ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

segunda-feira, agosto 31, 2009




4 - Liberdade/Espaço Individual




Este é talvez um dos elementos mais complicados de lograr numa dinâmica relacional. O chamado espaço pessoal, a individualização, o local para respirar e a noção da pessoa que existia antes da relação e a que continua a existir.


E aqui há profundas clivagens. No meu modesto ver, modelos muito diferenciados nesta forma de estar provocam divergências insolúveis, porque vão bater directamente ao elemento necessidade (do outro). Mas também não é exclusivamente assim, e num território onde a racionalidade parece maldita, talvez esta acabassem em certa medida por dar uma ajudita.


Ora vejamos.

Há pessoas que passam literalmente a ser uma para ser uma metade siamesa. Passa a haver algo de incomodativo na individualidade da outra pessoa e ao invés de termos Bonnie and Clyde passa a haver Bonnie a sua lingerie. Brincadeiras à parte, a verdade é que para algumas pessoas, os amigos, os rituais, os hobbies, o espaço onde a pessoa normalmente se manifestava enquanto indivíduo passam a ser contendores, e não é preciso ter uma imaginação muito fértil para determinar onde a coisa vai parar. A ligação ao ciúme é quase óbvia, e não são raras as histórias de pessoas que simplesmente desaparecem quando certo tipo de amor lhes bate à porta. É perniciosa a armadilha, porque quando as coisas não correm bem, e sejamos realistas, ou são ambos assim, ou alguém vai correr para a vedação não tardará muito, e se retorna ao mundo, esse retorno parece uma espécie de prisioneiro de Calais, com a corda ao pescoço a pedir misericórdia ao ambiente que talvez nunca devesse ter deixado.

Parece um erro crasso que a pessoa deixe de ter os seus amigos, deixe de conversar com aqueles melhores amigos, ainda que do sexo oposto, abandone os seus hobbies, ou simplesmente deixe de ter uma parcela do dia ou da vida quotidiana que lhe pertença. Primeiro porque essas pessoas deixam de ter histórias para contar, visões e pequenas singularidades para colocar à discussão, descobertas para trazer, como pequenos segredos que são um prazer infindo quando partilhados com quem quer saber como os nossos olhos viram qualquer pedaço de realidade.

É um erro as pessoas não entenderem que há confidentes, pessoas a quem talvez, se tivermos sorte, podemos mesmo dizer tudo. E não há nunca possibilidade de partilha absoluta seja com quem for, mas especialmente com a pessoa de quem se gosta realmente. Porque ninguém tem capacidade de ver ninguém na integralidade, em meu ver, e há coisas que só o afecto intenso mas unicamente fraternal pode assimilar. Claro que, na outra medida, há coisas que só o destinatário do amor terá acesso, e essas muito menos susceptíveis de mimetizar por aí, mas que diabo, há na vida de cada, pelo menos na minha há, poucas pessoas que sabem tudo o que há de escabroso, de talvez menos nobre, menos puro, e podem evitar a torção do nariz.

E poderia continuar, mas a verdade é que a sonegação do espaço pessoal encurrala uns, isola outros, mas em muitos casos, ao fim de algum tempo, acicata o pior que a reacção de liberdade tem. E quando ela surge, acaba por levar muita coisa à frente. Normalmente leva. Eu ouço muitas pessoas desejarem um pedaço de tempo para si, para aquelas coisas que talvez sejam mesmo necessárias no silêncio da auto-conversa. E esse desejo é uma espécie quase de reconhecimento de um peso na vivência. O tom de voz é de um mal necessário, e sinceramente, o amor não pode ser um mal necessário, nem necessariamente mau. Picos e vales sim senhor, mas algo parecido com Estrasburgo, onde não se vê um relevo a quilómetros, bem... para quem não se cansa da pasteleira...acho que está bem...

Os amigos não tiram pedaço.
Quando conheceram as pessoas, já gostavam dos seus hobbies e interesses. Pelo menos toleravam a ponto de não interferir quer na dinâmica relacional quer na predominancia daquilo que era amável na pessoa. De um momento para a o outro achar que o mundo acaba porque o vórtice relacional tudo suga, é, me meu modesto ver, receita para a desgraça e em muitos casos, o primeiro calhau no edifício da separação.


quarta-feira, agosto 26, 2009



3 - O Monstro dos Olhos Verdes
Tomando em consideração os potenciais problemas e as reacções próprias dos estados emocionais/afectivos, o monstro de olhos verdes, vulgo ciúme é talvez dos mais problemáticos. E prende-se claramente com o contraste entre a reacção emocional e a racionalização possível do fenómeno da infidelidade, seja ela efectiva ou potencial.
O grande problema é que o ciúme, pelo que tenho testemunha e mesmo experienciado, assenta muito mais na potencialidade, alimentada a álcool por questões de insegurança, por um lado, e por uma (sinistra em meu ver) tendência para a posse, por outro.
Vamos lá analisar o ciúme à lupa. Enquanto fenómeno, antes de o ver como conceito.
Como surge?
A -Bem, falando de ciumes do presente, ama-se alguém, e este:
1 - É abordado ou aliciado por alguém com interesse nela(e);
2 - Aborda ou age para com outro alguém com manifesto interesse nessa pessoa;
3 - Nem uma coisa nem outra mas, por encanto, brilho, inteligência, whatever, chama a atenção;
4 - É amado de uma tal forma descompensada que qualquer movimento de individualidade é visto como desinteresse e ameaça de perda;
5 - Mais 10.000 razões que alguém encontrará para se sentir desconfortável com algo que julga ver no outro e que sustenta um desinteresse ou interesse partilhado, e como se sabe, quem não se sente não é filho de boa gente.
Ora vamos lá desmontar esta coisa na medida do possível...
A dor subjacente ao ciúme é perfeitamente compreensível (embora o ciúme seja defensável por muitos precisamente por não ter nada de racional), porque é emocional. Porque se sente uma perda e invasão e isso doerá porque no amor há esta coisa do uno e indivisível.
Mas a verdade é que o mesmo é também potenciado, ora que diabo! E no drama subjacente ao ciúme vivem muitas existências emocionais que, quando não têm chatices, ora pois toca lá a procurá-las, exercendo a materialidade do ciúme em todo o seu explendor. Faca e alguidar meus amigos, baba e ranho, cobrança e drama, que é isso que a malta gosta.
Ora o que digo relativamente a isso é o seguinte. O ciúme, bem como a posse, são inúteis. Se a pessoa quiser, se o sentir, se a determinação da vontade for mais longe que qualquer outra coisa, o toque acontece, ou o pensamento ilumina-se e a vontade surge. E o que podemos fazer quanto a isso? A mesma coisa que lograremos quando se tenta agarrar o vento. Nada.
O ciúme sentido parece-me legítimo,e um bom sentido de humor resolve muito mais questões de ciumeira que pratos partidos. Mas não há como negar o apertar das entranhas, o mal estar, aquela sensação que quase parece uma combinação de sabores que nunca se devem misturar, como chocolate e peixe cozido. Algo não funciona, parece que deixa o corpo ligado à corrente, e o incómodo pode ir mesmo à náusea. Sente-se e pode manifestar-se, mas enquanto sentimento, enquanto parte incindível do escorregar agridoce e avassalador que é o facto de se amar alguém.
Coisa diversa é o ciúme/posse, a coisa patológica que julga que pelo controlo e o coartar de uma dimensão individual se leva a água ao moinho. Algo que se apoia numa soberba inaceitável, onde alguém se sente mal não porque algo acontece ou pode acontecer, mas porque aquilo que lhes pertence tem um código de regras não escritas para cumprir. Parece quase uma cartilha, que normalmente se define por uma dualidade paradoxal, ou seja, quanto mais apertada é a malha menos segura qualquer peixe que seja.
Neste caso o ciúme está muito ligado à possessividade, e é a ideia de que as pessoas não poderão ter amigos ou rituais fora do casal que muitas vezes leva á saturação de um deles, ou de ambos. O ciúme assim defino como o ciume praticado, chiça, diria mesmo exercitado, e têm um aroma a drama tão caro a pessoas que, no meu modesto ver, confundem amor com direito de propriedade. E será que não surge como evidente que controlar as pessoas contra sua vontade não produz resultados? Será que não é óbvio que algo que surja na consequência de alguém ser obrigado a fazer alguma coisa, não terá qualquer valor? Amar não é liberdade para se querer fazer algo por outrém? Eu vou mais longe ainda - que gosto tem a ilusão de rendição ao controlo? E a pessoa que aceda a esse controlo se calhar fá-lo-á por amor, por medo, por insegurança, ou simplesmente durante algum tempo e depois estoira, o que a mim me parece a única coisa sã a fazer, mas isto sou eu...
Há, infelizmente, patologias que até derivam em violência, escudadas num amor violento e passional, mas não passam disso mesmo, patologias que na cabeça de pessoas menos equilibradas fazem com que o amor pareça quase um cheque em branco para todo o tipo de exercícios de morte à individualidade. Ironia das ironias, individualidade essa que foi o que cativou o "possuidor".
É um absoluto clichê, mas a verdade já lá dizia o Sting, é que é na liberdade (eu até imagino um imperativo categórico emocional, vejam lá isto) que as pessoas mais se dedicam. É sendo livres que optamos pelas determinações e tirania agridoce do que o próprio sente e se sente compelido a fazer por outro.
O controlo, a posse, a ciumeira praticada em histeria dramática, a desconfiança, o senso de propriedade são, também eles, uma das principais causas de separação ou quebra de laços, ou pior, de gangrenas relacionais por comodismo ou medo.
B - Depois existem os ciúmes do passado, que no meu modesto ver é uma idiotice pegada, pelo que transcreverei aqui o que já disse sobre o assunto:
"Peço antecipadamente desculpa pelas susceptibilidades que possa vir a ferir, mas a ideia de ciúmes do passado parece-me uma perfeita parvoíce. Bem, já o conceito clássico de ciúmes não me é muito simpático, mas adiante. A ideia de que alguém pode andar ou ficar inquieto por causa de alguém que já existiu na vida da pessoa com quem está parece-me claramente ideias de quem tem demasiado tempo nas mãos, está cansado de estar bem e precisa de arranjar sarna para se coçar.A razão pela qual alguém anda inquieto por alguém que já não é factor, é coisa que me esgota qualquer capacidade para argumentação racional.
E depois poder-se-ia dizer que o medo é daquela pessoa, de um artista qualquer que supostamente marcou a pessoa indelevelmente... mas não... normalmente esta patologia estende-se a toda e qualquer alminha que alguma vez se tenha aproximado e tocado na parceira(o), como se a coisa a qualquer momento pudesse repristinar. É competir com fantasmas, arranjar conflitos com base em conflitos que já acabaram, assim como ser-se um cossaco em plena 2ª guerra mundial.
Se é suposto funcionar como uma qualquer espécie de declaração indirecta de amor, pois, sem mais comentários.Os ciúmes do passado são um mecanismo quase prepotente, com pitadas de uma sobranceria estranha, já que se age como se o mundo só existisse a partir do momento em que o ciumento retroactivo tivesse entrado em cena. E, que diabo, presunção e água benta, cacete...E normalmente essas pessoas, que arranjam redomas em torno da pessoa que as acompanha, acabam por redundar numa única coisa. Ficam a falar sozinhos, e aí sim, com coisas que não existem, mais ou menos aquilo que arranjou a sarilhada que os terá levado até essa solidão superveniente."

terça-feira, agosto 25, 2009




A propósito de um pedido de uma amiga minha relativa a testemunhos que digam respeito a separações, por um lado, ou relações concretizadas e felizes, por outro, calculo que seja mais fácil falar da primeira. E isto porque embora isto possa aborrecer algumas pessoas, a verdade é que são mais frequentes os primeiros fenómenos, talvez um pouco na lógica de que é mais fácil destruir do que construir, mas são precisamente essas as ideias que me assaltam quando penso neste assunto. E é impossível falar dele sem o separar em várias circunstâncias, que vão desde a diferenciação de comportamento na corte quando comparado com o que se tem na relação, a valorização do outro, a auto-valorização, a diferença entre cedência e descaracterização, quem "usa as calças", fidelidade e o seu contrário, ciume, etc, etc etc...

O que faz uma relação bem sucedida?

Primeiro, se alguém alguma vez descobrir e patentear, os lucros do petróleo vão parecer migalhas trituradas perto dos proveitos de tal descoberta. Mas colocando esta premissa de parte, tenho uma ou duas ideias acerca do que, em meu ver, borra a pintura a uma relação, e pode ser aplicável a título de testemunho pessoal assim como produto de observação da quantidade imensa de relações que vejo correntemente a estoirar todos os dias à minha volta.

Comecemos:

1 - Dr. Jeckyl and Mister Hyde - A Corte e a Relação

Das premissas mais importantes, e tendo em conta o que uma amiga uma vez verbalizou de forma muito acertada, é a dificuldade em discernir o que são os comportamentos derivados do encantamento inicial, da real essência da pessoa. Se alguém detesta ballet mas vai com o seu objecto de desejo ao ballet com um sorriso (supostamente convicto) na cara, isto é um aviso de asneirada mais que certa num futuro de convivência.
Claro que estou a hiperbolizar, mas que diabo, a velha ideia de que os opostos se atraem, é, em meu ver, uma falácia. As diferenças devem celebrar-se, mas não devem ser fragmentadoras, porque a sê-lo na essencialidade do que pode ser a vida em comum, vão criar ausências do outro nos espaços que nos são queridos. Convenhamos, ir ver aquele filme ou peça de teatro que nos corta o coração e comove sem a presença da pessoa com quem mais queremos partilhar aquilo porque a dita está mais interessada na novela das sete, e vice-versa, é prelúdio de problemas insolúveis. Se isto se multiplicar por tantas áreas do nosso ser e do outro, o que resta não são compinchas sexualmente atraídos que se alimentam da presença de cada um construindo uma parceria no crime, mas pessoas que talvez nem saibam bem distinguir o que as atraiu em primeiro lugar e o mono (sem ponta de gosto, dirão) que lhes caiu lá em casa passado algum tempo.
O encantamento não pode substituir as atitudes, comportamentos, formas de ser que são próprias da pessoa, porque nem mesmo o elenco do CATS representou um papel eternamente, e cedo ou tarde ambas as pessoas poderão sentir-se defraudadas, e aí o melhor mesmo é aliciar o animal da sua miséria.
É por isto que na fase do encantamento há deuses(as) sexuais que passado algum tempo seriam envergonhados(as) pelo mais analmente retentivo dos vitorianos, "party animals" que afinal mudam (apenas!!!) a primeira parte da expressão composta para sofá, silhuetas saudáveis pque de repente acham que a verdade se encontra no culto da bandalheira, gostos culturais semelhantes ou compatíveis substituidos pela velha expressão "eu nem gostava muito daquela porcaria, mas como tu querias ir...", vegetarianos que até não se importavam de comer carne durante algum tempo, etc, etc, etc...
A corte é uma fase onde as pessoas se devem dar a conhecer. Mas a si próprias, caraças, não a uma espécie de versão enfeitada e quase adaptativa para que o outro seja "caçado". É que para muitos, infelizmente, a ideia do "já está seguro" é um elemento ferozmente cancerígeno em qualquer espécie de afecto, mas muito pior para o passional ou emocional/amoroso. Pensar que a partir de uma certa altura as pessoas são garantidas é, acima de tudo, uma profunda falta de respeito, mas já lá iremos.
O que vejo, em muitos casos, é que as pessoas acabam por "levar"gato por lebre, porque algumas passam um cheque durante a corte que sabem perfeitamente não ter cobertura. E muitos dos relacionamentos que vejo a rebentar pelas costuras justificam-se precisamente pela incapacidade que a natureza tem de se contrariar sempre ou constantemente.

2 - A Famigerada "Segurança" - A falta de (auto) cuidado

Partindo do princípio que as pessoas até são compatíveis (gostam ambas de recitar falas de episódios do Star Trek de 1986, mas até preferem música diferente mas que não enlouquece mutuamente), surge a relação. E falamos de uma relação, desejavelmente, com uma pessoa que nos tira o ar cada vez que faz aquela malfada piada que julgávamos que ninguém sabia como nos fazia rir, conjugada com aquele vinco muscular nas pernas quando os sapatos de salto alto estao calçados aham, enfim, adiante.
Surge o facto das pessoas até encaixarem (coisa rara nos dias de hoje) e dar-se uma parceria no crime, como disse acima. "Bonnie and Clyde, tu matas eu esfolo, dizemos os dois tomato e não tomatoe, e regularmente lá vamos fazer qualquer coisa que cada um gosta, mas o outro até torce o nariz". Surgem as cedências, as mudanças, o possível equilíbrio de forças, a potenciação do outro pelo orgulho que temos nele em vê-lo como individuo que amamos e admiramos... pois, isto é o desejável, em meu ver.
Mas muitas vezes surge uma outra coisa - "Agora que já estás (seguro, caçado, preso - riscar o que não interessa) vamos lá trocar o fio dental pelas cuecas da avó, o cinema francês pelos jogos da bola sejam eles do Benfica ou da Sanjaoanense, o cuidado pessoal pela bandalheira, o calor pela convivência dos rituais necessários, e por aí fora". Entra o monstro feio da negligência, ou pior, dar alguém como garantido. Olhar para aquela pessoa como se o facto dela estar ali fosse semelhante a uma obrigação fiscal e não perceber que é desejável que frequentemente a pessoa tenha ideia da razão pela qual lá foi parar, e mais importante ainda, porque é bom lá continuar.
Das coisas que mais me agastam são os olhares pesados das pessoas, a ideia de que quando estão numa relação, aquilo surge quase como uma espécie de fardo e não aquilo que é - algo para melhorar e abrilhantar a vida. Encolhe-se os ombros e acha-se normal, porque afinal, o que interessa é, aparentemente, a entrada no estado relacional. Se uma vez lá dentro aquilo funciona, que diabo, quem é que tem tempo para pensar nisso com os filhos, as compras, as varizes da sogra, a lesão do Liedson e as contas para pagar? Pois, poucos têm, e passado algum tempo está dentro de casa ou de uma relação um estranho que quase não conseguimos reconhecer debaixo de tantas camadas de descaracterização trazidas pelo "conforto", a "segurança" e a "estabilidade" por decreto. Até o sexo é, digamos assim, próprio dos inícios, segundo dizem alguns, e coisa que afinal até nem faz assim tanta falta... medo!
Uma das maiores causadoras de separações é a desatenção. Pelo outro, por si próprio. E o imobilismo que a segurança "traz", porque se acha que o outro tem uma bola de ferro presa ao pé. É o sexo que já não há, o riso que já não se provoca, a brincadeira que já não se procura, o cuidado com o corpo que já não se tem, os interesses e paixões que já não se mantêm, o que se era que já não se é, ou pior, como disse acima, aquilo que se fingiu ser.
Dar-se alguém por garantido é das maiores demonstrações de falta de respeito no seio de uma qualquer relação afectiva, e a taxa de insucesso de tais relações é suficientemente alta para ser auto-demonstrativa. No reino da bandalheira há um indiscutível cheiro a podre, e o que está podre, normalmente está morto.


( A Suivre, como se dizia no final dos episódios do Tintim, teremos - O Monstro dos olhos Verdes, A liberdade pessoal, Exigência e Desejo, Racional vs Emotivo e claro está, casos de sucesso talvez seguidos de algo de directamente biográfico)

Disclaimer - Esta faixa de DMB será repetida em cada um destes textos porque esta é de facto, uma canção de amor como eu entendo que estas devem ser.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Percebo cada vez mais o que dizia Norman Mailer acerca deste moço...
Neil Gaiman é, nos dias de hoje, um dos meus absolutos favoritos. De American Gods, um pedaço de maravilha...

"I can believe things that are true and I can believe things that aren’t true and I can believe things where nobody knows if they’re true or not. I can believe in Santa Claus and the Easter Bunny and Marilyn Monroe and the Beatles and Elvis and Mister Ed. Listen-I believe that people are perfectible, that knowledge is infinite, that the world is run by secret banking cartels and is visited by aliens on a regular basis, nice ones that look like wrinkledy lemurs and bad ones who mutilate cattle and want our water and our women. I believe that the future sucks and I believe that the future rocks and I believe that one day White Buffalo Woman is going to come back and kick everyone’s ass. I believe that all men are just overgrown boys with deep problems communicating and that the decline in good sex in America is coincident with the decline in drive-in movie theaters from state to state. I believe that all politicians are unprincipled crooks and I still believe that they are better than the alternative. I believe that California is going to sink into the sea when the big one comes, while Florida is going to dissolve into madness and alligators and toxic waste. I believe that antibacterial soap is destroying our resistance to dirt and disease so that one day we’ll all be wiped out by the common cold like the Martians in War of the Worlds. I believe that the greatest poets of the last century were Edith Sitwell and Don Marquis, that jade is dried dragon sperm, and that thousands of years ago in a former life I was a one-armed Siberian shaman. I believe that mankind’s destiny lies in the stars. I believe that candy really did taste better when I was a kid, that it’s aerodynamically impossible for a bumblebee to fly, that light is a wave and a particle, that there’s a cat in a box somewhere who’s alive and dead at the same time (although if they don’t ever open the box to feed it it’ll eventually just be two different kinds of dead), and that there are stars in the universe billions of years older than the universe itself. I believe in a personal god who cares about me and worries and oversees everything I do. I believe in an impersonal god who set the universe in motion and went off to hang with her girlfriends and doesn’t even know that I’m alive. I believe in an empty and godless universe of causal chaos, background noise, and sheer blind luck. I believe that anyone who says that sex is overrated just hasn’t done it properly. I believe that anyone who claims to know what’s going on will lie about the little things too. I believe in absolute honesty and sensible social lies. I believe in a woman’s right to choose, a baby’s right to live, that while all human life is sacred there’s nothing wrong with the death penalty if you can trust the legal system implicitly, and that no one but a moron would ever trust the legal system. I believe that life is a game, that life is a cruel joke, and that life is what happens when you’re alive and that you might as well lie back and enjoy it."



sábado, agosto 01, 2009

Eis que termina a primeira semana... felizmente há mais.
Uma semana tranquila, cheia de sono na praia, uma absoluta vergonha, e não tanta leitura como eu desejaria. Pareço sofrer de narcolepsia, talvez em plena retribuição por demasiados meses a dormir mal e porcamente.
A praia é um actividade em si, como se sabe. Ao fim do dia, quando o calor do fim de sol se instala e se prepara o banho, há uma noção de ter feito algo. É aquela moinha deliciosa que a praia deixa, e a antevisão de um duche e comer algo para depois ir desmiolar mais um bocadito para algum lugar onde tantos outros fazem a mesma coisa.
É engraçado encontrar algumas pessoas, conhecer outras. Reencontrar ainda as palavras de mais algumas, sentir o crescendo da saudade calorosa que as viagens, assentes na necessidade de ir porque depois é tão necessário regressar. E bom, diga-se.
A pele escurece, o físico acorda de mais de um ano das suas rotinas escondidas no Inverno e na falta de tempo. O descanso parece, afinal, uma sessão de afinação instrumental.
É, como todos aqueles períodos em que acabamos por nos afastar dos locais de pertença, permite pensar.
Mala às costas, mais do que locais, são tempos para ver pessoas, para ver histórias acerca das passagens do tempo, e congratular o que de laço, seja ele qual for, terá ficado.

Numa nota mais jornalística, arranjei uma ligeira alergia nos olhos devido ao facto de terem colocado o campo de basquet na zona mais ventosa da praia. Em madeira, sem aderência. É circo, como imaginam. Mas ainda sabe muito bem conseguir mexer-me, ainda que o joelho proteste levemente em algumas ocasiões. A alegria do movimento ainda continua a ser uma das melhores coisas a experimentar.
As sardinhas de ontem estavam divinais, e como dizia um amigo meu, são a denúncia em termos de paladar do que é o Verão e tudo o que implica.
Há uma invasão de vendedores ambulantes de óculos, canetas e mala de marca, contrafeitas sabe-se lá onde, e os amantes de bolas de Berlim ainda as comem secas, não importa os protestos.

Ainda não há fotografias. Mas não demorará muito, espero.

Until then, see you soon...