ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, abril 24, 2009

Coincidências felizes.
Daquelas que tendem a silenciar-nos porque têm tanto a ver connosco que por tudo dizerem, tornam-nos redundantes relativamente a nós próprios.
Clementine e Fever Ray...




(Há por aí gente inconscientemente fantástica, graças a prendas inadvertidas como esta... )



quarta-feira, abril 22, 2009

"Maybe, just maybe...and maybe I took it to old lady Simons and told her, and all the money was there. But I still got a three-day vacation because it never showed up. And maybe the next week old lady Simons had a brand new skirt on when she came to school."

"Yeah, yeah! It was brown, and had dots on it!"

"Yeah, so lets just say that I stole the milk money, but old lady Simons stole it back from me. Just suppose that I told this story. Me, Chris Chambers, kid brother to Eyeball Chambers. Do you think that anybody would believed it?"

Stephen King - 1982

terça-feira, abril 21, 2009

Ainda que por vezes não seja possível, pelas mais variadas razões, sejam elas endógenas ou próprias do ambiente circundante, não há como a evitar.
Complica-se demasiado a luz de um dia como este. A ausência de peso do ar sem cinzentos.
Problematiza-se demasiado mesmo quando o que ouvimos do outro lado são risos, e o que lemos são desejos de melhoras, ou de todo o bem simples disponível, e por isso, completo.
Foge-se demasiado ao impacto do prazenteiro, como uma equipa que tem medo de ganhar. As sobrancelhas tornam-se chavetas quando afinal há um raio de sol em cima de uma mesa onde algo fumega com o cheiro de mil felicidades e recordações teimosamente presentes, como são todos os prazeres simples.
Presta-se pouca atenção á amabilidade dispensada sem esforço, ao gosto provocado nos raros e especiais por nada mais que a simples forma de ser. Ouve-se raras vezes a musicalidade da admiração causada, do feito conseguido e devolvido em gratidão.
E num dia como este, ainda que envolto na complexidade de algo que se transmuta só com metade assente em razão, não restam dúvidas. É (felizmente) objectivo.
Pensa-se, e tornamo-nos algo semelhante á luz do sol.


segunda-feira, abril 20, 2009

"Ao recordar tudo o que aconteceu, fico com a ideia que talvez me tenha deitado no meu casarão e tenha sonhado com tudo isto. No entanto, a recordação das noites frias, da fome e da boca afiada da cidade não mo permitem. Há marcas que não desaparecem, e aprendemos a viver com elas. Não temos outra hipótese. Ainda hoje especulo e pergunto a razão pela qual tudo aconteceu, e porque aceitei o impossível com alguma facilidade. O que teria acontecido no cemitério? Que teria ela visto? Quanto a isso, não faço ideia. Mas ao olhar para tanto enfado, tanta consciência pesada e tanto teatro urbano sentado à minha frente, não consigo deixar de pensar em todas estas coisas. Não consigo pensar no que terá ela invejado, naquilo que eu tinha e mostrara, aparentemente sem consciência. Porque alguma coisa teria sido. Algo a que me atrevera. Na persistência de apego à casa e à memória de quem supostamente já estava morta e ainda assim me dera vida, reside talvez a justificada gratidão por ter uma vida. Mas aquilo que me ocorre - e por vezes surge como uma ferida aberta na mente - é a razão pela qual eu julgo que já teria esse algo comigo muito antes de me tornar o que sou hoje. Algo que não me pode nunca ser ensinado, mostrado ou imposto e que no entanto lá estava, contorcendo-se até mesmo perante a perspectiva da morte. Da morte lenta, que chegaria com certeza à morte efectiva.
Sentirei falta da velhota? Bem já que estou a falar sem abrir a boca e parto do princípio que ainda não existem gravadores de cogitação, posso ser honesto. Julgo que sinto a falta daquilo que ela me foi criando. Da sensação de chegar a qualquer lado, de ter algo a fazer, da criação de um “micro-objectivo”. Também sou o primeiro a dizer que ela terá exagerado na retribuição, considerando que a expoliei e pensei pelo menos em magoá-la para poder então roubar tudo o que fosse possível. E no entanto fico com a sensação que em muitos casos não fazemos ideia do que temos e do que mantemos vivo internamente. Somos demasiado ingratos com essa capacidade, Ingratos com demasiadas coisas e pessoas, parece-me. Somos demasiado novos durante demasiado tempo."
12/2007


Há uns anos, por diversas questões, tive de fazer uma pequena investigação acerca das doenças ditas psicológicas. Aquelas que alguns artistas chamavam o grande mal ou ou grande negro, sinceramente já não me recordo, mas que ceifou pessoas e mentes nos seus tempos. Pessoa, Espanca, Jeremy Brett (sim, o verdadeiro Holmes), Heminguay, etc, etc, etc. E calhou ontem, em conversa com amigos e familiares, o emergir de tais doenças num contexto global. E falo em contexto global tendo em conta uma espécie de organização de comportamentos e os hábitos ganhos em sociedade relativamente á percepção destes fenómenos. Dir-se-iam em emergência, embora eu cá tenho também a percepção que a palavra moda não estará muito desfasada da realidade.
Não restam dúvidas que os efeitos do modelo de sociedade preconizado pela velocidade dos tempos estão a deixar a sua marca. Uma voz optimista e até surpreendente de um familiar muito próximo disse convictamente que as novas gerações não vão chupar este modelo de sociedade. E em certa medida, partilho desse optimismo, embora talvez não com tanto grau de certeza. A ideia que tenho é a de um equilíbrio instável, porquanto os esclarecidos talvez não suportem este staus quo, muitos serão aqueles a quem tudo isto não parecerá senão normalidade até que os estragos sejam impensavelmente irrecuperáveis.
As estatísticas não mentem. O mundo gasta "zilhões" de euros a debelar os efeitos na saúde psiquica das pessoas, e nos dias que correm apenas as doenças cardiovasculares ultrapassam as doenças psicológicas na factura mundial a pagar. O paradigma está a alterar-se. A psicoterapia começa a democratizar-se, bem como uma parafernália imensa de muletas e ajudas para o horror existencial e incerto em que se vive. Os milhões de casos dividem-se em insuficiências endócrinas (deficiente produção de neurotransmissores), e as insuficiências sociais (tristeza, isolamento, individualismo selvagem), mas o resultado acaba por ser o mesmo - presta-se atenção quando da tristeza se passa á irascibilidade, quando da apatia se passa à auto-agressão. E não há dúvida que a atenção está a ser suscitada, ainda que seja à força, digamos assim.
Mas também não consigo deixar de ter a sensação que andamos numa moda. Hoje em dia muitas pessoas olham para a psicoterapia não como uma forma de ajuda, mas como uma muleta que está na moda, óu um outro local de ganho de atenção. É falar com um grupo de pessoas, e pelo menos um punhado tem um psicoterapeuta que provavelmente mais não fará que substituir a função de ouvintes interessados e afectivos. E julgo (admitindo a minha ignorância acerca do foro) que talvez os próprios profissionais em alguns casos pensarão que não serão mais que um amigo pago á hora, com a vantagem de poder perguntar ou saber de tudo sem que isso crie anticorpos.
Aparentemente, a organização social padece, como noutros momentos, de grandes mudanças de paradigma, fechando grande parte da urbanidade em ecrãs iluminados e caracteres certinhos (e contra mim falo, mas que saudades de uma carta escrita à mão...). Os pequenos crimes entre nós, como dizia o DAve Matthews, crescem a olhos vistos e a solidão ganha formatos novos como uma Hydra o faria com membros cortados. As mentes sofrem, ou aquilo que designamos por almas sangram. Pode ser um cliché, admito, mas os números são indesmentíveis. E embora seja talvez necessário um toca a reunir das consciências, para educar e sobretudo aprender a ouvir realmente, temo que por outro lado a resistência da mente aos seus sobressaltos necessários seja em muitos casos substituída por todas as formas possíveis de atenção perante aquilo que não é uma condição, mas em muitos casos apenas os normais, ainda que importantes tropeções existenciais de quem sente e oscila na sua compreensível e limitada humanidade.
Estes são tempos de alerta, e por isso, todo o cuidado é necessário.
Mas em muitos casos parece-me que talvez possamos cair na velha história do Pedro e do Lobo.
E aí, todos saem feridos.


sexta-feira, abril 17, 2009


Destes três actores, só o paradeiro de um deles é quase desconhecido. Precisamente o protagonista, que encarna a personagem de Gordon LaChance, um doppleganger de Stephen King, de resto o autor da maravilhosa história que está na base do filme.
Os outros três têm paradeiros bem determinados.
O gorducho, de nome Jerry O'Connell, é hoje em dia um actor em voga, tendo participado em vários filmes e muitas séries de televisão, incluindo o mais-ou-menos namorado da personagem de Jordan em "A Patologista". Em várias entrevistas referem-se a ele como "the fat kid from Stand by Me".
O protagonista, Wil Weaton, fez umas coisas em Star Trek, mais umas séries.
Corey Feldman, o moço dos óculos, e River Phoenix, o rapaz de cabelo rapado e líder do grupo, estão mortos devido a complicações com drogas e álcool. Este último, talvez o mais mediático, tomou um Speedball (Cocaína e heroína em cocktail) à porta de uma discoteca e quinou pouco tempo depois.
O mais curioso acerca destes factos, é que os personagens da história original, recordada pelo narrador já perto dos quarenta anos, morrem todos em momentos posteriores da vida. É certo que Jerry O'connell ainda está vivo, mas os outros dois morreram de formas semelhantes às dos personagens, designadamente em acidentes relacionados com bebida. Embora no filme isto não surja, está presente na história original.
Esta história, datada de 1982, era toda ela premonitória. E no fundo, se pensar em algumas pessoas que me rodeavam quando eu tinha doze anos, algumas estão já não vivem, por força de comportamentos auto-destrutivos que redundaram em mortes prematuras. Calculo que se todos nos recordarmos desses tempos, existem caras que nunca mais voltámos a encontrar anos mais tarde, com as barrigas e os filhos. Cristalizaram-se naquela de meninice, ou adolescência, e são como ecos de um passado onde a vida e a morte pareciam sempre abstracções de um mundo ao qual éramos alheios. E não são raras as ocasiões em que ao confrontar os pouquíssimos cenários ainda intactos, esse tempo e essas faces surgem, como lembranças de uma inocência que rapidamente desaparece e se transforma numa nostalgia consciente, uma moínha de saudade por certa simplicidade do mundo.

Aquela viagem dos quatro protagonistas, e a premonição derivada de tudo o que acontece, talvez seja a viagem que todos fizemos um dia na nossa pré-adolescência. Não nos mesmos termos ou com a mesma finalidade, mas a viagem estava lá. Como o primeiro contacto com fenómenos que geram coisas, as quais, nas palavras do autor daquela que talvez seja a história mais significativa do meu percurso como pessoa, são as mais mais importantes e as mais difíceis de dizer. E são-no porque as palavras as diminuem face ao que são internamente. Ficam encerradas não porque não porque falte um relator, mas porque dificilmente se encontra quem consiga ouvir.

(Isso é um veado a pastar num caminho de ferro explicam muita coisa. )






"The others slept heavily through the rest of the night. I was in and out, dozing, waking, dozing again. The night was far from silent; I heard the triumphant screech-squawk of a pouncing owl, the tiny cry of some small animal perhaps about to be eaten, a larger something blundering wildly through the undergrowth. Under all of this, a steady tone, were the crickets. There were no more screams. I doze and woke, woke and dozed, and I suppose if I had been discovered standing such a slipshod watch in Le Dio, I probably would have been courtmartialed and shot.
I snapped more solidly out of my last doze and became aware that something was different It took a moment or two to figure it out: although the moon was down, I could see my hands resting on my jeans. My watch said quarter to five. It was dawn.
I stood, hearing my spine crackle, walked two dozen feet away from the limped-together bodies of my friends, and pissed into a clump of sumac. I was starting to shake the night-willies; I could feel them sliding away. It was a fine feeling.
I scrambled up the cinders to the railroad tracks and sat on one of the rails, idly chucking cinders between my feet, in no hurry to wake the others. At that precise moment the new day felt too good to share.
Morning came on apace. The noise of the crickets began to drop, and the shadows under the trees and bushes evaporated like puddles after a shower. The air had that peculiar lack of taste that presages the latest hot day in a famous series of hot days. Birds that had maybe cowered all night just as we had done now began to twitter self-importantly. A wren landed on top of the deadfall from which we had taken our firewood, preened itself, and then flew off.
I don't know how long I sat there on the rail, watching the purple steal out of the sky as noiselessly as it had stolen in the evening before. Long enough for my butt to start complaining anyway. I was about to get up when I looked to my right and saw a deer standing in the railroad bed not ten yards from me.
My heart went up into my throat so high that I think I could have put my hand in my mouth and touched it. My stomach and genitals filled with a hot dry excitement. I didn't move. I couldn't have moved if I had wanted to. Her eyes weren't brown, but a dark, dusty black - the kind of velvet you see backgrounding jewelry displays. Her small ears were scuffed suede. She looked serenely at me, head slightly lowered in what I took for curiosity, seeing a kid with his hair in a sleep-scarecrow of whirls and many-tined cowlicks, wearing jeans with cuff and a brown khaki shirt with the elbows mended and the collar turned up in the hoody tradition of the day. What I was seeing was some sort of gift, something given with a carelessness that was appalling.
We looked at each other for a long time ... I think it was a long time. Then she turned and walked off to the other side of the tracks, white bobtail flipping insouciantly. She found grass and began to crop. I couldn't believe it. She had begun to crop. She didn't look back at me and didn't need to; I was frozen solid.
Then the rail started to thrum under my ass and bare seconds later the doe's head came up, cocked back toward Castle Rock. She stood there, her branch-black nose working on the air, coaxing it a little. Then she was gone in three gangling leaps, vanishing into the woods with no sound but one rotted branch, which broke with a sound like a track ref's starter-gun.
I sat there, looking mesmerized at the spot where she had been, until the actual sound of the freight came up through the stillness. Then I skidded back down the bank to where the others were sleeping.
The freighter's slow, loud passage woke them up, yawning and scratching. There was some funny, nervous talk about "the case of the screaming ghost," as Chris called it, but not as much as you might imagine. In daylight it seemed more foolish than interesting - almost embarrassing. Best forgotten.
It was on the tip of my tongue to tell them about the deer, but I ended up not doing it. That was one thing I kept to myself. I've never spoken or written of it until just now, today. And I have to tell you that it seems a lesser thing written down, damn near inconsequential. But for me it was the best part of that trip, the cleanest part, and it was a moment I found myself returning to, almost helplessly, when there was trouble in my life - my first day in the bush in Vietnam, and this fellow walked into the clearing where we were with his hand over his nose and when he took his hand away there was no nose there because it had been shot off; the time the doctor told us our youngest son might be hydrocephalic (he turned out just to have an oversized head, thank God); the long, crazy weeks before my mother died. I would find my thoughts turning back to that morning, the scuffed suede of her ears, the white flash of her tail. But eight hundred million Red Chinese don't give a shit, right? The most important things are the hardest to say, because words diminish them. It's hard to make strangers care about the good things in your life."

Stephen King - The Body - 1982

Embora possa ser entendido como um raciocínio lógico, atacar especialmente onde se situam as fraquezas surge sempre como um último recurso quando nada mais funciona. Porque atacar onde se sabe que os danos são certos e de debelação lenta, pressupõe conhecimento. Pressupõe uma confidencialidade, aceite pela natureza daquilo que se partilhou, e cujo acesso não previa qualquer espécie de publicitação. É em si um arma, mas daquelas que deveria estar apenas em exposição, como um subentendido semelhante às determinações da Convenção de Genebra.
E no entanto, como resíduo de uma eficácia certa para infligir violência, é uma regra violada uma e outra vez, porque nos estados emocionais subjacentes a confrontos dessa natureza não basta a igualdade. É necessário provocar baixas, e depressa, e diz, para mim, a idiotice própria de quem acha que a emoção justifica (quase) tudo, que em certos contextos valerá tudo.
Mas não é verdade. Não vale tudo. Como os delatores, os ataques pelas costas, ou o uso de armas ilegítimas pela previsão de dano máximo é um exercício de maldade mesquinha. É simplesmente prever, friamente, que certa acção acabará por causar danos que muitas vezes ultrapassam em muito ao origens e fundamentos da contenda entre as pessoas. A desproporcionalidade, muitas vezes, cria cicatrizes perenes.
Em meu ver não há qualquer justificação para tal coisa. É como atacar a perna de um manco numa luta, ou atingir abaixo da linha da cintura no boxe, ou simplesmente achar que os fins justificam todos os meios. E em situação nenhuma, e muito menos no amor e na guerra, como diz o brocardo, tal raciocínio tem legitimidade para passar da eficácia conceptual para o dano pessoal.
É triste, desleal, indecente, e não produz nada mais que terra queimada num contexto onde a urbanidade já destruiu muito do capital confiança entre pessoas, que é coisa débil e triste nos dias que correm.
O ataque baixo é próprio de pessoas rasteiras.
Tão simples como isso.


quinta-feira, abril 16, 2009

"You grow up the day you decide to do what's right.
Not just for you, but for everyone, even if it hurts."

Lars and The Real Girl

quarta-feira, abril 15, 2009

É brocardo já antigo que para muitos é difícil contentarmo-nos com o sucesso de outros. Que algo de bom e que faça brilhar alguém que não o próprio, é para muita gente, matéria de digestão complicada.
Este é um mecanismo que nunca entendi muito bem. Talvez porque a única reacção que tenha seja contra aquilo que é conseguido à custa de outros ou um enriquecimento sem causa que não a própria.
Mas para algumas pessoas, a manifestação de alguém livre, e belo porque, pelo menos naquele momento, está feliz, é desconfortável. Surge um pouco aquela noção de insatisfação própria em detrimento do que de bom enche a vida de outrem, como se para essas pessoas a vida fosse um estatuto permanente de credor de objectivos insolventes. Chatos dos caraças que adoram paradas à chuva, é o que é.
Em alguns casos fico mesmo feliz. Porque alguns palmilham a Capadócia, outros aprendem a fortalecer-se porque partilham fardos, outros têm o reconhecimento que merecem.
Noutros sorrio, porque apesar de não ser fã de miúdos, percebo a alegria da parentalidade próxima para algumas pessoas.
Mas noutros casos abano a cabeça porque algo que não me parece mais que inveja abstracta só merece mesmo é pena...
Mas celebre-se qualquer vida que melhore.
Porque o bem estar é por vezes, (esperançadamente), contagioso.
Não é?


segunda-feira, abril 13, 2009

Se a corrente actual, miserabilista, intelectualmente indigente, pseudo-realista armada aos cucos, etc, etc, de entretenimento destinado a malta mais nova (morangos com açúcar e quejandos) valesse 0,000001% do pior dos filmes de John Hughes, talvez muitos dos que eu ouço falar e opinar não se assemelhassem a feijões a negociar a saída do sistema digestivo de uma vaca (Black Adder dixit)...
E quem sofre mais com isso é quem, naquele universo etário até tem alguma coisa para dizer...
Como sempre.
Para os nostálgicos como eu, aqui fica uma pérola.
Abraço a todos


Existem, entre muitos outros, dois tipos de reacção visceral relativamente ao conceito de beleza. Que, claro está, não esgota o belo, diferenciando-se, em meu ver, como a sua manifestação terrena, se preferirem.
Existe a reacção de desejo. Desejo de a ter, de a obter, de sê-la, de a respirar, de a fazer uma pele, seja primeira seja segunda. Caso logrem a obtenção desse estado, há todo um estado de felicidade, julgo eu por se encontrar uma espécie de correspondência entre o desejo de materialidade das coisas boas e sensíveis da tal primeira e insubstancial pele. Quando não o logram, há uma reacção de desconfiança, de agressividade, de despojamento de substância, como se a beleza em si fosse como um qualquer animal esquivo e jocoso na sua plena liberdade de tudo poder fazer e conseguir.
No outro espectro, está a reacção do fardo. De quem aparentemente o carrega e sente que lhe é negada uma identidade, uma diferenciação por detalhes que não sejam aqueles aos quais a natureza parece vergar-se. Surge o medo da impostura auto-reconhecida, das conclusões do evidente, da invisibilidade da necessária limitação como algo de tangível e necessariamente humano. E no entanto, navega-se nesse paradoxo, porque a identidade dos traços também é parte, e é protegido porque afinal de contas, como parte do próprio, qualquer corte é uma dor compreensível, o que torna a aparente contradicção ainda mais dolorosa.
No fundo, são questões de receio. Receio pela invisibilidade. Pelo que não se vê devido ao ruído ou às plumas. receio pela conclusão que o evidente pode trazer aos impulsos, e sabe o mundo inteiro que num meio segundo de risco pode estar toda a diferença.
E o reconhecimento de cada uma destas faces do mesmo problema pode trazer ressentimento. Pode trazer medo. Resistência, protecção com as armas que distam entre si como um sarcasmo perfeito ou a consistência de um beijo bondoso da natureza.
Como em tudo, parece-me, na minha modesta opinião, que a conclusão talvez se possa mesmo apoiar na lógica da totalidade. O equilíbrio não serve só para andar de bicicleta ou sustentar filosofias de vida de cariz oriental. É uma linha que cruza e corta ao meio, e à qual julgo que é normal que nos agarremos para definir tudo aquilo de que somos feitos. O próprio amor é constituído de partes, embora eu ache que muita gente apenas teime em ver uma espécie de bloco indivisível, como se não fossemos recortados por palavras ou cicatrizes.
Por isso, como em muitas outras coisas, a beleza é algo que não se denuncia a si mesma enquanto totalidade, mas sim envolta no necessário fascínio que tantas outras coisas detêm. E talvez a concentração de desconfiança aquando da sua existência provoque tanto mal como o receio que o seu poder instila. É, ou pode ser (inegavelmente), uma arma, e mal usada, tem efeitos muito parecidos com a irresponsabilidade de qualquer poder. É, nessa asserção, a negação do belo, esse sim, assente num aspirar ao completo, ao uno, ao equilíbrio, como um círculo perfeito, que como qualquer abstracção, é uma criação mental, assente naquilo que a visão una de cada um permite.
Mas, para mim, a verdade está algures entre Antoine de Saint-Exupéry e Keats ou Drummond. No equilíbrio. Sem parcialidades relativamente à ideia de que o belo transcende largamente a beleza, mas dificilmente sobrevive sem qualquer manifestação dela.



quinta-feira, abril 09, 2009


Desatino solenemente com pessoas que sabem tudo. Aquelas pessoas que se erguem do alto da sua experiência ou suposta sapiência, e toca a moldar a realidade de acordo com as suas vivências, como se tivessem o formato de um livro de instruções para a vida. Disfarçam a sobranceira com uma espécie de sentido de humor histriónico, com o qual adquirem aquela velha frase entre pares "deixa lá, ela é assim".
São pessoas que raramente ouvem, muitas vezes cortam as frases dos outros a meio, sobrepõem o que lá acham que é opinião válida, e ouvem as invectivas ou opiniões alheias com o ar desdenhoso de quem escuta os balbuciares inseguros de uma criança ou coisa que o valha.
Essas pessoas, que em alguns casos até têm uma bagagem cultural ou experiencial digna de nota, borram a pintura toda porque o que poderia ser opinião informada parece quase discurso panfletário, próprio do snobismo assente num subentendido que eles tomam por história própria e que, assim bem espremidinho, nem meia laranjada dá... Mas passeiam com a leveza de quem não toca no mesmo chão que os outros, ou trauteiam um qualquer hino de segurança superlativa, onde até a filhaputice parece transformada numa perfeita e lógica justificação de "feitio", porque, sabem lá eles o que é...
Não há nada que mais aprecie do que aprender com as pessoas. Algumas conseguem ter sempre algo a dizer, algo a emergir do intelecto que acrescenta algo ao dia, sejam motores a dois tempos, Santiago Calatrava, ou colorações de cabelos, whatever. Outras exibem a caganeirice, envolta na velha máxima segundo a qual quem fala mais alto é que tem razão, e aquilo com que contribuem, que até poderia ser válido em conceito, não passa muitas vezes de ruído.
Bem sei que algumas pessoas têm problemas com défice de atenção, mas não há pachorra para os holofotes "wannabe" em salas plenas de lâmpadas idiossincráticas, e por isso, interessantes...


quarta-feira, abril 08, 2009

“Speech destroys the functions of love, I think...that’s a hell of thing for a writer to say, I guess, but I believe it to be true. If you speak to tell a deer that you mean no harm, it glides away with a single flip of its tail. The word is the harm. Love isn’t what these assholes poets like McKuen want you to think it is. Love has teeth, they bite; the wounds never close. No word, no combination of words, can close those lovebites. It’s the other way around, that’s the joke. If those wounds dry up, the words die with them. Take it from me, I’ve made my life from the words, and I know that is so.”
Stephen King - The Body.


terça-feira, abril 07, 2009

A verdadeira incapacidade de que padecemos só se revela perante aqueles de quem realmente gostamos. E nenhuma constatação é mais dolorosa que essa, ou paradoxalmente melhor.


O problema dos detentores dos martelos é que nada para eles é a transparência do vidro impassível de reconstruir, mas apenas a monótona consistência translúcida do gelo que se reconstitui uma e outra vez, graças ao imenso frio que deles emana.


Gostava de ter asas. Mas não para voar. Não é isso que me ocupa a mente quando a ideia me surge. Gostava de ter asas. Ou que elas não se aparentassem tanto com elas próprias, no reduto da inegável inexistência de que padecem.
Ou será que gostava?
Será que na perseguição de tais coisas nas minhas costas, a perspectiva que deals tinha se mantinha a mesma? Ou a minha própria adaptação do motor moral do postulado da imortalidade da alma claudicará perante a sua própria explicação?
Será que no reconhecimento da natureza levanto-me no ar mais à custa dos dentes que das asas que não existem. Mas que se vêem(?).
Gostava de ter asas então.
Gostava mesmo.


Abri a folha e das entranhas do papel saiu um jorro de azul e um punhado de outras cores. O céu estava pintado em várias matizes de azul, no que me parecia ser lápis de cor ou pastel. Era um céu sem um padrão uniforme de azul, com algumas nuvens recortadas pela ausência de lápis no papel. Em baixo, figuras sem rosto, também azuladas, enchiam um pedaço de terra árida, sem qualquer contorno que não o de montes. Nem uma casa, árvore ou erva. Nem sequer pedras. Apenas pessoas e mais pessoas, paradas, sem rosto. Sem nada.
-É um céu de papel. É dos meus preferidos.
Olhei para ele e não pude deixar de sorrir.
- E estas pessoas?
- São pessoas de plástico. Pessoas de plástico e um céu de papel. Gostas?
- Não têm cara…
- Pois não. – disse o miúdo, exibindo um sorriso radioso.


I have no idea of what they were talking about, as I never do when some women get together and seem to conspire in that intangible and secret way. But it always made me smile and think about those things we pursue all our lives with curiosity. To find that there is always something to discover is a true gift, even if sometimes it’s just an illusion to keep time at bay and life’s sense into perspective.


quinta-feira, abril 02, 2009

Inepto informático solicita ajuda a conhecedores para colocar um leitor de música aqui ao lado, que seja somente escolher a música e copiar o código de html para o template...

Muchas Gracias :)

Talvez todas as nossas histórias sejam mesmo parecidas, e haja quem pense que nada mais resta por contar.
Eu tenho uma ideia muito diferente. Basta que alguém não olhe para as mesmas coisas com os meus olhos. Porque nisso sou cartesiano até ao tutano (mesmo com a má rima acidental).
Quando há interacção com alguém seja em que plano for, pergunto-me sempre se a visão dos conceitos, ate mesmo os objectivos, nos reconhecimentos, não são mais do que o plano do tal Deus cartesiano, que se revela parcelarmente nos pontos de vista, atitudes e tendências do multiplos observadores.
Enquanto não me surgir a certeza, que felizmente nunca aparece, de que sei exactamente o que estão a ver quando há o mais ínfimo entendimento da mais simples das coisas, há sempre uma história diferente, nunca nada é igual, e a magia de tudo está na capacidade de conseguir transmitir, por muito pouco que seja, essa diferença em meio ao tudo que parece igual.
Acho que é por isso que talvez haja exigência. Porque muitas vezes emprestam-se e usam-se as histórias dos outros como matéria comunal, por uma convicção preguiçosa de que talvez não haja uma própria...