O altruísmo deve ser dos conceitos mais mal tratados pelo chamado realismo, e mesmo pela análise psicológica, pelo menos na minha parca experiência. A verdade é que das coisas que leio, das conversas que tenho com as pessoas acerca disso, da experiência que as pessoas têm com a ideia, surgem as mais variadas explicações e reacções.
No entanto há uma que sobressai, e que assenta numa espécie de descrédito pela pureza do conceito.
Em primeiro lugar, o que raio vem a ser a pureza dos conceitos? Julgo que na inevitável interpenetração das ideias, talvez em momento algum se possa falar em pureza de conceitos.
Certo.
Mas tenho dificuldades em entender a razão pela qual toda a gente procura motivos obscuros para o facto de alguém simplesmente ter uma atitude decente ou bondosa para com alguém. Parece que há uma sede qualquer em desmontar a natureza humana e encontrar qualquer espécie de mecanismo de auto-satisfação para explicar qualquer acção tendente a fazer bem ao outro, como se tudo fosse feito com uma espécie de objectivo, ou fossemos todos saídos de uma qualquer cena do "Dubliners".
Não quero com isto dizer que o altruismo não possa ter objectivos. Que diabo, se for para que a pessoa se sinta bem, ou numa linha da perseguição de afectos, há que analisar caso a caso até que ponto é que o conceito é desajustado. Se eu sou altruista para alguém no sentido de que talvez venha a gostar de mim é porque gosto dessa pessoa, e a não ser que alguma esquizofrenia me faça tratá-la ao pontapé depois de "ganho" o afecto, então a conclusão é que me limitei a ser altruista para com alguém de quem gosto. O que me parece, sei lá... normal?
Parece-me mais normal que ser altruista porque há lá alguém em cima a olhar-me com uma espada para ver se me comporto como um bom menino para os outros. Parece-me mais uma clausula contratual. Eu cá prefiro que nasça de um juízo interno, bem pelo bem de fazer bem, e não porque faz parte do pacote da salvação...
Sendo agnóstico, creio que o altruismo existe e é uma criação interna. É um juízo de afecto que nos leva a sairmos de dentro de nós para favorecer ou beneficiar outros. E não é preciso ser missionário em África para se ser altruísta. É algo que pode estar nos mais corriqueiros gestos do dia a dia, na forma como tratamos os outros numa base regular, naquilo que somos capazes de fazer por iniciativa própria só para que alguém passe um bocadinho melhor. Sendo agnóstico, e tendo fé apenas nas partes menos más da natureza humana (com algumas dúvidas acerca de qualquer formato de transcendência, ok...), creio, porque já o experimentei, que há pessoas que simplesmente conseguem não ser, ainda que a espaços, os centros dos seus próprios universos. Que há nos impulsos da sua conduta e pensamento, a capacidade para fazer algo, por mais simples que seja, por alguém. Desde provocar um sorriso sincero a salvar uma vida, há de facto quem sinta esse impulso. O impulso de que há algo mais importante que o próprio, e que o juízo intelectual encontra racionalidade em sair da auto-preservação é a grande fundamentação de esperança como eu a entendo.
Para mim o altruismo existe.
Pura e simplesmente.
Felizmente, digo eu.
2 comentários:
O mal do altruísmo é que facilmente resvala para a parvoíce. Altruísta é aquele que faz algo em prol dos outros.
Parvo é aquele que faz algo em prol de quem nunca lhe fez nada de bem. A maioria das vezes só o lesou.
A diferença é que um é um sentimento positivo que nos deve fazer sentir bem connosco e com o mundo.
O segundo é altamente negativo e deverá envergonhar-nos.
Quem não sabe gostar de si próprio dificilmente poderá gostar de outros, não te parece?
Clap...clap...clap... (palminhas!)
O bom do altruísmo é fazer o bem não importa a quem. É fazer o bem até a quem não nos conhece. E quem tem característcas altruístas normalmente é-o para ser fiel a si próprio e não para agradar aos outros. O lado negativo do altruismo são os outros, mas ser alruísta é precisamente não ligar a nada disso e continuar a sê-lo com um sorriso... Há quem se canse, há quem se farte das bofetadas dos outros e, infelizmente há que ter cuidado para não se ser humilhado, mas quando gostamos de alguém assim, gosta-se pelo o que essa pessoa é. Amigo, conhecido, namorado, irmão, sobrinho, tio, avô...
Eu prefiro que sejas altruista que egoista, com bons feelings a frustrações, com mente aberta até à linha do horizonte em vez de a linha do teu horizonte ser a parede da tua casa.
O que importa é ser feliz, contigo, com os outros, à tua maneira! E dessa maneira não deves concerteza, pelo o que me parece do teu blog, magoar ninguém.
Abraço.
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