Se há coisa que me faz confusão, e sempre me fez, é aquela ideia que sinceramente, gets very very old, na qual se defende a dicotomia entre racionalizar e sentir. Além de ser um profundo disparate, porque qualquer intuição dita pessoal, ainda que ligada ao sentir é produzida no cérebro, lança uma desconfiança injusta sobre a capacidade de pensar sobre aquilo que se sente, como se racionalizar desvirtuasse o sentir.
Não há traição nenhuma ao sentir quando se consegue pensar sobre o assunto. Em muitos casos, sinceramente, julgo que talvez tentemos desresponsabilizarmo-nos dos efeitos de qualquer interesse, entregando a totalidade das consequências a um ser imaterial feito de coisas incontroláveis. Sim, dá um jeito do caraças. É um bocado como aqueles tipos que qualificam a merda que fazem coma intervenção do diabo. Enfim, adiante.
A verdade é que pensar sobre as coisas não diminui a sua intensidade ou valor. Não retira qualquer aura sacra ao sentir só porque a malta consegue produzir um pensamento e a espaços evitar uma verdadeira avalanche de trampa pelo simples facto de ponderar minimamente as realidades. É uma suprema arrogância considerar que o sentimento é uma qualquer espécie de força imparável, impassível de ser questionado só porque tem essa característica de mito inescrutável nos seus motivos e inquestionável nas suas motivações. E pior ainda é considerar que o pensar sobre o que se sente é próprio de quem não sente efectivamente, o que além de arrogante, é uma profunda injustiça. A verdade é que tudo é simbiótico, tudo se entrelaça numa interdependência conceptual, onde o que é determinável e o que é "mágico" simplesmente não se excluem.
Os ditos sentimentos "tout-court", sem qualquer espécie de contributo da luz pensante parece-me apenas uma aleatoriedade, a qual sinceramente reduz a pessoa em causa. Se de facto o que interessa é sentir, não importando minimamente quem esteja do lado de lá, (porque afinal muitos pensam que definir, identificar e qualificar são produtos da razão, coisa fria e assassina do sentir - vade retro!), então o próprio valor da pessoa é absolutamente aleatório e, por exemplo, ser boa pessoa, é um detalhe despiciendo. Para mim, sinceramente, chatear-me-ia solenemente que alguém gostasse de mim, seja em que registo for, "porque sim". Porque afinal de contas, as minhas características enquanto ser humano não importam, desde que num plano inexplicável simplesmente resultem. Parece-me uma coisa muito próxima do criacionismo emocional, e como tal, digo eu, vade retro! Chega a ser ofensiva a ideia de quem alguém olhe para mim como nada mais que um veículo de algo que afinal se constitui apenas como a forma que a pessoa tem de me observar, independentemente de qualquer característica que eu possa ter. E confesso, sem julgar obviamente, que me faz confusão que alguém que alguém ache reconfortante que os amigos, amantes, etc etc gostem deles simplesmente "porque sim".
A racionalidade não retira qualquer pedaço
ou dignidade ao sentir. Ao mesclarem-se, dão, em meu modesto ver, a medida certa daquilo que são os laços, independentes do seu formato ou vivência. Porque pensar sobre o que se sente é, afinal, verificar da sua existência, estimar as géneses dos afectos, e especular sobre as origens das empatias, admitindo desde já que em parte, algumas delas são parcialmente inexplicáveis. Mas achar que o aleatório prevalece, com qualquer espécie de dignidade, sobre o parcialmente racionalizável, é retirar conclusões acerca da verdade subjacente ao que é sentir que são, no mínimo limitativas.
A emoção existe, pode fazer-nos até escorregar, fazer asneiras, etc. É a tal parte que comanda impulsos e quejandos. Mas podemos pensar sobre eles, são escolhas, mesmo que condicionadas, e a reflexão no aftermath pode ser afinal a maior das homenagens que possamos prestar ao que é sentir alguma coisa por alguém.
Porque pensarmos sobre a essência dos humanos que escolhemos ter por perto, é maior homenagem que lhes possamos fazer, ao mantê-los vivos e activos na parte de nós que por vezes nem a dormir desliga. Portanto, a afeição não é mais verdadeira só porque é cega. Aliás, em meu ver, é justamente o contrário. Se não reconhecemos minimamente os contornos da humanidade singular daqueles de quem gostamos, estamos indirectamente a dizer que o sentimento é algo que nada tem a ver com eles, e que estão lá por acidente. E se isso é gostar de alguém... Enfim...
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