Nos tempos que correm, como em todo o manancial de relações humanas atacadas de todos os lados por constrangimentos que vão desde o pragmatismo profissional ao emergir do individualismo urbano, passando pelo afirmar da falsidade de certos tipos de tolerância e o acirrar de diferenças apoiado numa lógica de comodismo ao nível das pequenas coisas, a amizade sofre pressões tremendas, e como um bom metamorfo que é, tenta adaptar-se ao que para ela encontram. É como água, que encontra qualquer superfície e, calculo eu perdoando-me a ignorância os engenheiros que me lêm, funciona consoante as condicionantes própria da mecânica dos fluídos.
A verdade é que existe um conjunto de regras, de ideias mais ou menos generalizadas relativamente ao conceito da relação entre as pessoas, seja ela qual for, assentes num paradigma que se desintegra à medida que a morfologia social se transmuta. Claro que, no meu modesto ver, existem determinados conceitos que são impassíveis de relativizar, e que assentam na expressão material e sensível da empatia que gera, entre outras coisas, confiança e acompanhamento. No fundo, sem colocar em causa que todos os constrangimentos normais de uma vida dita "quotidiana" pode obrigar a adaptações, a verdade é que as lógicas de exigência fazem com que muitas pessoas aceitem uma tolerância em conceito que se dificilmente se aproveita materialmente.
Não está nunca posto em causa que as pessoas tendam a ser exigentes. Afinal, o que há a partilhar de real é precioso, e não pode andar por aí aos saltos, como uma espécie de folheto publicitário. Mas a verdade é que a exigência, em momento algum, pode significar sectarismo ou sonegação das qualidades de alguém, na medida em que as dádivas parecem repetições e não apenas um desejo de universalização simplesmente porque se gosta de pessoas. A ciumeira não é apanágio do amor, e nem este apresenta a única das suas vertentes mais intensas e complexas. Há, sim, uma espécie de código não escrito de raridade dos gestos, e esses acabam por, na maior parte das vezes, sê-lo, mas parece-me a mim estranho que se veja com desconfiança certos actos só porque eles afinal até beneficiam pessoas que à partida não estão dentro do círculo mais restrito da fogueira.
Ninguém tem de facto muitos amigos. É a própria natureza das coisas, porque se a tolerância é, de certo modo, até democrática na sua utilização, a empatia transformada em afecto é coisa rara por natureza, e a comunicação daí resultante, um dialecto quase completamente original. Mas o reconhecimento desta natureza não valida qualquer carácter sagrado, como se a amizade fosse uma espécie de segredo bichanado ao ouvido numa pausa de deixa em teatro. Os laços podem ser raros pela natureza das coisas e das pessoas, mas os gestos para com os outros não o deverão ser. Eu posso ter um gesto para alguém de quem goste, e que não seja exactamente próximo, pelo simples gosto de proporcionar algo a outra pessoa que tem alguma coisa que eu goste. Pode ser uma estupidez do caraças, mas o facto de gostar que as pessoas estejam bem, ou que um simples algo lhes alegre qualquer momento é um impulso. Embora saiba que é impossível, querer estar bem com o máximo de pessoas que possa, no estrito respeito e potenciar da sua individualidade não me parece assim uma espécie de vulgarização pessoal, mas saber que, apesar das gradações serem inevitáveis, não há uma sonegação da capacidade de sentir algo de positivo perante os outros, mesmo quando eles não são exactamente unha e carne.
As constatações que hoje em dia se fazem das chamadas amizades especializadas ocorrem por uma simples razão, ou seja, a incapacidade que a esmagadora maioria das pessoas tem em querer dar uma simples goela ao outro. A incapacidade que as pessoas têm de ouvir, de querer saber, e ao invés disso, atropelar o discurso dos outros por um desejo sôfrego de brilhar ou uma falsa consciência de experiência educadora e não como deveria ser, educativa. Raramente há uma perspectiva de obviar a alternância de registos, na lógica do agora falo eu, agora falas tu e a malta entende-se. Raramente há a capacidade ou vontade de ir ao quintal do outro e não ver apenas as flores murchas e as plantas negligenciadas, mas prestar atenção primeiro ao relvado impecável e ao cão saudável que por acaso ali anda sem o estragar.
A noção de generosidade pela natureza alheia é uma falácia, porque a corrente de unformização e a tremenda falta de curiosidade que assola tanta gente faz com que se criem barreiras de protecção, feudos, verdades absolutas onde nada entra, nada sai, e pouco cresce.
As amizades devem ser democráticas, devem abandonar qualquer espécie de julgamento pré-determinado, mas apenas uma capacidade de dar a verdade e fazer vê-la quando necessário. As amizades sobrevivem daquilo que se entrega, do que se revela, do que são degraus até aos sucessivos panteões de que somos feitos, como uma conquista quase inconsciente, feita do afecto pelos recortes de empatia com que aquela pessoa se destaca para nós. Pegando em Wilson e House, o primeiro é a definição do amigo, e a narrativa tem conseguido, de alguma forma, mostrar que não se trata de um idiota acrítico, mas alguém que, quando foi necessário, deixou o amigo de toda a vida trancado num hospício. Wilson é a versão optimizada e perfeita de Sancho Pança, Samwise Gamgee, Sexta-Feira, Watson, Ellis Boyd Redding, e todas aquelas coisas que, em certa medida estão, em muitos casos, repartidas por várias pessoas, e muito raramente concentradas numa ou duas ou três.
Se é certo que as amizades sobrevivem na presença, não é menos verdade que as exigências próprias dos recortes de personalidade de cada um devem ser administrados com parcimónia, e não uma espécie de tabela de requisitos para entrar no clube de golfe. Até porque ninguém os cumpre, e o afecto faz-nos passar por cima de coisas que, enfim, são pouco menos que graves. É, em meu ver, esse o carácter caótico da amizade, a capacidade de oscilar emocionalmente perante toda a perspectiva de uma pessoa, e ainda assim, sublimar o que de positivo emerge e deixar que isso conquiste.
É sempre possível? Claro que não. Os ventos batem e a malta tende a segurar a represa até ao limite, mas em algum momento, demasiada pressão gera derrocada. Mas que não há formatos para a amizade, e que os circuitos ditos (demasiado) fechados geram apenas uma espécie de crescendo de exigência, é também uma ideia a considerar.
As amizades, como veículo fundamental da vida gregária e sobrevivênvia mental e emocional, devem ser sempre equacionadas na medida da generosidade, da gradação do conhecimento e dádiva, mas nunca como uma espécie de motivo para "deixar o mundo lá fora", embora, e reconheço, que em muitos casos, não temos outra alternativa. As formas de a procurar não têm cartilhas nem formatos adequados e aprovados com certificado de qualidade, especialmente nos dias de hoje. No fundo, a forma como estendemos a mão é universal, seja ela, num primeiro momento, através da carne, de letras, sinais de fumo ou danças cossacas. Interessa é como se possa chegar a quem, por algum motivo, faça do dia algo melhor.
E acima de tudo, devemos sempre pensar se gostamos dos outros realmente pelo que eles são, ou pela capacidade que temos de perceber o quão melhor e mais compensador é o seu lado solar, mesmo que seja dado a alguns eclipses. As amizades devem ser um abraço siamês, um acolhimento que até surge antes que nos apercebamos dele, seja de que forma for, desde que seja possível perceber que alguém vive ali, e além de nos acrescentar algo, cria a vontade de dar. Uma espécie de possibilidade concretizada por qualquer meio, apesar de nós mesmos. Sermos mais porque há outros.
Os rancores são o ranço da afectividade. São sempre demasiadamente longos e inúteis. E se é certo que em muitos casos devemos apenas deixar as pessoas com a manutenção das suas opções quando estas se extremam e as tornam autistas, julgo que, e present company included, um juízo auto-analítico ao requisitário interno de tolerância, aceitação e afectividade não faz mal a ninguém.
E, claro está, o desinteresse não interessa mesmo a ninguém.
Sem comentários:
Publicar um comentário