ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, julho 29, 2009


Bem, é cedo, mas o calor não permite grandes veleidades em termos de sono matinal. Valem as sestas debaixo do chaéu de sol, depois das estiradas de letras entrecortadas com banhos repetidos, porque como já disse, está um calor de cacete.
As férias são de facto a melhor forma de cumprir as ordens dos médicos. E sobretudo quando existe a capacidade de parar, de sentir que o neurónio não quer mesmo mexer. Claro que não dura o dia todo,, nem nada que se pareça, e o bichinho começa logo a perguntar onde se vai a seguir, mas basicamente a areia branca e o vento levante têm ajudado.
O Algarve está cheio, mas é curioso ver como as pessoas evitam os restaurantes. Há mais lancheiras, mais arcas, e sobretudo, parece que a Cofidis se anda a sair menos bem nos empréstimos para férias.
A luz e o cheiro do Sul continuam os mesmos e incomparáveis. A cerveja nunca esteve tão boa, mas também acho que sinto isso todos os anos em que me encontro com ela sob o sol.
O sol traz um ar saudável. E é vê-lo por toda a parte, especialmente nos joggers que palmilham o passeio da Marina de Portimão, empurrados pelo mp3 e o modelito da estação adequado, onde a sapatilha combina com a braçadeira do dito cantante. Eu vou-me arrastando no campo de basquet colocado junto à praia, que em teoria é muma excelente ideia, não tivessem escolhido um piso de madeira que mais parece coberto de sebo, tal é a falta de aderência. Mas a malta diverte-se, e é o que interessa.
A noite é uma passerelle, e lá vai dando para observar e rir um bocadito. É caso para dizer que a saúde ganha no dia transpõe-se para a noite. E andam agora na moda, ou pelo menos farto-me de ver, os calções de ganga, especialmente uns vertente cueca alta, que embora fiquem bem numa elite restrita de abençoadas pela natureza, são perigosos para algumas mais audazes, cujos espelhos devem certamente estar algo foscos... A sério, não é maldade... é apenas um bocadinho de bom senso. A juntar a isso, graça a epidemia das "calças do Aladino", uma espécie de cortina com duas pernas, cujo gancho permite ao mais cataclísmico dos incontinentes usar várias Lindor por baixo. Mal alguém deve ter dito que isto fica bem, e como tal, é ver foragidas das mil e uma noites em barda.
Graças à boa vontade de amigos, estas são férias ausentes de planos. Hoje aqui, amanhã não faço ideia, desde que o fiel Toyota não se importe de me levar às costas.
Hoje um bom amigo faz anos, sendo que assim que fechar isto, lá me vou por a caminho.
Este fim de semana há festa na praia e provavelmente no início da próxima há Isla Mágica.
E sobretudo, nestes dias, reencontrar alguns amigos, que tem sido o mais engraçado, bem vistas as coisas.
See you all soon.

quinta-feira, julho 23, 2009

(Pausa - inspira....)


Em primeiro lugar quero desde já advertir que não pretendo discutir os méritos jurídicos do diploma, ou projecto, uma vez que nem o li nem sei se estou habilitado, apesar de jurista, a colocá-lo em causa, nem as razões dos organismos de ética que terão comentado a oportunidade ou correcção do mesmo. E porquê? Bem, primeiro porque não tive tempo, e segundo, porque tenho uma opinião sobre a matéria que não necessita de tais suportes... porque é pessoal e empiricamente informada. Além do mais, do que se fala é de sofrimento, de dor, e de querer. Um querer, na minha opinião, íntimo e absolutamente alheio à interferência externa, excepto quando o próprio não pode, por si mesmo, senão expressar consentimento incontrovertido.


Seja testamento vital ou o passo seguinte, suicídio clinicamente assistido (como se isso já não acontecesse em alguns casos em que médicos, felizmente, se apiedam dos sofrimentos atrozes a que algumas pessoas estão irrevogavelmente condenadas), não é uma questão fácil. Nem isenta de riscos, como parece resultar óbvio.

Recordo o caso específico de Jean-Dominique Bauby. No fundo, prefiro olhar para a questão a partir da sua antítese. Este jornalista francês sofreu um derrame cerebral que o deixou encarcerado no seu corpo, mas completamente lúcido, embora capaz apenas de mover uma pálpebra. Este é um exemplo de vontade e capacidade de viver em circunstâncias que eu não consigo, ou talvez nem queira imaginar. É um admirável e arrepiante exemplo de coragem, mas efectivada pela escolha. É partindo dessa antinomia que acho que consigo defender sem reservas o direito à morte. O direito a parar, ou a que algo pare, porque existem casos como este, ou alguns ainda mais dramáticos, onde o direito ao descanso não é, em meu ver, escamoteável perante uma suposta defesa da vida sobre a defesa da escolha sobre aquilo que é absolutamente indisponível. É de uma arrogância extrema pretender ou achar que se pode decidir sobre uma escolha consciente quando a alternativa é uma longa e interminável estada no Inferno. É infligir sofrimento por omissão, suportada por uma falsa exculpação assente na "defesa" da vida, quando na grande maioria dos casos, infelizmente, aquela vida já nada representa daqueles que a tiveram senão persistente constatação de que, para essas pessoas, não há o tempo do descanso, a hora de brincar, o período de paragem, até que a natureza mostre a compaixão que o propalado respeito pela vida não tem.

Não sei o que será estar encarcerado dentro do próprio corpo, ou o que serão dores infindas, todos os dias, ou enjôos que provocam jornadas ininterruptas de náusea, ou a privação do mmais essencial numa dita vida normal. Mas mais dificuldade ainda tenho em entender quem contraria a legitimidade de exercicio do direito de quem padece de tais realidades à escolha sobre a posição que quer dar ao seu próprio interruptor.

Entendo que existem situações, em que há um (bonito) egoísmo, porque são o afecto e a saudade antecipada que impedem ou querem que não se dê irrecuperabilidade. No fundo, fazem-no à custa de todos quantos estão envolvidos, e entendo perfeitamente porque não sei o que faria perante tal situação.

Mas ao colocar-me na pele de tais pessoas, ou tentar fazê-lo, pergunto-me se será uma lei, ou uma comissão de ética, ou muito pior, um qualquer sacerdote, que poderá sequer sugerir a alguém o que este deve fazer com a sua vida quando a decisão é que não mais se a quer.


Sinceramente não sei, e nem pretendo ter uma verdade. Mas é uma opinião. E caso se tratasse da minha vida, provavelmente sei que ideia teria. E não aceitaria qualquer entrave à minha escolha, por muito que me forçassem a tal. A ética diz-me como decido ou devo decidir sobre a vida dos outros. É verdade. No entanto, tenho dúvidas que o possa fazer quando sou eu que decido sobre a minha. E por vezes, a interposta pessoa é uma inversão ao normal percurso do Caronte...




Além disso, o percurso de Bauby é feliz, em certa medida, porque acompanhado. É que em muitos casos, para além disto, há a solidão...


"Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento. Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo, é a humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor (...). Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento. Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde. Se alguém me tivesse falada dela, tê-la-ia rejeitado. Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado (...). É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova (...). Entre todas as coisas ela é a mais estranha (...). É somente quando perdemos todas as coisas que sabemos que a possuímos."

(Oscar Wilde, in "De Profundis")








O senso de utilidade, pelo menos pragmática, deve activar alguma espécie de hormona esquizóide. Quando, a partir das doze horas de trabalho, se instala uma espécie de energia permanente, ao mesmo tempo que tenho a consciência que estou a moer o (pouco) que resta, algo engraçado acontece. É uma vivência frenética onde algo está a acontecer, e fazemos parte desse algo. Um algo onde o facto de nos movermos, dizermos, fazermos, acaba por contar. E ao mesmo tempo, perco a porra do recibo da TV cabo, troco palavras, a memória de curta duração volta e meia vai para o espaço, e sono nem vê-lo. Dá-me para rir, com gosto, e ao mesmo tempo há algo no peito constantemente apertado.




Esquizofrenia completa, porque é bom e ao mesmo tempo alienante, e uma pessoa já nem sabe o que pensar...

terça-feira, julho 21, 2009

terça-feira, julho 14, 2009

5. Tudo acontece por alguma razão
E eis que entramos finalmente nas mais complicadas, onde a fronteira entre a auto-ajuda e a ideia sustentada se esbate um pouco. Ou muito.
Dispensando a velha querela entre destino e aleatoriedade, a verdade é que por vezes não há razão alguma para determinados acontecimentos, e sobretudo, é absolutamente falacioso que se retire sempre algo de positivo, ou uma lição proveitosa de tudo o que acontece. Além de roçar o religiosamente direccionado, como plano pré-determinado, esta é uma ideia absolutamente paradoxal. É claro que muito do que sucede depende das nossas atitudes. Não há forma de moldarmos o mundo ao qual pertencemos sem "mexer" nele. Sem entrar e começar a mexer as moléculas. Mas existem coisas, como de resto o Woody Allen tão bem retratou naquele que, para mim, é o seu melhor filme até à data, que não dependem exactamente de todo o tipo de esforço que possamos fazer. E sobretudo, não se retiram sempre lições bonitas e positivas da adversidade, porque por vezes as coisas são efectivamente feias, dolorosas, e pior que tudo, sem explicação reconstrutiva.
Concordo efectivamente que a acção de cada um influenciará a sua vida, ou o rumo que esta toma. Seja em que aspecto for, a apatia imóvel gera apenas uma lógica concentrica de apodrecimento de todas as formas de ser, estar e viver. A imobilidade gela, mata por sectores, "insensibiliza". E só metendo as mãos na massa, fazendo algumas perguntas e arriscando uma forma de ser se consegue ver para que lado as ondas puxam, e nadar o melhor que se consegue. Muito, e tem razão quem mo disse, acontecerá na medida em que for tomado nas mãos. É essa a razão que subsiste a uma parte do conceito, e a aprendizagem e melhoramento dependem, em parte, disso mesmo, do acontecer, do fazer acontecer.
Mas existe a maldade, existe o dano inexplicável, existe o egoísmo, existem as pulsões internas menos luminosas, existe a ganância e o egocentrismo. Existem todas estas coisas, e muitas delas simplesmente eliminam o princípio bonitinho da acção-reacção nos termos preconizados com a frase "tudo depende de si!". Essa ideia de que os pensamentos e a racionalização estritamente positiva dos fenómenos os encarrilará numa ascensão à luz parece-me, perdoar-me-ão os discordantes, situada algures entre a Alexandra Solnado e a Rhonda Byrne. Parece uma "avestruzice", porque as coisas más também acontecem às boas pessoas, e por vezes o horror tem destinatários e razões que são em si uma ausência de razão. Existem negrumes que não acontecem por razão alguma senão por um lado escurecido da natureza das coisas que é preciso combater a todo o custo. Os massacrados no Rwanda e no Sudão provavelmente não terão bem a ideia de que o que lhes acontece tem uma lição escondida, ou uma razão ulterior tendente a uma noção de ordem maior. Infelizmente, nem tudo acontece por uma razão, e em demasiados casos, acontece sem qualquer pista de razão. Joseph Conrad já tiha dito umas coisinhas acerca disso, bem como William Golding, e este último agradecu o seu Nobel com uma mensagem de afecto e optimismo.



segunda-feira, julho 13, 2009

A música anterior dos Stereophonics vai, possivelmente, repetir-se muitas vezes por aqui.
Por isso, as minhas escusas, mas os tipos acertaram em muitos nervos ao mesmo tempo.
And now, back to our program...
"4. Não protelar"

Bem, e aqui começa a coisa a mostrar divisão. Divisão no sentido em que há muitas formas de encarar esta máxima. E muitas formas de a simplificar, transformando-a de ideia positiva em wishful thinking com um pouquito de falácia à mistura.
Contra mim falo. Sendo um ser indeciso em algumas coisas, a ideia de protelar por vezes parece muito atractiva. É uma falsa ideia de vir à tona para respirar, esquecendo que provavelmente o local onde os pés voltam a assentar é bem mais fundo. Eu faço-o algumas vezes, e engulo água que me farto, mas a certa altura lá tendo a conseguir dar uma braçadas, e a coisa compõe-se... mais ou menos.
Mas há coisas que não se conseguem fazer. Protela-se porque há uma ausência de alternativa. Porque não se pode mesmo fazer aquela tal coisa que não podemos deixar para amanhã. Não se protela quando não é possível fazer. Não se pode fazer hoje aquilo que não está ao alcance da realidade como a temos num determinado momento, simplesmente porque por vezes faltam-nos as pessoas, outras vezes os meios, outras vezes ainda as vivências, outras os desejos, e por aí fora. Não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é, em certas coisas, um bonito emblema comportamental, mas nem sempre funciona, nem sempre é possível.
Mas é desejável? Claro.
É o "correcto"? Certamente.
É o melhor? Claro que sim.
Mas é difícil de cacete certas vezes... para todos, sem excepção, por mais bravata que assista, por mais murros que veja na mesa. E irrita-me um bocado as forças demolidoras nos actos públicos, em elternativa aos medos e dores da hesitação quando a confiança lá se mostra e permite a vulnerabilidade doce de não saber exactamente o que fazer... Há seres maiores que o mundo que tem rachaduras na parede, e é coisa maravilhosa ver a luz que dali brota. E que são provavelmente os mais decididos de todos, porque cortam a pele, mais cedo ou mais tarde, com a sua própria verdade. Aquela onde hesitam, erram, não sabem o que fazer, mas ainda assim até têm ideia que é por ali.
E sei o que são esses murros. Há coisas que não protelo. Há coisas que me enervam solenemente que alguém protele, como eu enervarei até à medula umas certas pessoas, e entendo-as, sinceramente. Há alturas dessas em que nem eu me aguento. Detesto amargamente essas paralisias, entre os momentos em que não me envergonho delas. Bonita alternativa, realmente...
Mas não tenho a mínima dúvida que por vezes protela-se porque o desejo de que algo pare no tempo, ou que não leve tanto tempo a passar, ou que não se desvaneça, é tão grande que sorrimos que nem crianças e esperamos que tudo incorra num Deus Ex Machina que, a mais das vezes, é apenas a medida certa da desilusão para aquilo que queremos tanto ser capazes, mas num momento que parece nunca mais chegar.
Protelar?
Desejavelmente não. E não tenho a mínima dúvida que fará a vida melhor com a sua ausência.
Se é sempre possível não o fazer... No way, no sir, no how...



quinta-feira, julho 09, 2009

E eis que voltamos para o strike three, novamente com a ordem trocada.
"10. Façam o que gostam" e 11. Divirtam-se
Sim. Sem discussão. E acho que estas duas podem facilmente juntar-se.
Claro que há nestas máximas uma presunção talvez de posicionamento socio-económico-cultural, porque, infelizmente, há muita, demasiada gente que não tem possibilidade de fazer o que gosta, pelos mais variados condicionalismos. Sim, é possível dizer que em cada posicionamento social existirá certamente algo que cada um gostará de fazer, e que como tal, deverá fazê-lo tantas vezes quantas as que conseguir. Mas não julgo que seja tão exacto. Para demasiadas pessoas, os dias passam simplesmente na expectativa terrível de que o seguinte não seja pelo menos pior que aquele pelo qual acabam de passar.
Mas passando isto adiante, tendo a concordar. Há demasiada gente a não fazer aquilo que gosta. Ou pior ainda, a não ter algo que goste de fazer. Nada que entusiasme, que provoque ansiedade pela expectativa, algo que seja motivo para sentir que uma parcelazita do mundo está afinal reservada. Demasiada gente que não cria a sua hora de recreio.
Fazer o que se gosta é, afinal de contas, ou pelo menos eu entendo como tal, uma motivação e uma finalidade. Sapos, engolimos todos, mas os fretes podem evitar-se. Acho que há demasiado pudor em evitar alguns, e contra mim falo, por razões de simpatia, solidariedade, pretensa educação, seja lá o que for.
Mas o essencial é ter o que gostar de fazer. Seja ler, beber, sair, fazer rendas de bilros ou observar joaninhas, a verdade é que essa actividade traz, primeiro que tudo, uma sensação de local para onde ir. Local e acontecimento que acolhe, que nos abre a porta e reconhece como algo que, pelo nosso gostar, nos recebe necessariamente.
E, por falha minha certamente, parece-me haver demasiada gente que não tem o que gostar, que não anseia pela saída de uma obra de um autor que adora, pelo novo taco que melhorará a sua performance no hoquei em patins, pelos instantes quem que faz mudwrestling vestido de Liberace. Seja lá o que for. Deve, ao máximo, ter-se pelo menos algum tempo para se fazer o que se gosta, caso contrário, como lá diziam os Smash Mouth "Your mind gets smart, but your head get dumb..."
12. De vez em quando, isolem-se
Absolutamente essencial, mas para quem tenha, por exemplo, família nuclear, deve ser um cabo dos trabalhos. Mas julgo que é de uma importância extrema.
Sepulveda, no seu "Velho que ..." fala de uma tribo com um hábito absolutamente singular, ao qual já me referi antes, mas que acho que aqui se aplica perfeitamente. Os membros dessa tribo, os Xuar, são "obrigados" a isolar-se durante um mês em cada ano. Dão corda aos sapatos e põe-se ao fresco, isolando-se, ou indo para tão longe que não corram o risco de dar de caras com outro membro da tribo. Se assim o fizerem, devem continuar o seu caminho sem dizer nada, até sentirem que, ou estão isolados, ou se estiverem em contacto com alguém, que não seja algum dos outros Xuar. Dizem, e esta é a parte que eu pessoalmente acho engraçada, que a harmonia da tribo com cada um dos seus membros depende do sentimento sazonal e reiterado de saudade. A tribo precisa de sentir a falta de cada um dos seus membros, que findo esse mês o acolhe alegremente, ansioso pela sua companhia e pelas suas histórias. Essas pessoas que durante aquele mês se afastam de tudo e todos, constituem uma metáfora viva da ideia do reencontro com o próprio, e por inerência, com os outros. O que me parece que reforça a importância de nos isolarmos de quando em vez, com a música, folhas com ou para colocar letras, a playstation, ou simplesmente o mar ou um conjunto de árvores, e tentar perceber o movimento de rotação da terra. O que for, mas fechar as portas, simplesmente para poder retornar.


Vou, pedindo desde já desculpa aldrabar a ordem da receita, se bem que mantenho a numeração originária, porque estes que ora se seguem parecem-me um pouco mais simples de referir ou sobre os quais emitir uma opinião pessoal. Até porque um deles pelo menos faz parte da panóplia de obsessões (leia-se interesses veementemente seguidos, fáxavor), o que gera sempre questões, a espaços, divertidas, quanto mais não seja na velha dicotomia entre corpo e mente e estar em forma, e yadda yadda.
Adiante, e vamos a elas:
"8. Leiam 10 páginas por dia"
Pois, aqui, salvo quando a massa acizentada está em ponto de falência técnica, coisa que nos tempos que correm até está na minha ordem do dia (saúde, velhice, que tristeza), esta é uma máxima que considero quase evidente, ou melhor, self explanatory.
Os livros, a percepção, o conhecimento são importantes. As letras e a informação abrem horizontes e permitem o tal desenvolvimento de que falámos acima. Mas obviamente ( e no seguimento de algo que alguém muito certeiramente me referiu no outro dia) não enforma a humanidade dos seus seguidores/portadores/entusiastas, o que lhe quiserem chamar. Erza Pound e H.P. Lovecraft, só pra citar dois personagens, eram seres de uma cultura e saber muito acima da média, autores renomados, referências, e eram ambos xenófobos e segregacionistas. Uns safardanas, ao que parece.
No fundo, e nestas coisas, o segredo não está no que se sabe, mas no que se é capaz e se quer saber. E como, e o uso que se lhe dá. E sobretudo, o conhecimento acaba por ser uma espécie de metal fundido, que cai num molde cuja forma completa, já se adivinha, projecta aquilo que a matéria de saber transforma em realidade substantiva. Há filhos da puta espertos e letrados, e há humanidades transcendentes ainda que analfabetas. No entanto, julgo que, na esmagadora maioria dos casos, as páginas, a literacia motivada por um desejo de a ter, resulta mais em bons que maus resultados. Pode ser uma ingenuidade minha, mas as janelas abertas trazem, acima de tudo, a capacidade de ver de outra forma, e interligar complexidades, realidades e perspectivas. Até acho que os valores são um resumo disso mesmo. Do que tiramos da amálgama, aceitamos para nós, e tomamos por medida ou código de conduta.
Ler é, normalmente, ir mais longe. E muitas vezes com prazer. Haverá alguma necessidade de argumentar mais?

"9. Façam desporto"
Ehehehehe. Pois, aqui sou completamente parcial, talvez até pouco objectivo, mas estou-me, com todo o devido respeito, cagando para isso. O desporto é fundamental. Não vou aqui dissertar como já fiz inúmeras vezes acerca dos benefícios da libertação de endorfinas, dos efeitos estético/corporais, das questões de saúde. A verdade é que o desporto é uma outra forma de combater a inamovibilidade, de nos conhecermos mais um pouco, de estarmos mais em contacto com algo que nos constitui e que muita gente, incompreensivelmente, acha despiciendo, como se o cérebro não necessitasse de um coração que bombeasse gasóleo lá para cima...
São só melhorias, corporais e cerebrais, e para mim não restam dúvidas que o movimento é felicidade, e o corpo, como dizia a Mary Schmich, é o mais magnífico instrumento que alguma vez teremos. Agasta-me profundamente como tanta gente o dá por garantido e lhe reserva tanta secundarização, como se não fosse parte essencial do que cada um é.
Além disso, até melhora a performance e a sensorialidade sexual. Tenho dito!

( a continuacion)

Na sequência do texto anterior, comecemos então a observar mais atentamente as máximas que constituem a receita dos 13 passos ou ingredientes.

"1. Afastem-se da multidão"
Este é-me especialmente caro. A carneirada, os movimentos de tendência, as opiniões pré-formadas a partir de uma geração por simpatia (quase como num clube), fazem-me confusão. Para os religiosos, por exemplo os católicos, as lógicas da razão assistida pela maioria deveriam trazer-lhes umas ideiazitas pouco confortáveis.
As multidões, no sentido do enformar de ideias e comportamentos é assustador. E assustador porque, em muitos casos, traz associada a cenoura da (falsa) pertença, que é ainda mais frustrante que o coelho mecânico que foge aos galgos. No final há apenas cansaço, uma ideia surpresa de "mas afinal é só esta merda?", e quando a individualidade emerge a malta parece mesmo os animais atarantados após acabar a corrida, sem saber muito bem o que se faz ou para onde se vai a seguir.
Claro que a presença das pessoas é importantíssima, porque sem outros, os ecos tornam-se aborrecidos, e já chega a esquizofrenia normal da alternatividade das disposições dos dias. Não é de todo necessário incrementar essa lógica com uma verdadeira conversa com as paredes.
No entanto, a presença das pessoas, muitas pessoas, muitos ambientes, deve de facto ser afastado do conceito de multidão, porque é bem certo que uma ou poucas pessoas juntas são inteligentes, individuais, interessantes, e a multidão é normalmente uma massa estúpida, acrítica, e movimentada como um cardume de sarinhas no meio do cerco dos golfinhos.
Esta de facto parece uma boa máxima, a qual, infelizmente por pressões de solidão social, é quebrada por muita gente que simplesmente se limita a tentar o mal menor. Acredito que, em alguma altura da vida, talvez toda a gente tenha feito algo assim, mas isso é bem diferente de uma professão de fé em torno das dinâmicas da carneirada.
Afastar da multidão.
Sim senhor.
"2. Corram a milha extra (run the extra mile) "
Esta então é de facto importantíssima. Aqui se encontram coisas como o brio, a singularidade do esforço, a capacidade de fazer algo um pouco diferente do expectável. A milha extra prende-se com a ideia de evolução constante, com a percepção de que nesse evoluir está necessariamente incluída uma vontade de acrescentar alguma coisa, de ser ou pelo menos tentar ser um pouco melhor, ter um pouco mais, ir um pouco mais além. É aquela noção de esforço que impede que a estática mental e comportamental tome conta das pessoas. É a essência do anti-mono, o contra-trambolho, o antídoto para a modorra.
Creio firmemente que tem associada uma espécie de recompensa ulterior, embora essa, em meu ver não deva ser a motivação. Corre-se a milha extra para que algo esteja bem connosco, para que eu possa olhar para o que consegui ou não, mas pelo menos ter a noção de que fiz o que podia, e que mesmo depois disso, tentei mais um bocadinho. E mais, e mais, e depois, com os joelhos esfolados e o suor a queimar os olhos, lutar mais um pedaço porque do estágio A se quer passar ao B, quase numa interpretação livre, individual e adaptada do postulado da imortalidade da alma. Lá porque a perfeição não existe (felizmente), ou porque simplesmente não é logrável, é um objectivo, é um paradigma de intenções, e como tal, querer lá chegar, dar o que se tem e não tem, é uma garantia em certa medida de que nada assenta e apodrece. Ainda que tenha custos, ir mais longe, normalmente, acaba por ter alguma recompensa, ainda que seja interna, ainda que assente no que já não sou como era ontem porque hoje já aqui estou.
Fazer só o que é necessário, o q.b.? Esqueçam lá essa merda e toca a tentar (ser e ver-se) um pouco melhor mais daqui a um bocado do que somos neste segundo...
3. Cuidado com os pequenos detalhes
Este é um pau de dois bicos. Porque o detalhe é realmente importante. É essencial. As pequenas coisas que fazem uma diferença do caraças porque a certa altura, reencontrarmo-nos com eles faz toda a diferença entre uma permanência e uma simples memória.
O detalhe é fundamental. Sem ele, julgo que a própria originalidade associada às formas como as pessoas se relacionam está fadada a um impasse. Impasse esse assente na incapacidade de ver a outra pessoa através das pequenas, (ou grandes) coisas que a diferenciam e à forma como nos relacionamos com ela. E é o detalhe, a observação da corda mal afinada no coração de quem for que observemos que o fará sentir que aquilo que gosta não é um disparate. São laçarotes em sabonetes (private joke), ironia ternurenta numa frase onde se adivinha uma piada, gosto por páginas coçadas de livros de sempre. Enfim, embalos pelo improvável assente num gesto que celebra o encaixe das coisas que custam muito tempo de atenção aos outros e ao mundo para saírem naturais. E ficam, permanecem, duram. Pormenores são muitíssimo importantes. Os detalhes são, no fundo, os reforços do tecido pessoal, porque é normalmente ali que sofrerão os pontos de tensão.
Mas também há que ter cuidado com as doses maciças de retenção anal que algumas pessoas têm (não, não me estou a referir a ninguém que me seja próximo, mas alguns casos se pessoas conhecidas). Porque há o amor ao detalhe, especialmente aquele que se destaca pela diferença em demonstrar alguma coisa, em provocar pequenas surpresas, em ter atenção ao absurdo pessoal como uma das mais calorosas formas de acarinhar. E depois há a picuinhice, o impensável do detalhezinho, o cabelo da franja que está para a esquerda quando devia estar para a direita, o scanner mental e ocular que coloca as pessoas numa espécie de carril de comboio onde qualquer espécie de meio-passo dado mais ao lado provoca uma queda, ou pior, o abate de milhares de peças de dominó onde só resta o estertor de uma escultura de algo que cai, e o olhar confrangido de quem montou um castelo de cartas a cuspo junto a uma janela aberta.
E há quem não ligue ponta de corno aos detalhes. Ou pior ainda, que reparamos neles.
No fundo é a velha máxima... Equilíbrio.


(A continuacion...)


quarta-feira, julho 08, 2009


Para quem me conheça, especialmente nos últimos anos, saberá que tenho uma perninha assim a modos que a dar para algum pessimismo. Eu prefiro entitular a coisa de dúvida metódica, algures lançada entre uma identificação bipartida meio Kantiana meio Cartesiana, mas ok, dou a mão à palmatória. Há um bocadito de pessimismo, mas pronto, façam-me lá a justiça, pelo menos atribuam-lhe algum esclarecimento ou substracto factual.
Posto isto, venho falar-vos de algo com o qual contactei mais de perto no fim de semana passado. No final de uma acção de formação (motivacional diria eu), o formador, um comunicador formidável, passou uma espécie de "receita para a felicidade" constituída por 13 items. Ora cada um deles levanta uma uma série de questões. Pessoalmente, uns surgem-me como equilibrados. Outros, salvo melhor opinião, puxam um pouco para os manuais de auto-ajuda, o que me dá uma comichão que tratarei de explicar, ainda que isso aumente a tal ideia de pessimismo.

Assim sendo, sob o título "A Felicidade é uma droga pois vicia", eis os supostos treze ingredientes da receita:

1. Afastem-se da multidão
2. Corram a milha extra (run the extra mile)
3. Cuidado com os pequenos detalhes
4. Não protelar
5. Tudo acontece por alguma razão
6. Lei do retorno (what goes around, comes around)
7. Não deixem que ninguém nos estrague a auto-estima
8. Leiam 10 páginas por dia
9. Façam desporto
10. Façam o que gostam
11. Divirtam-se
12. De vez em quando, isolem-se
13. Façam o favor de serem felizes

No próximo post, inicia a dissecação.

Por agora, deixo-vos com os experts nestas matérias...





domingo, julho 05, 2009

Well my maker...
must have been a hard heartbreaker...

Well the sun is shining
but it sure don't seem to reach my heart
well the sun is shining
but it sure don't seem to reach my heart

I'm wasting my whole life
tryin'.....to make a new start




quarta-feira, julho 01, 2009

Looks like Lisbon!

Congrats are in order, hope everything will work out fine! I'm sure it will!

Here's to (your) Happy days !

So long.