
Com o que é que estamos a lidar quando falamos em esperança? Além de ser um conceito conotado com a foleirada nestes tempos modernaços, é uma espécie de praga diária. Talvez não se saiba até que ponto essa “praga” acaba por ser o que não permite a total ruptura de muitas situações limite. A nossa capacidade para ansiar, para tentar ver a face por trás do capuz do tempo é o que permite manter a vida em termos de objectivo. Trata-se de dar os passos necessários. De ir em frente, pé ante pé, cruzando as esquinas de praça em praça e vendo a forma como o sol bate em todas.
A dita noção de esperança é uma espécie de ritual diário. Como qualquer expressão emocional sobre um conceito ou facto, a esperança é uma tentativa de arrumação do desconforto, seja ele bom ou mau.
“espero que ela tenha mesmo olhado para mim.”
“Espero que o telefone toque em breve.”
“Espero que o exame seja favorável.”
“Espero não perder o autocarro, as chaves de casa, e já agora o juízo”.
A esperança não é aquela atitude endeusada e própria de circunstâncias solenes e austeras. Não está reservada aos instantes decisivos, únicos, irrepetíveis, feitos de massa e importância global. A esperança pode e é na grande parte das vezes, uma realidade quotidiana. Um espaço de sonhos acordados, de irracionalidade e imprudência vividos debaixo do sol do dia.
A esperança é aquilo que nos faz esperar um beijo, um gesto, uma tomada de posição, ainda que o cenário circundante não seja o melhor. É aquilo que faz antever a perda de juízo, o impulso, o aparecimento de uma expressão inaudita e terna num mar de agressividade. No fundo, a esperança cria a antecipação daqueles instantes em que as pessoas se esquecem e se tornam mais humanas. É pedir com fervor que a ternura surja, porque a contenção se tornou negligente.
A esperança é uma forma de estar. É desenhar no céu animais que não voam, é comprar todo o mundo com um prémio que não se ganhou. Esperança é estar atento à repetição de um dialecto quase único, e reconhecer assim a única forma de semi-salvação que há disponível. Porque como a esperança, a salvação é também parcelar. Depende dos nossos passos e reconhecimentos. Do que esperamos, e como.
A esperança é perigosa. Pode tornar o mundo muito mais pequeno e compreensível do que realmente é. Mas ao contrário de qualquer droga alucinógenia, prolonga a vida assim como as agonias correspondentes.
Esperar, crer numa espécie de sentido único e básico para as coisas, é ter a noção de que a imortalidade não serve para nada, desde que a possamos imaginar. O amor, o desejo, a ternura, a imensidão de lógicas e a gozo do conhecimento, nada mais me parecem ser que essa continuidade infinda que se imagina. Que no fundo, se espera. Como esqueleto da alma, a esperança aparece como uma sustentação subtil. Como o acto de andar, que muitas vezes surge como inconsciente, mas que se torna a única forma de nos levar a qualquer lado.
3 comentários:
A esperança é um sentimento positivo, mas quando tomado na dose certa.
Não se deve crer demasiado e ficar comodamente instalado à espera que aconteça. Acredito mais no poder do fazer acontecer.
Nem se deve ter pouca, correndo o risco de não termos nada que nos alimente a bateria diária do passo em frente.
Não sei se acontecerá com todos mas a minha foi diminuindo ao longo da vida. Felizmente que comecei com um valor elevado!
Então a esperança nas pessoas... Tenho-a, no âmbito geral, até prova em contrário, isto é acho sempre que são "boas pessoas", mas não no particular. Cada um é o que é e nunca será diferente.
Resta-nos assim traçar-lhes o perfil e depois é aprender a viver com eles ou fazer a mala e avançar por outra estrada.
Sem palavras. Adoro o que escreves. Porque o sinto.
Sinto que cresço um pouco, aprendo muito e sinto mais quando te leio. Obrigada.
Espiral
Sim, fazer acontecer é algo imprescindível, mas ainda assim, é necessário esperar que mesmo com esforços, corra bem...
Eu é que agradeço :)
É excelente poder pelo menos dizer alguma coisa com algo parecido com pés e cabeça. :)
Publicar um comentário