O problema das memórias é também a sua virtude.
Mas é verdade que tem problemas. Questões subjacentes à forma como lidamos com a nossa forma de vier, com as aprendizagens que como qualquer dinâmica, têm altos e baixos. E é engraçado verificar como se posiciona a nossa mente, e como ela escolhe qual o registo a manter. A memória é uma perpetuação da última forma de escolha que fazemos perante um conceito. E é, em parte, involuntária, porque quando fechamos os olhos, é sempre esse reflexo que retorna, ainda que a racionalidade nos obrigue, a espaços, a olhar para todo o panorama e a fazer equilíbrios.
Acho que é uma coisa boa sermos capazes de os fazer. É bom sentir que a pressão instintiva da memória não nos força a negatividades quase automatizadas. Que há uma espécie de deferência analítica, a qual permite ver todos os lados de algo ou alguém que, por ser complexo, nunca é em si só uma história ou tendência. Mas reconheço que nem sempre é possível, porque nem todos são capazes, (e ninguém diz que o tenham de ser), de perspectivar.
Há, no entanto, uma escolha relativamente às impressões de memórias análogas nos seus estragos, mas muito diferentes nas suas interpretações. Em alguns casos, a terraplanagem contém ou segura uma dignidade de "feitio" ou "característica". Noutros casos, no such luck. E no fundo, como em tudo, é um juízo afectivo, e em nome do mesmo, surgem as escolhas, mais volitivas ou de reflexo incondicionado, mas sempre numa opção.
E é por isso que a memória tem problemas nas suas virtudes. Porque no reflexo, no imediatismo das imagens e sensações que traz, mantém-se toda uma caracterização de um juízo afectivo, que como se sabe, em alguns casos, tem dificuldades em desenhar todas as voltas de cada contorno.
É a forma mais eficaz de mágoa que se guarda, e muitas vezes, traduz-se apenas num calmo e prolongado juízo de tristeza. Abana-se a cabeça em gesto de consternação, não pelo efeito, mas pelo contraste entre a aceitação contemporânea em comparação com as imaginações de outrora.
Mais do que um direito, é uma inevitabilidade.
Mas ainda assim, é apenas uma perspectiva.
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