ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, dezembro 30, 2010

Nunca escondi a ninguém que o final de ano é um período que não me é especialmente simpático. Especialmente desde há uns anos para cá. Ao contrário do Natal, que apesar dos pesares, é época que me toca sempre, a verdade é que este completar da órbita não me é simpático. Tenho algumas razões, mas talvez também tenha uma espécie de lógica interna relativamente a situações que, se é certo que são inícios, também representam finais, e como tal, é coisa com a qual lido mal.

A imagem do ano velho, com a segadeira e a ampulheta, que depois a passa a um bebé de fralda que segue em frente com tais utensílios deixa-me, sei lá eu porquê (talvez pelas mesmas razões insondáveis que o Natal me alegra), num estado taciturno. O fim do ano éuma angústia híbrida, já que parte dela consigo explicar, e outra não. Esta última sinto-a, e como tal, enquadro-a nos meus factos, mas desconheço de forma, pelo menos total, todos os seus mecanismos. Há algo de urgência nesta altura que me incomoda ligeiramente, algo de expectativa, de rituais que se fazem, de real esperança que se sente, e depois o olhar para o horizonte da concretização.

 
O fim do ano tem para mim também uma outra característica. Nos últimos anos tem-se revestido de situações que resolvem explodir precisamente nesta altura, o que não ajuda muito à gestão do fenómeno, por um lado, e aumenta perigosamente o desejo de esperança, por outro. Invejo tremendamente aquelas pessoas que conseguem divertir-se destravadamente nesta altura. Talvez porque essas pessoas conseguem, de forma eficiente e espantosa, repercutir esse sentimento durante muitos períodos do ano. São pessoas que riem de forma solta durante muito tempo, ou pelo menos assim o declaram.

Mas aí, aliás como noutras coisas, o problema é mesmo meu.

No entanto, há alguns anos que este fim de ano não era tão temível para mim. Ou pelo menos, que não o sentia assim. Há anos que não era tão complicada a conjuntura, que a esperança não se debatia com tantos medos, que o mundo pragmático e social de todos os dias não acompanhava também as fracturas e abalos da minha esfera pessoal. Há muito tempo que não tinha tanto medo do que ali vem, e do que me possa atrever a desejar. Há muito tempo que não me sentia tão cansado, e com a ideia do quanto isso se pode intensificar com o que 2011 perspectiva.

Não quero de forma nenhuma dizer que tenho uma ideia niilista, ou que imagino que nada tem resolução. Pelo contrário. Há que resistir e tentar fazer melhor. Sempre. Mas a verdade é que os finais de ano teimam em reservar surpresas ou epílogos complicados, e cada mordidela nas passas e cada desejo surdo se parece cada vez mais com um anseio intenso por algo que uma aleatoriedade com um sentido de humor meio torto teima em não ordenar.

No entanto, como é óbvio, ou pelo menos deveria ser, o desejo de felicidade a todos nesta altura é sincero. Como digo acima, aquece-me saber que de facto, de entre aqueles de quem gosto, há quem sinta esta altura como mais uma forma de celebração de vida, de momentos, de marcos, de fundação da memória que permite viver a vida a mais que um tempo. Tenho um ódio de morte ao Aud Lang Syne (risos), é verdade, mas os afectos estão cá, e a nostalgia pelos mesmos é também o reconhecimento da sua existência. É um sinal de vida. Mesmo os que permanecem teimosamente e sem grande explicação. Mesmo aqueles que vivem perante todas as agressões que sofrem. Os eventos ainda não me conseguiram secar, e acho que pelo menos isso é espaço para mais uma respiração funda. Se 2011 puder ser um bom ano, espero que o seja nunca só para mim, mas para vários a quem quero bem. Que lhes possa ver paz e riso fácil no semblante.

Por isso, tenham um "revelhão" de arromba.  Sorriam sem darem por isso.

FELIZ 2011.


P.S. - O ano que se avizinha é complicado em todas as frentes da nossa sociedade. Tudo se está a contrair e o mundo convulsiona-se com viragens e mais viragens. Tenho esperança que, para além da porcaria necessária a nível das cúpulas, que haja uma percepção de que, sendo feitos de gregariedade, teremos necessariamente de pensar nela enquanto tal. Que seja um ano onde não se apredejem pessoas, não se arruinem famílias, não se agridam mulheres, não se enganem pessoas honestas, não se deprede (ainda mais) o planeta, não se ache que algo insubstanacial como a economia virtual arrase com a já doente coesão social num mundo que tanto precisa dela. Que possamos lutar pela nossa vida diária, sem ter a noção de que a cada passo o medo está lá, como um falso brocardo economicista, como se a sociedade pudesse viver sem ela própria. Por isso, espero....


1 comentário:

Anónimo disse...

Final do ano simpático ou não... O que importa agora, é o ano novo. BOM ANO!!!

(A escolha musical, sempre muito boa!!)