ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

terça-feira, março 31, 2009




Sinceramente, não acho que muitas pessoas sejam complicadas. Acho genuinamente que em muitos casos simplesmente não ouvem. Ou não querem ou vir, o que também é muito legítimo, porque no fundo já existem as vozes internas a recordarem o rosário de asneiras feitas.
Julgo que é nessa falta de audição que existe o ressentimento. Na ausência de um pressentir, na opacidade daquilo que supostamente é retumbante e claro como halogéneo numa mina desactivada. Esse ressentimento cresce e liberta. Liberta porque entre a legitimidade para a surdez e a ausência de códigos destrói qualquer senso de perspectivação relativamente ao que no fundo toda a capacidade de desejar permite esperar, nem ue seja um bocadinho nos minutos de silêncio em que somos mesmo só nós.
Mas e virar a mesa ao contrário? E por ouvir, também imaginar dizer? Talvez em muitos casos muitas pessoas, o proferir seja realmente o velho milagre da escuta activa. Talvez seja o esperanto das formas de estar, ou melhor, de esperar. Talvez seja uma ponte que consiga traduzir aquele velho mas tão eficaz conceito que assenta sempre na diferença feita não por aquilo que quem ouve ou diz saberá, mas pelo que se pode aprestar a ser capaz de saber ou interiorizar.
Contra mim falo quando digo que por vezes há que obviar mais a descoberta alheia. Há toda uma panóplia de mazelas que no desenrolar do "crescimento" nos fragmentam as arestas e nos tornam pouco populares a puzzles mais conhecidos. Mas não há qualquer dúvida na minha mente que as acrimónias que testemunho, os silêncios emburrados, os ressentimentos provocados como claro efeito secundário dos afectos, são uma combinação idiota entre surdez e mudez, que não só rimam foneticamente, mas também nos efeitos que provocam.
Não há a mínima dúvida que associada à parca capacidade de querer perceber, de apanhar os sons contrastantes quando o vento muda de sentido, há também o silêncio, a ausência de código, e a imputabilidade de responsabilidades ao eco desse mesmo silêncio.
E isto não é complicação. É até terrivelmente simples.




terça-feira, março 24, 2009


A teimosia não se limita a trocar argumentos numa altercação, seja ela vocabular ou não. Existem persistências em cada um de nós que são muito simplesmente diálogos internos com as nossas noções de estabilidade, e lá está, teimosia.
Essas persistências são, afinal, irredutibilidades e incapacidades, e, sinceramente, acho que toda a gente as tem. Eu tenho-as, e reconheço-as, quando tenho essa oportunidade, naqueles que se deixam ver um bocadinho mais.
Claro que há burros velhos que não aprendem línguas, ou por vezes, nem sequer a soletrar. E convivemos com eles na medida em que se fazem entender na medida em que queremos saber o que dizem, o que trazem consigo. E no medo que tenho, do que essas persistências contêm de nocivo para eles, tento de alguma forma dizer algo não se aparente tanto com um histriónico zurrar. O ruído ensurdece-os, e no meio dele, posso perder a capacidade de lhes dizer do amor que lhes tenho, da pequena quota de pertença que lhes é devida, ainda que eles acabem por não sabê-lo nunca muito bem. E de ajudar, claro, ou ser sequer útil...
São, como em tudo, segredos e esperanças que temos.
Como se calhar espero que eventualmente tenham relativamente a mim, a nós, a todos.
Falei há uns dias com um amigo, e aquilo que discutimos acabou por ser talvez uma evidência, mas nem por isso me surgiu como menos pertinente. Embora calcule que muita gente terá dito acerca disto em todos os momentos da própria história, ou da história de outros, se forem contadores de histórias, a verdade é que esta é toda uma conjuntura na qual se torna difícil clarificar um caminho nos passos do dia a dia.
A máxima "ser feliz", que reluz como um daqueles neos mauzinhos de beira de estrada, está perfeitamente evidenciado em cada dia, em muitas das coisas que supostamente nos deveriam dar essa pista para tirar o peso ou simplesmente sorrir despreocupadamente. Já anteriormente fiquei perplexo com aquelas pessoas que simplesmente sorriem com todos os dentes que têm, e vociferam aos sete ventos que a vida é muito boa, e que são absolutamente felizes.
Sobretudo, espancam o velho brocardo latino oriundo de um filme muito melhor que a frase que dele sobreviveu como uma praga.
No fundo surge-me apenas uma inveja inquisitiva, sem malícia, acho eu. Porque por um lado pergunto-me qual o truque, a panaceia, os passos de cada dia para que isso seja possível. Acho que a pista mais honesta que tive nos últimos tempos foi o fantástico filme de Mike Leigh (Happy Go Lucky - a nãoi perder) e a desarmante (sim, irritante também a espaços) atitude da protagonista, a luminosa Poppy. Há nesse personagem, algo que me ajuda muito a relativizar as coisas, a colocar internamente os pesos onde os mesmos devem estar, e aceitar no meio de uma gratidão necessária, a inexistência daquilo que poderia ser muito pior.
E no entanto, continua a mesma ideia. Num contexto como este, em que ligar a televisão ou abrir os matutinos lança um inegável rasto de medo e incerteza, ou no qual as traves aparentemente inabaláveis de algumas pessoas são simplesmente desfeitas nas suas compreensíveis dúvidas e fragilidades, ou onde até os pais são seres humanos e falhos por muito que andemos toda uma vida a julgar o contrário (imaginem uma coisa destas...), tenho algum pudor em alvitrar sentenças de felicidade, de feliz relativismo. Não porque não queira, ou porque não inveje aqueles sorrisos de Poppy espalhados por pessoas que realmente conseguem desligar o interruptor e saltitar de flor em flor na Primavera. Que andam como se tivessem uma gabardine contra o frio fora de época.
E no entanto celebro essa diversidade, assim como os risos sinceros nos dias de sol como este, tentando infectar-me de tal percepção, ou saltar com tal ausência de peso.
Ainda que, em dias complexos, nos quais muitas pessoas que conheço simplesmente se debatem com uma louca alternância entre os diferentes esgares que lhes sulcam o rosto, possa apreciar as passagens dos dias sem perder a noção da expectativa, encontro-me um curioso. Genuinamente curioso relativamente à formula dos sorrisos persistentes perante uma montanha russa confusa e colorida como são os tempos correntes.
"Carpe Diem", dizem eles.
Agora que tal explicar à malta como é que se faz isso todos os dias?


sexta-feira, março 20, 2009


Julgo que normalmente se mede a vulnerabilidade, ou o receio dos impactos dos outros, por aquilo que podem aportar para a nossa esfera. Eu sempre pensei que o receio poderia ser por aquilo que os outros pudessem trazer ou fazer. Que a vulnerabilidade e os perigos inerentes se expressassem naquilo do qual que eu teria necessidade de me proteger, vindo de fora.
Mas o conceito não se esgota aí.
Bebendo uma disciplina base ao que disse um dos mestres
((...)You may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it(...), para mim o conceito parece-me de clarificação fácil. Lançar a mão a alguém na concomitância da revelação do que estraçalha, do que é tão pessoal que equivale a mostrar onde estão os alicerces carcomidos pela ferrugem, entre outras coisas, é tão doloroso como o que pode vir de fora em jeito de agressão. Abrir em porta é um conceito que em si pode revestir-se de uma tal inutilidade perante o meu observador ou receptor, se preferirem, que é uma possível fonte de mágoa e vergonha por si mesma. O acto de contar é como arrancar uma crosta ou uma costura, por um lado, e a exposição é sempre vestida a dádiva mesmo quando não tenho o direito de a considerar como tal. E é essa percepção dessa falta de legitimidade que arde como álcóol, explicando assim a razão pela qual a solidão do que verdadeiramente nos constitui, do que me constitui (para não generalizar), por vezes não tem outra alternativa senão ficar onde está.
Sem grandes dramatismos, acho que se trata unicamente de um pragmatismo claro e a beleza da recuperação na noção de causa-efeito.
Bons dias!









terça-feira, março 17, 2009

"Acho que era justo dizer que estávamos ambos a fazer uma cedência bastante complicada. Ela pelos seus motivos, eu porque dificilmente me interessava por algo durante muito tempo. Embora tivesse nascido antes, e por sinal, retroagido ao momento em que ela me dera a porra do bloco para escrever, naquele instante forjou-se uma cumplicidade negligente e involuntária. Esquecêramo-nos ambos das armaduras. Nadávamos nus à noite e a água não estava minimamente fria."

in - As Órbitas - 2006
Recuperar velhos textos é uma aldrabice, mas perante aquilo que parece acertado, para quê inventar?
"A dor não é mitigável. Quando é real é bruta, incontida. É um dente farpado da realidade, cravado numa infecção envelhecida. A dor aparece sempre injusta. Aparece como o reflexo de uma desordenação do estado natural de tudo. Escapa ao entendimento por ser uma imaterialidade constituída por um mau estar. Uma sensação.A dor é sempre uma via dual. Alguém é sempre responsável e alguém responsabilizado. A dor real é o conjunto de todos os segundos de solidão concentrada num esgar de mal-estar produzido por um qualquer deus interno e obscuro.A dor é subestimada. Encarada como um luxo. É uma espécie de muleta aos discursos socialmente correctos e interpretativos da necessária alternância de sorte. Pior ainda, em muitos casos é ignorada como um recorte de personalidade.A dor não pede licença. E não se combate. A dor é o abraço de um porco-espinho ferrugento, o perpassar de todas as mágoas de todos os conceitos num filamento afiadíssimo cujo corte, inclemente, teima em permanecer.A dor não é relativizável. A dor é sempre relativa ao observador, e é talvez a maior injustiça quando o seu surgir está sempre precedido da total incapacidade de a afastar. Não salvamos, e mesmo não culpados, aparecemos sempre como responsáveis.A dor é a reprodução do inferno em que se tornam os outros. É um instante. Terrível e inexplicável. Sem pretensões a razoável, mascara-se de eterna, como qualquer outra emoção real.A dor colhe todas as estrelas num céu nocturno e deixa apenas a escuridão. No seu esplendor, é uma massa intransponível e incompreensível, como a ordem ilegítima de um tirano sem rosto sequer.
A dor é em si mesma um mundo, que ao sentir alheio parece até bela, cheia de significado. Mas a certo ponto é uma inutilidade destrutiva. O veículo para os recortes derrotados e horríveis de todos os conceitos-chave.
A dor é parcialmente necessária, porque a alternância é o estado de sobrevivência obrigatória da alma. Mas à semelhança do Diabo, o seu maior truque é convencer toda a gente da sua mitigada existência.
A dor está lá, e em momento algum, quando é real e carnívora, se desejaria que assim fosse."
2005/Hoje/(Sempre?)


"Não amamos as pessoas tanto pelo que de bom nos fizeram, mas pelo bem que lhes fizemos a elas."
LeãoTolstoy

A teimosia é uma perífrase da vontade, julgo eu.
Não me parece, nem nunca pareceu boa política ignorar completamente as chamadas "pequenas" mas persistentes dores ou angústias...

"A small leak will sink a great ship."
Benjamin Franklin
Está aí o sol e o calor...

"Physical fitness is the basis for all other forms of excellence."
John F. Kennedy
"To say 'I love you,' one must know first how to say the 'I.'"
Ayn Rand

Não concordo exactamente, mas ok...

quinta-feira, março 12, 2009


O altruísmo deve ser dos conceitos mais mal tratados pelo chamado realismo, e mesmo pela análise psicológica, pelo menos na minha parca experiência. A verdade é que das coisas que leio, das conversas que tenho com as pessoas acerca disso, da experiência que as pessoas têm com a ideia, surgem as mais variadas explicações e reacções.
No entanto há uma que sobressai, e que assenta numa espécie de descrédito pela pureza do conceito.
Em primeiro lugar, o que raio vem a ser a pureza dos conceitos? Julgo que na inevitável interpenetração das ideias, talvez em momento algum se possa falar em pureza de conceitos.
Certo.
Mas tenho dificuldades em entender a razão pela qual toda a gente procura motivos obscuros para o facto de alguém simplesmente ter uma atitude decente ou bondosa para com alguém. Parece que há uma sede qualquer em desmontar a natureza humana e encontrar qualquer espécie de mecanismo de auto-satisfação para explicar qualquer acção tendente a fazer bem ao outro, como se tudo fosse feito com uma espécie de objectivo, ou fossemos todos saídos de uma qualquer cena do "Dubliners".
Não quero com isto dizer que o altruismo não possa ter objectivos. Que diabo, se for para que a pessoa se sinta bem, ou numa linha da perseguição de afectos, há que analisar caso a caso até que ponto é que o conceito é desajustado. Se eu sou altruista para alguém no sentido de que talvez venha a gostar de mim é porque gosto dessa pessoa, e a não ser que alguma esquizofrenia me faça tratá-la ao pontapé depois de "ganho" o afecto, então a conclusão é que me limitei a ser altruista para com alguém de quem gosto. O que me parece, sei lá... normal?
Parece-me mais normal que ser altruista porque há lá alguém em cima a olhar-me com uma espada para ver se me comporto como um bom menino para os outros. Parece-me mais uma clausula contratual. Eu cá prefiro que nasça de um juízo interno, bem pelo bem de fazer bem, e não porque faz parte do pacote da salvação...
Sendo agnóstico, creio que o altruismo existe e é uma criação interna. É um juízo de afecto que nos leva a sairmos de dentro de nós para favorecer ou beneficiar outros. E não é preciso ser missionário em África para se ser altruísta. É algo que pode estar nos mais corriqueiros gestos do dia a dia, na forma como tratamos os outros numa base regular, naquilo que somos capazes de fazer por iniciativa própria só para que alguém passe um bocadinho melhor. Sendo agnóstico, e tendo fé apenas nas partes menos más da natureza humana (com algumas dúvidas acerca de qualquer formato de transcendência, ok...), creio, porque já o experimentei, que há pessoas que simplesmente conseguem não ser, ainda que a espaços, os centros dos seus próprios universos. Que há nos impulsos da sua conduta e pensamento, a capacidade para fazer algo, por mais simples que seja, por alguém. Desde provocar um sorriso sincero a salvar uma vida, há de facto quem sinta esse impulso. O impulso de que há algo mais importante que o próprio, e que o juízo intelectual encontra racionalidade em sair da auto-preservação é a grande fundamentação de esperança como eu a entendo.
Para mim o altruismo existe.
Pura e simplesmente.
Felizmente, digo eu.


Mal posso esperar para ver isto!
Sinceramente.
E acho que vou mais que uma vez, porque quer-me parecer que, como é que hei-de dizer, vou mesmo apreciar a azia colectiva de muita gente.
Não é um pensamento cristão, eu sei, mas que diabo, o ponto é esse mesmo.


terça-feira, março 10, 2009

Gostar é um verbo abrangente. É mais que a descrição de uma acção, é um modo de estar. É quase um modo de ser, ou simplesmente os degraus de uma escada de vida.
É uma denúncia, e dificilmente desculpável. É começar uma adivinha pela resposta. É explicar o esforço sem conhecer o cansaço. É ser um detalhe e não ter de reparar nele.
Gostar é perceber que a cumplicidade de que tanto se fala é mesmo direccionada ao cometimento de crimes.
Gostar é uma intuição intelectual que ao passar pelo cérebro aparenta já levar uma grande viagem. É uma unha farpada raspada por cima de um mamilo antes de um beijo.
Absolutamente brilhante.

Certeiro. As usual.
Não há nada mais eficaz que descrevermos internamente aquilo que somos. A aceitação pode levar anos, memórias, tempos de vida, mas a verdade é que quando ressoa no espaço silencioso onde estamos só nós, sabemos sempre aquilo que não permite variações ou interpretações de estilo.
Esta premissa no entanto não foge à velhinha ideia de que nem sempre temos a perfeita noção de tudo. Sim, não há nada mais nobre e acertado que saber exactamente onde andamos, e não desculparmos o sangue nas mãos como tinta vermelha surgida como despojo de um quadro que não se vê.
E no extremo da percepção dessa ideia surge a noção de opção, a consciência de que o mundo organiza-se em torno daquilo que ao não evitarmos, nos abraça como uma segunda pele, mas com vida própria que não a nossa. Há uma tremenda dignidade e solidão associadas à eterna altercação entre as noções de certeza própria e a concordância externa. E na ausência de leitura dos axiomas que demonstrem essa morfologia está uma segurança devastadora nos seus efeitos. No fundo, o problema não está em ser o que se é, mas em abarcar quaisquer subtis desvios ao que, como qualquer unidade complexa, não terá necessariamente de ser apenas uma coisa em todos os momentos, mas vários momentos feitos de várias coisas.
E na assumpção, na percepção de que as inscrições em muros já deitados abaixo são ecos de uma identidade, está o isolamento próprio da impaciência própria de quem já não suporta a inocente e errada interpretação do óbvio, ou o trautear de uma letra errada para os mesmos acordes.
Fechados na consciência daquilo que somos, e nas chamadas opções associadas e efeitos decorrentes, está um tal desejo de voar para fora de tal casca e ainda assim continuar a ser o próprio, que as asas deixam saudades e anseios, perguntas que o tempo não responde, e a beleza associada à capacidade de ser alternante.
Porque nunca somos só uma coisa. Nunca assentamos apenas numa base. E a incerteza provocada pelas oscilações do que se sente, são instantes verificados e eternizados pela máquina fotográfica afectiva, que não permite interpretações dispares perante aquilo que uma evidência de momento permite na conquista de um mundo inteiro presente no decurso de uma vida.
E essa percepção ninguém consegue furtar.
Ainda que percebamos coisas diferentes depois, ali sabemos o que vimos, e sobretudo, o que fizemos. Mesmo que na autoconsciência dos efeitos possa estar uma conclusão à qual ninguém resiste. Mesmo que as formigas marchem perante o holograma do açucar, observados por um sorriso triste e convicto.
Ninguém é só isto ou aquilo.


sexta-feira, março 06, 2009

Não há hipótese.
Pipoqueiros e conversadores são pragas, mas daquelas complicadas de matar, para a qual não se consegue imaginar pesticida suficientemente potente.
Ontem no cinema, num filme com uma dose de violência e tensão dramática consideráveis, lá estavam eles. Nos momentos de tensão silenciosa, metem a mão no recipiente das pipocas e revolvem-no, não vá a porra do milho assado estragar-se se ficar quieto. Depois metem uma quantidade alarvar de pipocas na boca, e mastigam com a boca aberta, para que a malta não se esqueça de como são boas e crocantes as pipocas! Educação, respeito pelos outros que tentam interiorizar a cena do filme, silenciosa e em alguns casos emocionalmente difícil, é coisa de ficção. Que se lixe o direito dos outros em desfrutarem da sessão. Ao menos podiam enfardar as pipocas ou sorver os copos de Cola nos momentos em que próprio som do filme abafassem esses movimentos, mas nada disso. É no momento em que se corta uma garganta ou alguém chora a perda de um ente querido que há que enfardar pipocas como os hipopótamos no jardim zoológico fazem aos nabos, cenouras e quejandos: Com a boca aberta e com alarde.
Como se não bastassem estas alimárias, há os relatores do filme. Até aqui nada contra, mas talvez fosse simpático não comentar o filme num tom de voz semelhante ao dos actores, ou fazer comentários idiotas num volume suficientemente alto para o gajo da última fila rir da piadinha.
A certa altura do filme, surge uma música do Paul Simon, e o rapaz que estava duas cadeiras ao meu lado, certamente entusiasta da música do senhor, toca a bater o pé com toda a força no chão, para acompanhar a percussão. E claro que o fez enquanto a música durou, porque certamente tinha faltado à sua lição de bateria, e era preciso praticar...
Mas a saga não termina aqui. Claro que há sempre aquelas pessoas que não sabem ler português ou de alguma forma ignoram o sinal gigantesco projectado no ecrã no qual se pede para desligar o telemóvel. Vá, não é preciso tanto, basta tirar o som. Mas não, claro que não. Volta e meia lá vem a Shakira e suas ancas que não mentem, ou a última do 50 cêntimos em toque polifónico, que depois leva uma eternidade a desligar, quando não há um artista que resolve atender em pleno filme...
Sinceramente, começo a perceber porque razão algumas pessoas preferem ver filmes em casa. As salas de cinema, infelizmente as melhores em termos de condições, estão entregues a uma cáfila de selvagens para quem o respeito pelas outras pessoas e pelo seu direito a ver a obra na tela com o mínimo de condições, como o silêncio , é uma abstracção, porque afinal eles pagaram o bilhete e podem comportar-se como se estivessem na própria sala a ver a bola.
Realmente o respeito pelos outros e a educação básica parecem uma miragem na urbanidade multifacetada de hoje, onde não há consideração por nada e por ninguém.
Se me sair o jackpot de hoje, é certinha a construção de uma sala de cinema na mansão, com direito a amigos convidados, mas, como imaginam, sem pipocas e com inibidores de sinal nos telemóveis...
Haja paciência!!!

quinta-feira, março 05, 2009

Há dias fui ver o Milk. E além de ser um filme fantástico, e com Sean Penn em enormíssima forma (confesso que entre ele e o Mickey Rourke fiquei muito hesitante) é um filme com visão que trata questões delicadas com a sensibilidade e profundidade que algo como a diferença e o preconceito associado ao medo merecem. Lança a questão e o incómodo.
Mas a ideia que me deixou ultrapassa até o âmbito da propria temática, porque a orientação sexual é, infelizmente, apenas um dos motores para a combustão de preconceito que abarca tantos sectores da vida gregária.
Aquilo que me fica, aquilo que julgo que perdura na minha mente, é que o preconceito, a rejeição em aceitar ou entender o que é diferente, como a orientação sexual, é a absoluta incapacapacidade de imaginar o estado de outros, de "calçar os sapatos de outra pessoa".
A verdade é que no juízo de preconceito, ou segregação, existe a ignorância volitiva em imaginar como seria estar ali, sentir-se daquela maneira. Como seria acordar todas as manhãs e sentir que o corpo reagia perante um conjunto de referências sexuais que não aquelas apelidades de "normais". Relembrando o caso de Roy Cohn, obviamente que existe a suprema hipocrisia, que muitas vezes mal se distingue da noção que tenho de maldade, na qual os segregadores vestem precisamente o manto daquilo que propalam odiar tão profunda e convictamente. Mas eu tendo a pensar em termos menos extremos, para esta discussão. Porque será que se conseguissem imaginar como seria sentirem-se de outra forma, o preconceito consegue nascer? Será que se nascessem com uma construção pessoal assente noutros gostos, achariam justificável que lhes fosse negado um espaço para a expressão amorosa, ou o anseio de criar um outro ser humano? Será que conseguindo calçar outros sapatos, ainda assim negariam aquilo que lhes é garantido apenas por uma maioria receosa?
De um certo ponto de vista, acho que esta ideia é mais abrangente. Ela abarca todos os automatismos que temos relativamente ao que julgamos inatacável apenas por convicção interna, mas que por vezes é falha em argumentação. Eu tento eliminar qualquer pressuposto desses da minha forma de estar e ver, mas também, certamente, terei uma mancha na qual deixo de pensar apenas para conseguir reagir. Isso não me impede no entanto de tentar ver o outro lado, de ver as outras coisas, de olhar para a grande maioria dos preconceitos e achá-los coisas hediondas, estúpidas, injustificadas, porque à partida são apenas sentimentos de rejeição sem causa aparente que não medo ou desconhecimento da diferença necessária.
Fossem os sapatos adaptáveis, e não variáveis entre o 30 de um petiz e o 60 do Shaquille O'Neil, e talvez fosse possível criar mais cruzamentos. E andar descalço é um risco imenso, além de ser quase impensável. Talvez aquilo que cristalizemos na negatividade da nossa mente ou alma, ou o que quiserem chamar, mais não seja que, quando a calma retorna, existir ainda assim a incapacidade de virar a câmara de perspectiva, e ainda assim ver alguma coisa.
A principal incapacidade dos intolerantes é pensar que a vida é um analgésico natural, porque fora deles tudo deve doer.




Hell yeah!...
Wishfull Thinking...
Memórias de tempos e estados de graça...




quarta-feira, março 04, 2009




Com o que é que estamos a lidar quando falamos em esperança? Além de ser um conceito conotado com a foleirada nestes tempos modernaços, é uma espécie de praga diária. Talvez não se saiba até que ponto essa “praga” acaba por ser o que não permite a total ruptura de muitas situações limite. A nossa capacidade para ansiar, para tentar ver a face por trás do capuz do tempo é o que permite manter a vida em termos de objectivo. Trata-se de dar os passos necessários. De ir em frente, pé ante pé, cruzando as esquinas de praça em praça e vendo a forma como o sol bate em todas.
A dita noção de esperança é uma espécie de ritual diário. Como qualquer expressão emocional sobre um conceito ou facto, a esperança é uma tentativa de arrumação do desconforto, seja ele bom ou mau.


“espero que ela tenha mesmo olhado para mim.”
“Espero que o telefone toque em breve.”
“Espero que o exame seja favorável.”
“Espero não perder o autocarro, as chaves de casa, e já agora o juízo”.


A esperança não é aquela atitude endeusada e própria de circunstâncias solenes e austeras. Não está reservada aos instantes decisivos, únicos, irrepetíveis, feitos de massa e importância global. A esperança pode e é na grande parte das vezes, uma realidade quotidiana. Um espaço de sonhos acordados, de irracionalidade e imprudência vividos debaixo do sol do dia.
A esperança é aquilo que nos faz esperar um beijo, um gesto, uma tomada de posição, ainda que o cenário circundante não seja o melhor. É aquilo que faz antever a perda de juízo, o impulso, o aparecimento de uma expressão inaudita e terna num mar de agressividade. No fundo, a esperança cria a antecipação daqueles instantes em que as pessoas se esquecem e se tornam mais humanas. É pedir com fervor que a ternura surja, porque a contenção se tornou negligente.
A esperança é uma forma de estar. É desenhar no céu animais que não voam, é comprar todo o mundo com um prémio que não se ganhou. Esperança é estar atento à repetição de um dialecto quase único, e reconhecer assim a única forma de semi-salvação que há disponível. Porque como a esperança, a salvação é também parcelar. Depende dos nossos passos e reconhecimentos. Do que esperamos, e como.
A esperança é perigosa. Pode tornar o mundo muito mais pequeno e compreensível do que realmente é. Mas ao contrário de qualquer droga alucinógenia, prolonga a vida assim como as agonias correspondentes.
Esperar, crer numa espécie de sentido único e básico para as coisas, é ter a noção de que a imortalidade não serve para nada, desde que a possamos imaginar. O amor, o desejo, a ternura, a imensidão de lógicas e a gozo do conhecimento, nada mais me parecem ser que essa continuidade infinda que se imagina. Que no fundo, se espera. Como esqueleto da alma, a esperança aparece como uma sustentação subtil. Como o acto de andar, que muitas vezes surge como inconsciente, mas que se torna a única forma de nos levar a qualquer lado.









Porque se escondem as pessoas?
A ideia de escapar é a transposição em acção do que conceptualmente é um desejo de protecção. Escapo-me porque onde estou chove, troveja, e o mais provável é levar com um raio no cocuruto. Brincadeiras à parte, esconder é algo que está para além da deslocalização do corpo ou da presença. É apenas uma necessidade quando a ideia de permanência, com aquilo que sou efectivamente, é uma exposição simples e concreta daquilo que por lado talvez não devesse ser, da tristeza em não conseguir com o que sou surgir como melhor a outro. Também deriva do desejo que tenho de pensar que talvez no meio da confusão errática que me constitui haja algo onde possa valer-me, e dar corda aos sapatos internos quando isso nada mais é que incapacidade.
Porque me escondo? Muitas vezes para poder ficar onde estou, mas mais devagarinho, com mais suavidade. Para poder pedir licença pelo meu pequeno lugar, para poder ver, para poder aspirar da apaixonante sensação de simplesmente haver ali algo mais, alguém mais, mais mundo que o meu eco. Como falo três línguas, talvez tenha sorte e me faça entender de quando em vez.
Esonderijo, ou o que tomam por ele, muitas vezes é apenas como a solução do informático.
Desligo-me e volto a ligar-me, na esperança que de alguma forma alguma coisa funcione.
Na esperança que não continue a ser indiferente que fique com a pele à vista.


terça-feira, março 03, 2009


Há algo em muitas mulheres que tem uma dupla vertente. Não é discutível e é passível de deixar uma pessoa perplexa. Não é discutível porque a realidade dos factos tem-no demonstrado a torto e a direito, e no entanto essa perplexidade existe porquanto é em si mesma paradoxal. A propósito do filme do Woody Allen, ou do conflito Lori-Alan no Boston Legal, e da mística que que ditos "cabrões" ou "maus rapazes" exercem sobre a população feminina, surgem-me perplexidades.
Sendo que cada vez mais me considero um "whatever makes you happy kind of guy", não está em causa que cada uma goste do que goste. Encontre-se uma só pessoa que não tenha um elemento pouco claro ou menos congruente acerca dos seus gostos e atitudes, e as religiões do mundo podem cair por terra. O que está em causa é uma dupla consequência que chega a ser enervante, ou em muitos casos, cómica.
Há uma espécie de ideia muito clara acerca desse tipo de moços. Quem seja suficientemente mentiroso, hábil, e com meio palmo de cara ladeada por uma argúcia observadora, poderá fazer quase tudo o que lhe der na real gana. E nesse aspecto já conheci pessoas que roçavam a sociopatia, tal era a determinação desprendida relativamente ao seu objectivo. O que por mim não me chateia muito, se não fosse a questão da conversa do bandido, da história, do processo oleoso de adulação que a mais das vezes se topa à légua. No fundo não está em causa o que eles são capazes de fazer ou com quem, mas o uso indiscriminado de lérias com ar de verdades que, em alguns casos, chegam mesmo a fazer estragos em pessoas mais incautas.
Mas retomando a ideia original, a verdade é que a apetência pelos ditos "cabronazos" é muito respeitável. É aceitável, é uma expressão de gosto, de preferência, de uma tendência para o drama ao qual muitas mulheres são simplesmente incapazes de deflectir. É o gosto pela chapada na tromba, por mais metafórica e velada que ela possa parecer. E quem sou eu para julgar?
Mas outra coisa completamente diferente surge quando a crítica é vociferada aos sete ventos. Que os homens são todos assim ou assado, e que são todos uns cabrões. Ora esta é uma inverdade tortuosa por dois motivos. Em primeiro lugar porque todas as generalizações estão erradas, incluindo esta, como dizia o Twain, e em segundo lugar porque o ar de queixa, de denúncia, de asco ou mal-querer é, em muitos casos, absolutamente falacioso. O que não se aguenta são as denúncias das madalenas arrependidas ou virgens ofendidas que no seu currículo e preferências favorecem claramente o artista que, pela sua natureza, fará o que o deixarem fazer. E esses moços são assim por natureza. Ponto final.
Chiça, mas porque é que esse grupo de moças simplesmente não assume? Porque carga de água é que há que defender uma espécie de imagem de Ashley quando querem é um Rhett? Será que julgam que a cortina de fumo da queixa tornará o ar mais opaco e convencerá outros onde as as próprias não o fazem?
Os ditos "safardanas" têm certamente outro encanto. Há algo de desarranjado, de indomável, de inteligência prática e pró-activa que instila aquela malfadada ideia do "aqui não deves meter a mão", que como se sabe, tem a eficácia de uma usina de açúcar perto de um formigueiro. Portanto, caraças, porque raio não admitir? Porque raio é que se tem o desplante de pedir por um protótipo que, a existir, seria lançado pela janela ao fim dos dois primeiros meses? (E não estou a falar de choninhas, entendamo-nos...)
Se é uma incongruência, então é assumí-la com tudo. É vê-la como um recorte de personalidade, uma tendência que talvez até se queira quebrar, e quem sabe, permita que a originalidade daqueles que não ostentem a cabronice ao peito acabe por ser determinante numa escolha que não assente no que se julgam ser os reais gostos...
Apenas a título de nota final, não consigo levar a mal nenhum dos dois. Nem o cabronazo, nem as falsas apologistas da decência (seja lá isso o que for). Só levo a mal que não caminhem com a pele que ostentam, e defendam para si aquilo que se calhar até lhes parece bem conceptualmente, mas que simplesmente não faz tocar o sino.
Como diz a minha mãe, cada um come do que gosta, e cada um é como cada qual.
Mas que não se peçam emprestados desejos de coisas que não somos, porque as identidades falsas, cedo ou tarde, descobrem-se. E se é certo que a natureza não muda, também é igualmente provável que enquanto não se saiba bem qual é a nossa, todo o mundo é uma esperança de diversidade, onde talvez tenhamos sorte.
Sei lá...



segunda-feira, março 02, 2009

E não há outra paz que não o enamoramento pendurado na imaginação de outros, dos que não nos conhecem, e no entanto, escrevem-nos prefácios a confissões fechadas, ou epitáfios ao que ainda não estamos muito preparados para deixar ir...

Acho que não é sentimento alheio a ninguém, pelo menos num momento que seja da sua vida, no qual nos achamos perguntadores. Sim, bem sei que perguntar é normal. É diário. É como um vaso sanguíneo que tudo abastece na capacidade e necessidade de pensar.
Mas dou comigo a fechar-me no silêncio e ouvir as coisas de outros e a pensar que por mais perguntas que faça, os cuidados parecem não chegar. É ilógico e estúpido pensar que poderei sequer tomar mais do que duas atitudes seguidas que serão abrangentes. Consensuais. Se até o coração recebe e expulsa no intervalar de um mero segundo, porque será que teimo em tentar algo diferente com os seus donos? Pois, não sei, mas a confusão é feita disso mesmo, e é ela que assenta no começo da teimosia e no fim dos objectivos.
A verdade é que raramente a visão que granjeamos, e eu obviamente sou tudo menos excepção, parece aplicável. Há demasiada resistência dos feudos, e as ideias mais marcadas estão entrincheiradas em cidades estados de ideias e sentimentos de tal forma fortificados que são mais as vezes que saem para a guerra que aquelas em que há armistícios.
E no entanto, como nunca se deve fazer perante qualquer dogma, lá teimo em perguntar, em olhar para as coisas, tentar colocá-las num patamar de entendimento o mais transversal e comum possível, e que diabo, falho muito porque não sou senão a linearidade das minhas intenções, a paixão de qualquer coisa parecida com honestidade interna e a necessária debelidade associada às coisas que contam.
E no real afecto a que me permito na peugada de alguns que são poucos, não resta senão a ideia de que se tentar nunca é uma questão, acertar muitas vezes não passa de uma qualquer sorte. Por isso, mais vale perguntar. E uma e outra vez, por mais estupido que (eu) possa parecer.
A verdade é que nada mais fará isso de forma mais eficaz que certa forma de silêncio.
Por vezes o oráculo lá fala sem adivinhas...


Ainda e sempre... sempre.

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revalations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

S. King - 1982