ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, maio 27, 2009

É sempre lisonjeiro (ou ok, assustador) ter alguém que se dá ao trabalho de perder o seu tempo precioso a ler algo que não gosta, arranjar uma identidade desconhecida e distribuir insultos.
E pior para ele(a)(es), gastar energia a pensar que isso realmente me importa alguma coisa, ou que não passa da insignificância pusilânime própria dos cobardes.
Pensei que só as celebridades é que tinham stalkers.
É divertido. :)

terça-feira, maio 26, 2009

Nos últimos dias houve uma repetição da mesma ideia, trazida por duas pessoas diferentes. Uma ideia acerca da simplicidade dos nossos processos diários, das ideias de objectivos, da capacidade de esperar e antecipar algo. Uma ideia que me foi repetida e assente numa lógica de auto-ajuda, de capacidade de introspecção, de visão do que supostamente somos e podemos fazer.
Numa altura em que claramente se multiplica o desespero mudo, por questões de pragmatismo associado ao estado na nação, mas também pela mudança de hábitos e consciências do que é quotidiano e "urbano", se preferirmos assim, os optimismos, tão necessários, surgem por vezes associados a uma espécie de escárnio. Como se a crença simples em pequenas coisas que fazem a continuidade dos laços fosse passível de infindos exames conceptuais, e afinal de contas, a simples vontade de fazer ou saber algo acerca de alguém seja como a cultura em tempos de crise. Um luxo próprio de quem aparentemente se esquece do realmente "importante". E no entanto as denúncia sucedem-se. Dos estados em que as pessoas se encontram, da forma com a saúde pública os reflete em preocupantes estatísticas, de como as pressões do aparentemente supérfluo
estoira em violência que varia entre a televisionável ou aquilo que um grande musico chama os pequenos crimes entre todos nós.
No fundo, e embora isso pareça quase claro e evidente, a verdade é que até mesmo em células familiares, pouco se aparenta saber. Nota-se que os diálogos são pouco profundos, talvez porque as pessoas tenham mesmo medo de ver o que se passa do lado de lá. Medo de confrontar desejos, medos, arrependimentos e enfados que não se encaixam na lógica do projecto. Sofre-se no mutismo antes da companhia, por falta desta, e pelo receio da quebra da paz ilusória, quando aquela primeira sucede. Não generalizo claro, mas a forma tão ávida como a bondade de "estranhos" parece ser absorvida, relativamente ao que deveria ser aplacado por quem deveria saber, quem está, quem vê, dá que pensar.
E entendo esses receios. Algumas dessas coisas são feias, outras são parvas, outras tão idiossincráticamente íntimas ao ponto de parecerem masturbação mental. São coisas que nos revelam imperfeitos, portadores de desejos menos convencionais, de egoísmos e vontades alheias ao suposto esperado, que tantas vezes redundam em silêncio. Receios de que sejam mal entendidos, que a visão dos mesmos redunde apenas na estranheza de quem reflete e conclui sobre eles.
Mas também entendo que ao depositar-se a dose de confiança necessária para deixar sair tais gatos de tão emaranhado cesto, está a colocar-se nas mãos de outros algo de muito precioso, de único, daquilo que cada um é. Aquilo que permite as cumplicidades, as piadas realmente engraçadas, as leituras de alegrias e desesperos em apenas metade de meio segundo num olhar. Desejar-se isso é reconstruir para o próprio a noção de pertença, e é, de alguma forma, lográ-la.
E acho que há coisas muito piores para desejar. Mas também imensas muito menos difíceis.
A onda da psicoterapia que entrou na ordem do dia, dixit...


sexta-feira, maio 15, 2009



Peço antecipadamente desculpa pelas susceptibilidades que possa vir a ferir, mas a ideia de ciúmes do passado parece-me uma perfeita parvoíce. Bem, já o conceito clássico de ciúmes não me é muito simpático, mas adiante. A ideia de que alguém pode andar ou ficar inquieto por causa de alguém que já existiu na vida da pessoa com quem está parece-me claramente ideias de quem tem demasiado tempo nas mãos, está cansado de estar bem e precisa de arranjar sarna para se coçar.
A razão pela qual alguém anda inquieto por alguém que já não é factor, é coisa que me esgota qualquer capacidade para argumentação racional. E depois poder-se-ia dizer que o medo é daquela pessoa, de um artista qualquer que supostamente marcou a pessoa indelevelmente... mas não... normalmente esta patologia estende-se a toda e qualquer alminha que alguma vez se tenha aproximado e tocado na parceira(o), como se a coisa a qualquer momento pudesse repristinar. É competir com fantasmas, arranjar conflitos com base em conflitos que já acabaram, assim como ser-se um cossaco em plena 2ª guerra mundial.
Se é suposto funcionar como uma qualquer espécie de declaração indirecta de amor, pois, sem mais comentários.
Os ciúmes do passado são um mecanismo quase prepotente, com pitadas de uma sobranceria estranha, já que se age como se o mundo só existisse a partir do momento em que o ciumento retroactivo tivesse entrado em cena. E, que diabo, presunção e água benta, cacete...
E normalmente essas pessoas, que arranjam redomas em torno da pessoa que as acompanha, acabam por redundar numa única coisa. Ficam a falar sozinhos, e aí sim, com coisas que não existem, mais ou menos aquilo que arranjou a sarilhada que os terá levado até essa solidão superveniente.

Desculpa lá Chris, mas definitivamente não concordo contigo...





quinta-feira, maio 14, 2009


Sendo, em vários cenários sociais nos quais me insiro, um dos raros desemparelhados, mentira se algumas dúvidas não surgissem. E surgem relativamente ao que observo, às movimentações, à sacralização da chamada "adaptação", aos instintos de preservação de algo face a naturais constrangimentos de personalidade. Embora o velho brocardo romatizado nos diga que as diferenças constroem dinâmica relacional (sim, porque a falta de antagonismo mata, por exemplo, o senso de humor, e sem provocação ninguém sobrevive), essas dissimilitudes possuem gradações. E quando o grau se eleva ao ponto da discórdia, com a acrimónia logo ali ao lado, ou pior, da apatia por ausência de comunicação, surgem várias questões quanto ao fundamento das relações ditas estáveis (seja lá o que isso for).

Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar falamos do conseguir. Do chegar lá.

Por mais voltinhas que possamos dar, existe em quantidade considerável a ideia do projecto. A ideia de que em certo tempo, "há que arrumar a vida". E são tantos os factores que assistem a esta ideia que custa enumerar todos. Mas falemos um bocadito acerca dos que me parecem mais relevantes, e em alguns casos, assustadores.

Em conversa com algumas, para não dizer, muitas pessoas, verifico que as palavras mais utilizadas são "cedência" e "adaptação". Vejo que em certos casos, a lógica do projecto sobrepõe-se à percepção de vontade real. Assumem-se compromissos porque "está na hora". Mudam-se comportamentos, ou tenta-se pelo menos, não pela ideia de auto-consciência dessa mudança, mas porque se torna "adequado" ou "necessário". Surge aquela terrível frase - "eu cá já estou despachado", o que em certa medida se adequa perfeitamente a certas situações.

E perante isto, porque o calendário não pára, porque o medo da solidão na urbanidade faminta é terrível, porque as ameaças de ausência são gigantescas, as razões para o "despacho" surgem como uma espécie de racionalização comportamental perante marcos cronológicos.

Afinal há muita festa, muito convívio, ninguém quer ir sozinho a casamentos, ninguém quer dar beijos de fim de ano apenas em faces, ninguém quer contemplar o cenário das férias esquizofrénicas de ecos e silêncio de letras e frases em papel, ninguém quer ouvir os pais em cuidados acerca da vida própria que nunca mais se "arranja". Eu sei certamente que não é coisa que me agrade.

Mas será isto a ideia que deve subjazer a uma ligação com alguém? Será a ideia do relacionamento transcendente quando relacionada com a ideia da pessoa? Será que perante a ausência dos paradigmas, a dinâmica relacional pode justificar que os padrões se adaptem? Que afinal de contas, surge como necessário é estarmos sossegados e "entregues", e que depois logo se gere, como se gere o trabalho e todo o pragmatismo da vida de todos os dias?

Não faço qualquer julgamento. Apenas tenho dificuldade em ver essa dimensão das coisas, o que se calhar explica muita coisa. A ideia da conveniência, do ajustado, daquilo que afinal de contas acaba por "servir", porque afinal não se encontrará "melhor" mesmo parece-me um grande explosivo com um detonador retardado. Cedo ou tarde vai estoirar, e normalmente fá-lo na cara dos seus manuseadores. Acontece porque cedo ou tarde se descobre, acho eu, que podemos lidar com as dificuldades inerentes a qualquer perenidade relacional, mas dificilmente se é livre com a ideia da calçadeira. E essa ideia assaltará a pessoa dia após dia, até que ou ela se torne dormente quanto à questão, ou sobreviva com subterfúgios, ou compre uma mala e siga.

Mas é realmente essa a ideia que subjaz. Aconchegados, com o mundo "lá fora", parece repetir-se a ideia de que a alternativa é bem pior, que mal por mal, mais vale a companhia, a ideia de pertença, a lucidez aparentemente óbvia de que a vida tem de continuar, com o que se quer, ou o que mais se aproximar disso.

E infelizmente (ou naturalmente), claro está, dá, em muitos casos, merda.

Não defendo a outra alternativa. Sei lá e quem sou eu para definir o que é certo, ou adequado. Mas olhando para os resultados, para os efeitos das dissimilitudes em relações onde a solidez se fez das suas periferias, as rupturas e danos são frequentes. E ainda assim, muitos não se questionam. A adaptação é soberana, mas onde outrora a mesma era muitas vezes motivada por constrangimentos de sobrevivência, agora é-o na mesma, mas numa questão de sobrevivência vivencial entre pares, acicatadas pelo medo da ausência de plano, de estrutura, de tempo certo para as coisas.


E depois de lá estar?


Bem, aí surgem outras coisas.


É certo e sabido que a convivência tem mais segredos que a fechadura do cofre em Fort Knox, mas a ideia é similar. Para mim, quero dizer.

Ninguém pode estabelecer qualquer espécie de relação, seja de que espécie for, sem a capacidade de adaptar e tornar as diferenças em combustível. Como disse, o antagonismo, a capacidade de provocar pela dissimilitude, o senso de humor em si também provocatório são absolutamente essenciais. Se perdemos a capacidade de contar coisas do lado de cá, e ouvir do lado de lá, se tudo é uma claque perante uma única equipa em campo, qualquer enlace sofre. Seja ele de cariz amoroso ou de amizade ou do que for, é no argumentário mútuo que está a génese do contacto, da evolução na interiorização do outro.

Mas isto não cai minimamente na ideia de auto-colante manhoso e brega onde se lê que os opostos se atraem. Os opostos atraem-se até ao momento em que se apercebem ao ponto em que se opõem. E aí a merda atinge a ventoínha, e não podem existir dois galos, dois alfas, dois directores. Perante as clivagens, a experiência diz-me que alguém acaba por ceder, e o que passa a existir é um regime político com debates do estado da nação. Mas perante a maioria absoluta, pois, a coisa já tem destino conhecido.


E dou comigo a ouvir queixumes velados, ideias de adaptação que parecem cair mal como auto-convencimento quando algo do fundamental é cedido para que o projecto "navegue". Seja pelo desencontro de líbidos, pelos rituais de relacionamento social, pela questão da paternidade, whatever. Os sacos enchem, os olhos começam a ficar cada vez mais opacos, e a postura corporal assume o formato resignado. A ideia dos sacrifícios que se têm de fazer para que a coisa vá para a frente, sem se perguntar minimamente se a palavra "sacrifício" deveria ser sequer cogitável.

Nunca colocando de lado que o medo da solidão, que é profundamente convincente (e a malta não vai ficando mais nova), seja factor, (e eu tenho medo dela que me pelo), pergunto-me até que ponto a alternativa, o porto onde se pode atracar, surge defensável como racionalização de uma vida possível. Até que ponto o vergar a métodos de convivência, (porque é tempo, ou fica bem, ou se quer durante um certo tempo e depois quer-se manter sem que se saiba muito bem porquê,) poderá significar de facto o necessário portal para fases de vida ditas necessárias.
A inadaptação é solitária, é certo, mas é também uma questão que, ao perdurar no tempo, radica em esperança de que algo passe e encaixe na naturalidade das dúvidas.
Se não crer em caras metade é sinal de lucidez, e eu até concordo, a verdade é que criá-las, por oportunidade, ao momento dito certo, não é lucidez. É esperar que o tornado mude de sentido, ou contrair dívidas estando certo que a taluda cairá, mais cedo ou mais tarde.
E depois há quem se ache, por estar dentro da verificação do conceito, que determinados comportamentos são esperados, que a falta de indícios comportamentais num certo sentido deverão milagrosa e pacificamente surgir pelo simples facto de se estar dentro de um compromisso ou ligação. E já sabemos que um lobo com uma pele em cima não se torna realmente um javali.
No fundo acho que me cansa um pouco que muitas pessoas que conheço façam da solidificação de uma relação, seja lá o que isso for, uma espécie de troféu. Uma maioridade social que mal consegue esconder o enfado, o cansaço, as questões. Não generalizo, evidentemente, mas sei da enorme relevância dessa amostragem. Da infelicidade cansada que leio nos olhos dos muitos "adaptados", da dificuldade que têm em defender essas escolhas com o coração escusado com as necessárias diferenças.
Se calhar eu próprio não passo de um adaptado. À minha teimosia, ao insuficiente peso do medo, à ilusão por coisas se calhar tão quiméricas como as que referi acima. Talvez a coisas bem piores, a elementos tão profundamente assentes que são definidos muitas vezes como disturbios ao retardador.
Mas em última análise, o problema nunca é ter as dúvidas. É dá-las como certezas quando existem. Até porque por vezes os tornados mudam de carreiro, mas não será certamente porque possamos fazer alguma coisa para que isso não aconteça. Porque o melhor que pudermos fazer é sempre o melhor que pudermos fazer.
Por isso... :


quarta-feira, maio 13, 2009

I have a very simple thought about things and people. People interest me in an abstract way. They appear as a gathering of things which become unique more by our action than their own, and what’s remarkable about that is the growth that ensues. We become the builders of that uniqueness. We become somehow responsible, necessary “Pigmaleonic” folks that search the reason for that inspiration through one’s own eyes. Beauty might be in the eye of the beholder, but I strongly believe that it lives in his imagination, and the capability to build around the object of affection without tainting his or her essence.

And it might happen that someone catches your eye, sings an unpredictable tune and you are on your way, imagining and asking some forbidden questions from time to time. Hal Hartley said that usually there was nothing else but desire and trouble. I tend to disagree. There is some kind of simple wonder, where sexual earning is but a part of what begins to nag your head. Sexual or mental magnetism draws you near and somehow acts as a catalyst.
But some tendency to endure or linger is something of absolute rarity, I guess.

Like a real sense of humour.

Like some special kind of real people.






terça-feira, maio 12, 2009

Os últimos tempos têm sido de um tal caos controlado, que quase nada de tempo após as jornadas de trabalho, os desafios inerentes, e o cansaço (felizmente) dormente.
Não quer isto dizer que não hajam coisas a flutuar por aqui, ideias, contrastes de luz e outras coisas bem menos felizes.
Mas é espantoso como o tempo pode realmente passar quando a um objectivo se consegue, ainda que parcelarmente, dar quase o envolvimento da maioria das parcelas da chamada vida de todos os dias.
Espantoso e perigoso, mas por agora, a alternativa não é possível.
Até já.



sexta-feira, maio 08, 2009

Uma pessoa começa a perceber que perde o controlo sobre a própria vida quando as rotinas e os acontecimentos parecem encaixar completamente numa escala.
Quando os dias mal começam ao sair e já morreram ao regressar.
É complicado não interiorizar as mecânicas das terapêuticas de substituição, como trabalho e exercício físico, e negar a sua capacidade de nublar os verdadeiros receios que surgem com a reflexão, com a contemplação da própria vida, os seus ritmos, rituais e expectativas.
Vivendo numa cidade essencialmente desalmada, todo o cuidado é pouco. É preciso temer e prever aquilo em que se consegue pensar, e teimar. Teimar muito na ideia de que nada são paredes de concreto, e que se Pyramus e Thisbe se safaram... quem sabe?...
Eu tenho medo.
E não tenho medo de o dizer.
Mas render-me aos tempos da conveniencia... Bem, isso é outra conversa.