ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, junho 30, 2009

Nem benesses nem caridades.
Talvez o desejo mais comum e simplificado de todos.
Que possamos surgir mais vezes melhores melhores que piores.

Aceitar recortes de personalidade é uma gaita. Se por vezes até temos dificuldades em aceitar-nos a nós, caraças eu sei que tenho, aceitar as idiossincrasias dos outros é, por vezes,um obstáculo aparentemente inultrapassável. Essa pessoas acabam por ter detalhes que assentam naquilo que achamos que falta, e as falhas agigantam-se porque na nossa compreensão de base do que é viver e olhar para as coisas, aquilo não encaixa.
Damos voltas à cabeça, olhamos para a pessoa e pensamos, "caraças era tão simples só fazer um bocadinho mais à esquerda ou à direita", mas esquecemos que a nossa naturalidade também terá certamente coisas relativamente às quais o observador interessado terá a mesma opinião. Portanto, em certa medida, somos todos umas potenciais bestas, e eu cá sei que sou. Para muitas pessoas, relativamente ao que se calhar deveria fazer, de acordo com uma concepção, sou uma cavalgadura para quem as evidências são densas como uma lista telefónica do Togo.
Mas também creio que os mecanismos de aceitação, ou o que passa por eles, têm em conta que ninguém é igual, e que todos temos dificuldades recíprocas. Todos temos merdas irritantes, e algumas mesmo exasperantes. Toda a gente está sujeita a levar umas mocadas devido ao que é percebido como parvoíce, como cegueira, como descaso. Eu então surjo como candidato privilegiado, devido a uma série de teimosias.
No entanto tudo seria mais simples, talvez mais pacífico, se a aceitação própria redundasse na capacidade de mostrar esses calhaus de lua, e aceitar os que de lá vêm. Mas a exigência não o permite. A capacidade de desejar algo nos outros leva a melhor sobre aquilo que aparentemente apresentam, ou que pode ter sido produto da forma como se sentiram reflectidos. Tit fot tat, dizem os americanos, e quando o que estamos a falar é de vulnerabilidades, o jogo é feio, e as unhas afiadas.
Eu não quero ser uma desilusão, nem quero ser menor, nem quero contribuir para uma imagem mais negra que alguém possa ter do mundo, mas também não tenho quaisquer aspirações a perfeição ou ao universo de isenção de falhas de quem ninguém goza. E muito menos acho que os reforços negativos, apresentados de quaisquer formas, algumas delas com requintes, sejam meios para salientar diferenças. Acho que sim, querer ser melhor, observar honestamente as limitações, tentando ultrapassá-las, ou compensá-las com capacidades, é o que eu considero um caminho. Não sei se o farei bem, e sinceramente, nem me interessa nada que não seja saber que tento, e para mim é o que me basta ver nas pessoas.
O risco que possamos não servir para ninguém é imenso.
Já chega (em muitas ocasiões), não servirmos para nós próprios.



O que passa pela cabeça de alguém para se deixar nomear como Guiducha? Ou Bibá, ou Teté, ou Mitó, Pimpinha ou outras atrocidades que tais?
Ao que parece, de acordo com a conta bancária, deixa de ser bimbo para ser "fofinho" ou supostamente jovial. É uma forma, supostamente, de ser terra a terra...
Afinal de contas, um Zé Tó de Mercedes tem aparentemente uma grande diferença de um Tó Mané com uma Hiace...





SEXO
(disclaimer - este é um texto longo, porque o assunto mo sugere. E como é bem sabido, este é daqueles que não se esgota, por isso, siga por sua própria conta e risco...)



Aqui há tempos falava com uma amiga bloguista que me falava da sua dificuldade em abordar o tema de forma "séria". Acho que a entendi perfeitamente, talvez porque no âmbito do fenómeno em causa, a seriedade tenha de ser tomada com várias doses de sais e muita contenção. Até porque, quando a coisa é boa, a propensão para o disparate faz parte de todo o complexo comportamental. O desejo é, por si, um descarrilar, e com ele, muito boa parte do bom senso sai de pista em clara derrapagem.

Há quem diga que o sexo não passa de "notícia velha", que está repisado, que não é o fenómeno de "disclosure" que suscite qualquer revolução de mentes ou formas de estar ao ponto de justificar tanta reflexão ou importância. Mas a verdade é que o sexo ainda vende, ainda está na ordem do dia, e mesmo nos dias de hoje não há ainda esclarecimento que anule a sua aura de transgressão e interesse. As meninas da Dove voltaram a ser "irrealmente" boas, um perfume sugere a Charlize Theron a despir-se pela casa (e pelos vistos a adorar a experiência), o Verão ainda traz (e cada vez mais) a sugestão ou mesmo mostra da pele, e muita gente ainda se pergunta acerca de muitas coisas que envolvem os mistérios subjacentes à capacidade de desejar. Ainda é motivo, ainda se esconde, ainda vive como uma corrente eléctrica subreptícia que muitos desejos de paz simplesmente não admitem que entre na ordem do dia. Ainda motiva diatribes de organizações totalitárias e espirituais que não admitem qualquer menção a tal corrente na natureza humana, admitindo o Homem como uma espécie de roda fendida ou quadrada. Enfim, adiante...

O sexo ainda suscita o velho debate entre o desejo "sensorial" ou exclusivamente afectivo.

Surge uma corrente contemporânea de revelação, de real inspiração nos fenómenos da suposta porta fechada tornada um pouco mais escancarada. São livros, são manuais, são senhoras de mala vermelha que andam de porta em porta, seja o que for, mas fala-se. Reflecte-se. Mas sobretudo, quer-se. Está absolutamente na ordem do dia. E esta corrente traz ao de cima a possível clivagem entre o reduto emocional como exclusivista do sexo, e uma outra dimensão, também afectiva, mas diferente. Uma ideia que lança o ódio moralizante ou o desdém da sacralização do afecto extremo como justificação para duas pessoas darem azo a algo que, consensualmente, só a elas lhes diz respeito, ams que tem uma pertinência que não me parece ser de hoje, embora creia que é bom que cada vez mais pessoas falem, percebam e façam o que lhes der prazer.

Recordo sempre a ideia muito simples, mas que me parece absolutamente certeira, sendo passível de adaptar aqui. Irvine Welsh, no grande "Trainspotting",através da boca de Renton, dizia que as pessoas perguntam o porquê da atracção da heroína. Não é porque é cool, ou porque a pessoa ganha o hábito do dependente, ou porque tem problemas e quer fugir, ou seja lá o que for. Para ter ideia, imaginariam o melhor orgasmo da respectivas vidas e depois multiplicassem-no por cem. E aí está. A atracção era simples - porque é bom. Indefinivelmente e insuportavelmente bom. Acho que no caso do sexo, e de forma muito mais segura (desde com os devidos cuidados, goes without saying) e menos destrutiva, a formulação da ideia é muito semelhante. É Bom. Muito Bom.


Arrumemos então primeiro o mais "simples".


O chamado "sexo pelo sexo.

Mas o que raio vem a ser isto?

Tirando as dependencias hormonais e distúrbios psíquicos, que os há, parece simples. E, mesmo que me custe admitir, e já direi porquê, existe. Existe de facto uma morfologia de desejo que assenta numa lógica quase exclusivamente fisiológica. E o que talvez me incomode um pouco não é o fisiológica, mas o exclusivamente. Não me incomoda moralmente (porque sinceramente moral e sexo são água e azeite), nem nada que se pareça, mas talvez porque tenha dificuldade em perspectivar um despir completo de uma intuição minimamente afectiva, me deixe perplexa a capacidade de isolar aquilo que, por maioria de razão, só poderá assentar no silêncio feroz das feromonas. No fundo, acho que simplificaria muitas das situações em que muitas pessoas se encontram por vezes, uma vez que a descarga hormonal tem a vantagem de ser absurdamente simples, e gera um desejo sem subcontextos.

É um pouco como o ateísmo dito puro. Eu sou um agnóstico fervoroso (sim, belicoso perante as religiões organizadas), e creio que a ideia do nada é muito complicada de perspectivar. Creio firmemente que a esmagadora maioria das pessoas, como eu, que não creem em nenhuma divindade, têm dúvidas, questionam-se acerca do conceito de transcendência. Ora no sexo acho que é a mesma coisa. Muito dificilmente se consegue despir de um qualquer senso afectivo, por mais atípico, minúsculo e destorcido que seja. Mas já lá vamos. Parece-me muitíssimo bem desde que as pessoas estejam felizes. No fundo é só isso que deveria importar.


Passemos agora ao outro extremo.

A radicalidade do amor como justificação única para o nascimento e efectivação do desejo. Menos raro que o anterior, parece-me que, se levado à letra, encerra em si algo de falacioso. Não significa que duvide que hajam pessoas que só sejam capazes de trocar fluidos e fazer trinta por uma linha se estiverem enamoradas profundamente. Mas o erro é pensar que essa "disciplina" é uma espécie de verdade universal que secundariza e minimiza outras perspectivas afectivas. Chega a ser despótica, e desculpem lá qualquer coisinha, meio pequenina, a ideia de que se podem qualificar por ordem de propriedade e virtude, as emoções que tomam as pessoas.

O amor pode, acredito, motivar talvez o "melhor" sexo, (se bem que existem tantas histórias que provam precisamente que pode não ser assim), mas não é, nunca foi, e a História continuará a encarregar-se de demonstrar que jamais será o único motor, fundamentação ou reduto afectivo. Algumas pessoas agarram-se a essa ideia quase como que uma espécie de exculpação do sexo, como se aquilo que estivesse subjacente, que no fundo é a nossa saudável tendência para nos portarmos mal, pudesse assentar num prato da balança onde a suposta decência pudesse ser equilibrada pelo sentimento dito "nobre". Perdoar-me-ão, mas parece-me um imenso disparate.

"Ai o que me apetece fazer à Maria com este óleo e o que ela me faz seria crime em alguns países, mas felizmente amo-a, senão que seria isto, que seria da minha imagem de pessoa equilibrada e decente??" Give me a break...

O afecto dificilmente se qualifica, e muito menos o que lhe está subjacente em termos dos actos que leva a praticar. E fazer julgamentos, bem, tem aqueles riscos que já sabemos, e que volta e meia viram-se e mordem-nos no rabo. Porque em certa medida, nunca ninguém sabe o que lhe vai passar pela cabeça, e terá muita sorte se isso for o que de mais esquisito lhe possa ocorrer.

A verdade é que o sexo tem aquela qualidade que muito poucas coisas têm, especialmente por estar associada à curiosidade. E estando associado a esse conceito, criada que está a noção percepcionada de algo novo, entra em acção a tendência irremediavelmente humana para ver o que se passa, como é, o que faz.

O sexo é a forma mais antiga de poder que existe, e assenta numa inexistência, porque a saciedade mata todas as ideias de transcendência que os apetites vorazes criam na mente de quem os sente. No fundo, como é que se explica tanta energia em torno de algo que despenteia, faz transpirar, provoca a emissão de sons patetas e expressões ainda piores, enrubesce, vulnerabiliza? Acho que é fácil, e transcende em muito a questão do prazer. Porque embora este seja o pretenso móbil, é a ideia de um cheiro diferente, de uma voz desconhecida em certa medida, do instante de revelação e vulnerabilidade, da dádiva que surge em consequência da pressão do desejo anterior. E isto passa pela cabeça de muita gente. Em muitos momentos. E gera toda uma noção de troca de intimidade que acaba por ser mais do que motivo, o instante surpreendente em que se sabe que provavelmente se chegou a um local onde as pessoas se despiram (para além do literal) até ao mais elementar de si mesmas, com todos os riscos que isso implica.
Bem sei que dizer que o sexo é uma forma de comunicação é um clichê rebatido até à exaustão, mas a idea que tenho assenta precisamente aí - há toda uma forma de passar alguma coisa que muitas vezes não é possível de nenhuma outra forma, devido á morfologia, timidez, incapacidade ou preferência de cada um. Além disso, quando o sentido de humor, a forma de estar, as ideias deixam completamente de parte uma noção de atrevimento, assusto-me ao mesmo tempo que algo se torna imediatamente enfadonho. Quando ouço, em tantas ocasiões, depoimentos de pessoas não agastadas pela idade, ou doença, ou tristeza profunda, apregoarem que sexo é uma espécie de recordação ou criancice perante coisas mais importantes, eu cá pergunto-me até que ponto alguma coisa pereceu sem consciência disso mesmo. É uma forma de estar atento ao mundo que fenece, e com ela muitas outras coisas por arrasto, uma espécie de graça e agilidade de comportamento que tantas vezes brilha em tantas pessoas quando está activa.

Em bom rigor, e isto é apenas uma opinião pessoal, o sexo dificilmente logra intuitos se destacado do mínimo de afecto. Há quem diga que a atracção pura e simples pode funcionar e já está, mas sinceramente, a atracção é em si uma forma de afecto, uma forma de escolha, de representação sensitiva dentro de quem se sente assim, e como tal, uma espécie de afecto. Aliás, a atracção, mais uma vez na minha opinião, não existe sem a interacção. Que diabo, pensem na quantidade de gente bonita que se vê todos os dias em toda a parte. Pessoas que abstractamente seriam e são capazes de accionar aquele painel interno de referências estéticas e sensoriais, e que no entanto, sem interacção, desaparecem da vista e da memória passados cinco minutos. Ao passo que por vezes, a troca de meia dúzia de palavras, uma conversa, uma percepção dessa pessoa, pode, aí sim, criar a atracção, a ideia de que alguém surge isolado em si mesmo perante nós e nos puxa para ela, simplesmente por ser o que é. E o instinto sexual, o drive, está lá. Ou pelo menos surge muitas vezes, porque afinal, a tesão tem tantas e tão estranhas formas de se revelar, mais "petrarquicamente" ou não.

Por tudo isto não acho o sexo dissociável do afecto, mas não tem qualquer exclusivismo assente no amor passional ou chamado "sério".Ñão digo, obviamente, que não haja quem só sinta assim, e obviamente que para essas pessoas a realidade tem esse formato. Mas não é definitiamente generalizável, e na experiência de vida de outros que tive o privilégio de ver e com quem aprender, muitas pessoas dão consigo, numa altura ou outra, a fazer coisas que nem lhes passava remotamente pela cabeça. E não será isso um sinal de saúde mental? Que algo em cada uma dessas pessoas não está formatado? Eu acho que sim.
O sexo está, estará, e recobre a ordem do dia. Já foi dissecado ao mais ínfimo pormenor, mais recentemente através um género de literatura que assenta os seus arraiais na provocação supostamente reveladora do instinto mal comportado de juizínho nacional e não só. Começa até a dar matéria para uma nova forma de machismo, mas levado a cabo por algumas mulheres no exercício de uma condescendência, que é, na melhor das hipóteses lamentável e própria de memórias sociais curtas, mas isso é pano para outras mangas...

O sexo é gerado simplesmente de um querer. E discutir as fundamentações, principalmente morais, de um querer consensual, é tentar qualificar o que não tem formato padronizável. E contra mim falo, que volta e meia também o faço, por valores, ideias e formatos pessoais. Qualifico, mas isso não significa que não me ocorra que no campo das ideias acerca do sexo, nem o céu é limite algum porque, em última análise, a capacidade de desejar talvez já tenha gerado mais actividade que qualquer outro impulso da psique humana. Bate-se mesmo com o tal Amor, aquela coisa que move montanhas e yaddayadda, mas também não vamos por aí agora.

Fica, como pano de fundo, esta música do Bryan Ferry. Qualquer vídeo das PussycatDolls tem mais sexo por segundo que este talvez tenha em toda a sua extensão. É muito 80's, muito estilizado, mas esta e um par de outras sempre foram as músicas que mais associei ao universo do sexo, aos vinte segundos após a porta do quarto, (ou seja lá o que for que nos separe do mundo), se fechar, e percebemos que a mais deliciosa das antecipações ainda dura mais um bocadinho, para depois ser apenas viagem.

E como já citei algumas vezes, já lá dizia o Vergílio Ferreira.
"A melhor maneira de viajar, é sentir"...




segunda-feira, junho 29, 2009

Quando vi este filme, fiquei siderado. Para já porque o argumentista, se não me engano, tinha 23 anos na altura. Depois, pela atormentada representação de Gyllennhal, e mesmo da irmã. A expressão nos olhos presente em todo o filme é um hino ao que se consegue expressar em silêncio, e não está ao alcance de qualquer actor.
Mas o que me deixou rendido, além do contacto com a faixa que estão a ouvir, foi a ideia subjacente a todo o filme. A ideia de solidão, de como o quotidiano, (como já o fizera Sophia Coppola na adaptação do filme de Eugenides - Virgin Suicides) pode simplesmente esmagar a individualidade pelo desconhecimento tão bem retratado pelo diálogo dos dois miúdos no fim.
O "desalmar", a tristeza embalada num sorriso simples, é um reconhecimento resignado de um mundo louco. O segredo, como muitos partilharão com ninguém no silêncio dos instantes antes de adormecerem, é não parar. Tentar não parar. Guardar as histórias gravadas e repetidas durante anos e anos de esperanças vãs num laivo de esperança teimosa e estúpida. Ainda que em circulos, andar depressa. Exaurir as originalidades que afinal não interessam a ninguém. Tornarmo-nos transparentes apenas para perceber que é uma transformação em vidro quebradiço, reconstruido uma e outra vez. Exibir as fragilidades, como que por necessidade fisiológica, para serem predadas. Para entrar no circulo, de olhos em baixo, de questões, de cansaço, de olhares depurados fixados num imperativo categórico feito de coisas que não chegam, não se fixam, não se entendem.
Acredito piamente que para cada muitas pessoas, (eu cá aposto numa mão cheia para além de mim), este é de facto um mundo louco. E a rejeição das receitas de (alguma, a possível) felicidade por reequilibrios zen é apenas uma medida de sanidade. Eu rejeito-as porque prefiro desejar efectivamente, a crer em movimentos quase fatalistas onde o suposto "destino" está desde logo determinado. E faço-o, porque essa pré-determinação é repetida como uma espécie de final com sentido. Faço-o porque me pergunto a razão pela qual, perante esses vaticínios, ninguém se pergunta pelo resultado inverso. E se o destino reservar não um reequilíbrio mas apenas o ensandecimento suave de uma realidade que não se silencia, ou um simples e implacável Godot?
Acho que quem teima em desejar tem essa mesma ideia, ou parecida.
É um mundo louco, de passos em círculos insanos e dolorosos, mas ao desejar algo diferente, peço uma realidade alternativa, não aceitando aquilo que me parece evidente, reconhecendo o que me parece bom e pacífico como uma possibilidade. Difícil, (improvável) mas ausente de qualquer ideia de que alguém ou algo está a decidir seja lá o que for por mim.
E ao desejar, talvez alguém ouça.
Sinceramente, acho que é isso que passa pela cabeça de toda a gente.
Naquele instante antes de adormecer. Sozinhos. Conscientes, enquanto algo arde cá dentro.
O feedback imaginário de um coelho sinistro, fantástico e dentuço é opção, mas parece-me tão boa como outra qualquer. Melhor do que a minha e muitas outras, calculo.


terça-feira, junho 23, 2009


Hope never dies...
"Keenan's also been busy with his Puscifer project. They released their "V" Is For Vagina debut album in 2007 and followed it with two remix albums last year. He told Blabbermouth.net that he'd recently been writing material with A Perfect Circle guitarist Billy Howerdel, but it's unknown if or when that will surface since A Perfect Circle have been on hiatus since 2004 and Keenan has repeatedly said there will never be another album from the band."

domingo, junho 21, 2009

Sabes o mais engraçado?
E se de repente eu perceber que a motivação era inexistente. E se perceber que afinal eu era de um mundo diferente, produto de algo talvez melhor, o que, amarrado como estava ao senso de valor que insistia em ver como falho, sufocava debaixo das mil questões. Aquelas que faziam com que nada do que fizesse chegasse, fosse suficiente ou valesse um passo sequer na direcção do impensável.
E se eu te disser algo das centenas de horas em que as análises se repetiam como cenas excruciantes, daquelas que no entanto é preciso ver. Aquelas que eram necessário ver, esfregar como sal em carne viva, manter inseridas como produto de uma qualquer vergonha monstruosa pelo que não tinha outro remédio senão materializar-se.
E se eu te contar das histórias de humilhação, das esperas infrutíferas por um brilho de reconhecimento não solicitado, por um movimento irresponsável, por algo absolutamente deslocado da arrumação do adequado? Se eu te disser do ódio que cada segundo em que te dava razão pelo tanto que não prestava, pelas dissecações de cada gesto que pensava certo, empático ou preocupado, será que sabes?
Não sabes porque ao dizer-to, seria saberes mas não como devias.
Sabes o mais complicado?
É ter-te culpado pelo que não podias evitar, classificado pelo que não poderia ser teu. Ter-te achado tão lá em cima, tão plena de um senso de algo que nãose atinge e que custa uma vida inteira de segredos a manter como paixões clandestinas que nos enchem de segredos sumarentos à sede dos curiosos.
É ver estropiado o mundo da minha acção pela tua ignorância inerte, aceitar cada mudança de vento como se nada se alterasse no monte pétreo, entender que nada do que pusesse em cima da mesa pudesse motivar uma conversa feita a marcador de vida.
É ter a culpa de te colocar num plano onde nada chega porque supostamente não chego lá. É ver cada encaixe do mundo ausente das mãos tremelicantes devido à tua voz de dúvida, de condescendência pelo pouco que se espalha meu pelo mundo de todos.
É pensar que no sorriso das vidas supostamente perfeitas está a suposta falha das minhas incapacidades decisórias. Como se no teu traçado do mapa dos anos, estivesse qualquer segredo que o meu analfabetismo humano deixasse passar, como um insulto em língua desconhecida.
Sabes o pior?
É tudo isso ser cimento. Betão armado, milhares de pedras incrustadas numas nas outras.
É detestar-te em último lugar.
É só intermitentemente perceber que talvez seja melhor.
Talvez eu seja mesmo melhor...
Mesmo que amanhã (muito provavelmente) me arrependa de ter dito tudo isto...



Não sei se é hoje, ou amanhã, mas é para mim, sendo um dia de luz quase permanente, um dos mais mágicos do ano. Ainda por cima com este magnífico calor.

Fica aqui então uma faixa que soa a isso mesmo. Calor, cheiro estival, toque , a paz imensa do crepúsculo no dia mais comprido do ano, e a promessa de porvir, mesmo quando tudo parece pleno de uma cor que não a do dia de hoje.


P.S. - Se me dessem a escolher, queria envelhecer como este senhor...



E eis que termina finalmente.
É caso para dizer que ainda se mantém parte do cerco, mas chegou ao fim parte da reclusão, pelo menos.
Há sempre uma sensação estranha e dual.
Primeiro o efeito secundário do alívio, os últimos segundos após pousar a caneta e pensar nas horas em casa, nas coisas que não se fizeram, nas pessoas com quem não se esteve, cansaço, e todas as outras condicionantes.
Depois a noção de algo feito, de uma etapa que, sendo superada ou não, pelo menos foi enfrentada com a teimosia própria da perseguição a algo, com o senso de objectivo. Há algo estranhamente confortável na noção de tarefa que se perde, e segue-se o retorno a todos os dias, tentando efectivamente voltar, sabe-se lá exactamente onde.
A prova está feita, o esforço dispendido, a recuperação (espera-se) encetada.

Aut viam inveniam aut faciam!!!!

sexta-feira, junho 19, 2009

(E agora, pausa higiénica... vinte minutos fora de livros e fotocópias, por favor!)

O meu amigo N para além de escrever bem para cacete, tem o condão de abordar algumas coisas que normalmente lançam motivos para pensar. Umas vezes até demasiadamente, mas obviamente, a culpa não é dele.

Neste texto, além da qualidade que já habituou quem por lá passa, ele recordou-me um pedaço de um filme do Charlie Kauffman, mais precisamente, "Adaptation".
O texto fala da capacidade de guardar coisas preciosas, quase que viver delas da forma como elas vivem, ou como se posicionam na vida de cada um. É uma esquizofrenia, como guardar um segredo tão precioso que quase parece ubstituir a realidade. Piano, um passeio rotineiro com um cão, comer sempre na mesma pastelaria, seja lá o que for que se acompanhe como um momento, uma recordação ou abstracção para fechar o dia lá fora. A ideia da emoção nutrida à distância de toda a capacidade de desejar, e a capacidade mental de sentir isso como algo pessoal, sujeito a uma posse (de alma?), um petrarquismo próprio de outros tempos que talvez sejam sempre os nossos (vejamos as distâncias informáticas), é algo que alimenta histórias, ideias, expressão.
É algo, no reduto do que muitas vezes é incompreensível e mesmo estúpido, que no entanto se torna nosso, nos singulariza e redifine o caminho do que sentimos.
É dificil de explicar, mas o N fá-lo na perfeição no texto que vos refiro, completando uma ideia que me assalta muitas vezes.
"Somos os que amamos, não o que nos ama a nós." Porque ao fazê-lo, somos essencialmente livres. Somos nós, é a nossa casa, ainda que silenciosa.
E em nossa casa, mandamos nós.



quarta-feira, junho 17, 2009

Há tempos num jantar entre amigos foi mencionado, em tom de brincadeira, que não duraria até ao fim do ano caso continuasse neste ritmo de trabalho associado a estudo, stress, whatever. Que não há motivação que não a entrega a esse estado. Terapias de substiuição, yadayadayada...
Trata-se obviamente de uma brincadeira, claro, mas abordaram-se questões muito pertinentes, ou pelo menos eu visualizei-as internamente, quse em termos de "to do" or "not done list".
Sou um cinéfilo. Ou pelo menos tento ser, na medida do possível. O cartão Medeia é estimadíssimo, e é das minhas quantias mensais, uma das mais bem gastas. E no entanto dou comigo a perceber que há quase um mês falhei todas as estréias que gostaria de ver e estou a um passinho de perder o "King of California", filme que espero desde 2007.
A minha casa é um amontoado de papéis, molas da roupa em cima da mesa perto de estendal, e o ar desalmado de quem ainda não conseguiu por uma porra de um único quadro a emoldurar ou fotografias a imprimir para colocar nas paredes em jeito de medley visual e nostálgico.

Tirando o blog, em descargas ocasionais, os projectos estão parados, as histórias em animação suspensa.
A única coisa, e diga-se de passagem que remonta apenas ao elemento disciplina que em mim é fortíssimo, que se tem mantido mais ou menos é o treino e a leitura diária, mas em ambos os casos por puro exercício de teimosia e ordem auto-imposta.
E no entanto, as horas em que estou neste local, as quantidade de vezes que o sol morre através destas janelas, a azáfama, as questões, o esforço, o cansaço, começam a parecer-me terrivelmente familiares. Terrivelmente seguros, ordenados, parte daquilo que posso de alguma forma controlar, parte daquilo onde, ao contrário de tanta coisa, até acerto mais do que me engano. Há todo um senso de encaixe, de ter algo como objectivo, de construir algo, face à inépcia cada vez mais constatada no chamado mundo normal das pessoas, das suas realidades e do meu papel nas mesmas. É um despojamento terrível, mas ao mesmo tempo é simples. Depende apenas do meu esforço, empenho e inteligência pragmática. Do que pelos vistos consigo fazer.
Tudo o resto é uma grande confusão, embora haja uma certa serenidade em admitir a inépcia, ou talvez esteja mesmo na hora de perguntar se de facto os erros são sempre deste lado, as asneiras sempre determinantes pelos actos dos mesmos, se a complacência e a capacidade de ver para além de certos aspectos servirá mesmo algum propósito.
Dá no entanto que pensar. Até que ponto é são saber que vir trabalhar no próximo Domingo, depois de feriados e fins de semana e o diabo a quatro, depois de um estoiro, parece tão...adequado. Tão próprio de um percurso de utilidade, realização e auto-valor, onde quase todo o resto parece falhar.
Enfim, deve ser esta a filosofia de muitos reputados workaholics.
Caso contrário, até gostaria de saber algo acerca de outras motivações ou formas de aparente auto-alienação.


Oh pá, uma delícia!

A sério. Passem por lá.

Até me arrisco um dia a pedir uma ilustração tão bonita e certeira como
esta no blog da minha amiga M.
Há dias falava com um amigo, e conversava-se acerca daquilo que eu designo de "segunda vaga". Ou, talvez mais apropriadamente, os pós projecto. Pós oportunidade. Pós hipótese. Mas ao contrário do que diziam outros, não pós sentimentos ou emoções.
A segunda vaga é constituida por pessoas que de alguma forma se encontram no meio de um quotidiano onde as formas, mais ou menos arranjadas, de viver simplesmente se tornaram inaplicáveis. Mas todas essas pessoas procuram algo. E procuram-no de forma quase abstracta, porque não é raro não saberem exactamente o que é. Ou pode ser. Em muitos casos, talvez até possa ser a aprendizagem com uma vivência mais isolada, ou o culto de certas formas de amor que possam de alguma forma compatibilizar-se com uma série de dúvidas e fraquezas que tornam o envolvimento romântico uma espécie de mononucleose que, como se sabe, leva uma carrada de tempo a passar.
A segunda vaga é também caracterizada por sofrer de um preconceito de "uso" ou "vício comportamental", ou a melhor, falta de qualidade que explica a tal suposta passagem ao lado do conceito de recomendável. É ainda definida como a arca dos malucos, dos imaturos, dos qualitativamente discutíveis, dos disruptores da ordem definida como emparelhamento.
A verdade é que, falácias à parte, a segunda vaga é, pelo menos no que me diz a experiencia, mais difícil. São pessoas plenamente conscientes de que o seu mundo pode terminar, sejam lá quais forem os motivos, e assustam-se com pouca coisa. Talvez porque vivam com um certo tipo muito particular de medo. Não sei. São tantos os casos, as histórias, as vivências.
Mas algo é comum. A experiência que muda tudo. A visão jamais límpida, o que torna ainda mais premente a força de algo ainda mais raro. A alternativa entre o amor empático e a auto-suficiência.

E as histórias multiplicam-se.
Comodismos, rendições, sorte real, felicidades com ecos.
Mas a segunda vaga é feita de gente que se atreve. A viver à sua maneira, a esperar, a exigir, a trabalhar para os sentidos para muitas coisas não se esgotem em timmings ou qualificações ditas de "oportunidade".
A segunda vaga existe na firme crença de que algo melhor vem por aí. Se calhar porque o que existia não passava por vida.


terça-feira, junho 16, 2009

Bolas, levei tempo, mas...

Pedro e o Lobo.

Mais do mesmo.

Enfim...


Nada como ter a elegância da percepção, e simplesmente "take the hint"...



Nisso, pelo menos, sempre fui proficiente.



A duras penas, mas antes assim. Mil vezes.





Não há nada mais certeiro que pessoas a morderem determinados tipos de isco...
Só um geiser, e mesmo assim...

Beleza Americana, que me desculpe o malogrado Benard da Costa, é ainda o meu filme maior. Em várias vertentes, talvez porque ponha o dedo (com sal e sujo) na ferida. Nas minhas, pelo menos.

Beleza Americana, nos milhares de contextos e complexidades maravilhosas que encerra, fala também dos perigos, ou incapacidades associadas à verdadeira vulnerabilidade. Fala dos perigos associados ao que automaticamente qualifica a individualidade. Mais do que aquela que se "escolhe", aquela que assenta em coisas que realmente diferenciam o ser individual. As mesmas que também o tornam um alvo, e justificam a opção sem ganhos entre a solidão e a protecção.

O protagonista, pleno de ausências de virtude, e digo ausências porque é a falta de algo que mais lhe caracteriza a vida, tem no entanto um reduto precioso, algo encerrado em si mesmo, um pouco em consonância com o personagem que aqui fala da beleza errática que por vezes todos encontramos nas coisas aparentemente mais insignificantes. E bem vistas as coisas, a beleza pungente está encerrada na felicidade que se cristaliza aquando da percepção que, de entre toda a dor e alienação pessoal possível, há algo que sobrevém. É o seu interior, a sua vulnerabilidade, a sua preciosidade feita de coisas que são luz. E é na sua emergência que ele acaba por morrer. Morrer feliz, diz o futuro genro. E a metáfora está assim dolorosamente completa. Surge como um aviso belíssimo. Materializa-se na prova da beleza enquanto existência, mas também na triste constatação que a sua vida é frágil e de equilíbrio precário.

Por isso, e é aquilo que o saco de plástico aparenta trazer, por vezes a beleza é tão grande que parece encher e rebentar as contenções. O desejo de exposição, de contar os conjuntos de histórias mais importantes de todos vem ao de cima, mas surge como um pássaro liberto numa planície de caça. No fundo a beleza prova-se a si mesma também na necessidade da protecção, e sobretudo porque ao afirmar-se, corre o risco do pavão que dança no pré-crepúsculo. Anuncia-se a si mesma na extrema potencialidade do seu assassinato. Na extrema probabilidade.

Anunciar a vulnerabilidade é, nas palavras do homónimo, sermos Sheherazade de nós próprios.



sexta-feira, junho 12, 2009


Seja pilotagem de naves, ou carros, "gestao" de pessoas, pedaços de palavras colocados numa superfície branca ou a limpeza da bancada da cozinha, existem métodos para tudo. Mas esses métodos não são , em circunstância alguma, totalmente ditados por uma racionalidade absoluta. São palpação, navegação de cabotagem, porque todos têm cabos, ventos e procelas. É uma percepção da unicidade de um carácter, o recorte do que é especial e como tal, acaba por fazer-se presente por uma percepção que se antecipa a si mesma.
Eu explico.
Os métodos assentam na confusão entre a aplicabilidade racional das vontades e opiniões, e a aceitação de esquinas mais afiadas que traduzem " personalidades que fazem merda porque escolhem fazer merda, mas que tornam possível acreditar que a matéria fundamental contém em si algo de insitamente bom , e que numa lógica de percurso, a determinado momento irão auto-determinar-se por critérios melhores."(sic)
São assim métodos em parte involuntários, e tão mais engraçados por causa disso. É a aplicabilidade de uma probabilidade de vontade e aceitação, ao meio metro ao qual a racionalidade não chega, pelo menos inteira. É a criação de empatia por uma espécie de pré-cognição, do que se sabe sem saber como se sabe. Da aceitação do que ao ser diferente, é de certa forma impassível de entradas em compêndios, ou pretensões axiomáticas.

E só assim é possível perceber que um pombo correio sabe sempre para onde vai, ou que qualquer forma de amor mantém naves no céu, ou que em muitos casos, o que nos contamina o coração é a tal persistência pelo que se adivinha como bom. É essa intuição que funciona como contra-veneno. Que apaga o niilismo ao fazer do nada sempre alguma coisa.
É o que felizmente aprendemos que "certifica" o método.
Nunca são demasiadas ou sequer suficientes as homenagens a quem e ao que nos inspira esse senso de impermeabilidade ao mais nefasto de qualquer desesperança.
Quando a teimosia se humaniza, a tristeza é apenas parte de algo, uma espécie de rebaque cartesiano. É o quem mantém a Serenidade no ar...





quinta-feira, junho 11, 2009


Depois de horas e horas a direccionar a réstia de cérebro que me resta (mau jogo de palavras - caríssimos e atentos stalkers, não deixem passar esta) uma pessoa pára, pouco é certo, para pensar um pouco. No meio destes períodos de concentração e entrega total a um objectivo, normalmente pragmático, existe aquela ilusão na qual o mundo parece parar. E no entanto a verdade é que isso não acontece. Amigos estão de férias, ao sol, como espero que mereçam, as pessoas chateiam-se, outras enamoram-se, e os dias sucedem-se sem me dar qualquer cavaco, alheios ao facto de que daqui a algum tempo espero poder apanhá-los novamente e espremer-lhes qualquer coisa.

Esta ausência, ou isolamento forçado, deixo a quem quiser construir o qualificativo que o faça, reestrutura a perspectiva sobre as coisas. Sobre as pessoas. Sobre o que se sente, ou deixa de sentir. Sobre a vontade que se tem de humanizar, de ter sido melhor, se querer evoluir, de pensar que algo amanhã tem de fazer mais sentido que hoje. E depois dou comigo a rever os instantes em que preferiria ter feito algo de forma diversa, outros tantos em que sei que faria a mesma merda e com requintes, a ter uma saudade muito própria de onde, seja de que forma for, me posso inserir. A censurar aqueles que não fazem o que eu acho que deveriam fazer, e a esquecer-me deliberadamente de algumas patas na poça. A exercitar recordações e ansiedades, como se o simples facto de pensar fosse uma respiração, de movimentos alternados, contraditórios, e no entanto absolutamente necessários e sistémicos.

Por isso, em rambling motion...

Ontem chovia, hoje está sol e calor. Recorda-me os exames em Junho. Porra.

Na psicose interna (sim, eu sei que é uma redundância), a guerra continua a mesma entre as mesmas -
esta e esta

Não há férias fora do rectângulo este ano. Again!

Graças a seja quem for, hoje havia a Blitz, a Premiere e Empire, todas alinhadas à minha espera.

Maldito seja o Código da Contratação Pública!

Felizmente não há ainda formato de cinismo sem humor. Nem acho que venha a haver.

O Verão ainda é a melhor estação para a felicidade contemplativa em não se ser uma mulher.

Os dois últimos episódios do House ainda são provavelmente o melhor que vi em televisão em muito tempo.

Ainda e sempre, "conter (ao máximo porque ninguém é de ferro) julgamento ainda é matéria de infinita esperança", já lá dizia o ébrio.

Continuo sem a mínima pista, mas isso já me aborreceu muito mais.
E eis que se acaba o desconto de tempo.

Até já.(?)








terça-feira, junho 02, 2009


A propósito de uma frase de Woody Allen dita ontem, (algures no meio de uma profunda insónia), relativamente ao posicionamento de cada um perante aquilo que a vida parece trazer na velha metáfora dos copos meio cheios ou meio vazios, surgiu-me uma ideia. Uma ideia originária de um pessimismo com o qual me reputam, com justiça diga-se, mas que não é ele em si originário. É, talvez, um produto do percurso evolutivo pessoal, e assenta na forma como se reacionalizam em perspectiva as percepções trazidas pelas emoções maioritárias no decorrer dos dias.
Embora o pessimismo seja um hábito, e se instale como uma segunda pele, a verdade é que, em meu ver, ele difere muito do niilismo. E não só etimológica ou conceptualmente. O pessimismo é uma espécie de filtro enegrecido, mas que ao reconhecer a luz como antítese, reconhece-lhe o brilho e o desejo por oposição. O pessimismo é de facto como uma epifania, ou talvez melhor, uma professão de fé. Julgo ser uma prepotência por parte das pessoas "maioritariamente felizes" (o que quer que isso seja) julgar que o pessimismo é volitivo. Que se acorda de manhã e se tende a pensar que a balança de cada dia pende mais para os escuros porque se quer, ou porque se tende a potenciar essa mesma forma de estar. Eu pessoalmente creio que o pessimismo é, em primeiro lugar, caracterizado por um forte desejo de o desmarcarar como nada mais que uma lente suja. O pessimismo não rejeita a luminosidade simples do que se julga ser a felicidade descomplicada. Muito pelo contrário. O pessimismo é um anseio racional e consciente, quase uma denúnca ansiosa pelo outro lado, pelas faces de cada conceito que estão sujeitas à luz, e como tal, lhe dão a totalidade real que as deve caracterizar.
Por outro lado o pessimismo é como uma crença. Mais racional que outras epifanias ou intuições intelectuais (como a fé), mas ainda assim fixa-se na mente e personalidade como uma espécie de máxima, que se repete em muitos momentos e em relação a uma miríade de situações que, infelizmente, ajudam a construir essa base sólida de tons pardacentos.
O pessimismo surge como o célebre "eu avisei-te". É mais ou menos uma factura. É a manta diáfana que de alguma forma não se consegue sacudir quando os que amamos estão para além da nossa ajuda não importa o que possamos fazer, ou quando a pessoas boas acontecem coisas más, ou quando algo dentro de alguns simplesmente os impede de se desculparem por um segundo que seja. É a simples verificação, a verdade na aresta mais cortante, da conformação dos factos a uma certa perspectiva. Aquela que queremos negar, aquela que esperamos que não nos domine, aquela que agudiza os momentos de beleza e paz como alternâncias necessárias à pancada racional e continua como o som sequencial de um ponteiro em demasiados momentos de todos os nossos tempos.
Não se é pessimista porque se quer. O que se quer é não ser.
É a existência pela oposição. Verificação pelo desejo. Sei lá.
Hieraclistismo, se preferirmos.
Ou então, uma outra frase.
"O que raios me terá passado pela cabeça..."





segunda-feira, junho 01, 2009

Uma vez que sempre foi aparentemente impossível apanhar o realizador Terence Malick, eis uma fascinante entrevista a Nick Nolte, acerca daquele que é para mim o melhor filme do dito realizador, um dos filmes da minha vida, e uma absoluta obra prima - The Thin Red Line.

Antes e depois da entrevista existem outros convidados, mas passem adiante e vejam Nick Nolte. E já agora, quem não viu o filme, que passe por lá, já que Malick só realiza filmes mais ou menos de vinte em vinte anos. E a julgar pelas idiossincrasias relatadas po Nolte, há pelo menos uma ou duas pessoas com quem o identifico, e para quem a sua linguagem de cinema fará realmente todo o sentido. Eles sabem quem são.

Enjoy!