ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, dezembro 30, 2010

Nunca escondi a ninguém que o final de ano é um período que não me é especialmente simpático. Especialmente desde há uns anos para cá. Ao contrário do Natal, que apesar dos pesares, é época que me toca sempre, a verdade é que este completar da órbita não me é simpático. Tenho algumas razões, mas talvez também tenha uma espécie de lógica interna relativamente a situações que, se é certo que são inícios, também representam finais, e como tal, é coisa com a qual lido mal.

A imagem do ano velho, com a segadeira e a ampulheta, que depois a passa a um bebé de fralda que segue em frente com tais utensílios deixa-me, sei lá eu porquê (talvez pelas mesmas razões insondáveis que o Natal me alegra), num estado taciturno. O fim do ano éuma angústia híbrida, já que parte dela consigo explicar, e outra não. Esta última sinto-a, e como tal, enquadro-a nos meus factos, mas desconheço de forma, pelo menos total, todos os seus mecanismos. Há algo de urgência nesta altura que me incomoda ligeiramente, algo de expectativa, de rituais que se fazem, de real esperança que se sente, e depois o olhar para o horizonte da concretização.

 
O fim do ano tem para mim também uma outra característica. Nos últimos anos tem-se revestido de situações que resolvem explodir precisamente nesta altura, o que não ajuda muito à gestão do fenómeno, por um lado, e aumenta perigosamente o desejo de esperança, por outro. Invejo tremendamente aquelas pessoas que conseguem divertir-se destravadamente nesta altura. Talvez porque essas pessoas conseguem, de forma eficiente e espantosa, repercutir esse sentimento durante muitos períodos do ano. São pessoas que riem de forma solta durante muito tempo, ou pelo menos assim o declaram.

Mas aí, aliás como noutras coisas, o problema é mesmo meu.

No entanto, há alguns anos que este fim de ano não era tão temível para mim. Ou pelo menos, que não o sentia assim. Há anos que não era tão complicada a conjuntura, que a esperança não se debatia com tantos medos, que o mundo pragmático e social de todos os dias não acompanhava também as fracturas e abalos da minha esfera pessoal. Há muito tempo que não tinha tanto medo do que ali vem, e do que me possa atrever a desejar. Há muito tempo que não me sentia tão cansado, e com a ideia do quanto isso se pode intensificar com o que 2011 perspectiva.

Não quero de forma nenhuma dizer que tenho uma ideia niilista, ou que imagino que nada tem resolução. Pelo contrário. Há que resistir e tentar fazer melhor. Sempre. Mas a verdade é que os finais de ano teimam em reservar surpresas ou epílogos complicados, e cada mordidela nas passas e cada desejo surdo se parece cada vez mais com um anseio intenso por algo que uma aleatoriedade com um sentido de humor meio torto teima em não ordenar.

No entanto, como é óbvio, ou pelo menos deveria ser, o desejo de felicidade a todos nesta altura é sincero. Como digo acima, aquece-me saber que de facto, de entre aqueles de quem gosto, há quem sinta esta altura como mais uma forma de celebração de vida, de momentos, de marcos, de fundação da memória que permite viver a vida a mais que um tempo. Tenho um ódio de morte ao Aud Lang Syne (risos), é verdade, mas os afectos estão cá, e a nostalgia pelos mesmos é também o reconhecimento da sua existência. É um sinal de vida. Mesmo os que permanecem teimosamente e sem grande explicação. Mesmo aqueles que vivem perante todas as agressões que sofrem. Os eventos ainda não me conseguiram secar, e acho que pelo menos isso é espaço para mais uma respiração funda. Se 2011 puder ser um bom ano, espero que o seja nunca só para mim, mas para vários a quem quero bem. Que lhes possa ver paz e riso fácil no semblante.

Por isso, tenham um "revelhão" de arromba.  Sorriam sem darem por isso.

FELIZ 2011.


P.S. - O ano que se avizinha é complicado em todas as frentes da nossa sociedade. Tudo se está a contrair e o mundo convulsiona-se com viragens e mais viragens. Tenho esperança que, para além da porcaria necessária a nível das cúpulas, que haja uma percepção de que, sendo feitos de gregariedade, teremos necessariamente de pensar nela enquanto tal. Que seja um ano onde não se apredejem pessoas, não se arruinem famílias, não se agridam mulheres, não se enganem pessoas honestas, não se deprede (ainda mais) o planeta, não se ache que algo insubstanacial como a economia virtual arrase com a já doente coesão social num mundo que tanto precisa dela. Que possamos lutar pela nossa vida diária, sem ter a noção de que a cada passo o medo está lá, como um falso brocardo economicista, como se a sociedade pudesse viver sem ela própria. Por isso, espero....


terça-feira, dezembro 21, 2010

Quando encontramos a definição para algo, normalmente é porque a sua função e importância se auto-justifica. Faz-se presente. É real.

A noção de família é a definição de algo que atravessa cada elemento do que nos identifica e constrói. Se pensarmos na palavra “familiar”, então uma das possíveis definições assenta precisamente numa percepção do que nos faz sentido, do reconhecível, do que somos fora de nós mesmos. O que leva à conclusão de que realmente nada seremos sem a pertença, e sem que esta seja reconhecida inconscientemente. Somos “familiares” não (só) pela biologia, mas porque faz sentido que assim seja. Os laços nascem, como lianas em torno de edifícios que vão acompanhando os tempos e deixando que a pedra se envolva com algo que lhe dá vida.

Cada elemento de uma unidade tem características. Essas características constroem uma história, e é esta que aldraba o terrível truque que o tempo executa ao passar sem pedir qualquer licença. Essa história torna tudo o que é enorme apenas algo lá fora perante o que nos centra, como uma âncora pesada numa escuna que abana perante o manto infindo de mar. É quem nós somos, parece-nos familiar, é o que levamos quando outros laços se formam. É o responsável pelo que nos tornamos, pelo que executamos na sobrevivência do que resiste ao que de mal também fazemos. O familiar é a absolvição de quem sabe onde andamos, o que somos, e até que ponto a humanidade sobrepuja (ou não) aquilo que nos faz menos bons.

Eu tenho a perfeita noção de que nada faria sem o que me é familiar. Embora seja um cliché verificar-se que a noção de família transcende em muito a biologia, a verdade é que essa transcendência funciona como um escantilhão no qual se desenham muitas das palavras que fazem o meu contorno pessoal. Como ar quente dentro de um balão, o familiar permite que esse ar ganhe formatos, cores, e até interaja em fenómenos. Esse familiar ensinou a maioria dos conceitos, a percepção do respeito pelo elementar, a vivência do humano em tudo o que se ama, detesta, salva, perde, deseja ou logra. O familiar é assim, a casa, na qual reconhecemos os cantos e fechamos a porta, em descanso, mesmo quando não há luz. E é essa percepção que vive mesmo quando nada está ali senão a memória, ou uma voz comunicada electronicamente, ou a dedicação do maior triunfo possível.

Ama-se o “familiar” através de um paradoxo. Se pensarmos bem, qualquer manifestação de amor é um reconhecimento, e nada é mais reconhecível que o “familiar”. Pense-se num juízo estético, num assomo de paixão, numa fraternidade imorredoura. Pense-se no medo, na agressividade protectora, nos reflexos criados pela capacidade de gostar que nem sequer consegue pressupor uma questão apenas racional. Ama-se o “familiar” porque mais do que ser nosso, somos nós que lhe pertencemos. O familiar é o anti-absurdo, é o interruptor que menor hipótese tem de entrar em curto-circuito, mesmo quando as divisões parecem desabar em meio a um qualquer cataclismo. É quem somos, num mapa desenhado a sangue possível.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Old habits Die Hard.


É pelo menos o que costumam dizer. E a verdade é que mesmo perante cenários menos luminosos, quer os que se vivem, quer alguns dos que se aproximam, andam por cá alguns tiques teimosos que obrigam a cravar as unhas nos únicos rituais meio inocentes e patetas que me restam. São coisas das quais me recuso a abdicar, talvez porque fazem parte de algo que vive sem a minha interferência. É, em certa medida, quase uma medida de expectativa meio parva, assente numa pequena antecipação feita de coisas que, na grande maioria dos casos, não acontecerão. Mas o Scrooge, as luzes da árvore em meio à penumbra, as cores na cidade e os pequenos nadas em preparação que dão o gozo associado em fazer algo para alguém, ainda que pequeno ou parco, estão lá. E é verdade que, quando as cores não são as mais radiosas, há um acre que parece penetrar até aos ossos, e teme-se um bocadito aquele instante em que aquelas pequenas expectativas são postas de parte com maior ou menor dose de realidade, mas há qualquer coisa que dura um bocadinho. E um bocadinho, nos dias que correm, é algo que se agarra como se de uma referência se tratasse.
E ouço as diatribes destrutivas do costume, com as denúncias amargas dos consumismos e das hipocrisias e quejandos, mas arrisco a dizer, talvez, que a fúria com que são pronuncidas só anuncia um desejo de que aquelas não aprofundassem as chagas do ano que nesta altura secam e aumentam. No fundo, é uma espécie de denúncia inversa, parece-me, porque há algo nestas alturas que potencia a visão que alguém tem de si mesmo, e os ritmos do leviatã social movem-se como milhentas peças de dominó que completam um desenho. E a figura, penso eu, é o desejo expresso de que a quadra, o ano, o minuto ou o instante, sejam potenciadores do valor da vivência e da capacidade de relativizar dor a cada sorriso que escape. Por mais difícil que (me) seja nesta altura.
Não alinho obviamente pela injecção de boa disposição à pressão que até é mais direccionada ao fim de ano, mas também tenho dificuldade, talvez pelas minhas inocencias teimosas, a aceitar que em meio ao frio que parece abrilhantar ainda mais as cores, não haja a capacidade para desejar algo, por mais absurdo que seja, por simples antecipação desse mesmo desejo. E no fundo, esperar que a manutenção teimosa de uma certa incapacidade para ressentir seja mesmo algo que me ultrapasse e assim permaneça. Posso sentir, e facto acontece, por mais que possa não parecer...


Por isso, e porque sei que essas coisas (nunca) dificilmente acontecem, fica uma Wishlist (material, porque a outra depende de factores mais sérios, e não estou capaz de aprofundar agora, por mais que os deseje fervorosamente - bear with me...), porque afinal de contas, o tipo de vermelho pode ser o funcionário da casa da sorte vestido à moda da quadra... :) E disparate por disparate, why not? Esta é a minha casa mesmo, portanto, posso andar com qualquer pijama, por mais ridículo que seja.


Assim:


- Uma casa nova
- Uma Máquina SLR (Canon EOS ou Nikon) com uma objectiva simpática e um obturador que me permita manter estático o que se mexe :)
- Um carrinho de compras (de supermercado) na FNAC
- Um Tagheuer (se bem que já me contento com um Boss ;))
- Uma TV -  LCD não LED -  de tamanho considerável (um amigo meu até sabe o modelo certo e tudo:))
- Um Mini Cooper D
- Uma Viagem aos EUA, Austrália ou Nova Zelândia
- As restantes coisas, desde roupa, perfumes, livros, discos rígidos portáteis, filmes, etc, são sobejamente conhecidos nos seus formatos e preferências e não cabem bem nestes delírios pela sua óbvia "normalidade". :)


terça-feira, dezembro 07, 2010



E num instante está lá, ao virar da esquina. Já não é um vulto, uma sombra, uma abstracção que desaparece com o vazio reconfortante do quarto ou a luz do sol que entra pela janela nos primeiros estertores da manhã. Está lá, começa a ter contornos e textura de realidade, e leva a perguntas complicadas. Perguntas feitas em instantes em que tudo está necessariamente recolhido, contido, seguro no controlo possível, se bem que acre.
E tenho medo. Sim, medo por ti, por todos nós. Mesmo sem razão, ele está lá. É um vulto ainda, mas move-se. Racionalizo, racionalizo, mas ele está lá. É meu, mas isso é a única coisa que me liga a ele. A única interacção possível.
Andemos e esperemos que a luz venha e a sombra se desvaneça. Fecho os olhos e vejo-te. Uma e outra e outra vez.
E não sei bem o que fazer, como nunca se sabe exactamente. Ao contrário do que sempre penso, não há uma gaveta ou um arrumo. Existo eu, à espera que me digam como é que se faz isto. E vejo-te. Uma e outra e outra vez. Com os nossos olhos tão parecidos e a vulnerabilidade em que nos espelhamos. Uma e outra vez.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Pode parecer estupido, mas é uma dúvida transcendental. Para mim. Aliás, nestes dias. Aliás, após aquilo que achava vivência suficiente. Ao que parece há uma qualquer cartilha sobre o assunto. Toda a gente se põe a discorrer sobre aquilo que provoca reacções que mais se parecem com inconsciência legitimadora, mas é uma engraçada contradição em termos porque, aparentemente, o primeiro requisito é uma espécie de desproporcionalidade directa entre intensidade e capacidade de pensar.

Ao que parece, o acto de sentir,( que é, aparentemente, mais uma uma recção do que uma acção, diga-se, porque qualquer espécie de controlo desvirtua a coisa) tem regras. Aliás, mais engraçado ainda, tem validações. E assemelham-se a velhos códigos, ou à simples percepção de que o rei vai nu. Afinal, ao que parece, tenho mesmo um vasto desconhecimento sobre o universo do sentir. A mim deve tocar-me alguma coisa intermédia, uma antecâmara, ou usando uma metáfora que tanta gente hoje em dia acarinha, um daqueles tipos dos ídolos que nem é suficientemente cromo para merecer longa humilhação televisionada, nem suficientemente bom para massacrar uma ou outra cover. Estás lá quase, talvez pensem.

Para a ideia de sentimento, recordo-me sempre da metáfora da intuição intelectual. Sentir é algo semelhante à luz de uma lanterna numa sala absolutamente escura, ligada e depois desligada com a maior das velocidades. O que fica é uma percepção meio estranha, quase extracorpórea na sua génese, mas tão ligada a nós como todos os ossos debaixo da pele e carne. A luz traz uma identificação de algo que abana as fundações e leva a mente a procurar pelo menos identificar o que raio foi aquilo que a lanterna iluminou. Em meu modesto ver, essa luz é um pouco de ordem na desarrumação de um quarto caótico, e não só porque está escuro. A claridade súbita de um sentimento ajuda a pensar na forma como a nossas ruínas parcelas em ruínas podem arriscar uma qualquer sustentabilidade. Sentir é afinal um passo mais à frente no acto de viver, porque me reconheço fora de mim mas como se todo o mundo tivesse entrado sem permissão ou aviso. E procuro pensar, porque no supremo instante de vida que possa ter agrada-me saber que tento perpetuar pelo acto de o reviver em ideias na minha cabeça. E como o tal quase cromo, bem canto, mas não alegro. E sigo em frente, com algo entre a brancura de algo refrigerante, ou a calmaria desajustada à cartilha da vivência.

Mas tudo isto são ideias, e como tal, uma espécie de contrasenso em si. O que, em parte, entristece, e por mais do que uma razão.

É que dava um jeito do caraças que as dores desaparecessem, precisamente porque ao serem pensadas, não podiam jamais ser sentidas.

Mas, como digo, não percebo nada disto... acho.

De todos os anos em que o final de ano traz alguns auspícios menos luminosos, este é talvez aquele que mais temor traz. E isto por várias razões. Há toda uma precipitação subjacente a esta altura do ano, em que inúmeras coisas teimam em acontecer, e todas em simultâneo. Uma delas poderá nem sequer ter solução, e quebrar-se assim a ténue e suave haromina calorosa de um tempo que, embora possa ser qualificado como escapismo, para mim é uma lufada de ar fresco, com retornos a tempos antigos de ideias menos tingidas pelo passar de algumas matizes menos felizes.

Por alguma razão estranha, surge-me como uma luz sobre a recordação necessária de pequenas coisas. Pequenos nadas, minusculos fenómenos que jamais passam despercebidos, mesmo perante aqueles para quem o findar do ano não passa de um aumento de neón nas noites que surgem precoces.

Mas este é um ano diferente. E no entanto, algo resiste, embora eu próprio já não saiba muito bem como nem porquê. Só espero que continue a funcionar de forma inconsciente ou automática. Estou farto de pensar.

terça-feira, novembro 30, 2010

A esperança é uma coisa perigosa. Além disso, tem vontade própria e instala-se sempre no pior lugar da sala, divertindo-se a colocar os actores em total desconcentração. Aliada a uma confusão de desejo, na qual já não se tem sequer a noção do que se anda exactamente a fazer, surge e molda tudo a uma lógica probabilística que não passa de tretas incutidas a martelo pelo imenso medo da perda definitiva, e o contraste pela ausência desta. Tudo o que não a signifique surge como um pequeno beiral que detém a queda no precipício onde os dedos se encaixam e suportam os rigores da gravidade que impulsiona todo o corpo para baixo. As dores nos braços são imensas, toda a posição obscenamente desconfortável e vulnerável, e a vertigem da queda é mais que provável. No entanto, aqueles dedos suportam o peso, a queda detém-se e, num ápice, nada mais conta. A surdez selectiva parece quase um truque de magia, como o pó da fada sininho, que projecta numa queda perigosa após a passagem do efeito do mesmo. E aí de nada adiantam os pensamentos felizes.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Esta é a era da auto-avaliação. O instante da prestação de contas, as viagens internas, o atrevimento do auto-conhecimento. Este é a época das perguntas incómodas, da multiplicação de perspectivas, das análises dos amores e dos desamores dissecados. É o período do atrevimento, a lógica da exigência, o medo pelo isolamento dos pensamentos, a bravata dos direitos internos às ameaças de felicidade.

Este é o tempo no qual quem se é tem de prevalecer sobre quem se escapa de si mesmo sem saber porquê. Este é o hiato do sofrimento histriónico, dos gritos à injustiça pela solidão, da assumpção da imperfeição através de um distintivo holístico colado à identidade. Esta é a altura de quem ouve por um honorário, de quem se distancia para poder compreender, da legitimação externa do direito a ser.

Esta talvez seja a inevitabilidade de um círculo de contenções que a vida foi determinando, ou o final da vergonha silente face ao que causava sofrimento por privação. Esta é a fase na qual se clama, se não por quem se é, por quem se quer tentar ser.

Este é o tempo da confusão, do clamor, da chamada de atenção para quem corre o risco desgraçado de mostrar nem que seja algo parecido com uma alma. Estes são os dias da preocupação fundamentada, ou da reconstrução escorada. Este é o tempo em que a racionalidade tenta apanhar os sentimentos, para que estes, quando pintados de luz negra, não destrocem completamente o portador

Este é o tempo das terapias, dos profissionais, das confissões, das sensibilidades, da evidência das parcelas de género oposto na personalidade de cada um, do desejo nem que seja de um pouco de holofote.

Este é a era do eu. Do estou aqui. Do agora também quero falar.

Esta é uma oportunidade para democratizar a real capacidade de ouvir e “empatizar”.

Só espero que não lixemos tudo, como de resto é hábito.

A começar por mim, e pelas coisas que (ainda) não me convencem.

Cabeça de paralelepípedo...




Escrita Paralela.

Sendo que a divulgação da escrita é também em si o seu fundamento, o blog volta à vida como forma de restaurar aquilo que lhe era devido.

Aqui era o local onde depositava aquilo que ia vertendo em textos mais ou menos inconsequentes. Agora segue como um espelho. As palavras estarão espalhadas em dois locais, embora este seja de facto o local onde tudo nasce. Seja ou não uma cidade fantasma.

terça-feira, junho 29, 2010

Este blog tem já vários anos.
Nunca soube bem o seu intuito, mas talvez servisse como uma diário pessoal, em substituição daquele que nunca consegui manter.
No entanto, e embora o vício de escrevinhar esteja cá sempre, é tempo de fazer uma pausa. Uma longa ou curta pausa não sei, mas por ora este é um local que permanecerá em descanso.
Aos que por aqui passaram, agradeço sinceramente pela gentileza em ler alguma coisa e não achar demasiadamente disparatado.
Aos que não gostaram, estas serão boas notícias.
Não digo que as Estações se fecharão porque não é possível. Talvez realocadas. Para outras folhas e suportes.

Muito grato!

See you soon.

quarta-feira, abril 21, 2010

Acho que almoçava no outro dia com os meus pais, quando a TVI passou, na sua habitual qualidade, uma reportagem sobre os efeitos do "pensamento positivo" nas curas, especificamente de doenças mortais e debilitantes. Depois falou uma senhora com ar de hippie anacrónica, a exultar os benefícios do pensar positivo sobre o... debelar de doenças e na "capacidade de curar " que pensar positivo pode ter.
Bem... enfim, sem discorrer sobre o logro que é o manancial profuso de charlatanice roiundo da auto-ajuda, do qual os segredos da menina Byrne é o expoente máximo, a reportagem chocou-me. E chocou-me não pela feliz recuperação ou resiliência das pessoas que escaparam à morte ou a uma vida de incapacidade, mas ao ar de bruxaria de trazer por casa ou filosofia da pacotilha que envolvia tudo o que ali era dito ou referido. Não se referia ali a um conceito mas a uma espécie de metodologia disponível num livro ou numas sessões de conversa new-age a 19,99€...

É um facto que a atitude positiva e combativa da pessoa impedirá a derrocada física precoce perante maleitas, ou poderá ajudar o corpo a encontrar forças para de alguma forma os mecanismos naturais inverterem uma tendência. A tristeza mata, é um facto. Relembremos sempre Vergílio Ferreira, ou o caso de casais de velhotes que morrem com pouquíssimo tempo de intervalo entre si, como se o corpo desligasse ou simplesmente deixasse de pensar em manter-se vivo, por desistência ou cansaço.

Mas uma coisa completamente diferente, e até me parece algo irresponsável, é passar uma espécie de metodologia, de processo, de mézinha que certamente terá resultados em maleitas para as quais a ciência, infelizmente, não arranjou ainda resposta. Parece-me irresponsável perante aqueles que terão medo, por si ou por pessoas queridas, do toque da morte celular, e que no desespero tentarão tudo. Parece-me até algo cruel vender uma espécie de possibilidade, muito parecida com os pensamentos felizes do Peter Pan que faziam voar.
A auto-ajuda é, em muitas medidas, um logro de conveniências e mental coaching, onde as pessoas ouvem uma espécie de doutrina de doze passos, que suposta e milagrosamente lhes trará tudo... ora entre isto e o Prof. Bambo, só me parece diferir o pagamento a prestações que o último permite. E há teorias para tudo. Poder da mente, poder do pensamento positivo, poder do desejo, etc, etc etc... É querer e já está... ( será que no Rwanda, Iraque, Coreia do Norte, IPO de Lisboa não se vende a cartilha de Rondha Byrne e quejandos... que pouca sorte...)

Olhando para aquelas pessoas que, por desígnios da natureza e sim, talvez algo de força de vontade, conseguiram escapar à cegadeira e pensando nas muitas outras que certamente não terão desejado menos que estas mas foram vencidas pelo inexorável poder da natureza, concluo que nada tenho contra o optimismo, o pensamento positivo, a vontade de viver, a "espevitadice". Mas tenho todas as reservas contra a venda de tais "métodos" ou "filosofias" em enlatados, a qualquer coisa e 99 cts, contra a afirmação de eficácia de algo que perante o desespero e o medo dos muitos que infelizmente não escaparão, surgirá como uma possibilidade que na sua esmagadora maioria não passará de uma esperança vã assente em premissas falsas.

Por tudo isto considerei a reportagem da TVI uma irresponsabilidade, e em certa medida, uma crueldade para aqueles que compreensivelmente lançarão meio de tudo para salvar a sua vida, e que ali provavelmente encontrarão meia dúzia de lugares comuns sobre bom humor diário, mascarados de filosofia, ou método, ou pior, ciência. Essas pessoas mereciam e merecem mais respeito, acho eu...


terça-feira, abril 20, 2010

Aproveito uma das faixas que ouvi ultimamente e das que mais gostei para adereçar uma questão acerca da qual ainda no outro dia se dissertava em conversa engraçada. O mote, no entanto, não é assim tão "giro", à falta de melhor termo.
Olhando para as pessoas em grupo, ou mesmo individualmente, na sua esmagadora maioria, há um défice mais preocupante de capacidade de ouvir do que o verificado no espaço Europeu. As pessoas que me rodeiam, e em especial nas mulheres em grupo, têm uma capacidade mínima para ouvir. O intercalar do discurso parece quase um talento para além da capacidade subjacente à simples convivência.
Quando em conversa, é quase um concurso para ver quem fala mais alto, quem se sobrepõe aos outros. Numa conversa deve haver a vez a todos, aliás, parece-me um bocado monocórdico quando a coisa é unilateral, mas a verdade é que se pararem para pensar um bocadito e olharem para a maioria das pessoas que falem connosco, a incapacidade para ouvir, na justa medida do interesse bilateral que deve pautar uma conversa, é, a espaços, confragedora.
Conheço pessoas que, numa mesa, simplesmente não dão a palavra a ninguém, e o mais curioso, é que nem se apercebem que o silêncio dos outros é, em muitos casos, em directa proporção ao alarde que o seu discurso ininterrupto provoca. São pessoas que, calculo devido às mais variadas razões, parecem crer no observador em silêncio, na ausência de resposta ou dialéctica.
Em muitos, casos, não sei exactamente o que pensar sobre o assunto. Nem sequer sei bem enquadrar as motivações. Para mim sempre me pareceu natural que se converso com alguém, estou interessado em ouvir o que esse alguém tem para dizer, na mesma medida da minha vontade em transmitir seja o que for. Monólogos são para o teatro, e julgo que histórias e opiniões vivem da troca com outras histórias e opiniões. Parece-me sempre estranho que alguém fale e fale e fale, e simplesmente não se incomode com o silêncio que ali está, com a ideia ou frase que não surge, com a ausência da troca. Será uma questão de holofote? Para alguns, creio que sim, mas o que mais me preocupa não são as motivações para quem o faz, mas o que poderá estar (ausente) na cabeça de alguém que acha normal simplesmente dominar uma conversa e nem sequer reparar na ausência da intervenção daquele que deveria ser o seu interlocutor. É, julgo eu, uma falta de atenção relativamente ao outro, e em alguns casos, roça a falta de educação básica. É simplesmente não reparar, o que é uma coisa estranha e que calculo que acabe por magoar ou tornar as conversas com essas pessoas uma coisa frustrante. Talvez por ser algo incompreensível, e porque muitas vezes algumas pessoas talvez até não façam por mal.
Mas não tenho a mínima dúvida que há uma escassez gritante de capacidade para ouvir. Então para a chamada escuta activa, é melhor nem falar. Um bom ouvinte não é uma face impávida e silenciosa, que simplesmnte aguarda que o outro despeje. Parece-me que está tudo na alternância, e no interesse subjacente a essa alternância, que explica a diferença entre um conferencista e alguém que troca ideias, sentimentos, partes de si através desse grande veículo que é a conversa por palavras ditas.
Uma conversa é tudo mesmo um conceito unívoco, unilateral ou em relação de domínio. É chegar até alguém, trocar histórias, e aprender e viver mais um pouco. E isso raramente se faz sozinho. Acho eu...


sexta-feira, abril 09, 2010

A liberdade pessoal tem restrições. Limites necessários porque a malta afinal tem de comer, entre outras coisas. Mas a ideia preferível para mim, talvez seja precisamente o reconhecimento dessa liberdade como um farol pessoal, ou uma derivação do númeno kantiano. A coisa em si, a liberdade pessoal em si como guia compo...rtamental, como lógica que assiste às escolhas e opções, ainda que saibamos ser praticamente impossível a aplicação do conceito de forma constante. Se o conseguíssemos fazer, a realização do conceito acabaria por torná-lo inexistente, na velha consciência da verificação de existência pelo seu exacto contrário.
E realmente, em certa medida, nenhum de nós está totalmente livre. E em parte não é algo triste ou negativo. Está associada também aos nossos afectos, nas responsabilidades associadas aos objectivos ou protecção daquilo que consideramos progressão de vida. Por vezes a liberdade pessoal pode sofrer constrições devidas à forma necessária e simples da vida em sociedade. Tenho o meu feitio, e sabe-se que o defendo por vezes além do desculpável (ou não), mas o meu feitio não pode simplesmente levar tudo adiante (sabendo-se que já leva umas quantas coisas).

Lorenz falava, a propósito dos animais, dos mecanismos de contenção que impediam que se estraçalhassem todos uns aos outros na sua agressividade natural em busca de protecção. Uma loba morde o focinho de um macho alfa, e fá-lo repetidamente, ainda que este pudesse praticamente cortá-la ao meio com uma única dentada. O macho alfa limita-se a dar-lhe umas patadas ou tentar desviar-se, enfadado. Qualquer outro animalito ter-se-ia transformado em lanche. Mas o lobo não se descaracteriza, ao contrário do que se possa pensar. Simplesmente preserva algo que julga ser, no meio de uma mente animal e primitiva, uma espécie de bem maior em termos de sobrevivência, mas o fisiologista não descarta uma qualquer lógica afectiva associada aos muitos mistérios desse tipo de comportamento.

No fundo não somos absolutamente livres porque somos gregários, porque gostamos de uns, detestamos outros, sentimos compaixão por mais alguns e temos de agradar a uns (poucos, desejavelmente). A música do Solomon Burke, já antiga, fala de realidades complicadas, produto da ausência forçada de liberdade, mas o refrão salienta a perfeita noção de uma coisa. Ninguém é livre de si mesmo. O maior condicionamento é interno e surge na percepção e compreensão das coisas. Na forma como as aceitamos, como as suportamos, como as queremos. A ausência de liberdade não está só nas ordens do chefe, ou nos sentidos de trânsito obrigatório, ou nos desmandos do BCE. Está, em meu ver, nas opções que se podem tomar face à ideia que temos de nós, e não o fazemos. No que podemos escolher e deixamos impassível. No que defendemos numa conversa, numa forma de estar, numa opção quotidiana e deixamos ao grupo para decidir.

A liberdade pessoal, nesse aspecto, custa. Custa porque implica a defesa de realidades que, a bem dizer, são ocasionalmente muito chatas. Isolam. Diferenciam. Mas normalmente os factos têm o caraças do condão de mostrar que mais cedo ou mais tarde, o sentido que se sabia internamente existir, acaba por chegar e traz uma factura do tamanho de um rolo de papel industrial. E aí surgem os limites. Acaba-se a acomodação, os papéis e guiões, a lógica do "pouco-barulho" por muito.
Aí a liberdade é necessária, e apenas tardia nos seus efeitos. Sabemos rapidamente, penso eu, que é apenas um eco anacrónico de realidades concretas. É o fisco da coerência interna, associada à inspecção tributária da vontade real e honesta.
E percebe-se, calculo, que entre erros e auto-omissões, a liberdade pessoal é inviolável, sob pena de se viver numa paz podre que embora a maioria aceite como modus operandi social, é a septicemia da identidade própria. E aí, sofremos mutações perante quem nos reconheceu uma forma singular, mas especialmente, perante a ideia que tinhamos de nós. Há coisas das quais, simplesmente, não se pode, ou deve-se o menos possível, abdicar.


terça-feira, abril 06, 2010

A campanha publicitária do BES, na rádio, é inadvertida a tristemente acertada. Eu ainda gosto de pensar que foi elaborada por alguém com um senso de humor e ironia bem apurados, que sob a capa de uma graça manda uma boca engraçada ao modo de vida de tantos, mas talvez seja apenas coincidência.

"É mais vantajoso", diz o protagonista da publicidade. E refere-se a isto como o móbil para (brr...) casar ou outras coisas relativas ao percurso social aceitável.
A verdade é que este é de facto um móbil dos dias de hoje.
Entre o "está na hora", ou "reúne condições para", ou "é confortável", a verdade é que o móbil para decisões que implicam o seguimento da velha cartilha social dos passos tendentes à "família" está instalado. A quantidade de gente infeliz ou adormecida que se vê, que repetem mecanicamente os dias como se houvessem entrado numa nova pré-programação da sua "finalidade" social, parece passar invisível ao um juízo crítico mais ou menos comum. Parece não importar, ou não existir.

Depois sobe em flecha o recurso ao apoio à saúde mental, às soluções mais ou menos esotéricas, e normalmente em segredo, porque a imagem da normalidade dos processos é sagrada. Com esse recurso, sobem também de forma vertiginosa os atalhos. As portas de trás, os esquemas, as formas de procurar algo que torne muitos dos percursos minimamente suportáveis quando o móbil não é o interesse mas o conforto. Claro que o discurso público é de equilíbrio, maturidade e plena consciência do "papel" a desempenhar. Mas na realidade, acontecem coisas que colocam esses discursos em causa, por vezes de formas tão elaboradas e auto-desculpantes que quase parecem convincentes.

O problema, em meu ver, não são essas realidades. Ninguém é perfeito, e ser humano é ter uma tendência para colocar alguma pata na poça. Não somos lineares e há séculos de estudo da mente para comprovar isso mesmo. Os desejos, os quereres, a paz ou senso de propósito são coisas que dificilmente seguem uma lógica linear ou escorreita. Todos temos lados mais escuros, mais ou menos fraquezas e dúvidas. Não há santos. Embora haja quem goste muito de passar essa ideia, como defensores da "família" tradicional, seja lá isso o que for. (Claro que depois um gajo levanta o bordo do tapete e enfim...) Pregar moralidade estanque é sempre má ideia, parece-me. São quase sempre tiros no pé.
Mas uns de facto tentam mais que outros. Uns são mais apegados à verdade, à tentativa da clareza perante si mesmos, ao respeito pelos outros na medida das suas singularidades e lados lunares. Também fazem merda. Mas não apregoam curriculos exemplares à audiência. Não vestem túnicas brancas como convertidos.
Outros não. Para outros, é mais vantajoso. Cómodo. É "o esperado". O "normal". O que há a fazer. Chamam a isso crescer, e deixam as brincadeiras infantis para o mundo dos segredos mais ou menos escabrosos. Mas o drama social é como a realidade dos jornais desportivos. Sem polémica ou aparente chatice, não se vendem jornais...
Até que estoira. E aí as verdadeiras cores pintam um quadro que de facto não era bonito, por muito que parecesse cómodo, ou socialmente adequado. Exactamente como a verdadeira face de muitos dos créditos bancários. A factura é muitas vezes demasiado cara.


Mas como confesso indaptado face ao percurso social sufragado, reputado como pueril, talvez me falte ver a luz...ou talvez não... :) Ou talvez eu tenha apenas a noção que fazer o melhor que se pode não é ser irrepreensível, mas ter a perspectiva de tentar fazer o melhor que se pode. Não pregar, evangelizar, e sobretudo, não ter como móbil uma espécie de moralidade ou aceitação social por um papel a desempenhar enquanto, nas palavras da minha querida mãe, "arranjados". Porque à semelhança da religião, parece uma espécie de salvamento, de rito de passagem, algo profundamente condescendente e pressupondo que até nas coisas mais fundamentais das vidas de cada um, há que pensar que tudo é sacrifício/trabalho. Pois, não me parece... o que "fica bem" ou é cómodo, parecem-me fracas fundamentações para algo tão fundamental como tentar viver a vida o melhor que se possa e fazer algo também de bom pelos outros no caminho, sempre que for possível. E por aí passa o facto de não as chamar à colação porque "é mais vantajoso", ou porque a modorra do conforto se torna aparentemente melhor e mais respeitável que respeitar os outros ao respeitarmo-nos a nós próprios. E tendo precisamente a noção de que podemos a espaços falhar, porque é essa parte da natureza humana.


Percebe-se o porquê do silêncio do "nosso" cardeal patriarca (nosso é forma de dizer porque esse senhor em nada me representa) relativamente aos escândalos da Igreja Católica, e da cumplicidade do Vaticano relativamente aos crimes praticados pelos seus acólitos. Percebe-se a falta de vergonha e mínima honestidade intelectual quando há uma pregação idiota relativamente a uma moral já bacoca e segregacionista, quando a imoralidade é vista com sobranceria no próprio quintal de Ratzinger.

As pessoas que estiveram na Praça de São Pedro a ouvir o papa (que entre outras coisas aceita a continuidade do serviço de molestadores de crianças) aceitam por inerência esta atitude. Ao reconhecer autoridade ao Vaticano, estas pessoas simplesmentes aceitam as suas atitudes, a sua forma de agir, e a dualidade de critérios de uma organização que, para além de demonizar coisas essenciais como a saúde pública sexual ou o planeamento familiar, mostra a verdadeira face. Uma face de poder, de despostismo, e a velha ideia do faz o que te digo, não faças o que eu faço.

Até quando é que o Vaticano vai poder manter esta vergonha impune? Até quando é que uma organização tentacular como esta passará incólume face a actos que teriam já causado furor judicial numa qualquer outra organização que ocultasse e realocasse criminosos?

A atitude do cardeal patriarca, como de todos quantos se reuniram em apoio ao papa na sua cumplicidade com estes crimes é mais do repugnante, é também um insulto para as pessoas que sofreram às mãos dos moralistas da pacotilha que levaram a sua lavagem cerebral a crianças, e não só para as doutrinarem...
Uma vergonha instalada, aos olhos de todos.
Que mundo triste este...


domingo, abril 04, 2010


Este moço realmente tem uma pontaria para a anti-bullshitagem. Palmas, palmas!
Nesta linha, pensem na L-Word, Sexo e a Cidade, e vejam lá se o novo feminismo não é apenas uma espécie de machismo simétrico, ou chauvinismo noutro tipo de portador.

quarta-feira, março 31, 2010

Se há coisa que me faz confusão, e sempre me fez, é aquela ideia que sinceramente, gets very very old, na qual se defende a dicotomia entre racionalizar e sentir. Além de ser um profundo disparate, porque qualquer intuição dita pessoal, ainda que ligada ao sentir é produzida no cérebro, lança uma desconfiança injusta sobre a capacidade de pensar sobre aquilo que se sente, como se racionalizar desvirtuasse o sentir.

Não há traição nenhuma ao sentir quando se consegue pensar sobre o assunto. Em muitos casos, sinceramente, julgo que talvez tentemos desresponsabilizarmo-nos dos efeitos de qualquer interesse, entregando a totalidade das consequências a um ser imaterial feito de coisas incontroláveis. Sim, dá um jeito do caraças. É um bocado como aqueles tipos que qualificam a merda que fazem coma intervenção do diabo. Enfim, adiante.

A verdade é que pensar sobre as coisas não diminui a sua intensidade ou valor. Não retira qualquer aura sacra ao sentir só porque a malta consegue produzir um pensamento e a espaços evitar uma verdadeira avalanche de trampa pelo simples facto de ponderar minimamente as realidades. É uma suprema arrogância considerar que o sentimento é uma qualquer espécie de força imparável, impassível de ser questionado só porque tem essa característica de mito inescrutável nos seus motivos e inquestionável nas suas motivações. E pior ainda é considerar que o pensar sobre o que se sente é próprio de quem não sente efectivamente, o que além de arrogante, é uma profunda injustiça. A verdade é que tudo é simbiótico, tudo se entrelaça numa interdependência conceptual, onde o que é determinável e o que é "mágico" simplesmente não se excluem.

Os ditos sentimentos "tout-court", sem qualquer espécie de contributo da luz pensante parece-me apenas uma aleatoriedade, a qual sinceramente reduz a pessoa em causa. Se de facto o que interessa é sentir, não importando minimamente quem esteja do lado de lá, (porque afinal muitos pensam que definir, identificar e qualificar são produtos da razão, coisa fria e assassina do sentir - vade retro!), então o próprio valor da pessoa é absolutamente aleatório e, por exemplo, ser boa pessoa, é um detalhe despiciendo. Para mim, sinceramente, chatear-me-ia solenemente que alguém gostasse de mim, seja em que registo for, "porque sim". Porque afinal de contas, as minhas características enquanto ser humano não importam, desde que num plano inexplicável simplesmente resultem. Parece-me uma coisa muito próxima do criacionismo emocional, e como tal, digo eu, vade retro! Chega a ser ofensiva a ideia de quem alguém olhe para mim como nada mais que um veículo de algo que afinal se constitui apenas como a forma que a pessoa tem de me observar, independentemente de qualquer característica que eu possa ter. E confesso, sem julgar obviamente, que me faz confusão que alguém que alguém ache reconfortante que os amigos, amantes, etc etc gostem deles simplesmente "porque sim".
A racionalidade não retira qualquer pedaço
ou dignidade ao sentir. Ao mesclarem-se, dão, em meu modesto ver, a medida certa daquilo que são os laços, independentes do seu formato ou vivência. Porque pensar sobre o que se sente é, afinal, verificar da sua existência, estimar as géneses dos afectos, e especular sobre as origens das empatias, admitindo desde já que em parte, algumas delas são parcialmente inexplicáveis. Mas achar que o aleatório prevalece, com qualquer espécie de dignidade, sobre o parcialmente racionalizável, é retirar conclusões acerca da verdade subjacente ao que é sentir que são, no mínimo limitativas.

A emoção existe, pode fazer-nos até escorregar, fazer asneiras, etc. É a tal parte que comanda impulsos e quejandos. Mas podemos pensar sobre eles, são escolhas, mesmo que condicionadas, e a reflexão no aftermath pode ser afinal a maior das homenagens que possamos prestar ao que é sentir alguma coisa por alguém.
Porque pensarmos sobre a essência dos humanos que escolhemos ter por perto, é maior homenagem que lhes possamos fazer, ao mantê-los vivos e activos na parte de nós que por vezes nem a dormir desliga. Portanto, a afeição não é mais verdadeira só porque é cega. Aliás, em meu ver, é justamente o contrário. Se não reconhecemos minimamente os contornos da humanidade singular daqueles de quem gostamos, estamos indirectamente a dizer que o sentimento é algo que nada tem a ver com eles, e que estão lá por acidente. E se isso é gostar de alguém... Enfim...


terça-feira, março 30, 2010

Olhar para as coisas com olhos de ver não é fácil. Para ninguém. Nunca.
Ver os exactos contornos com tantas coisas a passar à frente, ao bom estilo do trânsito na India ou Vietname, é uma tarefa complicada. Há sempre tendências, condicionantes, é tudo complicado pá, sabes, isto não é exactamente fácil e tal. Repito, acontece a todos.

Mas há igualmente uma lógica que assiste a este tipo de situações. E essa lógica assenta numa coisa muitíssimo simples. Repetição. Empirismo. Simples constatação de facto. Olhar e ver a coisa bem delineada. Se há coisa que não dá para escamotear é a percepção. Aquele instante em que vemos. Não queríamos ver, maldita a hora em que olhámos, em que a ignorância vou parar ao espaço, mas merda, já vimos, e a percepção não se evita. O esquecimento leva tempo, e é durante esse tempo que as conclusões se avolumam e tudo parece feito de um peso terrível. Porque não era como queríamos, porque nao resultou na medida dos nossos esforços, porque é injusto, e por aí fora. E o mais complicado é aceitar aquilo que efectivamente somos capazes de fazer uns aos outros com a mais arrepiante das calmas.
Quem nunca foi cruel ou egoísta que atire a primeira pedra. Quem não puxou a brasa à sua sardinha quando definitivamente não era a sua vez de o fazer, que atire a segunda. Mas esses são momentos. Dificilmente se qualifica no terreno do calculismo, daquilo que é auto-complacente. Dificilmente se pode entender quando a percepção forma um conceito, por mais doloroso que ele seja. E o problema não é fazer "a" ou "b". Que diabo, que as pessoas façam o que lhes apetece, pelas motivações que lhes assistam. Mas como em qualquer jogo, há que ter as regras bem presentes, e isso deriva da percepção. Deriva da interpretação pelo menos algo objectiva, da correlação conceptual necessária, porque um dado não é um obelisco, e como tal, não o podemos rolar para fazer andar as peças do Monopólio.

Recordando alguns conceitos filosóficos básicos da minha formação enquanto pessoa, surge-me sempre a figura da intuição intelectual, que a minha professora de liceu tão bem definia como ligar uma lanterna num quarto absolutamente escuro durante dois segundos. E que fica na memória não é o detalhe, a minúcia, mas aquilo que, de tão evidente que é, nem sequer é passível de expulsão pela memória, a não ser quando o tempo o tornar insignificante. E interpretar o evidente como a aparência de algo fugidio e ilusoriamente complexo é uma semente de dor, de inadequação previsível, de salvação pessoal a prazo.
Acho que não vale a pena. A queda posterior é muito mais danosa.
I shit you not...


quarta-feira, março 24, 2010

O problema das memórias é também a sua virtude.
Mas é verdade que tem problemas. Questões subjacentes à forma como lidamos com a nossa forma de vier, com as aprendizagens que como qualquer dinâmica, têm altos e baixos. E é engraçado verificar como se posiciona a nossa mente, e como ela escolhe qual o registo a manter. A memória é uma perpetuação da última forma de escolha que fazemos perante um conceito. E é, em parte, involuntária, porque quando fechamos os olhos, é sempre esse reflexo que retorna, ainda que a racionalidade nos obrigue, a espaços, a olhar para todo o panorama e a fazer equilíbrios.
Acho que é uma coisa boa sermos capazes de os fazer. É bom sentir que a pressão instintiva da memória não nos força a negatividades quase automatizadas. Que há uma espécie de deferência analítica, a qual permite ver todos os lados de algo ou alguém que, por ser complexo, nunca é em si só uma história ou tendência. Mas reconheço que nem sempre é possível, porque nem todos são capazes, (e ninguém diz que o tenham de ser), de perspectivar.
Há, no entanto, uma escolha relativamente às impressões de memórias análogas nos seus estragos, mas muito diferentes nas suas interpretações. Em alguns casos, a terraplanagem contém ou segura uma dignidade de "feitio" ou "característica". Noutros casos, no such luck. E no fundo, como em tudo, é um juízo afectivo, e em nome do mesmo, surgem as escolhas, mais volitivas ou de reflexo incondicionado, mas sempre numa opção.
E é por isso que a memória tem problemas nas suas virtudes. Porque no reflexo, no imediatismo das imagens e sensações que traz, mantém-se toda uma caracterização de um juízo afectivo, que como se sabe, em alguns casos, tem dificuldades em desenhar todas as voltas de cada contorno.
É a forma mais eficaz de mágoa que se guarda, e muitas vezes, traduz-se apenas num calmo e prolongado juízo de tristeza. Abana-se a cabeça em gesto de consternação, não pelo efeito, mas pelo contraste entre a aceitação contemporânea em comparação com as imaginações de outrora.
Mais do que um direito, é uma inevitabilidade.
Mas ainda assim, é apenas uma perspectiva.



quarta-feira, março 17, 2010

"Just how well do you know me?
I'm countless calamities
A malleable creature that speaks with a laudanum tongue
And I promise you deeply
The righteous will triumph over all adversity
Sometimes the melodies come
Leaving trails like stars as they fall
Sometimes I have to hold on
Cause I'm overwhelmed by this all..."


Ia sair post, mas fica para mais tarde, ... :):)

sexta-feira, março 12, 2010


Por vezes temos sorte.
Temos a sorte de poder ver coisas únicas, de experienciar outras que nos fazem sentir não pequenos, mas felizes perante a gradiosidade de algo que não precisa da nossa opinião para rigorosamente nada, mas ao qual o passar do tempo deu um formato que envergonha as palavras e faz cair o queixo.
Por cima da Capadócia o tempo parece outro, as cores e os formatos são irreais e a beleza arrasadora. Suspensos no ar, a voar lentamente, o vale de Gorem, as chaminés das fadas e outros abrem-se numa multiplidade de filigranas rochosas que forçam o silêncio.
E nestas alturas não posso senão ser grato. Pelo que pude ver, o quão melhor isso me tenha tornado pelo feliz que fui ao poder ver, sentir e perceber tudo o que se passava à minha volta, e sobretudo a 1.700 m abaixo de mim.
Além disso, tudo brindado pela companhia de algumas pessoas que tornaram tudo ainda melhor.
Por vezes tenho sorte.
Mesmo.

segunda-feira, março 01, 2010

"Pensou, enquanto embrulhava num pano suave os dois objectos que ela lhe dera, que a própria natureza não celebrava ou condenava o facto. O dia da sua morte amanhecera sem extremos, caracterizado por um ar tépido e uma luz branda, o que lhe pareceu um conceito abastardado entre paz e injustiça face à natureza aparentemente transitória das coisas. Gabriel sabia que condená-lo era inútil. O protesto que quase lhe assomava aos lábios era justo, mas pueril, como seria reclamar do vento ou do tamanho das montanhas quando o sol já vai baixo. A Primavera amena trazia a homenagem da normalidade, a necessidade de negação do desespero do fim, a terrível e ineficaz lógica da renovação face à tristeza real. E ainda havia algo mais a fazer, para que algo se aproximasse do que ele reconhecia como sentido. Não porque efectivamente o fosse, mas porque precisava dele. E na sua necessidade estava encontrada a própria justificação, embora essa aceitação só viesse a surgir muito mais tarde."
Últimos parágrafos...
At last...
(*)



sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Será talvez uma conclusão agridoce, ou, em meu ver, até algo lógica.
A invisibilidade é perfeitamente possível. Além disso, é fácil.
Claro que em muitas coisas, aquilo que nos vai acontecendo, e permanece no desconhecimento de outros, goza da nossa cumplicidade necessária. Mas a capacidade de observação é isso mesmo. Nã...o é saber, mas franzir a sobrancelha e questionar. Ter alguma noção que algo não está exactamente bem, ou normal.

Eu normalmente isento os outros dessa "responsabilidade". Sou, por convicção, se bem que nem sempre explicável até para mim, algo de ostra. Tendo a ter uma relação algo esquizofrénica com a protecção necessária dos meus pontos vulneráveis e um desejo estúpido de que alguém observe e perceba qual o impacto, numa espécie de candura empática que acalma o espírito e traz um tipo de reconhecimento sentido. Bem sei, não faz sentido nenhum, mas é a melhor definição que consigo dar. Guilty as charged...

No entanto, não consigo senão reparar o quão facilmente com que se logra essa invisibilidade, e como isso gera, em tantos casos, a retroalimentação da vontade para que assim continue. Que tantas das coisas que são preciosas, ou que vulnerabilizam porque acontecem, ficam tão bem guardadas com o mínimo de esforço. E que o medo tem afinal tantas formas.


quinta-feira, fevereiro 25, 2010





É uma história já antiga e recorrente.
Os nosso ícones, as paixões que motivam os interesses, olhares, perspectivação da natureza das coisas, podem ser alvo de observação mais atenta. E todos sabemos até que ponto o receio do "ilusionário" pode não resistir a uma observação mais atenta.
Mas e se, mesmo perante a capacida de de recortar todas as formas, (e perceber que algumas podem ser cortantes, mais por falta de habilidade do executante que pela natureza do material,) algumas são tão bem feitas que algum o gosto expresso torna possível pelo menos tentar retirar sempre o melhor de cada coisa complexa?
Certamente que se volta a uivar à lua, por mais simplificada pareça a intenção de lhe explicar o brilho :)
Acho eu...

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Nos tempos que correm, como em todo o manancial de relações humanas atacadas de todos os lados por constrangimentos que vão desde o pragmatismo profissional ao emergir do individualismo urbano, passando pelo afirmar da falsidade de certos tipos de tolerância e o acirrar de diferenças apoiado numa lógica de comodismo ao nível das pequenas coisas, a amizade sofre pressões tremendas, e como um bom metamorfo que é, tenta adaptar-se ao que para ela encontram. É como água, que encontra qualquer superfície e, calculo eu perdoando-me a ignorância os engenheiros que me lêm, funciona consoante as condicionantes própria da mecânica dos fluídos.
A verdade é que existe um conjunto de regras, de ideias mais ou menos generalizadas relativamente ao conceito da relação entre as pessoas, seja ela qual for, assentes num paradigma que se desintegra à medida que a morfologia social se transmuta. Claro que, no meu modesto ver, existem determinados conceitos que são impassíveis de relativizar, e que assentam na expressão material e sensível da empatia que gera, entre outras coisas, confiança e acompanhamento. No fundo, sem colocar em causa que todos os constrangimentos normais de uma vida dita "quotidiana" pode obrigar a adaptações, a verdade é que as lógicas de exigência fazem com que muitas pessoas aceitem uma tolerância em conceito que se dificilmente se aproveita materialmente.
Não está nunca posto em causa que as pessoas tendam a ser exigentes. Afinal, o que há a partilhar de real é precioso, e não pode andar por aí aos saltos, como uma espécie de folheto publicitário. Mas a verdade é que a exigência, em momento algum, pode significar sectarismo ou sonegação das qualidades de alguém, na medida em que as dádivas parecem repetições e não apenas um desejo de universalização simplesmente porque se gosta de pessoas. A ciumeira não é apanágio do amor, e nem este apresenta a única das suas vertentes mais intensas e complexas. Há, sim, uma espécie de código não escrito de raridade dos gestos, e esses acabam por, na maior parte das vezes, sê-lo, mas parece-me a mim estranho que se veja com desconfiança certos actos só porque eles afinal até beneficiam pessoas que à partida não estão dentro do círculo mais restrito da fogueira.
Ninguém tem de facto muitos amigos. É a própria natureza das coisas, porque se a tolerância é, de certo modo, até democrática na sua utilização, a empatia transformada em afecto é coisa rara por natureza, e a comunicação daí resultante, um dialecto quase completamente original. Mas o reconhecimento desta natureza não valida qualquer carácter sagrado, como se a amizade fosse uma espécie de segredo bichanado ao ouvido numa pausa de deixa em teatro. Os laços podem ser raros pela natureza das coisas e das pessoas, mas os gestos para com os outros não o deverão ser. Eu posso ter um gesto para alguém de quem goste, e que não seja exactamente próximo, pelo simples gosto de proporcionar algo a outra pessoa que tem alguma coisa que eu goste. Pode ser uma estupidez do caraças, mas o facto de gostar que as pessoas estejam bem, ou que um simples algo lhes alegre qualquer momento é um impulso. Embora saiba que é impossível, querer estar bem com o máximo de pessoas que possa, no estrito respeito e potenciar da sua individualidade não me parece assim uma espécie de vulgarização pessoal, mas saber que, apesar das gradações serem inevitáveis, não há uma sonegação da capacidade de sentir algo de positivo perante os outros, mesmo quando eles não são exactamente unha e carne.
As constatações que hoje em dia se fazem das chamadas amizades especializadas ocorrem por uma simples razão, ou seja, a incapacidade que a esmagadora maioria das pessoas tem em querer dar uma simples goela ao outro. A incapacidade que as pessoas têm de ouvir, de querer saber, e ao invés disso, atropelar o discurso dos outros por um desejo sôfrego de brilhar ou uma falsa consciência de experiência educadora e não como deveria ser, educativa. Raramente há uma perspectiva de obviar a alternância de registos, na lógica do agora falo eu, agora falas tu e a malta entende-se. Raramente há a capacidade ou vontade de ir ao quintal do outro e não ver apenas as flores murchas e as plantas negligenciadas, mas prestar atenção primeiro ao relvado impecável e ao cão saudável que por acaso ali anda sem o estragar.
A noção de generosidade pela natureza alheia é uma falácia, porque a corrente de unformização e a tremenda falta de curiosidade que assola tanta gente faz com que se criem barreiras de protecção, feudos, verdades absolutas onde nada entra, nada sai, e pouco cresce.
As amizades devem ser democráticas, devem abandonar qualquer espécie de julgamento pré-determinado, mas apenas uma capacidade de dar a verdade e fazer vê-la quando necessário. As amizades sobrevivem daquilo que se entrega, do que se revela, do que são degraus até aos sucessivos panteões de que somos feitos, como uma conquista quase inconsciente, feita do afecto pelos recortes de empatia com que aquela pessoa se destaca para nós. Pegando em Wilson e House, o primeiro é a definição do amigo, e a narrativa tem conseguido, de alguma forma, mostrar que não se trata de um idiota acrítico, mas alguém que, quando foi necessário, deixou o amigo de toda a vida trancado num hospício. Wilson é a versão optimizada e perfeita de Sancho Pança, Samwise Gamgee, Sexta-Feira, Watson, Ellis Boyd Redding, e todas aquelas coisas que, em certa medida estão, em muitos casos, repartidas por várias pessoas, e muito raramente concentradas numa ou duas ou três.
Se é certo que as amizades sobrevivem na presença, não é menos verdade que as exigências próprias dos recortes de personalidade de cada um devem ser administrados com parcimónia, e não uma espécie de tabela de requisitos para entrar no clube de golfe. Até porque ninguém os cumpre, e o afecto faz-nos passar por cima de coisas que, enfim, são pouco menos que graves. É, em meu ver, esse o carácter caótico da amizade, a capacidade de oscilar emocionalmente perante toda a perspectiva de uma pessoa, e ainda assim, sublimar o que de positivo emerge e deixar que isso conquiste.
É sempre possível? Claro que não. Os ventos batem e a malta tende a segurar a represa até ao limite, mas em algum momento, demasiada pressão gera derrocada. Mas que não há formatos para a amizade, e que os circuitos ditos (demasiado) fechados geram apenas uma espécie de crescendo de exigência, é também uma ideia a considerar.
As amizades, como veículo fundamental da vida gregária e sobrevivênvia mental e emocional, devem ser sempre equacionadas na medida da generosidade, da gradação do conhecimento e dádiva, mas nunca como uma espécie de motivo para "deixar o mundo lá fora", embora, e reconheço, que em muitos casos, não temos outra alternativa. As formas de a procurar não têm cartilhas nem formatos adequados e aprovados com certificado de qualidade, especialmente nos dias de hoje. No fundo, a forma como estendemos a mão é universal, seja ela, num primeiro momento, através da carne, de letras, sinais de fumo ou danças cossacas. Interessa é como se possa chegar a quem, por algum motivo, faça do dia algo melhor.
E acima de tudo, devemos sempre pensar se gostamos dos outros realmente pelo que eles são, ou pela capacidade que temos de perceber o quão melhor e mais compensador é o seu lado solar, mesmo que seja dado a alguns eclipses. As amizades devem ser um abraço siamês, um acolhimento que até surge antes que nos apercebamos dele, seja de que forma for, desde que seja possível perceber que alguém vive ali, e além de nos acrescentar algo, cria a vontade de dar. Uma espécie de possibilidade concretizada por qualquer meio, apesar de nós mesmos. Sermos mais porque há outros.


Os rancores são o ranço da afectividade. São sempre demasiadamente longos e inúteis. E se é certo que em muitos casos devemos apenas deixar as pessoas com a manutenção das suas opções quando estas se extremam e as tornam autistas, julgo que, e present company included, um juízo auto-analítico ao requisitário interno de tolerância, aceitação e afectividade não faz mal a ninguém.

E, claro está, o desinteresse não interessa mesmo a ninguém.


quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Manuel, bring the bags!!!!!


«“Não sei quando, nem como, mas vais acabar por me odiar. O que é uma pena, mas é sempre assim. Vais acabar a odiar-me. E talvez seja a tua sorte.”

Cor de laranja, cores esvoaçantes, toques do corpo que teimava em fugir a cada instante de presença, jogo de ilusões. Sorriso ausente, noites em claro. Escuro, frio, trilho e pistas. A voz a meio tempo, a percepção de um pé de cada lado da porta. Sorrisos impiedosos, a pele inclemente. A visão, tão vívida. Tão real.

Miguel não dormia há muito, ninguém se aproximava das árvores, mas as luzes intermitentes teimavam. Na memória havia de tudo. Ao contrário do que ele podia pensar, até o ódio preservava. Apesar de tudo.

“E talvez seja a tua sorte…”

O sono que não vinha era sempre invernal e alheio às temperaturas da memória. Miguel estava definitivamente paralisado. Temia-o, mesmo em meio às cores e toda a espécie de justificações causadas pelo sabor acre de todas as espécies de ausência.»


Almost...

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

"Marcou cerca de cinquenta números de telefone, recolhendo apenas evasivas, pessoas que não queriam comprar nada e alguns desconfiados que se recusavam terminantemente a falar com desconhecidos

Gabriel começou novamente a desanimar. O que quer que ela tivesse feito para desaparecer tinha sido eficaz. Era já mais do que claro que não queria ser encontrada, mas beneficiava bastante da dimensão da cidade, que a tornava facilmente anónima e invisível. Eram demasiadas pessoas, demasiados locais, demasiadas famílias. Era todo um turbilhão de números, de pessoas perdidas no meio das outras, de silêncios e ignorâncias próprias da mastigação voraz da massa imensa de gente sozinha e refugiada nos seus pequenos locais espalhados pela macrocéfala à beira rio, aquela que todos julgavam uma mulher. Gabriel tinha ideia que se Lisboa fosse feminina, era algo parecida com uma mulher invulgarmente idosa, conservando no entanto algo de jovem e perverso e crivada de descendência que deixava à própria sorte, muita dela sem saber caminhar ou formular palavras para poder sequer pedir qualquer forma de clemência. Talvez já não existissem locais feitos de árvores onde uma pessoa se pudesse perder - “tirando o truque do Miguel”, pensou Gabriel, mas na cidade tudo era tão facilmente possível.

Depois teve uma ideia. Era apenas um palpite, pleno de improbabilidade de sucesso, mas como dizia um amigo inglês que se embebedara com ele no Algarve numa noite inconsequente, os pedintes não podem ser exigentes, o que era claramente mais elegante e lógico que aquela coisa terrível dos dentes dos cavalos. Gabriel sorriu. Quantas vezes se insiste uma e outra vez em coisas que não fazem qualquer sentido, pensou para si. E quantas mais se repetem."

Quase, mesmo quase... espero eu, que nestas coisas manda sempre a história.









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