ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, dezembro 17, 2009

Confesso que andava um bocado arredado desta polémica com o Tiger Woods, mas parece-me que, mais uma vez, é a hipocrisia pequena que esfrega as mãos com o cheiro a sangue e confunde, novamente, o atleta (como ofaz com os artistas) com a sua vida privada.
Não é que o comportamento do moço seja impassível de crítica, que... não é, mas este olhar chocado da sociedade que não sendo perfeita, espera que os seus ídolos sejam semelhantes a lençóis novos todos os dias ou flores de laranjeira, e em muitos casos, saliva só à espera da primeira nódoa, como para justificar as próprias merdas que faz, é coisa que me faz muita confusão.
São muitos, como sempre, os ávidos de julgamento e sentenças em praça pública, como de resto o foram com o caso Clinton. Em ambos os casos, absolutamente irrelevante para a qualidade que ambos tinham e têm naquilo que fazem.
Podemos não concordar ou condenar? Claro que sim. As posturas das pessoas e a forma como se vivenciam os valores são sempre passíveis de discussão e discórdia.
Mas esta espécie de auto-de-fé publicitário, e a moralização como primeira abordagem são, em meu ver, apenas a hipocrisia a um nível nauseante, vinda especialmente daqueles que se esquecem de olhar para a trampa que têm nos próprios sapatos, e como é bem sabido, pregam e evangelizam precisamente aquilo que não praticam.

Pessoalmente, acho o comportamento no mínimo discutível, mas repito quinhentas vezes o que disse Fitzgerald:

"Reserving judgments is a matter of infinite hope."

E claro está, como todos, julgo quando não devo, mas tendo a evitá-lo a todo o custo... Acho que é o melhor que podemos fazer, acho eu, sei lá... :)



quarta-feira, dezembro 16, 2009







Durante muito tempo, e ainda hoje, as pessoas perguntam-me o porquê de tanta dedicação ao desporto, e especialmente, ao desporto colectivo. E para além de todos os argumentos hedonísticos associados (dopamina aos molhos, conseguir relembrar onde fica cada músculo do corpo, estando em maior sintonia comigo mesmo, o praz...er de poder brincar como em idades aparentemente já idas, etc...) a verdade é que o desporto ensinou-me muitas coisas.
Ensinou-me respeito, sacrifício por um bem comum, apreciar que os outros brilhem, e trabalhar para que não só eu, mas todos quanto constituem o grupo fossem melhores. Ensinou-me o gosto por ver alguém a melhorar, a sentir a injecção de lealdade através do esforço em direcção a um objectivo que nos ensinou, pelo menos a mim assim foi, acima de tudo a sermos melhores homens, melhores pessoas, melhores cidadãos.

Esta foi a principal lição (entre muitas) que me foi passada pelo treinador mais importante que alguma vez tive, o Prof. Jorge Adelino, e a verdade é que em tempo algum ela perdeu qualquer significado. Acima de tudo, o que ganhei, além de um amor ao desporto que (ainda, sim, ainda :) pratico), foi um senso de respeito por várias coisas, entre elas, trabalhar para que algo para além de mim, fosse melhor, e ficar contente por isso. E isto é bem superior a ganhar. É, em meu ver, para isto que o desporto, como outras coisas, acaba por servir.

Para sermos melhores, e ajudarmos outros a sê-lo, como nos ajudam a nós.
Ser racional não significa ser assintomático.

Ser racional ou ter a tendência para olhar um pouco mais dissecadamente não significa a morte das intuições afectivas (á falta de melhor definição) que comandam vontades sem grande explicação. Ser racional não significa ser uma arca frigorífica ou um penedo isolado numa encosta invernosa. Ser racional e pensar um pouco sobre as coisas talvez seja um dos maiores elogios que se pode fazer às coisas que se sentem. Porque ganham importância, porque as tentamos identificar, porque ao quererem ser substância, significa precisamente que existem. Ontologia pela questão, sentir pela curiosidade em saber. Algo assim.

Racionalizar não significa dissecar ou reduzir tudo a conceitos ou axiomas. Primeiro porque não se consegue, segundo porque pensar sobre o que se sente é apenas uma parte do que tal significa. Mas alhear tais fenómenos do pensar é, para mim, impensável, e até injusto para com a relevância dos ditos "sentimentos".

Sinceramente, acho muito mais desonesto esconder o sentimento atrás de uma aleatoriedade absoluta, na qual assenta uma espécie de justificação total para tudo com base num impulso acerca do qual, (livrai-nos disso), pensar é um acto sacrílego.

Pensar sobre o que se sente não significa definir e como tal cercear-lhe o potencial. Quanto muito acrescenta-lhe dimensões, abre novas portas, acrescenta perguntas, e torna algo como o afecto num fenómeno ainda maior.

É na sobrevivência improvável dos afectos à realidade (ok racional, whatever) que reside uma das suas muitas grandezas. Porque ao racionalizar surge precisamente o carácter multifacetado de algo que, por um lado, não tem que nos estropiar intelectualmente, e por outro, ganha gozo ao escapar a qualquer definição completa. Pensar sobre os afectos é, também, engrandecê-los... mesmo nas partes que nos escapam, porque também é essa a sua (bela) natureza.

Acho eu...



quinta-feira, dezembro 10, 2009

A relação com a verdade é sempre curiosa. É, como dizer, reflexa. Melhor, dizendo, ecléctica. A malta vai aproveitando enquanto a coisa funciona, enquanto encaixa. A visão é engraçada, é boa, enquanto de alguma forma a perspectiva de alteração parece possível. Aliás, em muitos casos, não é bem uma perspectiva. É mais uma etapa. E então a observação deixa de o ser para ser uma análise. Uma avaliação. E a verdade passa a ser, como dizer, em si um ângulo. Só se olha através dele de quando em vez, porque em breve, ou de alguma forma, ela deixará de ser o que é, para, se tudo correr bem, passar a ser o que "deve".
E é aí que o impacto se dá. A verdade, na sua essência mais directa, e como todas as coisas mais próximas da perfeição conceptual, não tem mutações. Nem ângulos, nem perspectivas. Surge, nunca ameaçando imobilidade ou cristalização, excepto no momento em que existe. A verdade é inequívoca no momento em que é confrontada como tal. Se muda, nunca é a mesma. É outra. Não a mesma noutras roupagens por força do wishful thinking... acho eu...
A relação com a verdade é curiosa.
Muitas vezes é tão directa e transparente que definitivamente não pode ser aquilo...
E depois é...


sexta-feira, dezembro 04, 2009

Pode parecer estranha a banda sonora para o tema em questão, mas o paradigma das contradicções é, só para citar um exemplo, o mesmo encontrado para uma certa beleza achada nas coisas tristes.
A verdade é que de quando em vez vamos ouvindo algumas coisas, também daqueles que em muitas ocasiões (não todas, mas quem é que faz sempre seja o que for?) sabem o que dizem, e as questões surgem ao de cima.
Por vezes fazemos algo durante tanto tempo que nem sequer nos lembramos a razão pela qual se iniciou. Para os mais adeptos do Asterix, faz lembrar a história do burro do tio do Ocatarinettabellatchitchix. :) E no entanto consegue-se perceber o decorrer do tempo, a imensidão dos custos pequenos e parcelares cobrados à forma de viver que parecem assim tão injustificados. Tristezas mantidas a ferros, lembranças carregadas a custo, dúvidas e recriminações auto-infligidas por reflexo, e inexplicabilidades pintadas a negro desde que existe memória.
E que parvoíce. Que parvoíce termos de nos zangar em certa medida para lançar certas coisas ao ar. Que estupidez quase não ter pistas para uma calmaria connosco mesmos, e com aquilo que somos. Que ingenuidade alguma vez pensarmos que seria necessário termos cuidado com o que somos, e pior ainda, achar que pedir desculpa por isso alguma vez traria mais do uma ainda maior predação. Que patetice não sentirmos um calor pelas talvez poucas, mas tão verdadeiras coisas que temos, que nos respeitam na essência do que somos e como na verdade o apresentamos. Que lorpice não perceber o que realmente merecemos.
Posso levar anos até o perceber, mas não sou má pessoa.
Não sou mesmo. E isso, ter pelo menos a percepção disso, é toda a identidade que preciso de sentir como evidente e defendida. Porque o resto está adjudicado a quem quiser ver um pouco mais, perguntar qualquer coisa, e aceitar o que for.
Que inutilidade parece todo o tempo em que não nos sentimos minimamente bem connosco, à custa de externalidades vindas de quem acha que aquilo que somos claramente não interessa.
Que bom é achar que se calhar a culpa não é mesmo toda nossa... :)