ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Será talvez uma conclusão agridoce, ou, em meu ver, até algo lógica.
A invisibilidade é perfeitamente possível. Além disso, é fácil.
Claro que em muitas coisas, aquilo que nos vai acontecendo, e permanece no desconhecimento de outros, goza da nossa cumplicidade necessária. Mas a capacidade de observação é isso mesmo. Nã...o é saber, mas franzir a sobrancelha e questionar. Ter alguma noção que algo não está exactamente bem, ou normal.

Eu normalmente isento os outros dessa "responsabilidade". Sou, por convicção, se bem que nem sempre explicável até para mim, algo de ostra. Tendo a ter uma relação algo esquizofrénica com a protecção necessária dos meus pontos vulneráveis e um desejo estúpido de que alguém observe e perceba qual o impacto, numa espécie de candura empática que acalma o espírito e traz um tipo de reconhecimento sentido. Bem sei, não faz sentido nenhum, mas é a melhor definição que consigo dar. Guilty as charged...

No entanto, não consigo senão reparar o quão facilmente com que se logra essa invisibilidade, e como isso gera, em tantos casos, a retroalimentação da vontade para que assim continue. Que tantas das coisas que são preciosas, ou que vulnerabilizam porque acontecem, ficam tão bem guardadas com o mínimo de esforço. E que o medo tem afinal tantas formas.


quinta-feira, fevereiro 25, 2010





É uma história já antiga e recorrente.
Os nosso ícones, as paixões que motivam os interesses, olhares, perspectivação da natureza das coisas, podem ser alvo de observação mais atenta. E todos sabemos até que ponto o receio do "ilusionário" pode não resistir a uma observação mais atenta.
Mas e se, mesmo perante a capacida de de recortar todas as formas, (e perceber que algumas podem ser cortantes, mais por falta de habilidade do executante que pela natureza do material,) algumas são tão bem feitas que algum o gosto expresso torna possível pelo menos tentar retirar sempre o melhor de cada coisa complexa?
Certamente que se volta a uivar à lua, por mais simplificada pareça a intenção de lhe explicar o brilho :)
Acho eu...

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Nos tempos que correm, como em todo o manancial de relações humanas atacadas de todos os lados por constrangimentos que vão desde o pragmatismo profissional ao emergir do individualismo urbano, passando pelo afirmar da falsidade de certos tipos de tolerância e o acirrar de diferenças apoiado numa lógica de comodismo ao nível das pequenas coisas, a amizade sofre pressões tremendas, e como um bom metamorfo que é, tenta adaptar-se ao que para ela encontram. É como água, que encontra qualquer superfície e, calculo eu perdoando-me a ignorância os engenheiros que me lêm, funciona consoante as condicionantes própria da mecânica dos fluídos.
A verdade é que existe um conjunto de regras, de ideias mais ou menos generalizadas relativamente ao conceito da relação entre as pessoas, seja ela qual for, assentes num paradigma que se desintegra à medida que a morfologia social se transmuta. Claro que, no meu modesto ver, existem determinados conceitos que são impassíveis de relativizar, e que assentam na expressão material e sensível da empatia que gera, entre outras coisas, confiança e acompanhamento. No fundo, sem colocar em causa que todos os constrangimentos normais de uma vida dita "quotidiana" pode obrigar a adaptações, a verdade é que as lógicas de exigência fazem com que muitas pessoas aceitem uma tolerância em conceito que se dificilmente se aproveita materialmente.
Não está nunca posto em causa que as pessoas tendam a ser exigentes. Afinal, o que há a partilhar de real é precioso, e não pode andar por aí aos saltos, como uma espécie de folheto publicitário. Mas a verdade é que a exigência, em momento algum, pode significar sectarismo ou sonegação das qualidades de alguém, na medida em que as dádivas parecem repetições e não apenas um desejo de universalização simplesmente porque se gosta de pessoas. A ciumeira não é apanágio do amor, e nem este apresenta a única das suas vertentes mais intensas e complexas. Há, sim, uma espécie de código não escrito de raridade dos gestos, e esses acabam por, na maior parte das vezes, sê-lo, mas parece-me a mim estranho que se veja com desconfiança certos actos só porque eles afinal até beneficiam pessoas que à partida não estão dentro do círculo mais restrito da fogueira.
Ninguém tem de facto muitos amigos. É a própria natureza das coisas, porque se a tolerância é, de certo modo, até democrática na sua utilização, a empatia transformada em afecto é coisa rara por natureza, e a comunicação daí resultante, um dialecto quase completamente original. Mas o reconhecimento desta natureza não valida qualquer carácter sagrado, como se a amizade fosse uma espécie de segredo bichanado ao ouvido numa pausa de deixa em teatro. Os laços podem ser raros pela natureza das coisas e das pessoas, mas os gestos para com os outros não o deverão ser. Eu posso ter um gesto para alguém de quem goste, e que não seja exactamente próximo, pelo simples gosto de proporcionar algo a outra pessoa que tem alguma coisa que eu goste. Pode ser uma estupidez do caraças, mas o facto de gostar que as pessoas estejam bem, ou que um simples algo lhes alegre qualquer momento é um impulso. Embora saiba que é impossível, querer estar bem com o máximo de pessoas que possa, no estrito respeito e potenciar da sua individualidade não me parece assim uma espécie de vulgarização pessoal, mas saber que, apesar das gradações serem inevitáveis, não há uma sonegação da capacidade de sentir algo de positivo perante os outros, mesmo quando eles não são exactamente unha e carne.
As constatações que hoje em dia se fazem das chamadas amizades especializadas ocorrem por uma simples razão, ou seja, a incapacidade que a esmagadora maioria das pessoas tem em querer dar uma simples goela ao outro. A incapacidade que as pessoas têm de ouvir, de querer saber, e ao invés disso, atropelar o discurso dos outros por um desejo sôfrego de brilhar ou uma falsa consciência de experiência educadora e não como deveria ser, educativa. Raramente há uma perspectiva de obviar a alternância de registos, na lógica do agora falo eu, agora falas tu e a malta entende-se. Raramente há a capacidade ou vontade de ir ao quintal do outro e não ver apenas as flores murchas e as plantas negligenciadas, mas prestar atenção primeiro ao relvado impecável e ao cão saudável que por acaso ali anda sem o estragar.
A noção de generosidade pela natureza alheia é uma falácia, porque a corrente de unformização e a tremenda falta de curiosidade que assola tanta gente faz com que se criem barreiras de protecção, feudos, verdades absolutas onde nada entra, nada sai, e pouco cresce.
As amizades devem ser democráticas, devem abandonar qualquer espécie de julgamento pré-determinado, mas apenas uma capacidade de dar a verdade e fazer vê-la quando necessário. As amizades sobrevivem daquilo que se entrega, do que se revela, do que são degraus até aos sucessivos panteões de que somos feitos, como uma conquista quase inconsciente, feita do afecto pelos recortes de empatia com que aquela pessoa se destaca para nós. Pegando em Wilson e House, o primeiro é a definição do amigo, e a narrativa tem conseguido, de alguma forma, mostrar que não se trata de um idiota acrítico, mas alguém que, quando foi necessário, deixou o amigo de toda a vida trancado num hospício. Wilson é a versão optimizada e perfeita de Sancho Pança, Samwise Gamgee, Sexta-Feira, Watson, Ellis Boyd Redding, e todas aquelas coisas que, em certa medida estão, em muitos casos, repartidas por várias pessoas, e muito raramente concentradas numa ou duas ou três.
Se é certo que as amizades sobrevivem na presença, não é menos verdade que as exigências próprias dos recortes de personalidade de cada um devem ser administrados com parcimónia, e não uma espécie de tabela de requisitos para entrar no clube de golfe. Até porque ninguém os cumpre, e o afecto faz-nos passar por cima de coisas que, enfim, são pouco menos que graves. É, em meu ver, esse o carácter caótico da amizade, a capacidade de oscilar emocionalmente perante toda a perspectiva de uma pessoa, e ainda assim, sublimar o que de positivo emerge e deixar que isso conquiste.
É sempre possível? Claro que não. Os ventos batem e a malta tende a segurar a represa até ao limite, mas em algum momento, demasiada pressão gera derrocada. Mas que não há formatos para a amizade, e que os circuitos ditos (demasiado) fechados geram apenas uma espécie de crescendo de exigência, é também uma ideia a considerar.
As amizades, como veículo fundamental da vida gregária e sobrevivênvia mental e emocional, devem ser sempre equacionadas na medida da generosidade, da gradação do conhecimento e dádiva, mas nunca como uma espécie de motivo para "deixar o mundo lá fora", embora, e reconheço, que em muitos casos, não temos outra alternativa. As formas de a procurar não têm cartilhas nem formatos adequados e aprovados com certificado de qualidade, especialmente nos dias de hoje. No fundo, a forma como estendemos a mão é universal, seja ela, num primeiro momento, através da carne, de letras, sinais de fumo ou danças cossacas. Interessa é como se possa chegar a quem, por algum motivo, faça do dia algo melhor.
E acima de tudo, devemos sempre pensar se gostamos dos outros realmente pelo que eles são, ou pela capacidade que temos de perceber o quão melhor e mais compensador é o seu lado solar, mesmo que seja dado a alguns eclipses. As amizades devem ser um abraço siamês, um acolhimento que até surge antes que nos apercebamos dele, seja de que forma for, desde que seja possível perceber que alguém vive ali, e além de nos acrescentar algo, cria a vontade de dar. Uma espécie de possibilidade concretizada por qualquer meio, apesar de nós mesmos. Sermos mais porque há outros.


Os rancores são o ranço da afectividade. São sempre demasiadamente longos e inúteis. E se é certo que em muitos casos devemos apenas deixar as pessoas com a manutenção das suas opções quando estas se extremam e as tornam autistas, julgo que, e present company included, um juízo auto-analítico ao requisitário interno de tolerância, aceitação e afectividade não faz mal a ninguém.

E, claro está, o desinteresse não interessa mesmo a ninguém.


quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Manuel, bring the bags!!!!!


«“Não sei quando, nem como, mas vais acabar por me odiar. O que é uma pena, mas é sempre assim. Vais acabar a odiar-me. E talvez seja a tua sorte.”

Cor de laranja, cores esvoaçantes, toques do corpo que teimava em fugir a cada instante de presença, jogo de ilusões. Sorriso ausente, noites em claro. Escuro, frio, trilho e pistas. A voz a meio tempo, a percepção de um pé de cada lado da porta. Sorrisos impiedosos, a pele inclemente. A visão, tão vívida. Tão real.

Miguel não dormia há muito, ninguém se aproximava das árvores, mas as luzes intermitentes teimavam. Na memória havia de tudo. Ao contrário do que ele podia pensar, até o ódio preservava. Apesar de tudo.

“E talvez seja a tua sorte…”

O sono que não vinha era sempre invernal e alheio às temperaturas da memória. Miguel estava definitivamente paralisado. Temia-o, mesmo em meio às cores e toda a espécie de justificações causadas pelo sabor acre de todas as espécies de ausência.»


Almost...

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

"Marcou cerca de cinquenta números de telefone, recolhendo apenas evasivas, pessoas que não queriam comprar nada e alguns desconfiados que se recusavam terminantemente a falar com desconhecidos

Gabriel começou novamente a desanimar. O que quer que ela tivesse feito para desaparecer tinha sido eficaz. Era já mais do que claro que não queria ser encontrada, mas beneficiava bastante da dimensão da cidade, que a tornava facilmente anónima e invisível. Eram demasiadas pessoas, demasiados locais, demasiadas famílias. Era todo um turbilhão de números, de pessoas perdidas no meio das outras, de silêncios e ignorâncias próprias da mastigação voraz da massa imensa de gente sozinha e refugiada nos seus pequenos locais espalhados pela macrocéfala à beira rio, aquela que todos julgavam uma mulher. Gabriel tinha ideia que se Lisboa fosse feminina, era algo parecida com uma mulher invulgarmente idosa, conservando no entanto algo de jovem e perverso e crivada de descendência que deixava à própria sorte, muita dela sem saber caminhar ou formular palavras para poder sequer pedir qualquer forma de clemência. Talvez já não existissem locais feitos de árvores onde uma pessoa se pudesse perder - “tirando o truque do Miguel”, pensou Gabriel, mas na cidade tudo era tão facilmente possível.

Depois teve uma ideia. Era apenas um palpite, pleno de improbabilidade de sucesso, mas como dizia um amigo inglês que se embebedara com ele no Algarve numa noite inconsequente, os pedintes não podem ser exigentes, o que era claramente mais elegante e lógico que aquela coisa terrível dos dentes dos cavalos. Gabriel sorriu. Quantas vezes se insiste uma e outra vez em coisas que não fazem qualquer sentido, pensou para si. E quantas mais se repetem."

Quase, mesmo quase... espero eu, que nestas coisas manda sempre a história.









(#)


sexta-feira, fevereiro 12, 2010


No percurso da asneira que fazemos, há uma clara "trifurcação" a certa altura. Ou aceitamo-lo como parte necessária da coisa imperfeita que somos sempre a qual, como um osso velho, dói de quando em vez e não nos deixa esquecer, ou esses erros perseguem-nos incessantemente, queimando relevâncias sua passagem, ou encolhemos os ombros e dizemos "who, me?".
A verdade é que assim como queremos reduzir esses erros ao máximo, esperamos que os mesmos não seja colados ao peito como uma espécie de identificativo de congresso - "Assholes Convention - Guest Speaker - Expert".
Até porque por vezes temos dúvidas se efectivamente serão erros, e sobretudo, questões quanto à sua gravidade. Doem sempre, disso não nos safamos, mas apregoa-se tanto a redenção, a ideia de que a reserva de julgamento serve precisamente para estabelecer a medida de reabilitação humana de que somos capazes perante outros. Especialmente os significantes.
No fundo, esse percurso serve, a mim pessoalmente, para tornar a visão humilde. Para não por os pés na terra, mas enterrá-los um bocado. Serve para se calhar admitir que sim, tenho falhas suficientes para encher meia lista telefónica, já fiz coisas das quais não me orgulho, umas com dolo outras por mera negligência (mas que se foda, afinal, para ser falta não precisa de ser intencional), e talvez até devesse ser mais castigado do que fui (Não acho que tenha sido pouco, mas julgador em causa própria dá merda).
Mas custa-me sempre a engolir o "faz o que digo não o que faço".
Custa-me a engolir a postura afinal altaneira de quem sabe que naquilo que surgiu como premente, urgente, característico, o que for, nem sempre conseguiu dobrar a esquina espinhosa com a convicção do caminho menos utilizado mas preferível. Quem sempre conseguiu antecipar aquilo que a racionalidade, mais tarde, lhe ditaria noutros formatos.
Mas custa-me a engolir, claramente, por auto-reconhecimento de falhas. Talvez porque acredite que ninguém terá, certamente, um caderno limpinho, mas talvez porque fico em postura de admiração, e mesmo inveja, perante tal capacidade de evitar as armadilhas do erro, ou aceitar a mordedura daquilo que vem em consequência.
Não nego, nem nunca negarei, o quanto me sabe bem a clemência ou abraço acolhedor de quem faz um esgar incomodado perante o cheiro da trampa que fiz, mas ainda assim incita a dar um passo em frente, para que o cheiro fique lá atrás e se mude os sapatos.
E o quanto isso me faz falta.
E o quanto agradeço que isso aconteça, nos mais pequenos gestos ou as mais supremas frmas de adaptação.
Se quero que aceitem? Pois claro. Se desejo que algo em mim o possa justificar por antinomia? Certamente.
Porque os erros nunca são escondidos, e abrir as minhas mãos para quem ainda assim aceite dar as suas, é a melhor forma de deixar esses erros cairem na merda que são, e dar os tais passos em frente. Tudo graças ao que eles possam fazer, e o que eu espero não danificar.
É a vantagem da memória, a força da verdade, e a graça dos felizes afectos para além de todas as formas de imperfeição necessária.
Acho eu...







quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Pelos meus cálculos, mais duas semanas no máximo...

A caminho de um final...


"- Só duas coisas.

- Sim?

- Diga ao Miguel que ele pode ir para um sítio que eu lhe recomendo. Ele e mais as merdas que ele arranja, e os desaparecimentos e o silêncio.

- Será entregue. – Gabriel surpreendeu-se ao pensar no grau de certeza que tinha em voltar a vê-lo.

-E a segunda? – perguntou

- Porque é que está a fazer isto?

- Sinceramente?

-Não faz ideia, não é?

-Exacto. Acho que é por ele, mas também por causa dele. Não sei se isto faz sentido. Mas depois de tudo o que ele me contou, há algo que não consigo perceber ou encaixar.

-Foi exactamente o meu motivo. E começou por ela.

- Pois precisamente. Por causa dela.

-Não é sempre? – disse Lacerda, em meio a um sorriso.

Era um sorriso afável. Gabriel decidiu que gostava daquela pessoa. Pensava nesse facto como uma decisão porque, em bom rigor, nem sabia o motivo para tudo o que estava a fazer, ou para o juízo afectivo que o levava a fazê-lo. Afinal que laço tinha ele com um tipo de rosto morto? Era só curiosidade?

Depois lembrou-se da Paula. De toda a inutilidade, de todas as coisas deitadas a perder e queimadas em sofrimentos reiterados. Recordou-se do quanto lhe custava perceber a naturalidade de quem agia assim, ou sendo honesto, de quem agira assim para com ele. Lembrou-se de como tudo lhe parecia arbitrário, numa lógica de realidade sem peso, de gestos sem consequências, de beijos simples roçados em pele e não com o intuito reconhecido de passar através desta. Lembrou-se da quantidade de horas passadas a remoer como nada poderia ser assim, porque a consequência disso era um medo perene de que tudo quanto parecia real pudesse estar apoiado numa muleta bamba de aleatoriedade. O velho e simples medo da verdade, pensava para si, uma e outra e outra vez, como um disco em modo de repetição.

- Sim…sempre. – disse Gabriel enquanto apertava a mão de Lacerda."
(*)

domingo, fevereiro 07, 2010

O que vejo muitas vezes é que as pessoas não conseguem aceitar que se enganam. E o mais curioso é que pode até nem ser relativamente aos outros. Em bom rigor, nem é a isso que me refiro. Falo dos auto-enganos. Os enganos acerca de nós próprios, das supostas capacidades ou incapacidades, das lógicas, das protecções, das... pequenas coisas que deixamos escapar pelas rachaduras.
Sejam pequenos gestos, um sorriso na altura certa, um olhar acolhedor, é formidável ver que essas coisas escapam. Seja no fundo a capacidade para, apesar de um certo arrasar de pressupostos, dar comigo a sorrir pela incapacidade de confundir a percepção das cores escuras com a identificação total com elas.
Talvez seja um ingénuo, e em certa medida acho que é estúpido negá-lo a esta altura, mas mesmo em meio à confusão, a minha grande vitória é e será sempre conseguir contar pelos dedos de uma única mão as pessoas que conheci e a quem alguma vez quis realmente mal. Os anos passados sem a consciência dessa terrível vivência são mais que a prova de um ponto de vista, ou o calor interno da percepção de uma certa forma de luz. São também e principalmente, a escora que suporta uma certa sanidade, que vive lado a lado com a fria face do esclarecimento (ok, já fui menos cínico e descrente - sue me!) e permite a emoção até mesmo nos cenários e condições menos prováveis.
É, no fundo, quando como crer no conceito sem que as pessoas lá estivessem.
Mas obviamente, nunca é assim.
É excelente enganarmo-nos nessas circunstâncias. Ainda seja uma celebração interna, feita daquilo que outros, muito poucos, criam, impedindo a ruina interna. Não há nada que se compare a conseguir não desejar mal real a quem se conhece.
Uns salvam a ideia de outros, acho eu. Advogam involuntariamente.
Felizmente.


sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Por mais pessoas que se conheçam, por mais realidades com as quais nos cruzemos, nunca sabemos exactamente o que as faz sofrer. Mas temos a inalienável certeza de que algo existe, que na esmagadora maioria dos casos existem coisas não controladas, matéria escura sem um espaço condicionado ou destino aprovado, linhas tortas no projecto de equilíbrio devido aos pontapés dados nas pernas da mesa.

É, em meu ver, ilusório partir do principio que sabemos como resolver isso. resolver-lhes. Na esmagadora maioria dos casos não temos essa hipótese. A empatia não vai tão longe, por mais que gostássemos que assim fosse. Mas isso não significa que não se possa fazer nada. A velha ideia da presença, na qual se passa a ideia de que compreendemos o que ali se passa, faz um mundo de diferença. Por vezes temos um olhar para dar. Outras vezes a partilha de tristeza. Outras, a noção da importância que algo externo tem para aquela pessoa que ali está, exposta porque não consegue fazer de outra forma, frágil porque não tem mais sacos de areia para fazer diques.

Tenho a noção que a empatia não é (sempre, pelo menos) perceber exactamente a mecânica emocional de quem está ali adiante. Não é resolver o puzzle, nem expor um esquema num quadro negro. A empatia, a forma como conseguimos chegar a alguém de forma a fazer nem que seja uma pequena diferença perante o marasmo solitário do nada a acontecer, pode ser simplesmente um olhar cumplice, um apontamento de humor em meio ao desespero, a percepção realmente afectiva da companhia na viagem, ainda que, infelizmente, o possamos fazer somente como observadores.

Quando me deparo com alguém nesse estado, e percebo que não posso realmente fazer nada quanto aos factos que determinam o estado de mortificação, gosto de pensar que o respeito surge pela compreensão. Não axiomática ou demonstrativa, mas sensorial. Não sentir a mesma coisa, mas entender a dimensão e o porquê de quem o sente naquela situação. A verdadeira companhia, os salvamentos quotidianos das vidas normais, são feitos da preocupação afectiva e de um simples olhar que nada mais diz senão que sabe o que se passa.

Pode parecer incrível, mas faz todo um universo de diferença. A medida do respeito acaba por ser a da existência, e sabemos aí que não estamos sós.
A raridade é, assim, auto-explicativa...



quinta-feira, fevereiro 04, 2010



E sacos de plástico, claro...
Vampiros...

Ora vamos lá olhar um bocadinho para a coisa, saindo um bocado desta parafernália de "spinoffs" feitos de malta com dentes, e vamos debruçar-nos um bocadito sobre aquela que considero ser a natureza do mito, impresso nos dois livros que me assombraram desde os primeiros anos da adolescência - "Carmilla", de Sheridan Le Fanu, publicado em 1872 e "Drácula", de Bram Stoker, publicado em 1897.
Em primeiro lugar é curioso pensar que talvez a mais famosa das primeiras incursões no mito do vampiro, trata do portador da maldição como sendo uma mulher, e Stoker "responde", também influenciado po esta obra, com um homem.
A obra de Fanu é, para mim, uma preciosidade subtil, que joga com subentendidos, pequenos enganos como dentes que parecem estranhamente aguçados e um langor prolongado, tudo conjugado com uma lógica claramente predatória. O vampiro é um ser essencialmente sensual, um predador sensorial, claramente ligado a metáforas sexuais e aos fantasmas correlacionados com isto em plena época vitoriana.
"Drácula" é um dos livros da minha vida, e uma história merecidamente intemporal. É uma história acerca da sensualidade amoral, de uma predação claramente ligada ao prazer e ao ilícito como metáforas relacionadas com o conceito de vida, ou não fosse o sangue o simbolismo associado. O conde dos Cárpatos é um ser vil, perverso, predatório, sensual. É essencialmente um predador eficaz, que retira a vida num ritual muito associado à entrega ao prazer, um pouco na lógica do Súcubo (*).
Seja como for, a ideia clássica do vampiro é a de um ser maléfico mas com um poder de persuasão assente na capacidade dos desejos sensuais das suas vítimas. Pode até pensar-se como uma espécie de inversão da ideia dos infortúnios da virtude, já que a marca do vampiro, o desejo irresistível que instila, (ainda que disforme - veja-se abaixo o Nosferatu de Murnau) tem como consequência uma espécie de dependência, e em última análise, a morte. Novamente o Súcubo, diria eu...
Mas, e agora em termos de opinião pessoal, também como apreciador da chamada "obra original", se bem que se sabe que quer Fanu quer Stoker foram inspirados por vários autores, personagens históricas e fenómenos, sendo que destes já falaremos.

É por isso que gostei muito do Drácula do Coppolla, mas chateou-me tremendamente aquela historieta de amor metida a martelo. Drácula não é uma espécie de amante desmorto que persegue uma réplica da mulher que perdeu, mas um ser essencialmente sensualista, onde tudo é prazer e, porque não dizê-lo, parasitismo e nada ligado a qualquer espécie de sentimento. O vampiro é uma representação da contradicção das próprias vítimas, e não de si mesmo.
E quando vejo tanta derivação sentimentalista, onde colocam o dentuço como uma espécie de amante renegado ou quixotesco, a coisa aborrece-me um pedaço.

Senão vejamos:

A inspiração histórica vai desde a condessa Bathory, que pendurava as jovenzinhas virgens em ganchos de carne e deixava-as sangrar para uma banheira, devido a uma obsessão com a juventude e pelo que consta, também era moça de líbido estranha, até ao empalador, que gerou também variadíssimo folclore acerca de um monstro consumidor de sangue. Em nenhum destes casos temos um qualquer ser brutal, mas dotado de senso de honra. A inspiração, em ambos os casos, reside num ser sobrenatural que encarna as violentas paixões da carne e o seu imenso poder atractivo (veja-se o tal poder de "persuasão" do vampiro) e do consumo da vida das vítimas. É uma análise acerca das paixões mais obscuras da natureza humana, e não uma espécie de vingança sobrenatural por amor perdido, e muito menos, em meu ver, uma alegoria shakesperiana onde há Capuletos curiosos e Montéquios com dentes e afectos controvertidos. Não que o dilema humanizante não possa ser interessante, e aí prefiro muito mais a abordagem de Anne Rice na sua "Entrevista", porque a contradicção me parece mais colada às origens da lenda e eficácia da sua metáfora.
A ligação dos vampiros como antítese à religiosidade ainda mais acentua a ideia da exploração da paixão sensual como pecado, e ao mesmo tempo, irreprimível atracção própria da natureza humana.

A título de curiosidade diga-se que quer a lenda do vampiro, quer do lobisomem, teve algumas raízes na superstição ancestral quando confrontada com algumas maleitas físicas como a Porphyria, a qual, entre outras coisas, provoca fotossensibilidade, palidez extrema e pode ser combatida com a ingestão de carne ou sangue crus, e noutra variante, provocava um profundo hirsutismo, sendo que havia alguns tipos que faziam do Tony Ramos uma estátua de mármore liso, e eram por isso confundidos com seres lupinos, devido ao facto de seres noctivagos. Além disso, a doença dá cabo do sistema nervoso, o que fazia com que além de aparência estranha, assustadora e arruinada, em muitos casos ficavam completamente apanhados da corneta, já que os sintomas variavam entre a depressão e a paranóia violenta. No fundo, um mito para romantizar "fantasticamente" uma incompreensão de fenómenos naturais.

Em suma, a ideia do vampiro assenta, em meu ver, no medo. No medo do que vemos de nós próprios e desejamos, e que está emerso numa sombra que a vontade proporciona mas nem sempre se compreende. É a ideia da sensualidade predatória, da resiliência do espírito perante a atracção e o terror. É a demonstração narrativa do fascínio que temos por aquilo que o Bruce Springsteen chamava " Darkness on the Edge of Town", ou os recantos da nossa natureza que nem sempre são luminosos, mas nem por isso menos fascinantes.

E por isso mesmo, com todo o respeito que me merecem outras interpretações, é precisamente isso que não vejo na maioria das derivações que enchem a ordem do dia (há excepções, claro, mas poucas...) e como tal, acho que em muitas coisas nada têm a ver com a grandeza do mito e histórias que estiveram na origem da figura do vampiro. Porque o que realmente assusta não são os dentes, mas como os mesmos podem parecer atraentes...

E eis o que me parece ser de dizer acerca do mito, e da justiça que há a fazer-lhe. :)


(*) Sabiam que o Sucubo era um demónio em formato de mulher, e que a banda Incubus significa a "versão masculina" desses demónios que, em troca de uma noite de prazer incomparável, roubavam a força vital e a vida das respectivas vítimas? :)


Madam Life's a piece in bloom
Death goes dogging everywhere:
She's the tenant of the room,
He's the ruffian on the stair.

You shall see her as a friend,
You shall bilk him once or twice;
But he'll trap you in the end,
And he'll stick you for her price.

With his kneebones at your chest,
And his knuckles in your throat,
You would reason -- plead -- protest!
Clutching at her petticoat;

But she's heard it all before,
Well she knows you've had your fun,
Gingerly she gains the door,
And your little job is done.

William Ernest Henley
Pois é que isto de viver o "real" também pode ter destas coisas...



quarta-feira, fevereiro 03, 2010

A Joana – meu Deus, o que custa ainda dar esse nome ao que me aparecera ali- olhou para mim e aproximou-se. Andava, mas os pés aparentemente não se mexiam. Parecia que avançava o correspondente a três passadas, quando na realidade só dava uma, como um bebé que pedala os pés no vazio enquanto os pais o deslocam rente ao chão na primeira lição de caminhada. Parou a cerca de meio metro de mim fitou-me. A expressão de tristeza transformou-se num sorriso tão familiar que por cinco segundos o medo saiu completamente de cena. Nesse curto período de tempo ficou apenas a sensação, terrível, fantástica e confusa, do reencontro com alguém há muito enterrado pelo luto pessoal, mas cuja presença nunca se afasta. Era o reconhecimento e percepção de uma saudade tão imensa que se tornava ainda mais dolorosa do que havia sido. Era algo como a oferta de um beijo real a uma amante irremediavelmente rejeitada. Ela deve ter percebido isso, porque estendeu a mão e tocou-me no rosto. O toque era frio e baço, como o roçar leve de uma pele morta, mas ainda o recordo como uma das experiências mais singulares de toda a minha vida. Era como sentir todo o retorno de todas as coisas outrora perdidas de forma estúpida e inútil. Como eu não falasse, a Joana deu-me a mão e pediu que me levantasse. Fê-lo ainda sem proferir uma palavra, mas de alguma forma percebi a mensagem. Era como ter tido um reflexo, mas não instintivo.
“Anda.” – disse ela, puxando-me levemente pelo braço.
Não fui capaz de dizer nada. A vontade de acordar já não era tão grande, mas, meu Deus, como queria uma bebida naquele instante. Pré-alcoólico ou fosse que merda fosse, queria qualquer coisa. Qualquer coisa certa, reconhecível. O tempo do recreio, o fim da dor de cabeça, fosse o que fosse.
- Como lá não temos que comer nem que beber, isso vai ser um bocado complicado de arranjar. – disse ela exibindo aquele sorriso mais uma vez.
Estava a tremer por todos os lados, e a visão mais exacta da face dela não ajudou muito. A pele tinha a palidez da morte e os olhos eram baços, quase sem íris ou pupila, como se uma pequena e leitosa cortina os cobrisse. Era algo vivo que se movia, e por si só bastava para tornar baços todos os outros pormenores.
- Foi uma tentativa de humor – disse ela – Não muito bem sucedida, o que se entende nestas circunstâncias.
- Joana? – disse eu, não sabendo como conseguia falar em meio a tanto tremelique.
-Ah, lembras-te! Mas claro que te lembras. Claro que sim. – sorriu um sorriso morto.
-P-p-pois. – disse eu – “Controla-te idiota! Controla-te. Vê lá se consegues não parecer uma menina de seis anos fechada no armário da avó.”
- A avó nunca nos fecharia no armário, e tu sabes bem disso. Vi-a há pouco tempo e ficava sentida contigo se te ouvisse dizer isso.
- Ah, pois… “Agora tenho a certeza que estou a ter uma qualquer alucinação.”
- Talvez, mas pensa assim. Seja alucinação ou não, servirá o seu propósito, não é? Imagines ou não, verás as coisas, e ao acordares, se lhe quiseres chamar isso, a percepção será a mesma. E poupo-te à pergunta que já se adivinha, até porque já pensaste nela, e como tal eu já sei qual é, e portanto…
Era a minha prima. Tive a certeza naquele momento. A tendência para falar em tudo ao mesmo tempo (e sacrificar o ouvinte com detalhes que interessassem ou não) era própria da Joana. O que só tornava a dúvida ainda maior, porque aquela poderia ser a recordação mais pungente de uma saudade que se transformara num pesadelo. E existem formas menos simpáticas de ficar doido, se fosse essa alternativa.
- Como é que foi a consulta ontem do médico?
- Não sabes?
- Sim, foi uma pergunta de retórica, mas mesmo assim podias falar um bocado sobre isso.
- Detesto ser inconveniente ou querer parecer muito reservado, mas estou a falar com uma familiar supostamente morta há anos e sou daqueles tipos que nunca gostou muito do Scrooge, portanto…
- Mentira. Adoravas a história. A certa altura era a única coisa que gostavas nesta época. Eu lembro-me bem disso. Foi a única peça de teatro que representaste, se bem te lembras.
- Sim. Fiz de Espírito do Natal Presente, mas voltando à minha pergunta…
- Bem, o que estou aqui a fazer? Ou como é que te enganaram este tempo todo ao dizerem-te que fantasmas não existem? Ou perguntas-te o que raio é que bebeste para te dar esta alucinação da qual acordarás muito em breve com a cabeça três vezes maior do que seria se esperar?
O meu tremor cessou um pouco. A luz que ela irradiava era agora mais forte. Se conseguisse evitar um contacto directo com os olhos baços e mortos, a conversa era possível.
- É simples. Vim conversar. Aquilo do outro lado pode ser muito solitário, sabes? Temos muitos tempos mortos.
- Piada fácil.
- Apanha-las todas. Mas a verdade é que sei quase tanto como tu o que estou aqui a fazer. Só sei para que estou aqui, mas não exactamente o porquê. Não é comum andarmos por aqui a saltitar entre os vivos. Cria uma certa confusão.
- Pois…
- Bem, a verdade é que queria mostrar-te umas coisas. Sentes-te pronto para viajar?
- Viajar?
- Sim, andar por aí e ver a cidade de cima, coisas assim…
- Vou voar? Perdi definitivamente o juízo, pronto. Vou acordar a qualquer momento. Quando se tem a sensação de queda normalmente acordamos. É certinho.
- Bem, o que te posso dizer enquanto artista convidada da tua alucinação é que o plano não é esse. Venho dar-te uma ajuda.
“E depois, a tua pele está a dizer-te que tudo isto é verdade, não é Chiquinho? Alucinação ou não nem consegues olhar para ela de frente. Já te beliscaste uma série de vezes e - ups(!)- a janela do quarto e a ressaca não apareceram.”
O Esquilo tinha razão. Era fácil sentir como um sonho. Já anteriormente tinha tido momentos em que a minha cabeça se apercebera que estava a sonhar, mas consegui não despertar e levar aquilo adiante. É como estar consciente e apagado ao mesmo tempo, um pé em água fria e outro em água a escaldar. Mas estava bem acordado. A dor de cabeça mantinha-se como um despertador do real, e o suor nas minhas têmporas era frio. As pernas já não tremiam tanto, mas as sensações de irrealidade e estranheza estavam a provocar-me uma pequena náusea.
- Bem, não temos tempo a perder. Levanta-te e toca-me na mão.
- Para quê?
- Já vais ver. Vá, toca-me no braço. A não ser que não queiras estar em casa a horas para a ceia de Natal. Hum… má escolha de assunto, não é?
- Sim. Não era com certeza esse tipo de favores que estavas a pensar em fazer.
- Não. Os meus serão mais complicados, como vais ver. Não vai ser muito agradável, lamento.
- Estou a falar com uma aparição. Sem ofensa, mas as coisas dificilmente podem ficar mais estranhas.
- Sim. Mas podem sempre ser mais dolorosas, mais chatas.
- Deixo isso para a realidade, obrigadinho.
- É isso mesmo que vamos ver, por isso, prepara-te.
A Joana aproximou-se e estendeu a mão. Observada de perto, a pele era de um branco quase leitoso, mas absolutamente liso. Relutante e com as pernas novamente a tremer, toquei-lhe nos dedos com a ponta dos meus, como um miúdo que mete o dedo no copo para ver se o leite está quente. Quando o fiz, a minha pele começou a perder o rosa pálido que me caracterizava no Inverno. O brilho esverdeado alastrou-se pelo meu corpo, até que senti uma sensação estranha de calor, leveza e ausência. Era como estar dentro de uma bolha quente, mas sem qualquer referência externa. Não posso assegurar-me, mas juraria que talvez até tivesse deixado de respirar. Começámos a elevar-nos no ar. Os meus pés deixavam o solo com a leveza gentil de uma criança erguida pelos braços dos pais. Olhei para trás e lá estava eu. Sentado no chão e encostado ao balcão, com os olhos fechados e uma estranha expressão de alívio representada por um sorriso pateta desenhado no rosto. Pensei que deveria temer seriamente pela minha sanidade a esta altura. Começava a ficar terrivelmente assustado pelo facto de nunca mais acordar do que só poderia ser um sonho. Mas a calma que tinha agora era a mesma do homem adormecido, ressacado e subitamente esvaziado que via à minha frente, produto de uma tristeza imensa e inexplicável pelas coisas que muitas vezes se perdem sem que desconfiemos porquê.


Qual é a diferença entre arrependimento e análise criteriosa do passado?
Eu explico.
Qual a lógica que assiste a uma denegação de coisas que, quando vividas num determinado momento, tiveram a sua importância, constituiram uma realidade? Será que todos os eventos que se seguiram a uma descoberta, que pode ir do desinteresse à desilusão, são escamoteáveis? Seremos sempre vencidos pela consciência que surge depois, como um acordar que dissipa a memória dos sonhos precedentes?
Normalmente, quando algo ocorre e "acordamos" do torpor causado pela anestesia sensorial ou afectiva, tendemos, julgo eu, a concluir acerca da totalidade dessa realidade com base na consciência que dela ganhamos, como um transmorfo que afinal de contas volta sempre a uma forma original. E a tendência para avaliar essa totalidade com base na percepção entretanto ganha é irresistível.
Eu sei que tal coisa me acontece. E embora essa percepção nem sempre derrube as boas memórias das coisas que teimo em pensar como positivas, o que sobrevém é uma espécie de calmaria racional. Uma calmaria onde a nostalgia arrefece com a distância e se torna tecido de recordações. Daquelas coisas que vivem apenas no simulacro desses tempos, e que como já referi, se dissipam quando o interruptor da luz real se liga.
Mas no reiterar da diferença vive muito do auto-esquecimento, e quando assim é, não se faz justiça a ninguém.
E apesar de ser primo daqueles penedos que ladeiam estradas de serra, tendo a crer que algumas coisas morrem de facto e outras vivem na exacta medida do simples desejo de assim o fazer. E não se trata de perdoar ou coisa que o valha. É coisa muito mais instintiva e impassível de explicação. É uma simples negação do domínio do feio, do desgostar e da acrimónia. É, em meu ver, uma coisa boa.
Porque quando se dá a tal morte, ela não surge como reactiva.
É engraçado porque se trata exactamente do contrário. Volta-se a um caldo primevo onde nunca se sabe o que dali sairá, se bem que em muitos casos o caldo limita-se a evaporar e a esquecer-se que alguma vez pode vir a ser chuva.



terça-feira, fevereiro 02, 2010


Das coisas mais curiosas que encontro acerca de algumas pessoas é a sua pretensa visão alargada, ou bonomia nas considerações perante os outros. No fundo, todos gostam de ser tipos porreiros, ou os tais semi-deuses nas palavras do Pessoa, mas a ideia que possuem de tolerância, de visão alargada surge inversamente proporcional à forma como sentem.
A forma de sentir estreita a tal bonomia das ideias, a visão dos recortes alheios, porque quando se sente dói, e quando dói dá-se a retracção. É como colocar a mão debaixo de uma torneira que verte àgua a escaldar. O vapor e a emanação térmica são agradáveis, mas quando a mão entra em contacto directo com a água está tudo estragado porque a queimadura força a reacção.
Essa reacção, a agulhada sensível, se preferirem, afunila o discernimento perante o que é tolerável, porque julgo que para essas pessoas torna-se muito difícil não querer, não ter de ter o formato daquilo que é característico e por isso mesmo, aceitável.
E pode culpar-se essa perspectiva?
Bem, tenho dúvidas.
Tenho dúvidas porque tecer juízos, (ainda que sejam julgamentos de coração e como tal reacções perante água a escaldar), é sempre matéria complicada. Implica sempre colocar a atitude própria acima da de outrém, e no entanto somos, creio eu, incapazes de não o fazer. Há sempre uma ideia daquilo que fazemos, do que somos capazes, das linhas que supostamente que não cruzamos. E quando observamos tudo isso num inverso feito comportamento, é impossível não olhar com a noção de desperdício ou de simplicidade directa transformada estranhamente numa tarefa complexa.
No fundo é tentar aplicar o juízo de tolerância, que mais não é que tentar entender, a uma atitude onde isto mesmo é negado. Negado à força de àgua quente ou outra qualquer metáfora mais bem conseguida, mas sempre com a dualidade bem presente do que se quer entender, e não sentimos como algo que sejamos capazes de fazer.
No entanto acho que é sempre delicado colocarmo-nos no alto do promontório e gritar ao ar lá em baixo. Porque normalmente chove nos promontórios, a pedra onde se arenga é escorregadia, e a queda frequente e séria.