ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, abril 21, 2010

Acho que almoçava no outro dia com os meus pais, quando a TVI passou, na sua habitual qualidade, uma reportagem sobre os efeitos do "pensamento positivo" nas curas, especificamente de doenças mortais e debilitantes. Depois falou uma senhora com ar de hippie anacrónica, a exultar os benefícios do pensar positivo sobre o... debelar de doenças e na "capacidade de curar " que pensar positivo pode ter.
Bem... enfim, sem discorrer sobre o logro que é o manancial profuso de charlatanice roiundo da auto-ajuda, do qual os segredos da menina Byrne é o expoente máximo, a reportagem chocou-me. E chocou-me não pela feliz recuperação ou resiliência das pessoas que escaparam à morte ou a uma vida de incapacidade, mas ao ar de bruxaria de trazer por casa ou filosofia da pacotilha que envolvia tudo o que ali era dito ou referido. Não se referia ali a um conceito mas a uma espécie de metodologia disponível num livro ou numas sessões de conversa new-age a 19,99€...

É um facto que a atitude positiva e combativa da pessoa impedirá a derrocada física precoce perante maleitas, ou poderá ajudar o corpo a encontrar forças para de alguma forma os mecanismos naturais inverterem uma tendência. A tristeza mata, é um facto. Relembremos sempre Vergílio Ferreira, ou o caso de casais de velhotes que morrem com pouquíssimo tempo de intervalo entre si, como se o corpo desligasse ou simplesmente deixasse de pensar em manter-se vivo, por desistência ou cansaço.

Mas uma coisa completamente diferente, e até me parece algo irresponsável, é passar uma espécie de metodologia, de processo, de mézinha que certamente terá resultados em maleitas para as quais a ciência, infelizmente, não arranjou ainda resposta. Parece-me irresponsável perante aqueles que terão medo, por si ou por pessoas queridas, do toque da morte celular, e que no desespero tentarão tudo. Parece-me até algo cruel vender uma espécie de possibilidade, muito parecida com os pensamentos felizes do Peter Pan que faziam voar.
A auto-ajuda é, em muitas medidas, um logro de conveniências e mental coaching, onde as pessoas ouvem uma espécie de doutrina de doze passos, que suposta e milagrosamente lhes trará tudo... ora entre isto e o Prof. Bambo, só me parece diferir o pagamento a prestações que o último permite. E há teorias para tudo. Poder da mente, poder do pensamento positivo, poder do desejo, etc, etc etc... É querer e já está... ( será que no Rwanda, Iraque, Coreia do Norte, IPO de Lisboa não se vende a cartilha de Rondha Byrne e quejandos... que pouca sorte...)

Olhando para aquelas pessoas que, por desígnios da natureza e sim, talvez algo de força de vontade, conseguiram escapar à cegadeira e pensando nas muitas outras que certamente não terão desejado menos que estas mas foram vencidas pelo inexorável poder da natureza, concluo que nada tenho contra o optimismo, o pensamento positivo, a vontade de viver, a "espevitadice". Mas tenho todas as reservas contra a venda de tais "métodos" ou "filosofias" em enlatados, a qualquer coisa e 99 cts, contra a afirmação de eficácia de algo que perante o desespero e o medo dos muitos que infelizmente não escaparão, surgirá como uma possibilidade que na sua esmagadora maioria não passará de uma esperança vã assente em premissas falsas.

Por tudo isto considerei a reportagem da TVI uma irresponsabilidade, e em certa medida, uma crueldade para aqueles que compreensivelmente lançarão meio de tudo para salvar a sua vida, e que ali provavelmente encontrarão meia dúzia de lugares comuns sobre bom humor diário, mascarados de filosofia, ou método, ou pior, ciência. Essas pessoas mereciam e merecem mais respeito, acho eu...


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