"Marcou cerca de cinquenta números de telefone, recolhendo apenas evasivas, pessoas que não queriam comprar nada e alguns desconfiados que se recusavam terminantemente a falar com desconhecidos
Gabriel começou novamente a desanimar. O que quer que ela tivesse feito para desaparecer tinha sido eficaz. Era já mais do que claro que não queria ser encontrada, mas beneficiava bastante da dimensão da cidade, que a tornava facilmente anónima e invisível. Eram demasiadas pessoas, demasiados locais, demasiadas famílias. Era todo um turbilhão de números, de pessoas perdidas no meio das outras, de silêncios e ignorâncias próprias da mastigação voraz da massa imensa de gente sozinha e refugiada nos seus pequenos locais espalhados pela macrocéfala à beira rio, aquela que todos julgavam uma mulher. Gabriel tinha ideia que se Lisboa fosse feminina, era algo parecida com uma mulher invulgarmente idosa, conservando no entanto algo de jovem e perverso e crivada de descendência que deixava à própria sorte, muita dela sem saber caminhar ou formular palavras para poder sequer pedir qualquer forma de clemência. Talvez já não existissem locais feitos de árvores onde uma pessoa se pudesse perder - “tirando o truque do Miguel”, pensou Gabriel, mas na cidade tudo era tão facilmente possível.
Depois teve uma ideia. Era apenas um palpite, pleno de improbabilidade de sucesso, mas como dizia um amigo inglês que se embebedara com ele no Algarve numa noite inconsequente, os pedintes não podem ser exigentes, o que era claramente mais elegante e lógico que aquela coisa terrível dos dentes dos cavalos. Gabriel sorriu. Quantas vezes se insiste uma e outra vez em coisas que não fazem qualquer sentido, pensou para si. E quantas mais se repetem."
Quase, mesmo quase... espero eu, que nestas coisas manda sempre a história.
(#)
Gabriel começou novamente a desanimar. O que quer que ela tivesse feito para desaparecer tinha sido eficaz. Era já mais do que claro que não queria ser encontrada, mas beneficiava bastante da dimensão da cidade, que a tornava facilmente anónima e invisível. Eram demasiadas pessoas, demasiados locais, demasiadas famílias. Era todo um turbilhão de números, de pessoas perdidas no meio das outras, de silêncios e ignorâncias próprias da mastigação voraz da massa imensa de gente sozinha e refugiada nos seus pequenos locais espalhados pela macrocéfala à beira rio, aquela que todos julgavam uma mulher. Gabriel tinha ideia que se Lisboa fosse feminina, era algo parecida com uma mulher invulgarmente idosa, conservando no entanto algo de jovem e perverso e crivada de descendência que deixava à própria sorte, muita dela sem saber caminhar ou formular palavras para poder sequer pedir qualquer forma de clemência. Talvez já não existissem locais feitos de árvores onde uma pessoa se pudesse perder - “tirando o truque do Miguel”, pensou Gabriel, mas na cidade tudo era tão facilmente possível.
Depois teve uma ideia. Era apenas um palpite, pleno de improbabilidade de sucesso, mas como dizia um amigo inglês que se embebedara com ele no Algarve numa noite inconsequente, os pedintes não podem ser exigentes, o que era claramente mais elegante e lógico que aquela coisa terrível dos dentes dos cavalos. Gabriel sorriu. Quantas vezes se insiste uma e outra vez em coisas que não fazem qualquer sentido, pensou para si. E quantas mais se repetem."
Quase, mesmo quase... espero eu, que nestas coisas manda sempre a história.
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