Ser racional não significa ser assintomático.
Ser racional ou ter a tendência para olhar um pouco mais dissecadamente não significa a morte das intuições afectivas (á falta de melhor definição) que comandam vontades sem grande explicação. Ser racional não significa ser uma arca frigorífica ou um penedo isolado numa encosta invernosa. Ser racional e pensar um pouco sobre as coisas talvez seja um dos maiores elogios que se pode fazer às coisas que se sentem. Porque ganham importância, porque as tentamos identificar, porque ao quererem ser substância, significa precisamente que existem. Ontologia pela questão, sentir pela curiosidade em saber. Algo assim.
Racionalizar não significa dissecar ou reduzir tudo a conceitos ou axiomas. Primeiro porque não se consegue, segundo porque pensar sobre o que se sente é apenas uma parte do que tal significa. Mas alhear tais fenómenos do pensar é, para mim, impensável, e até injusto para com a relevância dos ditos "sentimentos".
Sinceramente, acho muito mais desonesto esconder o sentimento atrás de uma aleatoriedade absoluta, na qual assenta uma espécie de justificação total para tudo com base num impulso acerca do qual, (livrai-nos disso), pensar é um acto sacrílego.
Pensar sobre o que se sente não significa definir e como tal cercear-lhe o potencial. Quanto muito acrescenta-lhe dimensões, abre novas portas, acrescenta perguntas, e torna algo como o afecto num fenómeno ainda maior.
É na sobrevivência improvável dos afectos à realidade (ok racional, whatever) que reside uma das suas muitas grandezas. Porque ao racionalizar surge precisamente o carácter multifacetado de algo que, por um lado, não tem que nos estropiar intelectualmente, e por outro, ganha gozo ao escapar a qualquer definição completa. Pensar sobre os afectos é, também, engrandecê-los... mesmo nas partes que nos escapam, porque também é essa a sua (bela) natureza.
Acho eu...
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