ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, outubro 30, 2009

A verdade é que a conversa continuou, a reunião foi uma merda – desculpe – daquelas nas quais nada se resolve, à boa maneira da “reunite” portuguesa, mas ainda bem, porque se não tivesse sido o caso, não tinha prestado qualquer atenção. Ela falara comigo como se não houvesse nada de anormal, como se eu fosse mais uma p...essoa num qualquer local. Ao vê-la tamborilar com os dedos no tampo da mesa, enquanto um idiota qualquer tecia grandes elogios ao seu próprio plano de marketing, nem fiz esforço algum para olhar para outro lado. Ela olhava para cima, abrindo e fechando os olhos. Por vezes abria-os demasiado. E estava sempre a soprar naquela farripa de cabelo azulado. Parecia um animal pequeno escondido no escuro a abrir muitos os olhos cada vez que aparecia uma luz. Além disso tinha um sorriso aberto, e o pior, era um sorriso… como dizer-lhe… cruel.
O que me caiu logo no goto.
Ignorei, como tentava ignorar praticamente todas as coisas, ou melhor dizendo, todas as pessoas que queria, mas não conseguia deixar de a ver, de olhar para ela. Coisa estúpida, fixação estúpida, para um tipo com um plano tão bem arranjado. Pueril, ridículo, olhe, invente, deite cá para fora os adjectivos que eu não conseguir. Até porque nada tinha a ver com emoção. Era só uma curiosidade. Uma curiosidade terrível, uma coisa sedenta, até incomodativa. Para mim era novo, e o pior que me podem fazer, ou melhor, dependendo da perspectiva, é colocarem-me perguntas. Como é tão raro ouvir uma que realmente me intrigue, quando isso acontece tenho simplesmente que ir lá ver o que se passa. Um bocado como os portugueses e os acidentes de carro, sabe como é. Fascínio pelo medo, curiosidade pelo sarilho, soma de estupidez. Nada de novo, nada de novo, bem lhe dizia.
A verdade é que ela nos deu o cartão de visita no final da reunião, exibindo cada um dos dentes do sorriso malévolo numa cordialidade que lhe digo, era tão à prova de bala que nem os tipos com os fatos escuros conseguiram levar a mal o cabelo azul. Acho que toda a gente sabia que ela significava problemas, e mantiveram as suas distâncias cordiais. Ainda por cima, ela era boa no que fazia.Ninguém parecia querer muitas misturas. Além disso, era notório que não parecia apertar os parafusos todos. Sei que explica pouco, mas não tenho uma forma melhor de explicar os olhos esbugalhados de quando em vez e aquele sorriso de quem simplesmente não queria saber. Era a plataforma de saltos para uma piscina com a ocasional enguia eléctrica. Tristemente típico...


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