A liberdade pessoal tem restrições. Limites necessários porque a malta afinal tem de comer, entre outras coisas. Mas a ideia preferível para mim, talvez seja precisamente o reconhecimento dessa liberdade como um farol pessoal, ou uma derivação do númeno kantiano. A coisa em si, a liberdade pessoal em si como guia compo...rtamental, como lógica que assiste às escolhas e opções, ainda que saibamos ser praticamente impossível a aplicação do conceito de forma constante. Se o conseguíssemos fazer, a realização do conceito acabaria por torná-lo inexistente, na velha consciência da verificação de existência pelo seu exacto contrário.
E realmente, em certa medida, nenhum de nós está totalmente livre. E em parte não é algo triste ou negativo. Está associada também aos nossos afectos, nas responsabilidades associadas aos objectivos ou protecção daquilo que consideramos progressão de vida. Por vezes a liberdade pessoal pode sofrer constrições devidas à forma necessária e simples da vida em sociedade. Tenho o meu feitio, e sabe-se que o defendo por vezes além do desculpável (ou não), mas o meu feitio não pode simplesmente levar tudo adiante (sabendo-se que já leva umas quantas coisas).
Lorenz falava, a propósito dos animais, dos mecanismos de contenção que impediam que se estraçalhassem todos uns aos outros na sua agressividade natural em busca de protecção. Uma loba morde o focinho de um macho alfa, e fá-lo repetidamente, ainda que este pudesse praticamente cortá-la ao meio com uma única dentada. O macho alfa limita-se a dar-lhe umas patadas ou tentar desviar-se, enfadado. Qualquer outro animalito ter-se-ia transformado em lanche. Mas o lobo não se descaracteriza, ao contrário do que se possa pensar. Simplesmente preserva algo que julga ser, no meio de uma mente animal e primitiva, uma espécie de bem maior em termos de sobrevivência, mas o fisiologista não descarta uma qualquer lógica afectiva associada aos muitos mistérios desse tipo de comportamento.
No fundo não somos absolutamente livres porque somos gregários, porque gostamos de uns, detestamos outros, sentimos compaixão por mais alguns e temos de agradar a uns (poucos, desejavelmente). A música do Solomon Burke, já antiga, fala de realidades complicadas, produto da ausência forçada de liberdade, mas o refrão salienta a perfeita noção de uma coisa. Ninguém é livre de si mesmo. O maior condicionamento é interno e surge na percepção e compreensão das coisas. Na forma como as aceitamos, como as suportamos, como as queremos. A ausência de liberdade não está só nas ordens do chefe, ou nos sentidos de trânsito obrigatório, ou nos desmandos do BCE. Está, em meu ver, nas opções que se podem tomar face à ideia que temos de nós, e não o fazemos. No que podemos escolher e deixamos impassível. No que defendemos numa conversa, numa forma de estar, numa opção quotidiana e deixamos ao grupo para decidir.
A liberdade pessoal, nesse aspecto, custa. Custa porque implica a defesa de realidades que, a bem dizer, são ocasionalmente muito chatas. Isolam. Diferenciam. Mas normalmente os factos têm o caraças do condão de mostrar que mais cedo ou mais tarde, o sentido que se sabia internamente existir, acaba por chegar e traz uma factura do tamanho de um rolo de papel industrial. E aí surgem os limites. Acaba-se a acomodação, os papéis e guiões, a lógica do "pouco-barulho" por muito.
Aí a liberdade é necessária, e apenas tardia nos seus efeitos. Sabemos rapidamente, penso eu, que é apenas um eco anacrónico de realidades concretas. É o fisco da coerência interna, associada à inspecção tributária da vontade real e honesta.
E percebe-se, calculo, que entre erros e auto-omissões, a liberdade pessoal é inviolável, sob pena de se viver numa paz podre que embora a maioria aceite como modus operandi social, é a septicemia da identidade própria. E aí, sofremos mutações perante quem nos reconheceu uma forma singular, mas especialmente, perante a ideia que tinhamos de nós. Há coisas das quais, simplesmente, não se pode, ou deve-se o menos possível, abdicar.
E realmente, em certa medida, nenhum de nós está totalmente livre. E em parte não é algo triste ou negativo. Está associada também aos nossos afectos, nas responsabilidades associadas aos objectivos ou protecção daquilo que consideramos progressão de vida. Por vezes a liberdade pessoal pode sofrer constrições devidas à forma necessária e simples da vida em sociedade. Tenho o meu feitio, e sabe-se que o defendo por vezes além do desculpável (ou não), mas o meu feitio não pode simplesmente levar tudo adiante (sabendo-se que já leva umas quantas coisas).
Lorenz falava, a propósito dos animais, dos mecanismos de contenção que impediam que se estraçalhassem todos uns aos outros na sua agressividade natural em busca de protecção. Uma loba morde o focinho de um macho alfa, e fá-lo repetidamente, ainda que este pudesse praticamente cortá-la ao meio com uma única dentada. O macho alfa limita-se a dar-lhe umas patadas ou tentar desviar-se, enfadado. Qualquer outro animalito ter-se-ia transformado em lanche. Mas o lobo não se descaracteriza, ao contrário do que se possa pensar. Simplesmente preserva algo que julga ser, no meio de uma mente animal e primitiva, uma espécie de bem maior em termos de sobrevivência, mas o fisiologista não descarta uma qualquer lógica afectiva associada aos muitos mistérios desse tipo de comportamento.
No fundo não somos absolutamente livres porque somos gregários, porque gostamos de uns, detestamos outros, sentimos compaixão por mais alguns e temos de agradar a uns (poucos, desejavelmente). A música do Solomon Burke, já antiga, fala de realidades complicadas, produto da ausência forçada de liberdade, mas o refrão salienta a perfeita noção de uma coisa. Ninguém é livre de si mesmo. O maior condicionamento é interno e surge na percepção e compreensão das coisas. Na forma como as aceitamos, como as suportamos, como as queremos. A ausência de liberdade não está só nas ordens do chefe, ou nos sentidos de trânsito obrigatório, ou nos desmandos do BCE. Está, em meu ver, nas opções que se podem tomar face à ideia que temos de nós, e não o fazemos. No que podemos escolher e deixamos impassível. No que defendemos numa conversa, numa forma de estar, numa opção quotidiana e deixamos ao grupo para decidir.
A liberdade pessoal, nesse aspecto, custa. Custa porque implica a defesa de realidades que, a bem dizer, são ocasionalmente muito chatas. Isolam. Diferenciam. Mas normalmente os factos têm o caraças do condão de mostrar que mais cedo ou mais tarde, o sentido que se sabia internamente existir, acaba por chegar e traz uma factura do tamanho de um rolo de papel industrial. E aí surgem os limites. Acaba-se a acomodação, os papéis e guiões, a lógica do "pouco-barulho" por muito.
Aí a liberdade é necessária, e apenas tardia nos seus efeitos. Sabemos rapidamente, penso eu, que é apenas um eco anacrónico de realidades concretas. É o fisco da coerência interna, associada à inspecção tributária da vontade real e honesta.
E percebe-se, calculo, que entre erros e auto-omissões, a liberdade pessoal é inviolável, sob pena de se viver numa paz podre que embora a maioria aceite como modus operandi social, é a septicemia da identidade própria. E aí, sofremos mutações perante quem nos reconheceu uma forma singular, mas especialmente, perante a ideia que tinhamos de nós. Há coisas das quais, simplesmente, não se pode, ou deve-se o menos possível, abdicar.
1 comentário:
Não sei por que carga de água, mas acabei de me lembrar quão curioso é o facto de, sem saberes (penso eu), teres escolhido para acompanhar este texto sobre a (necessidade da) liberdade uma música que serviu para acompanhar o desfecho de uma série* que teve tudo a ver com as consequências das escolhas que se fazem(e para haver uma escolha existiram certamente alguns graus de liberdade). Liberdade, sim, mas não esquecendo as "dimensões ocultas" dos outros (i.e., atenção às fronteiras).
* Californication (again...) mas não é a versão do David :-)
HM
Publicar um comentário