Há uns anos, por diversas questões, tive de fazer uma pequena investigação acerca das doenças ditas psicológicas. Aquelas que alguns artistas chamavam o grande mal ou ou grande negro, sinceramente já não me recordo, mas que ceifou pessoas e mentes nos seus tempos. Pessoa, Espanca, Jeremy Brett (sim, o verdadeiro Holmes), Heminguay, etc, etc, etc. E calhou ontem, em conversa com amigos e familiares, o emergir de tais doenças num contexto global. E falo em contexto global tendo em conta uma espécie de organização de comportamentos e os hábitos ganhos em sociedade relativamente á percepção destes fenómenos. Dir-se-iam em emergência, embora eu cá tenho também a percepção que a palavra moda não estará muito desfasada da realidade.
Não restam dúvidas que os efeitos do modelo de sociedade preconizado pela velocidade dos tempos estão a deixar a sua marca. Uma voz optimista e até surpreendente de um familiar muito próximo disse convictamente que as novas gerações não vão chupar este modelo de sociedade. E em certa medida, partilho desse optimismo, embora talvez não com tanto grau de certeza. A ideia que tenho é a de um equilíbrio instável, porquanto os esclarecidos talvez não suportem este staus quo, muitos serão aqueles a quem tudo isto não parecerá senão normalidade até que os estragos sejam impensavelmente irrecuperáveis.
As estatísticas não mentem. O mundo gasta "zilhões" de euros a debelar os efeitos na saúde psiquica das pessoas, e nos dias que correm apenas as doenças cardiovasculares ultrapassam as doenças psicológicas na factura mundial a pagar. O paradigma está a alterar-se. A psicoterapia começa a democratizar-se, bem como uma parafernália imensa de muletas e ajudas para o horror existencial e incerto em que se vive. Os milhões de casos dividem-se em insuficiências endócrinas (deficiente produção de neurotransmissores), e as insuficiências sociais (tristeza, isolamento, individualismo selvagem), mas o resultado acaba por ser o mesmo - presta-se atenção quando da tristeza se passa á irascibilidade, quando da apatia se passa à auto-agressão. E não há dúvida que a atenção está a ser suscitada, ainda que seja à força, digamos assim.
Mas também não consigo deixar de ter a sensação que andamos numa moda. Hoje em dia muitas pessoas olham para a psicoterapia não como uma forma de ajuda, mas como uma muleta que está na moda, óu um outro local de ganho de atenção. É falar com um grupo de pessoas, e pelo menos um punhado tem um psicoterapeuta que provavelmente mais não fará que substituir a função de ouvintes interessados e afectivos. E julgo (admitindo a minha ignorância acerca do foro) que talvez os próprios profissionais em alguns casos pensarão que não serão mais que um amigo pago á hora, com a vantagem de poder perguntar ou saber de tudo sem que isso crie anticorpos.
Aparentemente, a organização social padece, como noutros momentos, de grandes mudanças de paradigma, fechando grande parte da urbanidade em ecrãs iluminados e caracteres certinhos (e contra mim falo, mas que saudades de uma carta escrita à mão...). Os pequenos crimes entre nós, como dizia o DAve Matthews, crescem a olhos vistos e a solidão ganha formatos novos como uma Hydra o faria com membros cortados. As mentes sofrem, ou aquilo que designamos por almas sangram. Pode ser um cliché, admito, mas os números são indesmentíveis. E embora seja talvez necessário um toca a reunir das consciências, para educar e sobretudo aprender a ouvir realmente, temo que por outro lado a resistência da mente aos seus sobressaltos necessários seja em muitos casos substituída por todas as formas possíveis de atenção perante aquilo que não é uma condição, mas em muitos casos apenas os normais, ainda que importantes tropeções existenciais de quem sente e oscila na sua compreensível e limitada humanidade.
Estes são tempos de alerta, e por isso, todo o cuidado é necessário.
Mas em muitos casos parece-me que talvez possamos cair na velha história do Pedro e do Lobo.
E aí, todos saem feridos.
3 comentários:
Já fui mais defensora do alargamento da «saúde mental»...
No actual esquema de banalização de anti-depressivos como se fossem pipocas e ansiolíticos à laia de kompensans para indigestão em roda de venda livre, prescritos na clínica geral ao menor sinal de tristeza ou contrariedade, parece-me que se preparam bolhas assépticas à realidade.
Bateu com o carro? Discutiu com o parceiro? Problemas com o chefe no emprego? Corte de cabelo errado, alguns quilos a mais? Um remedinho resolve a questão.
Como se se retirasse o sistema imunitário emocional às pessoas, substituíndo-o por comprimidos a tomar a horas certas. Uma espécie de woodstock à escala dos tempos de agora, mas mais funcional (e menos divertido): em vez da erva e dos selos de LSD, o Prozac e quejandos, porque hoje não se vive em concertos e de flor nos cabelos longos, mas na sociedade do carro topo de gama e do emprego bem sucedido, filhos bonitos e em número ímpar e companheiro cirurgicamente corrigido para parecer ter menos cinco anos, pelo menos...
Digo eu, que não tenho quase nenhum dos ítems.
ah, e já agora, porque é que só escolheste bipolares?
Experiência :)
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