ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, março 31, 2010

Se há coisa que me faz confusão, e sempre me fez, é aquela ideia que sinceramente, gets very very old, na qual se defende a dicotomia entre racionalizar e sentir. Além de ser um profundo disparate, porque qualquer intuição dita pessoal, ainda que ligada ao sentir é produzida no cérebro, lança uma desconfiança injusta sobre a capacidade de pensar sobre aquilo que se sente, como se racionalizar desvirtuasse o sentir.

Não há traição nenhuma ao sentir quando se consegue pensar sobre o assunto. Em muitos casos, sinceramente, julgo que talvez tentemos desresponsabilizarmo-nos dos efeitos de qualquer interesse, entregando a totalidade das consequências a um ser imaterial feito de coisas incontroláveis. Sim, dá um jeito do caraças. É um bocado como aqueles tipos que qualificam a merda que fazem coma intervenção do diabo. Enfim, adiante.

A verdade é que pensar sobre as coisas não diminui a sua intensidade ou valor. Não retira qualquer aura sacra ao sentir só porque a malta consegue produzir um pensamento e a espaços evitar uma verdadeira avalanche de trampa pelo simples facto de ponderar minimamente as realidades. É uma suprema arrogância considerar que o sentimento é uma qualquer espécie de força imparável, impassível de ser questionado só porque tem essa característica de mito inescrutável nos seus motivos e inquestionável nas suas motivações. E pior ainda é considerar que o pensar sobre o que se sente é próprio de quem não sente efectivamente, o que além de arrogante, é uma profunda injustiça. A verdade é que tudo é simbiótico, tudo se entrelaça numa interdependência conceptual, onde o que é determinável e o que é "mágico" simplesmente não se excluem.

Os ditos sentimentos "tout-court", sem qualquer espécie de contributo da luz pensante parece-me apenas uma aleatoriedade, a qual sinceramente reduz a pessoa em causa. Se de facto o que interessa é sentir, não importando minimamente quem esteja do lado de lá, (porque afinal muitos pensam que definir, identificar e qualificar são produtos da razão, coisa fria e assassina do sentir - vade retro!), então o próprio valor da pessoa é absolutamente aleatório e, por exemplo, ser boa pessoa, é um detalhe despiciendo. Para mim, sinceramente, chatear-me-ia solenemente que alguém gostasse de mim, seja em que registo for, "porque sim". Porque afinal de contas, as minhas características enquanto ser humano não importam, desde que num plano inexplicável simplesmente resultem. Parece-me uma coisa muito próxima do criacionismo emocional, e como tal, digo eu, vade retro! Chega a ser ofensiva a ideia de quem alguém olhe para mim como nada mais que um veículo de algo que afinal se constitui apenas como a forma que a pessoa tem de me observar, independentemente de qualquer característica que eu possa ter. E confesso, sem julgar obviamente, que me faz confusão que alguém que alguém ache reconfortante que os amigos, amantes, etc etc gostem deles simplesmente "porque sim".
A racionalidade não retira qualquer pedaço
ou dignidade ao sentir. Ao mesclarem-se, dão, em meu modesto ver, a medida certa daquilo que são os laços, independentes do seu formato ou vivência. Porque pensar sobre o que se sente é, afinal, verificar da sua existência, estimar as géneses dos afectos, e especular sobre as origens das empatias, admitindo desde já que em parte, algumas delas são parcialmente inexplicáveis. Mas achar que o aleatório prevalece, com qualquer espécie de dignidade, sobre o parcialmente racionalizável, é retirar conclusões acerca da verdade subjacente ao que é sentir que são, no mínimo limitativas.

A emoção existe, pode fazer-nos até escorregar, fazer asneiras, etc. É a tal parte que comanda impulsos e quejandos. Mas podemos pensar sobre eles, são escolhas, mesmo que condicionadas, e a reflexão no aftermath pode ser afinal a maior das homenagens que possamos prestar ao que é sentir alguma coisa por alguém.
Porque pensarmos sobre a essência dos humanos que escolhemos ter por perto, é maior homenagem que lhes possamos fazer, ao mantê-los vivos e activos na parte de nós que por vezes nem a dormir desliga. Portanto, a afeição não é mais verdadeira só porque é cega. Aliás, em meu ver, é justamente o contrário. Se não reconhecemos minimamente os contornos da humanidade singular daqueles de quem gostamos, estamos indirectamente a dizer que o sentimento é algo que nada tem a ver com eles, e que estão lá por acidente. E se isso é gostar de alguém... Enfim...


terça-feira, março 30, 2010

Olhar para as coisas com olhos de ver não é fácil. Para ninguém. Nunca.
Ver os exactos contornos com tantas coisas a passar à frente, ao bom estilo do trânsito na India ou Vietname, é uma tarefa complicada. Há sempre tendências, condicionantes, é tudo complicado pá, sabes, isto não é exactamente fácil e tal. Repito, acontece a todos.

Mas há igualmente uma lógica que assiste a este tipo de situações. E essa lógica assenta numa coisa muitíssimo simples. Repetição. Empirismo. Simples constatação de facto. Olhar e ver a coisa bem delineada. Se há coisa que não dá para escamotear é a percepção. Aquele instante em que vemos. Não queríamos ver, maldita a hora em que olhámos, em que a ignorância vou parar ao espaço, mas merda, já vimos, e a percepção não se evita. O esquecimento leva tempo, e é durante esse tempo que as conclusões se avolumam e tudo parece feito de um peso terrível. Porque não era como queríamos, porque nao resultou na medida dos nossos esforços, porque é injusto, e por aí fora. E o mais complicado é aceitar aquilo que efectivamente somos capazes de fazer uns aos outros com a mais arrepiante das calmas.
Quem nunca foi cruel ou egoísta que atire a primeira pedra. Quem não puxou a brasa à sua sardinha quando definitivamente não era a sua vez de o fazer, que atire a segunda. Mas esses são momentos. Dificilmente se qualifica no terreno do calculismo, daquilo que é auto-complacente. Dificilmente se pode entender quando a percepção forma um conceito, por mais doloroso que ele seja. E o problema não é fazer "a" ou "b". Que diabo, que as pessoas façam o que lhes apetece, pelas motivações que lhes assistam. Mas como em qualquer jogo, há que ter as regras bem presentes, e isso deriva da percepção. Deriva da interpretação pelo menos algo objectiva, da correlação conceptual necessária, porque um dado não é um obelisco, e como tal, não o podemos rolar para fazer andar as peças do Monopólio.

Recordando alguns conceitos filosóficos básicos da minha formação enquanto pessoa, surge-me sempre a figura da intuição intelectual, que a minha professora de liceu tão bem definia como ligar uma lanterna num quarto absolutamente escuro durante dois segundos. E que fica na memória não é o detalhe, a minúcia, mas aquilo que, de tão evidente que é, nem sequer é passível de expulsão pela memória, a não ser quando o tempo o tornar insignificante. E interpretar o evidente como a aparência de algo fugidio e ilusoriamente complexo é uma semente de dor, de inadequação previsível, de salvação pessoal a prazo.
Acho que não vale a pena. A queda posterior é muito mais danosa.
I shit you not...


quarta-feira, março 24, 2010

O problema das memórias é também a sua virtude.
Mas é verdade que tem problemas. Questões subjacentes à forma como lidamos com a nossa forma de vier, com as aprendizagens que como qualquer dinâmica, têm altos e baixos. E é engraçado verificar como se posiciona a nossa mente, e como ela escolhe qual o registo a manter. A memória é uma perpetuação da última forma de escolha que fazemos perante um conceito. E é, em parte, involuntária, porque quando fechamos os olhos, é sempre esse reflexo que retorna, ainda que a racionalidade nos obrigue, a espaços, a olhar para todo o panorama e a fazer equilíbrios.
Acho que é uma coisa boa sermos capazes de os fazer. É bom sentir que a pressão instintiva da memória não nos força a negatividades quase automatizadas. Que há uma espécie de deferência analítica, a qual permite ver todos os lados de algo ou alguém que, por ser complexo, nunca é em si só uma história ou tendência. Mas reconheço que nem sempre é possível, porque nem todos são capazes, (e ninguém diz que o tenham de ser), de perspectivar.
Há, no entanto, uma escolha relativamente às impressões de memórias análogas nos seus estragos, mas muito diferentes nas suas interpretações. Em alguns casos, a terraplanagem contém ou segura uma dignidade de "feitio" ou "característica". Noutros casos, no such luck. E no fundo, como em tudo, é um juízo afectivo, e em nome do mesmo, surgem as escolhas, mais volitivas ou de reflexo incondicionado, mas sempre numa opção.
E é por isso que a memória tem problemas nas suas virtudes. Porque no reflexo, no imediatismo das imagens e sensações que traz, mantém-se toda uma caracterização de um juízo afectivo, que como se sabe, em alguns casos, tem dificuldades em desenhar todas as voltas de cada contorno.
É a forma mais eficaz de mágoa que se guarda, e muitas vezes, traduz-se apenas num calmo e prolongado juízo de tristeza. Abana-se a cabeça em gesto de consternação, não pelo efeito, mas pelo contraste entre a aceitação contemporânea em comparação com as imaginações de outrora.
Mais do que um direito, é uma inevitabilidade.
Mas ainda assim, é apenas uma perspectiva.



quarta-feira, março 17, 2010

"Just how well do you know me?
I'm countless calamities
A malleable creature that speaks with a laudanum tongue
And I promise you deeply
The righteous will triumph over all adversity
Sometimes the melodies come
Leaving trails like stars as they fall
Sometimes I have to hold on
Cause I'm overwhelmed by this all..."


Ia sair post, mas fica para mais tarde, ... :):)

sexta-feira, março 12, 2010


Por vezes temos sorte.
Temos a sorte de poder ver coisas únicas, de experienciar outras que nos fazem sentir não pequenos, mas felizes perante a gradiosidade de algo que não precisa da nossa opinião para rigorosamente nada, mas ao qual o passar do tempo deu um formato que envergonha as palavras e faz cair o queixo.
Por cima da Capadócia o tempo parece outro, as cores e os formatos são irreais e a beleza arrasadora. Suspensos no ar, a voar lentamente, o vale de Gorem, as chaminés das fadas e outros abrem-se numa multiplidade de filigranas rochosas que forçam o silêncio.
E nestas alturas não posso senão ser grato. Pelo que pude ver, o quão melhor isso me tenha tornado pelo feliz que fui ao poder ver, sentir e perceber tudo o que se passava à minha volta, e sobretudo a 1.700 m abaixo de mim.
Além disso, tudo brindado pela companhia de algumas pessoas que tornaram tudo ainda melhor.
Por vezes tenho sorte.
Mesmo.

segunda-feira, março 01, 2010

"Pensou, enquanto embrulhava num pano suave os dois objectos que ela lhe dera, que a própria natureza não celebrava ou condenava o facto. O dia da sua morte amanhecera sem extremos, caracterizado por um ar tépido e uma luz branda, o que lhe pareceu um conceito abastardado entre paz e injustiça face à natureza aparentemente transitória das coisas. Gabriel sabia que condená-lo era inútil. O protesto que quase lhe assomava aos lábios era justo, mas pueril, como seria reclamar do vento ou do tamanho das montanhas quando o sol já vai baixo. A Primavera amena trazia a homenagem da normalidade, a necessidade de negação do desespero do fim, a terrível e ineficaz lógica da renovação face à tristeza real. E ainda havia algo mais a fazer, para que algo se aproximasse do que ele reconhecia como sentido. Não porque efectivamente o fosse, mas porque precisava dele. E na sua necessidade estava encontrada a própria justificação, embora essa aceitação só viesse a surgir muito mais tarde."
Últimos parágrafos...
At last...
(*)