ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, abril 06, 2010

A campanha publicitária do BES, na rádio, é inadvertida a tristemente acertada. Eu ainda gosto de pensar que foi elaborada por alguém com um senso de humor e ironia bem apurados, que sob a capa de uma graça manda uma boca engraçada ao modo de vida de tantos, mas talvez seja apenas coincidência.

"É mais vantajoso", diz o protagonista da publicidade. E refere-se a isto como o móbil para (brr...) casar ou outras coisas relativas ao percurso social aceitável.
A verdade é que este é de facto um móbil dos dias de hoje.
Entre o "está na hora", ou "reúne condições para", ou "é confortável", a verdade é que o móbil para decisões que implicam o seguimento da velha cartilha social dos passos tendentes à "família" está instalado. A quantidade de gente infeliz ou adormecida que se vê, que repetem mecanicamente os dias como se houvessem entrado numa nova pré-programação da sua "finalidade" social, parece passar invisível ao um juízo crítico mais ou menos comum. Parece não importar, ou não existir.

Depois sobe em flecha o recurso ao apoio à saúde mental, às soluções mais ou menos esotéricas, e normalmente em segredo, porque a imagem da normalidade dos processos é sagrada. Com esse recurso, sobem também de forma vertiginosa os atalhos. As portas de trás, os esquemas, as formas de procurar algo que torne muitos dos percursos minimamente suportáveis quando o móbil não é o interesse mas o conforto. Claro que o discurso público é de equilíbrio, maturidade e plena consciência do "papel" a desempenhar. Mas na realidade, acontecem coisas que colocam esses discursos em causa, por vezes de formas tão elaboradas e auto-desculpantes que quase parecem convincentes.

O problema, em meu ver, não são essas realidades. Ninguém é perfeito, e ser humano é ter uma tendência para colocar alguma pata na poça. Não somos lineares e há séculos de estudo da mente para comprovar isso mesmo. Os desejos, os quereres, a paz ou senso de propósito são coisas que dificilmente seguem uma lógica linear ou escorreita. Todos temos lados mais escuros, mais ou menos fraquezas e dúvidas. Não há santos. Embora haja quem goste muito de passar essa ideia, como defensores da "família" tradicional, seja lá isso o que for. (Claro que depois um gajo levanta o bordo do tapete e enfim...) Pregar moralidade estanque é sempre má ideia, parece-me. São quase sempre tiros no pé.
Mas uns de facto tentam mais que outros. Uns são mais apegados à verdade, à tentativa da clareza perante si mesmos, ao respeito pelos outros na medida das suas singularidades e lados lunares. Também fazem merda. Mas não apregoam curriculos exemplares à audiência. Não vestem túnicas brancas como convertidos.
Outros não. Para outros, é mais vantajoso. Cómodo. É "o esperado". O "normal". O que há a fazer. Chamam a isso crescer, e deixam as brincadeiras infantis para o mundo dos segredos mais ou menos escabrosos. Mas o drama social é como a realidade dos jornais desportivos. Sem polémica ou aparente chatice, não se vendem jornais...
Até que estoira. E aí as verdadeiras cores pintam um quadro que de facto não era bonito, por muito que parecesse cómodo, ou socialmente adequado. Exactamente como a verdadeira face de muitos dos créditos bancários. A factura é muitas vezes demasiado cara.


Mas como confesso indaptado face ao percurso social sufragado, reputado como pueril, talvez me falte ver a luz...ou talvez não... :) Ou talvez eu tenha apenas a noção que fazer o melhor que se pode não é ser irrepreensível, mas ter a perspectiva de tentar fazer o melhor que se pode. Não pregar, evangelizar, e sobretudo, não ter como móbil uma espécie de moralidade ou aceitação social por um papel a desempenhar enquanto, nas palavras da minha querida mãe, "arranjados". Porque à semelhança da religião, parece uma espécie de salvamento, de rito de passagem, algo profundamente condescendente e pressupondo que até nas coisas mais fundamentais das vidas de cada um, há que pensar que tudo é sacrifício/trabalho. Pois, não me parece... o que "fica bem" ou é cómodo, parecem-me fracas fundamentações para algo tão fundamental como tentar viver a vida o melhor que se possa e fazer algo também de bom pelos outros no caminho, sempre que for possível. E por aí passa o facto de não as chamar à colação porque "é mais vantajoso", ou porque a modorra do conforto se torna aparentemente melhor e mais respeitável que respeitar os outros ao respeitarmo-nos a nós próprios. E tendo precisamente a noção de que podemos a espaços falhar, porque é essa parte da natureza humana.


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