Quando encontramos a definição para algo, normalmente é porque a sua função e importância se auto-justifica. Faz-se presente. É real.
A noção de família é a definição de algo que atravessa cada elemento do que nos identifica e constrói. Se pensarmos na palavra “familiar”, então uma das possíveis definições assenta precisamente numa percepção do que nos faz sentido, do reconhecível, do que somos fora de nós mesmos. O que leva à conclusão de que realmente nada seremos sem a pertença, e sem que esta seja reconhecida inconscientemente. Somos “familiares” não (só) pela biologia, mas porque faz sentido que assim seja. Os laços nascem, como lianas em torno de edifícios que vão acompanhando os tempos e deixando que a pedra se envolva com algo que lhe dá vida.
Cada elemento de uma unidade tem características. Essas características constroem uma história, e é esta que aldraba o terrível truque que o tempo executa ao passar sem pedir qualquer licença. Essa história torna tudo o que é enorme apenas algo lá fora perante o que nos centra, como uma âncora pesada numa escuna que abana perante o manto infindo de mar. É quem nós somos, parece-nos familiar, é o que levamos quando outros laços se formam. É o responsável pelo que nos tornamos, pelo que executamos na sobrevivência do que resiste ao que de mal também fazemos. O familiar é a absolvição de quem sabe onde andamos, o que somos, e até que ponto a humanidade sobrepuja (ou não) aquilo que nos faz menos bons.
Eu tenho a perfeita noção de que nada faria sem o que me é familiar. Embora seja um cliché verificar-se que a noção de família transcende em muito a biologia, a verdade é que essa transcendência funciona como um escantilhão no qual se desenham muitas das palavras que fazem o meu contorno pessoal. Como ar quente dentro de um balão, o familiar permite que esse ar ganhe formatos, cores, e até interaja em fenómenos. Esse familiar ensinou a maioria dos conceitos, a percepção do respeito pelo elementar, a vivência do humano em tudo o que se ama, detesta, salva, perde, deseja ou logra. O familiar é assim, a casa, na qual reconhecemos os cantos e fechamos a porta, em descanso, mesmo quando não há luz. E é essa percepção que vive mesmo quando nada está ali senão a memória, ou uma voz comunicada electronicamente, ou a dedicação do maior triunfo possível.
Ama-se o “familiar” através de um paradoxo. Se pensarmos bem, qualquer manifestação de amor é um reconhecimento, e nada é mais reconhecível que o “familiar”. Pense-se num juízo estético, num assomo de paixão, numa fraternidade imorredoura. Pense-se no medo, na agressividade protectora, nos reflexos criados pela capacidade de gostar que nem sequer consegue pressupor uma questão apenas racional. Ama-se o “familiar” porque mais do que ser nosso, somos nós que lhe pertencemos. O familiar é o anti-absurdo, é o interruptor que menor hipótese tem de entrar em curto-circuito, mesmo quando as divisões parecem desabar em meio a um qualquer cataclismo. É quem somos, num mapa desenhado a sangue possível.
1 comentário:
De todos os textos que tenho tido o prazer de ler este foi o que mais me marcou e o que mais me disse.
De facto a família é algo que não se explica...
É, simplesmente. Somos, simplesmente.
Sem qualquer explicação... porque vivemos, porque se sentimos. Somos nós... resultado das nossas circunstâncias.
Sem palavras...
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