ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, abril 20, 2009

"Ao recordar tudo o que aconteceu, fico com a ideia que talvez me tenha deitado no meu casarão e tenha sonhado com tudo isto. No entanto, a recordação das noites frias, da fome e da boca afiada da cidade não mo permitem. Há marcas que não desaparecem, e aprendemos a viver com elas. Não temos outra hipótese. Ainda hoje especulo e pergunto a razão pela qual tudo aconteceu, e porque aceitei o impossível com alguma facilidade. O que teria acontecido no cemitério? Que teria ela visto? Quanto a isso, não faço ideia. Mas ao olhar para tanto enfado, tanta consciência pesada e tanto teatro urbano sentado à minha frente, não consigo deixar de pensar em todas estas coisas. Não consigo pensar no que terá ela invejado, naquilo que eu tinha e mostrara, aparentemente sem consciência. Porque alguma coisa teria sido. Algo a que me atrevera. Na persistência de apego à casa e à memória de quem supostamente já estava morta e ainda assim me dera vida, reside talvez a justificada gratidão por ter uma vida. Mas aquilo que me ocorre - e por vezes surge como uma ferida aberta na mente - é a razão pela qual eu julgo que já teria esse algo comigo muito antes de me tornar o que sou hoje. Algo que não me pode nunca ser ensinado, mostrado ou imposto e que no entanto lá estava, contorcendo-se até mesmo perante a perspectiva da morte. Da morte lenta, que chegaria com certeza à morte efectiva.
Sentirei falta da velhota? Bem já que estou a falar sem abrir a boca e parto do princípio que ainda não existem gravadores de cogitação, posso ser honesto. Julgo que sinto a falta daquilo que ela me foi criando. Da sensação de chegar a qualquer lado, de ter algo a fazer, da criação de um “micro-objectivo”. Também sou o primeiro a dizer que ela terá exagerado na retribuição, considerando que a expoliei e pensei pelo menos em magoá-la para poder então roubar tudo o que fosse possível. E no entanto fico com a sensação que em muitos casos não fazemos ideia do que temos e do que mantemos vivo internamente. Somos demasiado ingratos com essa capacidade, Ingratos com demasiadas coisas e pessoas, parece-me. Somos demasiado novos durante demasiado tempo."
12/2007


2 comentários:

Anónimo disse...

Verbum volat, scriptum manet

SK disse...

I should hope so :)