.


sábado, janeiro 03, 2009

Apesar do Natal ser uma época especial para mim, por motivos aqui já sobejamente discutidos, o fim de ano é algo de inverso e complicado para mim. E este ano, por algumas situações, não é excepção. São círculos e ironias que se apresentam, são eventos que decorrem, são cenários e estados de alma de outros tempos que surgem, e em alguns casos, são igualmente dolorosos conforme a memória que haviam deixado.
Este não é um balanço. É apenas uma constatação. Uma espécie de recta de aceleração para algumas coisas que têm de ser escritas com a ponderação que lhes deve assistir. Umas aqui, outras noutros locais, mas sempre de encontro ao que sucede e ao que se sobrepõe.
A minha fé nas pessoas, como conceito, encontrou uma espécie de encruzilhada. O que não é mau, já que o caminho que por aí vinha era pior que descrença. Apenas uma espécie de pessimismo desconhecedor. Uma assumpção de ignorância que denunciava uma dormência total, dolorosa e indesejável.
Agora surge o benefício da dúvida. Especialmente para de mim para mim.
Vejamos o que sucede, e até que ponto há alguma especialista em demolição por aí...
Alea Jacta Est, já lá dizia o outro...
Até já.