ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, setembro 14, 2009







E finalmente, antes de entrar nas conclusões(???), falo nos casos de sucesso.

O que são casos de sucesso? Bem, na linha daquilo que talvez tenha moldado o meu discurso nestas coisas, são sucessos na disfuncionalidade, ou seja, pessoas que conheço que conseguiram encontrar nas saus linhas tortas uma continuidade nos balanços, e sobretudo, uma empatia dos seus espaços e falhas.

Concorde ou não com os processos, são formas encontradas de fazer funcionar, relações onde o que salta é a capacidade de fazer alguma coisa como motor da vida diária e não o relato de mais um peso, ou um segundo emprego, que é o que muitas vezes surge do discurso e vivência de muitos casais que vejo.

São casos de sucesso porque encontram uma forma de se sentirem acompanhados sem a sonegação da sua individualidade. Porque arranjam forma de se provocarem e rir, de tornar os insultos da paródia num bom rastilho para a cumplicidade. Casos de sucesso porque por vezes, no meio da incapacidade em agir sempre bem, encontram um qualquer mecanismo para divergir a atenção e manter algo parecido a ressentimento bem ao largo.

São casos de sucesso porque embora pareçam uma sociedade, os membros dormem descaradamente um com o outro, há promiscuidade nas funções, confusão nas responsabilidades, confiança na metodologia necessariamente incompleta que cada um encontra para ser quem é.

São pessoas que misteriosamente percebem que a sua voz interior, a mais esconsa, embaraçosa e primitiva surge como caligrafia fina aos olhos de um qualquer atrevido que não tinha nada que perceber meia dúzia de coisas complicadas. São também aqueles que por vezes não sabem bem o que andam a fazer, metem a pata na poça mesmo no extremo do cuidado. São amigos meus que conseguem descascar a sua parede, mostrar o traço baço e mais feio da estrutura, e sem darem por isso.

Casos de sucesso são a minoria daqueles que conheço. Gostaria de partilhar algumas histórias, mas não são minhas para que o possa fazer. Posso apenas dar algumas ideias genéricas sem que lhes fira a esfera pessoal.

Um deles começou de forma improvável, teve uma separação e um reencontro anos mais tarde. Acho que o mais notável nesse caso foi a percepção de que os caminhos que trilhavam, de alguma forma, continuavam a esbarrar um no outro, pelas mais diversas motivações. Sabem rir-se em conjunto, especialmente das suas disfuncionalidades. Estão cientes do mundo lá fora, da imperfeição do seu e das incapacidades de que padecem. Têm a capacidade de rir, e nunca, mas nunca se furtam a fazer coisas. A diversificar dentro do que podem, a ver em conjunto fenómenos inéditos para eles. Concorde-se ou não, vivem com percepções talvez menos agradáveis e mais realistas no que concerne a uma vivência conjunta. No entanto, há algo ali. Ninguém, incluindo eu, percebe exactamente o que é, mas há alguma coisa que quase se pode tocar. Será amor profundo? Sei lá, nem me atrevo a qualificar. Talvez sim, talvez não, mas o que me parece é que eles se invadem mútua e despudoradamente, e no riso das histórias partilhadas surge o sucesso feito da vontade de as ter vivido assim, e talvez não de outra forma. Há o medo da perda, mas não o terror da posse.


Existem outros (poucos) casos de sucesso. Mas este parece-me o mais significativo porque assenta numa premissa que me parece insofismável. A longevidade do amor é feita de riso e da capacidade de acompanhar. De aceitar talvez coisas menos boas, menor convencionalidade, porque, e eu próprio não estou bem convicto disto, talvez o amor se faça apenas e só de uma priorização nunca totalmente exclusiva. Alguns entendem isto como flirts fora da união, outros como obsessões com o trabalho ou o coleccionismo. Outros com a oscilação entre a solidão e o toque ardente da companhia, como se a saudade funcionasse à guisa de fio de prumo. Sei lá.

Talvez, estranhamente, nos casos de sucesso, aqueles que observo nunca saibam exactamente o que estão a fazer. Perguntam e tropeçam muitas vezes, e ao descobrir seja o que for, continuam a viagem. Sentem que chegam a qualquer lado.

Mas só gente com muita sorte consegue estar tanto tempo a viajar.

Sei lá, só podemos adivinhar o que sucede nesses casos de triunfo. Mas justiça seja feita, ainda que eivados pela raridade, eles acontecem. Nunca sei é exactamente porquê. Por muitas desconfianças que tenha, e palpites, ao não saberem exactamente, não são uma teoria, mas uma hipótese de conhecimento que mais não é que encontrar sempre um passo seguinte no que seja a vivência do Amor.

Seria possível que uma coisa assim não fosse rara?

Pois...