"Ao recordar tudo o que aconteceu, fico com a ideia que talvez me tenha deitado no meu casarão e tenha sonhado com tudo isto. No entanto, a recordação das noites frias, da fome e da boca afiada da cidade não mo permitem. Há marcas que não desaparecem, e aprendemos a viver com elas. Não temos outra hipótese. Ainda hoje especulo e pergunto a razão pela qual tudo aconteceu, e porque aceitei o impossível com alguma facilidade. O que teria acontecido no cemitério? Que teria ela visto? Quanto a isso, não faço ideia. Mas ao olhar para tanto enfado, tanta consciência pesada e tanto teatro urbano sentado à minha frente, não consigo deixar de pensar em todas estas coisas. Não consigo pensar no que terá ela invejado, naquilo que eu tinha e mostrara, aparentemente sem consciência. Porque alguma coisa teria sido. Algo a que me atrevera. Na persistência de apego à casa e à memória de quem supostamente já estava morta e ainda assim me dera vida, reside talvez a justificada gratidão por ter uma vida. Mas aquilo que me ocorre - e por vezes surge como uma ferida aberta na mente - é a razão pela qual eu julgo que já teria esse algo comigo muito antes de me tornar o que sou hoje. Algo que não me pode nunca ser ensinado, mostrado ou imposto e que no entanto lá estava, contorcendo-se até mesmo perante a perspectiva da morte. Da morte lenta, que chegaria com certeza à morte efectiva.
Sentirei falta da velhota? Bem já que estou a falar sem abrir a boca e parto do princípio que ainda não existem gravadores de cogitação, posso ser honesto. Julgo que sinto a falta daquilo que ela me foi criando. Da sensação de chegar a qualquer lado, de ter algo a fazer, da criação de um “micro-objectivo”. Também sou o primeiro a dizer que ela terá exagerado na retribuição, considerando que a expoliei e pensei pelo menos em magoá-la para poder então roubar tudo o que fosse possível. E no entanto fico com a sensação que em muitos casos não fazemos ideia do que temos e do que mantemos vivo internamente. Somos demasiado ingratos com essa capacidade, Ingratos com demasiadas coisas e pessoas, parece-me. Somos demasiado novos durante demasiado tempo."
12/2007
2 comentários:
Verbum volat, scriptum manet
I should hope so :)
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