Falei há uns dias com um amigo, e aquilo que discutimos acabou por ser talvez uma evidência, mas nem por isso me surgiu como menos pertinente. Embora calcule que muita gente terá dito acerca disto em todos os momentos da própria história, ou da história de outros, se forem contadores de histórias, a verdade é que esta é toda uma conjuntura na qual se torna difícil clarificar um caminho nos passos do dia a dia.
A máxima "ser feliz", que reluz como um daqueles neos mauzinhos de beira de estrada, está perfeitamente evidenciado em cada dia, em muitas das coisas que supostamente nos deveriam dar essa pista para tirar o peso ou simplesmente sorrir despreocupadamente. Já anteriormente fiquei perplexo com aquelas pessoas que simplesmente sorriem com todos os dentes que têm, e vociferam aos sete ventos que a vida é muito boa, e que são absolutamente felizes.
Sobretudo, espancam o velho brocardo latino oriundo de um filme muito melhor que a frase que dele sobreviveu como uma praga.
No fundo surge-me apenas uma inveja inquisitiva, sem malícia, acho eu. Porque por um lado pergunto-me qual o truque, a panaceia, os passos de cada dia para que isso seja possível. Acho que a pista mais honesta que tive nos últimos tempos foi o fantástico filme de Mike Leigh (Happy Go Lucky - a nãoi perder) e a desarmante (sim, irritante também a espaços) atitude da protagonista, a luminosa Poppy. Há nesse personagem, algo que me ajuda muito a relativizar as coisas, a colocar internamente os pesos onde os mesmos devem estar, e aceitar no meio de uma gratidão necessária, a inexistência daquilo que poderia ser muito pior.
E no entanto, continua a mesma ideia. Num contexto como este, em que ligar a televisão ou abrir os matutinos lança um inegável rasto de medo e incerteza, ou no qual as traves aparentemente inabaláveis de algumas pessoas são simplesmente desfeitas nas suas compreensíveis dúvidas e fragilidades, ou onde até os pais são seres humanos e falhos por muito que andemos toda uma vida a julgar o contrário (imaginem uma coisa destas...), tenho algum pudor em alvitrar sentenças de felicidade, de feliz relativismo. Não porque não queira, ou porque não inveje aqueles sorrisos de Poppy espalhados por pessoas que realmente conseguem desligar o interruptor e saltitar de flor em flor na Primavera. Que andam como se tivessem uma gabardine contra o frio fora de época.
E no entanto celebro essa diversidade, assim como os risos sinceros nos dias de sol como este, tentando infectar-me de tal percepção, ou saltar com tal ausência de peso.
Ainda que, em dias complexos, nos quais muitas pessoas que conheço simplesmente se debatem com uma louca alternância entre os diferentes esgares que lhes sulcam o rosto, possa apreciar as passagens dos dias sem perder a noção da expectativa, encontro-me um curioso. Genuinamente curioso relativamente à formula dos sorrisos persistentes perante uma montanha russa confusa e colorida como são os tempos correntes.
"Carpe Diem", dizem eles.
Agora que tal explicar à malta como é que se faz isso todos os dias?
2 comentários:
Ora aqui está um post bem interessante... O que eles fazem? Aproveitam o dia ao máximo, a vida ao máximo para viverem o máximo feliz possível, na esperança de as propabilidades soprarem a seu favor! Todos têm os seus demónios, os seus segredos, as suas inseguranças e tristeza. Quem nunca se sentiu tristeza não sabe o que é alegria. Simplesmente, as pessoas têm diferentes maneiras de o mostrar, ou mesmo, não mostrar. Assim, acabam por também menosprezar o que poderá afectar o "carpe diem" daqui a uns anos... As pessoas são muito complicadas de facto, talvez este Carpe Diem seja um descomplicar e há quem descomplique de forma mais, ou menos, complicada que outros...
os dias sucedem-se com a velocidade de nuvens no céu empurradas por ventos de tempestade...e olhamos sempre com a mesma perplexidade quando a natureza nos trai.
nada a fazer.
caminho há só um.
faz-se andando...
a cada um segundo a sua forma de andar :)
beijo
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