ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, março 04, 2009




Com o que é que estamos a lidar quando falamos em esperança? Além de ser um conceito conotado com a foleirada nestes tempos modernaços, é uma espécie de praga diária. Talvez não se saiba até que ponto essa “praga” acaba por ser o que não permite a total ruptura de muitas situações limite. A nossa capacidade para ansiar, para tentar ver a face por trás do capuz do tempo é o que permite manter a vida em termos de objectivo. Trata-se de dar os passos necessários. De ir em frente, pé ante pé, cruzando as esquinas de praça em praça e vendo a forma como o sol bate em todas.
A dita noção de esperança é uma espécie de ritual diário. Como qualquer expressão emocional sobre um conceito ou facto, a esperança é uma tentativa de arrumação do desconforto, seja ele bom ou mau.


“espero que ela tenha mesmo olhado para mim.”
“Espero que o telefone toque em breve.”
“Espero que o exame seja favorável.”
“Espero não perder o autocarro, as chaves de casa, e já agora o juízo”.


A esperança não é aquela atitude endeusada e própria de circunstâncias solenes e austeras. Não está reservada aos instantes decisivos, únicos, irrepetíveis, feitos de massa e importância global. A esperança pode e é na grande parte das vezes, uma realidade quotidiana. Um espaço de sonhos acordados, de irracionalidade e imprudência vividos debaixo do sol do dia.
A esperança é aquilo que nos faz esperar um beijo, um gesto, uma tomada de posição, ainda que o cenário circundante não seja o melhor. É aquilo que faz antever a perda de juízo, o impulso, o aparecimento de uma expressão inaudita e terna num mar de agressividade. No fundo, a esperança cria a antecipação daqueles instantes em que as pessoas se esquecem e se tornam mais humanas. É pedir com fervor que a ternura surja, porque a contenção se tornou negligente.
A esperança é uma forma de estar. É desenhar no céu animais que não voam, é comprar todo o mundo com um prémio que não se ganhou. Esperança é estar atento à repetição de um dialecto quase único, e reconhecer assim a única forma de semi-salvação que há disponível. Porque como a esperança, a salvação é também parcelar. Depende dos nossos passos e reconhecimentos. Do que esperamos, e como.
A esperança é perigosa. Pode tornar o mundo muito mais pequeno e compreensível do que realmente é. Mas ao contrário de qualquer droga alucinógenia, prolonga a vida assim como as agonias correspondentes.
Esperar, crer numa espécie de sentido único e básico para as coisas, é ter a noção de que a imortalidade não serve para nada, desde que a possamos imaginar. O amor, o desejo, a ternura, a imensidão de lógicas e a gozo do conhecimento, nada mais me parecem ser que essa continuidade infinda que se imagina. Que no fundo, se espera. Como esqueleto da alma, a esperança aparece como uma sustentação subtil. Como o acto de andar, que muitas vezes surge como inconsciente, mas que se torna a única forma de nos levar a qualquer lado.









3 comentários:

Anónimo disse...

A esperança é um sentimento positivo, mas quando tomado na dose certa.

Não se deve crer demasiado e ficar comodamente instalado à espera que aconteça. Acredito mais no poder do fazer acontecer.

Nem se deve ter pouca, correndo o risco de não termos nada que nos alimente a bateria diária do passo em frente.

Não sei se acontecerá com todos mas a minha foi diminuindo ao longo da vida. Felizmente que comecei com um valor elevado!

Então a esperança nas pessoas... Tenho-a, no âmbito geral, até prova em contrário, isto é acho sempre que são "boas pessoas", mas não no particular. Cada um é o que é e nunca será diferente.

Resta-nos assim traçar-lhes o perfil e depois é aprender a viver com eles ou fazer a mala e avançar por outra estrada.

Espiral disse...

Sem palavras. Adoro o que escreves. Porque o sinto.

Sinto que cresço um pouco, aprendo muito e sinto mais quando te leio. Obrigada.

Espiral

SK disse...

Sim, fazer acontecer é algo imprescindível, mas ainda assim, é necessário esperar que mesmo com esforços, corra bem...





Eu é que agradeço :)
É excelente poder pelo menos dizer alguma coisa com algo parecido com pés e cabeça. :)