ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, abril 20, 2009

Há uns anos, por diversas questões, tive de fazer uma pequena investigação acerca das doenças ditas psicológicas. Aquelas que alguns artistas chamavam o grande mal ou ou grande negro, sinceramente já não me recordo, mas que ceifou pessoas e mentes nos seus tempos. Pessoa, Espanca, Jeremy Brett (sim, o verdadeiro Holmes), Heminguay, etc, etc, etc. E calhou ontem, em conversa com amigos e familiares, o emergir de tais doenças num contexto global. E falo em contexto global tendo em conta uma espécie de organização de comportamentos e os hábitos ganhos em sociedade relativamente á percepção destes fenómenos. Dir-se-iam em emergência, embora eu cá tenho também a percepção que a palavra moda não estará muito desfasada da realidade.
Não restam dúvidas que os efeitos do modelo de sociedade preconizado pela velocidade dos tempos estão a deixar a sua marca. Uma voz optimista e até surpreendente de um familiar muito próximo disse convictamente que as novas gerações não vão chupar este modelo de sociedade. E em certa medida, partilho desse optimismo, embora talvez não com tanto grau de certeza. A ideia que tenho é a de um equilíbrio instável, porquanto os esclarecidos talvez não suportem este staus quo, muitos serão aqueles a quem tudo isto não parecerá senão normalidade até que os estragos sejam impensavelmente irrecuperáveis.
As estatísticas não mentem. O mundo gasta "zilhões" de euros a debelar os efeitos na saúde psiquica das pessoas, e nos dias que correm apenas as doenças cardiovasculares ultrapassam as doenças psicológicas na factura mundial a pagar. O paradigma está a alterar-se. A psicoterapia começa a democratizar-se, bem como uma parafernália imensa de muletas e ajudas para o horror existencial e incerto em que se vive. Os milhões de casos dividem-se em insuficiências endócrinas (deficiente produção de neurotransmissores), e as insuficiências sociais (tristeza, isolamento, individualismo selvagem), mas o resultado acaba por ser o mesmo - presta-se atenção quando da tristeza se passa á irascibilidade, quando da apatia se passa à auto-agressão. E não há dúvida que a atenção está a ser suscitada, ainda que seja à força, digamos assim.
Mas também não consigo deixar de ter a sensação que andamos numa moda. Hoje em dia muitas pessoas olham para a psicoterapia não como uma forma de ajuda, mas como uma muleta que está na moda, óu um outro local de ganho de atenção. É falar com um grupo de pessoas, e pelo menos um punhado tem um psicoterapeuta que provavelmente mais não fará que substituir a função de ouvintes interessados e afectivos. E julgo (admitindo a minha ignorância acerca do foro) que talvez os próprios profissionais em alguns casos pensarão que não serão mais que um amigo pago á hora, com a vantagem de poder perguntar ou saber de tudo sem que isso crie anticorpos.
Aparentemente, a organização social padece, como noutros momentos, de grandes mudanças de paradigma, fechando grande parte da urbanidade em ecrãs iluminados e caracteres certinhos (e contra mim falo, mas que saudades de uma carta escrita à mão...). Os pequenos crimes entre nós, como dizia o DAve Matthews, crescem a olhos vistos e a solidão ganha formatos novos como uma Hydra o faria com membros cortados. As mentes sofrem, ou aquilo que designamos por almas sangram. Pode ser um cliché, admito, mas os números são indesmentíveis. E embora seja talvez necessário um toca a reunir das consciências, para educar e sobretudo aprender a ouvir realmente, temo que por outro lado a resistência da mente aos seus sobressaltos necessários seja em muitos casos substituída por todas as formas possíveis de atenção perante aquilo que não é uma condição, mas em muitos casos apenas os normais, ainda que importantes tropeções existenciais de quem sente e oscila na sua compreensível e limitada humanidade.
Estes são tempos de alerta, e por isso, todo o cuidado é necessário.
Mas em muitos casos parece-me que talvez possamos cair na velha história do Pedro e do Lobo.
E aí, todos saem feridos.


3 comentários:

calamity disse...

Já fui mais defensora do alargamento da «saúde mental»...
No actual esquema de banalização de anti-depressivos como se fossem pipocas e ansiolíticos à laia de kompensans para indigestão em roda de venda livre, prescritos na clínica geral ao menor sinal de tristeza ou contrariedade, parece-me que se preparam bolhas assépticas à realidade.
Bateu com o carro? Discutiu com o parceiro? Problemas com o chefe no emprego? Corte de cabelo errado, alguns quilos a mais? Um remedinho resolve a questão.
Como se se retirasse o sistema imunitário emocional às pessoas, substituíndo-o por comprimidos a tomar a horas certas. Uma espécie de woodstock à escala dos tempos de agora, mas mais funcional (e menos divertido): em vez da erva e dos selos de LSD, o Prozac e quejandos, porque hoje não se vive em concertos e de flor nos cabelos longos, mas na sociedade do carro topo de gama e do emprego bem sucedido, filhos bonitos e em número ímpar e companheiro cirurgicamente corrigido para parecer ter menos cinco anos, pelo menos...
Digo eu, que não tenho quase nenhum dos ítems.

calamity disse...

ah, e já agora, porque é que só escolheste bipolares?

SK disse...

Experiência :)