A campanha publicitária do BES, na rádio, é inadvertida a tristemente acertada. Eu ainda gosto de pensar que foi elaborada por alguém com um senso de humor e ironia bem apurados, que sob a capa de uma graça manda uma boca engraçada ao modo de vida de tantos, mas talvez seja apenas coincidência.
"É mais vantajoso", diz o protagonista da publicidade. E refere-se a isto como o móbil para (brr...) casar ou outras coisas relativas ao percurso social aceitável.
A verdade é que este é de facto um móbil dos dias de hoje.
Entre o "está na hora", ou "reúne condições para", ou "é confortável", a verdade é que o móbil para decisões que implicam o seguimento da velha cartilha social dos passos tendentes à "família" está instalado. A quantidade de gente infeliz ou adormecida que se vê, que repetem mecanicamente os dias como se houvessem entrado numa nova pré-programação da sua "finalidade" social, parece passar invisível ao um juízo crítico mais ou menos comum. Parece não importar, ou não existir.
Depois sobe em flecha o recurso ao apoio à saúde mental, às soluções mais ou menos esotéricas, e normalmente em segredo, porque a imagem da normalidade dos processos é sagrada. Com esse recurso, sobem também de forma vertiginosa os atalhos. As portas de trás, os esquemas, as formas de procurar algo que torne muitos dos percursos minimamente suportáveis quando o móbil não é o interesse mas o conforto. Claro que o discurso público é de equilíbrio, maturidade e plena consciência do "papel" a desempenhar. Mas na realidade, acontecem coisas que colocam esses discursos em causa, por vezes de formas tão elaboradas e auto-desculpantes que quase parecem convincentes.
O problema, em meu ver, não são essas realidades. Ninguém é perfeito, e ser humano é ter uma tendência para colocar alguma pata na poça. Não somos lineares e há séculos de estudo da mente para comprovar isso mesmo. Os desejos, os quereres, a paz ou senso de propósito são coisas que dificilmente seguem uma lógica linear ou escorreita. Todos temos lados mais escuros, mais ou menos fraquezas e dúvidas. Não há santos. Embora haja quem goste muito de passar essa ideia, como defensores da "família" tradicional, seja lá isso o que for. (Claro que depois um gajo levanta o bordo do tapete e enfim...) Pregar moralidade estanque é sempre má ideia, parece-me. São quase sempre tiros no pé.
Mas uns de facto tentam mais que outros. Uns são mais apegados à verdade, à tentativa da clareza perante si mesmos, ao respeito pelos outros na medida das suas singularidades e lados lunares. Também fazem merda. Mas não apregoam curriculos exemplares à audiência. Não vestem túnicas brancas como convertidos.
Outros não. Para outros, é mais vantajoso. Cómodo. É "o esperado". O "normal". O que há a fazer. Chamam a isso crescer, e deixam as brincadeiras infantis para o mundo dos segredos mais ou menos escabrosos. Mas o drama social é como a realidade dos jornais desportivos. Sem polémica ou aparente chatice, não se vendem jornais...
Até que estoira. E aí as verdadeiras cores pintam um quadro que de facto não era bonito, por muito que parecesse cómodo, ou socialmente adequado. Exactamente como a verdadeira face de muitos dos créditos bancários. A factura é muitas vezes demasiado cara.
Mas como confesso indaptado face ao percurso social sufragado, reputado como pueril, talvez me falte ver a luz...ou talvez não... :) Ou talvez eu tenha apenas a noção que fazer o melhor que se pode não é ser irrepreensível, mas ter a perspectiva de tentar fazer o melhor que se pode. Não pregar, evangelizar, e sobretudo, não ter como móbil uma espécie de moralidade ou aceitação social por um papel a desempenhar enquanto, nas palavras da minha querida mãe, "arranjados". Porque à semelhança da religião, parece uma espécie de salvamento, de rito de passagem, algo profundamente condescendente e pressupondo que até nas coisas mais fundamentais das vidas de cada um, há que pensar que tudo é sacrifício/trabalho. Pois, não me parece... o que "fica bem" ou é cómodo, parecem-me fracas fundamentações para algo tão fundamental como tentar viver a vida o melhor que se possa e fazer algo também de bom pelos outros no caminho, sempre que for possível. E por aí passa o facto de não as chamar à colação porque "é mais vantajoso", ou porque a modorra do conforto se torna aparentemente melhor e mais respeitável que respeitar os outros ao respeitarmo-nos a nós próprios. E tendo precisamente a noção de que podemos a espaços falhar, porque é essa parte da natureza humana.
"É mais vantajoso", diz o protagonista da publicidade. E refere-se a isto como o móbil para (brr...) casar ou outras coisas relativas ao percurso social aceitável.
A verdade é que este é de facto um móbil dos dias de hoje.
Entre o "está na hora", ou "reúne condições para", ou "é confortável", a verdade é que o móbil para decisões que implicam o seguimento da velha cartilha social dos passos tendentes à "família" está instalado. A quantidade de gente infeliz ou adormecida que se vê, que repetem mecanicamente os dias como se houvessem entrado numa nova pré-programação da sua "finalidade" social, parece passar invisível ao um juízo crítico mais ou menos comum. Parece não importar, ou não existir.
Depois sobe em flecha o recurso ao apoio à saúde mental, às soluções mais ou menos esotéricas, e normalmente em segredo, porque a imagem da normalidade dos processos é sagrada. Com esse recurso, sobem também de forma vertiginosa os atalhos. As portas de trás, os esquemas, as formas de procurar algo que torne muitos dos percursos minimamente suportáveis quando o móbil não é o interesse mas o conforto. Claro que o discurso público é de equilíbrio, maturidade e plena consciência do "papel" a desempenhar. Mas na realidade, acontecem coisas que colocam esses discursos em causa, por vezes de formas tão elaboradas e auto-desculpantes que quase parecem convincentes.
O problema, em meu ver, não são essas realidades. Ninguém é perfeito, e ser humano é ter uma tendência para colocar alguma pata na poça. Não somos lineares e há séculos de estudo da mente para comprovar isso mesmo. Os desejos, os quereres, a paz ou senso de propósito são coisas que dificilmente seguem uma lógica linear ou escorreita. Todos temos lados mais escuros, mais ou menos fraquezas e dúvidas. Não há santos. Embora haja quem goste muito de passar essa ideia, como defensores da "família" tradicional, seja lá isso o que for. (Claro que depois um gajo levanta o bordo do tapete e enfim...) Pregar moralidade estanque é sempre má ideia, parece-me. São quase sempre tiros no pé.
Mas uns de facto tentam mais que outros. Uns são mais apegados à verdade, à tentativa da clareza perante si mesmos, ao respeito pelos outros na medida das suas singularidades e lados lunares. Também fazem merda. Mas não apregoam curriculos exemplares à audiência. Não vestem túnicas brancas como convertidos.
Outros não. Para outros, é mais vantajoso. Cómodo. É "o esperado". O "normal". O que há a fazer. Chamam a isso crescer, e deixam as brincadeiras infantis para o mundo dos segredos mais ou menos escabrosos. Mas o drama social é como a realidade dos jornais desportivos. Sem polémica ou aparente chatice, não se vendem jornais...
Até que estoira. E aí as verdadeiras cores pintam um quadro que de facto não era bonito, por muito que parecesse cómodo, ou socialmente adequado. Exactamente como a verdadeira face de muitos dos créditos bancários. A factura é muitas vezes demasiado cara.
Mas como confesso indaptado face ao percurso social sufragado, reputado como pueril, talvez me falte ver a luz...ou talvez não... :) Ou talvez eu tenha apenas a noção que fazer o melhor que se pode não é ser irrepreensível, mas ter a perspectiva de tentar fazer o melhor que se pode. Não pregar, evangelizar, e sobretudo, não ter como móbil uma espécie de moralidade ou aceitação social por um papel a desempenhar enquanto, nas palavras da minha querida mãe, "arranjados". Porque à semelhança da religião, parece uma espécie de salvamento, de rito de passagem, algo profundamente condescendente e pressupondo que até nas coisas mais fundamentais das vidas de cada um, há que pensar que tudo é sacrifício/trabalho. Pois, não me parece... o que "fica bem" ou é cómodo, parecem-me fracas fundamentações para algo tão fundamental como tentar viver a vida o melhor que se possa e fazer algo também de bom pelos outros no caminho, sempre que for possível. E por aí passa o facto de não as chamar à colação porque "é mais vantajoso", ou porque a modorra do conforto se torna aparentemente melhor e mais respeitável que respeitar os outros ao respeitarmo-nos a nós próprios. E tendo precisamente a noção de que podemos a espaços falhar, porque é essa parte da natureza humana.
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