ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, novembro 23, 2009

Ao verificar algumas situações que têm vindo a suceder, verifico a força que possuem as zonas de conforto. Aquela espécie de fio condutor diário, feito de filamentos de poucas perguntas, com um colar cervical para impedir um olhar mais de soslaio. Seja porque descalçar os pés pode ser um drama, porque pequenas coisas p...odem significar exposições que nada mais me parece que a incapacidade de não achar tudo uma chatice, ou porque não há mesmo interesse em divergir um bocadito, em perguntar coisas menos óbvias, em dissecar os disparates, em procurar calhaus de formas peculiares nos lados lunares.

E isto parece-me, entre muitas, uma das razões da proliferação de tanto mal-estar mental e emocional, e do consequente crescimento da ajuda profissional. Olho para todos os lados e vejo ou ouço histórias de pessoas que simplesmente já não conseguem segurar o que as vai consumindo, e recorrem seja ao que for. Aquelas coisas que a sociedade dita "normal" olhava com escárnio e até temor, tornou-se conversa de mesa. Em Portugal falava-se das maleitas do corpo, do ir andando. Hoje em dia fala-se das maleitas da mente. Das panaceias que distam entre o terapeuta e a bruxa (especialmente aquelas que fazem uma mamoplastia anual com o que ganham a escrever que cor é que não devo usar amanhã...), mas a que cada vez mais se recorre.
Muitas pessoas ainda o escondem. Por receio de uma espécie de dúvida que a "moda da terapia" veio trazer. Um número significativo de pessoas tem terapeuta porque tem pinta. O que antes a sociedade reputava de coisas de malucos, agora tem, para algumas pessoas, um status especial. Parece, segundo consta, que dá uma aura de mistério sedutor, o que só incrementa o disparate, caso essas pessoas soubessem realmente o que é lidar com dor emocional que justifique ajuda profissional.

Muitas outras, as que a têm, precisam e beneficiam. E aqui é apenas uma opinião pessoal, talvez precisem porque a tanta gente falta a curiosidade em saber o que de facto constitui o outro. E a essas, que têm tanta dificuldade em e não resta outra alternativa senão entregar o óleo das mais profundas dobradiças a um observador e ouvinte treinado e já agora pago, para não formular juízos ou incompreensões agressivas. ( e ainda me contam que por vezes a coisa não corre exactamente assim...) Para ouvir, que é coisa que por vezes é tão absurdamente mais difícil do que reputam. Ouvir, querer saber, sair da zona de conforto para ver coisas menos evidentes, menos ouvidas, mais próprias de invenções literárias, mas que estão tão mais perto do que se imagina. E aqui o clichê é perfeitamente acertado, porque a realidade, em muito casos, vai bem para além da ficção. Por vezes, dentro da mente das pessoas, passam-se coisas como as que aqui se mostram. E para uns, será parvoíce, para outros será receio, para outros asco, outros ainda não acharão coisa alguma, e outros perguntar-se-ão.

Só resta saber o quê. :)


quinta-feira, novembro 19, 2009

Nos dias que correm, a mastigadíssima ideia do Sartre anda às voltas na moleirinha, talvez pela diametralidade de demonstrações que tenho encontrado.
Por vezes, numa estranheza impossível muito difícil de encaixar despreparadamente, dou comigo a abrir a boca em incredulidade. Ok, em ingenuidade, porque não é por falta ...de avisos que me façam, mas acho que, teimosa e desconhecidamente, nunca acho que seja possível. Acho sempre que as pessoas pensam bem no que dizem, pesam minimamente o que fazem, obedecem mais ou menos ao que os instinto humano (com todas as nuances de afecto e lealdade que isso implica) lhes vai ditando. E invariavelmente, encontro quem o faça, quem o faça alternadamente, que nunca o faça, quem siga o plano mesmo que seja alérgico a folhas de projecto.
E choco-me não com os erros, ou as asneiradas, porque sou praticante activo e proficiente dos mesmos, mas com a convicção profunda, a falta de capacidade de auto-questionar, a inderimível lógica de socialização.
As pequenas crueldades, ou as grandes, e os pequenos crimes que vão sendo cometidos, sem se ter a noção dos seus impactos, envenenam as normalidade, os reflexos afectivos , as quedas suaves nos raros estados de graça que existem porque outros existem connosco.
E no entanto cá andam elas, na descontracção dos dias que se querem cómodos, e como tal, em muitos casos, sem recorte que os faça únicos.
É tudo sem stress, tudo calmo, tudo sem consequências. Sem questões, sem compreensão ou mínimo denominador comum. E se é certo que não podemos evitar fazê-lo parcelarmente, tenho dificuldade em entender todo um passar de vida, de dias, de tempo, assente numa simples falta de eventualidades...
Não sei sinceramente como se faz.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Gabriel recordava-se da primeira vez que vira a Paula.

Recordava-se melhor do período em que ela aparecera. Um período complicado, entre empregos, como dizia – o que era sempre uma forma simpática que ele encontrava de esconder o medo que tinha por se encontrar naquela situação pela primeira vez na vida – com a vida do pai por um fio após um acidente estúpido – o que também era uma estreia. Tudo era uma novidade naquela altura, uma novidade feita de medo, de horror, de ausência. Não havia para onde fugir, não havia porta para fechar, amor para compensar aquilo que ele imaginava como costas nuas perante todas as formas de mau tempo. Nada de intermediários ou protectores. Só insegurança, medo, amanhãs sem resguardo. A mãe encontrava-se num caos de incredulidade, a irmã refugiava-se nas depressões cíclicas que coincidiam sempre com qualquer questão mais complicada, normalmente finais de namoros acintosos, contas para pagar ou esforço de monta, designadamente nos trabalhos que ia perdendo.

No meio desse dia a dia que nada anunciava senão a brevidade do seu porvir, Gabriel foi jantar a casa de uns amigos. Um jantar feito exclusivamente para “o animar”, mas que ele sentia que apenas serviria para realçar o que lhe faltava naquele e noutros momentos. Primeiro recusou, inventando uma gripe de última hora. Depois lembrou-se que um deles era seu colega de trabalho, e que a coisa era complicada de explicar. Pensou, como sempre pensava, que valeria a pena fazer um esforço para não ferir susceptibilidades, vestiu uma roupa menos macambúzia e dirigiu-se à casa do casal de amigos. Felizmente era o único casal são que ele conhecia nos tempos que corriam.

Ao entrar em casa deles reparou numa mulher jovem, esguia e alta, de cabelo loiro e escorrido que lhe cobria as feições. Reparou nela enquanto esta retirava uma bebida de um bar de carrinho ridículo que a Joana, a dona de casa, trouxera de casa dos sogros. Tinha as unhas compridas, mas não excessivamente, o que se comprovava pela destreza e rapidez com que mexia nos copos e garrafas. Ela virou o rosto e sorriu-lhe. A expressão era confiante e até algo petulante, e cobria o destemor de uma aparência que Gabriel julgou imediatamente fora do seu campeonato. Sorriu internamente, como por vezes sorria quando folheava revistas de mulheres impossíveis. Era um sorriso de alívio. A mente fazia-lhe o jeito. A Paula era parecida com aquilo tudo tão irreal que nem sequer conseguia criar substância para sentir qualquer agulhada de desejo. A emoção ensurdecia perante tão alto grito de improbabilidade, de forma que ele nunca chegava a desejar nada. E olhando para ela, agradeceu a imediata percepção desse facto. Bons augúrios, pensou. No segundo em que tudo isto se passou Gabriel arregalou a sobrancelha, num gesto que lhe era típico e inconsciente.
No segundo seguinte olhou em volta para cumprimentar os outros. Três casais e quatro solteiros, sendo Gabriel o único homem. Achou tudo aquilo algo invulgar, mas ficou mais descansado. Ninguém se tinha lembrado do arranjinho ridículo, o que ele tinha temido durante toda a viagem até à casa. No meio de todo o caos daqueles dias, não havia energia para dourar a conversa, para participar quando nem lhe apetecia muito. Não lhe apetecia ser delicado, ou elegante, ou até achar alguém interessante e começar a colocar argamassa nas imensas rachaduras que o atravessavam enquanto pessoa. Queria, no fundo, o absoluto comodismo de alguém que levasse tudo, que puxasse a carroça ou o deixasse em paz no meio da miséria da insegurança, do medo e dos dias correntes que custavam tanto a passar.

Mais tarde recordar-se-ia do perigo que era desejar alguma coisa, porque por vezes os desejos até se realizavam.

Naquela noite a Paula fez isso mesmo. Carregou a conversa, foi encantadora, potenciou o encanto com uma candura que parecia fazer com a beleza explodisse baixinho, sem estilhaços. Ela fez com que ele brilhasse, que diabo, recordava ele, fez com que toda a gente brilhasse. Era arguta e com um senso de humor destemido, o que a deixava à vontade em todos os tópicos, fossem eles quais fossem. Compensava a sua ignorância acerca de um tópico com uma honesta curiosidade em aprender. E dissertava acerca das suas exigências, quereres e sonhos confessáveis com uma fluidez de quem surfava pela vida embalada num gosto pela mesma. Naquela altura nem parecia um profundo complexo de superioridade. Paula conseguia disfarçar de forma brilhante o seu profundo ódio a qualquer espécie de falha, fraqueza ou menor capacidade. Era o mesmo que dizer que a vulnerabilidade a repugnava. Gabriel nunca percebeu se seria porque teima a sua própria, ou porque vendo-se incapaz, lhe gerava um ódio por inveja. Fosse como fosse, naquela noite, e em várias seguintes, ele simplesmente conheceu alguém com tanto para mostrar que nem sequer sabia exactamente onde tinha ido parar. Ela não dava também tempo aos porquês, tal era a omnipotência daquela luz bem direccionada que carregava. E Gabriel, que se sabia tão parcialmente quebrado como uma estátua antiga, não desconfiava que ao ver-se num amor também por vulnerabilidade, criaria um monstro feito do vício do domínio, de inexplicável fixação sexual e ressentimento pela sua capacidade em ser incapaz de sequer desejar a perfeição.

Sim, Gabriel recordava-se da Paula. Demasiado bem.




sexta-feira, novembro 06, 2009

Acho que era a Mary Schmich que dizia:
"Accept certain inalienable truths:

Prices will rise.
Politicians will philander.
You, too, will get old.


And when you do, you'll fantasize that when you were young,
prices were reasonable,
politicians were noble,
and children respected their elders."


Esta verdade é um ponto de partida para um par de ideias muito claras acerca do status quo daquilo que eu julgava ser um mundo tendente à inclusão, ao respeito pela diferença e à clareza de ideias quanto o que é a vida em sociedade, ou em meu modesto ver, o que deveria ser na óptica dessas mesmas lógicas.

E tendo em conta que a política tem uma carraça agarrada que é a corrupção, os jeitos e arranjos, a falta de sentido de estado e honestidade em todas as facções ideológicas, a verdade é que prefiro, e fico contente, que a franja (ainda) vencedora seja uma que tenha em conta o respeito pelos direitos civis, pela diferença, por aquilo que diverge da chamada "maioria".

Prefiro um Estado de Direito onde a descriminação seja abolida do enquadramento legal, onde a argumentação para sectarizar minorias sejam argumentos boçais e primários como as qualificações de "anormalidade". Prefiro um Estado que tem tem mais consciência do que é estar calçado com outros sapatos, que respeita o que surge normal para uma pessoa numa coisa tão intocável como é aquilo de que e de quem se gosta. Prefiro um Estado que procura incluir e proteger aquilo que é uma realidade tão digna como outra, que dignifica aquilo que faz parte de algo tão estruturante como a organização familiar por laços de afecto e não desconchavadas lógicas nostálgicas agarradas a letras da lei que nada mais fazem que estabelecer uma "tendência" que o mundo provou desajustada. Prefiro um Estado que permita que alguém que sofre de "locked-in Sydrom" possa morrer condignamente.Prefiro um Estado no qual pessoas do mesmo sexo que se amam e como tal (e sou insuspeito para falar porque não acredito minimamente no casamento e sou profundamente heterossexual) desejam solenizar e proteger patrimonialmente os seus escolhidos, o possam fazer, não aceitando esse Estado, e bem, que essas pessoas possam ser descriminadas em razão da sua orientação sexual, que é algo que lhes pertence, lhes é natural e próprio de uma liberdade que deve ser respeitada a todo o custo. Prefiro um Estado que realmente não dá ouvidos a argumentos como "não são normais", ou "põe em risco a família" ou "a continuidade da espécie", que são claramente argumentos vazios, sem sustentação real. Gostava que me explicassem porque raio é que se uma pessoa resolver casar com outra do mesmo sexo, a espécie vai estar em risco? Será que, por força desse casamento, os heterossexuais deixarão de o ser? Ou será que esses mesmos, por um truque mágico estranho, deixam de ter vontade de ter filhos, mesmos que não se casem? Hummm esperem, se calhar acham que o casamento gay vai criar uma espécie de vontade irreprimível que toda a gente mude de orientação sexual, ou que deixe de querer ter filhos, ou pior ainda, um crime de lesa-majestade certamente, que o casamento seja o único método para perpetuar a espécie... (pois, a Manelinha tinha dito um disparate desses, claro...)

A verdade é que prefiro um Estado que respeite, tente incluir e consagrar direitos iguais a quem apenas tem uma diferença de gostos, de opções, na naturalidade de afectos que lhes surge e que é tão digna de respeito como a "normal". Portanto partindo do princípo que (some) politicians will (always) philander, gosto de pensar que se caminha cada vez mais para uma lógica de inclusão, de entendimento, de respeito pela diferença e encontro de pontos de contacto.

Fico feliz por um lado que os conservadores estejam mais uma vez afastados e as suas ideias segregacionistas, e tenho muito medo que cheguemos novamente a um estado de coisas nas quais estas liberdades e garantias sejam vistas como sonegáveis porque alguém acha que o casamento gay vai inexplicavelmente por em causa os outros casamentos, como que por osmose. Tenho muito medo que argumentos como a "anormalidade" ( e nem entremos na religião) sirvam para privar as pessoas de direitos que lhes são devidos e para cuja sonegação não há qualquer justificação possível senão um preconceito já vetusto.

E envergonha-me, sinceramente, pensar que partilho o mundo com pessoas para quem a "ghetização" de situações diferentes da sua, que para o seu modo de vida directamente, e para qualquer outro, não representam qualquer ameaça que seja, seja perfeitamente defensável pela simples incapacidade de pensarem como seria se fossem eles os alvos deste tipo de segregação e desrespeito só porque gostavam de poder casar com uma pessoa do mesmo sexo porque era com ela que queriam dar esse passo de vida, ou porque estavam fartos de ser vegetais deitados a morrer lentamento numa cama.

Para mim a inclusão e o respeito não são nem negociáveis, nem debatíveis, especialmente quando esse debate, para uns, se centra apenas num incómodo e nunca numa justificação factual apenas fantasiada por preconceitos e medos que em nada diferem de descriminações raciais que foram e ainda são uma vergonha no século passado e neste em que vivemos.

Prefiro pensar que se alargam direitos, que incluem pessoas e realidades dignas do chapéu do Estado de Direito.
Mas isso sou eu, e felizmente, uma grande fatia de pessoas.
Bem hajam.