Recuperar velhos textos é uma aldrabice, mas perante aquilo que parece acertado, para quê inventar?
"A dor não é mitigável. Quando é real é bruta, incontida. É um dente farpado da realidade, cravado numa infecção envelhecida. A dor aparece sempre injusta. Aparece como o reflexo de uma desordenação do estado natural de tudo. Escapa ao entendimento por ser uma imaterialidade constituída por um mau estar. Uma sensação.A dor é sempre uma via dual. Alguém é sempre responsável e alguém responsabilizado. A dor real é o conjunto de todos os segundos de solidão concentrada num esgar de mal-estar produzido por um qualquer deus interno e obscuro.A dor é subestimada. Encarada como um luxo. É uma espécie de muleta aos discursos socialmente correctos e interpretativos da necessária alternância de sorte. Pior ainda, em muitos casos é ignorada como um recorte de personalidade.A dor não pede licença. E não se combate. A dor é o abraço de um porco-espinho ferrugento, o perpassar de todas as mágoas de todos os conceitos num filamento afiadíssimo cujo corte, inclemente, teima em permanecer.A dor não é relativizável. A dor é sempre relativa ao observador, e é talvez a maior injustiça quando o seu surgir está sempre precedido da total incapacidade de a afastar. Não salvamos, e mesmo não culpados, aparecemos sempre como responsáveis.A dor é a reprodução do inferno em que se tornam os outros. É um instante. Terrível e inexplicável. Sem pretensões a razoável, mascara-se de eterna, como qualquer outra emoção real.A dor colhe todas as estrelas num céu nocturno e deixa apenas a escuridão. No seu esplendor, é uma massa intransponível e incompreensível, como a ordem ilegítima de um tirano sem rosto sequer.
A dor é em si mesma um mundo, que ao sentir alheio parece até bela, cheia de significado. Mas a certo ponto é uma inutilidade destrutiva. O veículo para os recortes derrotados e horríveis de todos os conceitos-chave.
A dor é parcialmente necessária, porque a alternância é o estado de sobrevivência obrigatória da alma. Mas à semelhança do Diabo, o seu maior truque é convencer toda a gente da sua mitigada existência.
A dor está lá, e em momento algum, quando é real e carnívora, se desejaria que assim fosse."
A dor é em si mesma um mundo, que ao sentir alheio parece até bela, cheia de significado. Mas a certo ponto é uma inutilidade destrutiva. O veículo para os recortes derrotados e horríveis de todos os conceitos-chave.
A dor é parcialmente necessária, porque a alternância é o estado de sobrevivência obrigatória da alma. Mas à semelhança do Diabo, o seu maior truque é convencer toda a gente da sua mitigada existência.
A dor está lá, e em momento algum, quando é real e carnívora, se desejaria que assim fosse."
2005/Hoje/(Sempre?)
1 comentário:
Grande actuação de Bono Vox, muito bem escolhido esse video.
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