ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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domingo, outubro 23, 2011

Não que haja alguém a ler, ou talvez pouco leiam, mas importa dizê-lo, por uma série de motivos que provavelmente só a mim me assistem, ou talvez não. 
O Estações Diferentes acaba aqui, ou pelo menos pausa durante muito tempo. Vou apenas transladar o espólio e depois ficará inacessível ou desaparecerá. 
Talvez abra noutro sítio, talvez com outro nome, talvez nada surja. Não sei. 
Sinceramente, já sei pouca coisa. E percebo ainda menos.
Até qualquer dia, neste ou noutro local. 
Como digo, não sei. 


"Get Busy Living or Get Busy Dying."

terça-feira, outubro 04, 2011

Embora haja uma tentação para pensar de forma diferente, as pessoas são perseguidas por algo a vida inteira. Seja por aquilo que os ingleses tão intraduzivel e brilhantemente designam de wanderlust, por traumas familiares, por má relação com a central da tentação, por perfeccionismos quase destrutivos, ou simplesmente porque alguns fios nem sempre conectam e em consequência, a mente como que se mastiga a si mesma numa espécie de apetite abstracto que é incapaz de identificar a sua fonte de saciedade, quanto mais chegar até à mesma.
A verdade é que é esse reduto de pretensa desadequação que permite uma voz original. É como não conseguir ficar quieto ou ter a noção de que nunca se disse a última palavra. É perseguir. É perceber que só se respira no movimento e que a paixão nasce do que conseguimos traduzir em luz oriunda desses locais recônditos, misturado com o que nos mostram. Em tempos chamei-lhe um traço de desgraça. Mas permito-me uma alteração. É a marca da vivência, a religião do tentar, a marca da pergunta, o desejo irreprimível de mover (se).
Um rio parado é água morta. Simples. Ainda que violentamente, a vida move-se. Necessariamente.


sexta-feira, setembro 23, 2011

Do que percebo, a propósito das muitas coisas em que me engano, é que a dúvida instala-se e com ela a implacável metodologia da reanálise. Talvez não devesse ser o primeiro instinto, mas a verdade é que o movimento inicial é de auto-dúvida. O que está mal feito tem de ter responsabilidade própria. Seja por insegurança, pela consciencia dos fios mal ligados e as peças defeituosas, porque não consigo ficar descansado onde outros tanto repousam e vice-versa, ou porque os efeitos de tantas coisas ultrapassam qualquer ideia ou intenção que pudesse inicialmente ter tido, a verdade é que as minhas explicações levam tempo a assentar. Aquelas que dou a mim, através da análise lógica das coisas, conseguindo sentir-me bem comigo muito menos vezes do que as minhas férreas teimosias poderiam dar a entender ao observador.
No fundo quero perceber. Olhar para os outros olhos, ouvir as outras vozes e perceber exactamente de onde vêm o motivo do que se passa. Especialmente quando a tendência é para fugir e encaracolar, levando tudo dentro do saco.

quinta-feira, setembro 22, 2011

É tudo uma merda.
Um embuste que num ápice nos vira a vida de pantanas e provoca as mais incómodas questões.
Ou então é um azar do caraças.
Ou ambos.
A verdade é que a chance de que seja tudo uma inutilidade é tão grande que realmente, como me dizia uma amiga, correr o risco de que sejamos realmente invadidos e, como tal verdadeiramente vulnerabilizados, parece uma estupidez sem tamanho. E, infelizmente, é o que parece ser.
Passo a passo, até não se conseguir mais.
Até ser tudo tão insuportável que a lógica que nos assiste na simples tentativa de sobreviver sem ficar maluco é uma ingenuidade.
Sim, felizmente alguns de nós não andam a morrer à fome. Nem perderam um braço ou duas pernas. Nem têm um quadro de saúde que seja uma promessa negra. Mas não é por isso que a vida por vezes não parece uma merda, e que as coisas não doam.
Talvez seja o maior embuste de todos. Convencer-nos de que não teria necessariamente de ser assim.
A pendência da morte dá verdade e substancia incomparada às coisas, dizem-nos séculos de literatura e outras artes. Puta que os pariu, é o que lhes digo.

quinta-feira, setembro 15, 2011

terça-feira, setembro 13, 2011


Sempre tive a ideia que deveríamos tentar ao máximo ser agradáveis e o melhor possível para os que nos rodeiam. E se não pudermos fazer nada de bom, pelo menos não fazer mal. Parece-me uma premissa lógica e perfeitamente enquadrável. Erguer e não deitar abaixo. Construir e não terraplanar. fazer e não constribuir para desfazer.

Simples.

Adjacente a esta ideia está, obviamente, a clara noção de respeito pelas visões distintas, mas, claro está também, desde que estas consigam de alguma forma argumentar-se a si mesmas quando são antagónicas. Simplificando, se olhamos para um azul-turquesa, é perfeitamente aceitável que uns digam verde e outros azul. E cada um argumentará a razão pela qual a cor lhe parece uma ou outra, embora este admita que este não seja um bom exemplo porque é complicado argumentar cores. Mas se a ideia for contrapor que o azul turquesa é afinal um claro amarelo, a coisa aí já se complica. E porquê? Porque os códigos são incompatíveis e as pessoas perdem a capacidade de argumentar porque nem sequer falam da mesma coisa.

É a chamada conversa de surdos ou cegos, ou o que se quiser chamar-lhe. Até acredito que se possa tentar ver o ponto de vista do amarelo, porque afinal o verde (sim, eu acho que o azul turquesa é, a mais das vezes, um verde estranho) é composto de amarelo e azul misturados. E é aqui que entram os malfadados montadores de cavalos de madeira gigantes e os entrincheirados. E a asneira começa, porque ao tentar ver mesmo os pontos diferenciados, o que é tentativa de arsmitício é tomado por agenciamento duplo ou "troca-tintice".

Lamentavelmente.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Do ponto de vista estritamente lógico, a medida da eficácia é incontestável. Quando queremos aplicar um golpe, e temos para nós que ele deve ser eficaz e maximizar o seu efeito, a premissa é simples. Atingir onde dói. Mesmo. Não é neurocirurgia, só a vertente mais feia de senso comum. Simples, se é para fazer, que seja à séria.
Mas quando a desproporção se instala, como é que se racionaliza um impacto demasiado grande para uma premissa que nunca o justificou? Será a lente de aumento trazida precisamente pelo antónimo de um juízo, ou seja, quando a racionalização fecha a loja?
Não faço ideia.
Muitas pessoas têm de facto um talento imenso para desenhar o que não está lá, para tomar o númeno pela sombra, para argumentar com a insubstancialidade, para fazer de uma dentadura de plástico as pretensas fauces de monstros verdadeiros. Ainda que, e sempre, os motivos para tal sejam sempre arredios e mal contornados, como as sombras nas quais nada se vê mas muito se adivinha.

Eu cá por mim gosto mais de coisas como as que proferia o Adivinho Prolix:
"Tambem lês na cerveja?"
"Quando bem tirada, torna-se muito legível!"

Lá está, a bebedeira do espírito faz ver coisas... é chato é que muitas delas são mal intencionadas...

quarta-feira, agosto 31, 2011


A (quase) unanimidade é engraçada. Tem uma espécie de lógica muito curiosa, porque chega a uma certa altura em que explicá-la é quase como tentar definir o seu objecto mais do que ele se consegue definir a si mesmo. E quando é negativa, é ainda mais engraçado, porque qualquer resistência é mesmo fútil. Definem-nos ou definimo-nos, e ainda assim, o resultado e o custo é o mesmo. Mais vale sorrir. Quando se consegue. :)

quinta-feira, agosto 25, 2011


Como eu, certamente muitas pessoas já tiveram ou terão um lugar num grupo de amigos que perdura ao longo do tempo. Certamente ninguém ignorará que esses grupos perduram mesmo com heterogeneidades vincadas entre os seus membros, e a pergunta relativamente ao substracto afectivo deverá se recorrente. E no fundo a pertinencia desta pergunta assenta numa outra, ou outras. Quais? Simplesmente as que têm a  ver com a solidez, pro-actividade e efeitos dos laços (criados?). Como são esses laços. Como se manifestam? De que forma as pessoas investem nos mesmos? Se o fazem, porquê? Se não o fazem, porque não? Como se alimentam? Como se dão uns aos outros? Que papel tem a verdade das coisas e dos factos na solidez da estrutura afectiva e gregária que sustenta um grupo de amigos? Que benefícios poderão ter as mentiras, brancas ou não, quando estas se tornam complicadas à medida que certas coisas se aprofundam ou acontecem, como sofrimentos, mudanças, cedências e até invasão de espaços por novos intervenientes? Até que ponto é que os membros desses grupos acham que devem saber das coisas antes de especularem sobre as mesmas?

Nada disto é de fácil resolução. Até porque, e isto baseado apenas na minha experiência pessoal, é algo recorrente. Parece haver uma inversão proporcional entre a profundidade das questões e a perenidade dos laços. Há uma alergia subreptícia à verdade ou ao aprofundamento dos efeitos da mesma. Há uma lógica estranha que parece subsistir de uma espécie de "pax romana", porque olhar para certos fenómenos pode ter várias consequências - ver o que não se quer, e poder chegar à conclusão que está à nossa porta.

A verdade é que em muitos grupos as pessoas evitam dizer a verdade. Evitam confrontar-se com ela porque há uma ideia de que esta é incompatível com a convivência das tais heterodoxias. Como se a verdade dos factos pudesse dinamitar o equilibrio dos laços. Ora, em meu ver, e muito simplesmente, se isso for levado ao extremo, é a própria solidez dos laços que está em causa, porque aparentemente está assente em pressupostos que não são reais. Quem constitui os grupo não é então quem lá está, mas uma representação conveniente e adaptada. A malta arranja-se, encaixa-se, e enquanto a convivência for mais leve e superficial, tudo é passível e possível.

Mas no meio de tudo isto entram as dores, as perdas, os danos, os enganos, os descasos, as solidões. E quando se tornam relevantes, a superficialidade estala como gelo demasiado fino debaixo da Popota patinadora. A profundidade torna-se uma evidência, e com ela, a verdade terá necessariamente de vir, ou o que se vende é precisamente aquilo que já existe. E a verdade pode ser chata e dolorosa. Uma filha da puta, ocasionalmente, que não poupa ninguém ou quase ninguém. E que pode mesmo por à prova os laços, porque se eles não existirem de facto não resistirão a um estirar brusco feito da realidade onde de facto se vive.

Assobiar para o alto é uma hipótese. Montar o teatro é outra. Deixar andar e esperar que passe é ainda outra. Mas a questão que se coloca é até que ponto a auto-mentira se torna tão convicente ao ponto de se externalizar como uma máxima ou cartilha de pertença, gregaridade ou mesmo, pasme-se, afecto. Gostaremos então enquanto não se levantarem ondas? Mente-se de forma branca para não arranjar chatices? Ou porque não temos tempo para ir em direcção a alguém porque temos tanto a tratar no nosso dia?

Façamos um exercício. Quantas vezes é que perguntámos como é que ela realmente se sentia? Quantas vezes é que descartámos o alívio ou descanso de consciência que nos dá o conveniente "não se passa nada"?  Quantas vezes é que quisemos mesmo ver para dentro do caos de alguém e retirar sobreviventes? Quantas vezes é que a verdade menos bonita, mesmo entre amigos, poderia vir para cima da mesa e ser discutida como algo absolutamente necessário e característico dos laços?
Pois... pois é....

O problema nestas coisas é que a mentira branca também se encarde, e a acumulação das ditas começa a enegrecer o cenário. A convivência e a sobrevivência dos laços e das diferenças não pode assentar apenas na deformação dos factos, ou na ideia de que é convincente uma única demão de tinta que estala por todo o lado. A verdade pode morder, mas normalmente, desde que em alguns casos afirmada com coração aberto e de pendor construtivo´, serve como cimento de secagem rápida, e não martelo de demolição. Nem toda a verdade é possível, e quem o acha, é ingénuo. Nenhum tipo de laço sobreviveria a tal abstracção. Mas há verdade necessárias, muitas, e a solidez dos laços não pode ser apenas enunciada pelos sorrisos dos reencontros, mas pelo conhecimento de facto de quem são os membros desses grupos, e o reconhecimento do afecto através da percepção real do outro. Ir lá. Mexer. E saber a verdade, mesmo que isso signifique que ficamos mal na fotografia, mas até queremos remediar e reconstruir.

Só assim se impedem mortes, especialmente aquelas que nunca o aparentam.
Só assim, em meu ver, se é parte de algo múltiplo, rico, e acima de tudo, verdadeiro. Porque só assim realmente vive.

(SPOILER ALERT! - O TRECHO DO FILME É O FINAL DO MESMO, PORTANTO QUEM NÃO VIU E QUISER VER, NÃO DEVERÁ CORRER O LINK - O FILME É "LES PETIT MOUCHOIRS" E RECOMENDA-SE.)





segunda-feira, agosto 22, 2011


Muitas pessoas tendem a pensar que eu sou uma espécie de pessimista sorumbático que procura os lados escuros para aumentar este estado, ou para ter um tipo de prazer ilógico, como se me alimentasse do que não é bom, do que custa ou do que é menos bonito.

A primeira reacção é, passo a expressão, reagir. Negar e explicar em termos muito lógicos, ou assim gosto de pensar, a razão pela qual essa não é a intenção de todo. Depois paro e penso um bocadinho sobre o assunto. E sei que quando vejo a cor escura, ela de alguma forma entra no sistema, como uma necessidade de escorar a realidade em alicerces que, pelo menos, não me aldrabem condescendentemente. Há algo na descoberta das faces ocultas que me faz gostar mais das solares. É como se algo naquele tipo de seres fosse confiável, como se o desejo de ultrapassar ou pelo  menos incorporar de forma minoritária essas tais "falhas" tornassem as virtudes tão mais humanas, sinceras e palpáveis.

A natureza humana é vária, já la me dizia alguém, e embora negue violentamente o niilismo como sendo a pior forma de cobardia existente, a verdade é que há algo nos cantos escuros que enverga o fascínio das coisas complexas e passíveis de viagens de descoberta. E não há gozo maior que esse da viagem. Afinal, quando evoluímos, julgo que o tentamos fazer para fora dos nossos pântanos, mas é desonesto fingir que a lama não se colou às nossas vestes.

Não procuro avidamente a escuridão das coisas, mas ela dá-me alguma tranquilidade. É estúpido, eu sei, mas tendo a desconfiar de visões límpidas e bonitinhas das coisas. Odeio de morte os "felizinhos", a tontaria alegre que empurra qualquer coisa com mais substância com a barriga, chamando-lhe curva da felicidade e não o que é, excesso de peso devido a cú preguiçoso e pesado. E tanto pior se for metafórico/intelectual.

As pessoas "normais" e "muito felizes" assustam-me. É muito chato dizer isto, mas desconfio delas e das suas máximas açucaradas e permanentemente afundadas num anúncio de cerveja. Sou um fã muito maior dos cenários poeirentos de onde a ternura e a felicidade emergem como brilhos verdadeiros, não importando a superfície de onde refulgem. Deve ser por isso que (também) gosto de histórias brutais, inclementes, duras, mas de onde também jamais surja a cor podre da desesperança niilista que se traduz na dormência. Deve ser por isso que me surge um sorriso quando da boca do moralista surge a perversão, quando do honesto nasce a dúvida, quando do determinista aparece a questão, quando no pano alvo há a nódoa que lhe dá consistência ou função. Gosto quando nos conseguimos ultrapassar, mas quando não nos renegamos. Quando assumimos a nossa contribuição para o clube da escuridão, mas somos afinal filiados na associação luminosa. Quando sabemos que tudo nunca pode ser só um estado, e nos tornamos tão mais interessantes por termos dois hemisférios onde dia e noite, lá está, alternam.

Sou, por isso, um pessimista moderado. Não me alimento da fatalidade menos limpa, mas apenas das histórias onde esta vence, e especialmente aquelas onde ela vai à barrela. Para mais esclarecimentos, ver "Pequenas Mentiras entre Amigos", e alguém o explicará infinitamente melhor do que eu. Fingir que nada se passa, ou que está tudo bem, é uma mentira tão grave que pode chegar à morte.
E disso sim, não quero fazer qualquer parte...




Tendo a pensar que me preocupo demasiado com as coisas que não controlo.

Acho que não é patologia isolada, mas nem por isso a torna mais justificável.

O problema é que também não a evita. :)

terça-feira, agosto 16, 2011

Não há nada mais hilariante e, ao mesmo tempo, mais susceptível de pena e desprezo, do que alguém que se apercebe e orgulha em ser estúpido que nem uma porta, e reforça essa opção.
A ignorância pode ser uma fatalidade por factores não imputáveis (a sabedoria não obedece a padrões), mas a estupidez é opcional. A opção pela parvoíce é própria de uma concepção do mundo onde tudo é possível, mas precisamente pela antínomía da liberdade, ou seja, o mundo como uma ostra própria, onde só o habitante é que ainda não percebeu do cheiro a podre.



Alguns idiotas sem nome veicularam uma ideia de que a minha pretensa sexualidade ou identificação sexual estaria em causa. E são tão estúpidos que nem sequer percebem o que me aborrece nessa parvoíce ou pretenso golpe de maledicência.
O que me chateia não é que façam esse juízo, por muito absurdo que seja, mas porque achem que isso me incomodaria ou ofenderia enquanto pessoa, se por acaso fosse verdade. Chateia-me precisamente porque me medem com os olhos deles e a sua visão pequena, triste e ofensiva do mundo. Vêem-me à sua imagem, e a ofensa está aí. Nada me envergonharia mais.

segunda-feira, agosto 15, 2011

É curioso quando conseguimos, mesmo sem saber como, percorrer todos os espectros de opinião ou afecto nas mesmas pessoas. No entanto deixa-nos perplexos, porque seremos nós que mudamos sem dar por isso, ou percebemos que muitas pessoas simplesmente não faziam ponta de corno de ideia de quem éramos (somos)? Que a preguiça associada à tacanhez e incapacidade de questionar minimamente as coisas torna mais fácil a detracção, mesmo que em nada corresponda à verdade?
Chega a ser estonteante a diametralidade de versões mirabolantes de uma vida que, epá, que estranho, é a nossa, e que aparentemente alguns se permitem dar lições e versões sobre algo que conhecemos, ou devíamos conhecer bem melhor que qualquer "opinador" de serviço.
E o mais espantoso é que o fazem sem fazer uma única pergunta, demonstrar um único facto ou confrontar uma única vez o objecto de tão fantasiosas transferências para uma vida que não têm ou nunca tiveram.
Seria divertido, se não fosse triste. Pensando bem, dá vontade de rir, pelo menos em parte, como a "punch-line" de uma piada de humor realmente negro e quase insultuoso.




Ser um pessimista moderado é fazer um acordo com a realidade sem partir todas as lâmpadas ou tapar todos os focos de luz. Fica colado como pele. Nunca se cresce para fora dela, por mais que se ache o contrário. Mas é a medida de luz que também a constitui que lhe dá a lucidez, e rejeita a cobardia do niilismo, ainda que se tenha uma pontaria, talento ou tendência para ver o mais escuro nas pessoas e realidades...




segunda-feira, agosto 08, 2011

A palavra porcaria tem uma dimensão que ultrapassa em muito a sua lógica imediata. Em primeiro lugar é uma palavra justa, pelo menos a maior parte das vezes. Assinala um estado de apodrecimento, de corrupção da matéria que, no entanto, pode não ser exactamente estrutural. Como assim? Bem, se eu deixar cair um maravilhoso e fresco pedaço de pão alentejano ao chão, em cima de uma porcaria de uma poça de lama ou de óleo, posso sempre colocá-lo em cima da mesa, agarrar numa faca e cortar o pedaço que está sujo. A porcaria colou-se, mas não tomou conta do objecto.
Doutra forma, de eu deixar um iogurte fora do frigorífico, ao sol, durante dois dias, fica uma porcaria. Torna-se uma porcaria, irrecuperável, feita em si mesma de tudo o que não presta, e uma vez entrada em qualquer sistema, vai fazer estragos, normalmente daqueles que necessitam de intervenção médica. O que fica apenas é a recordação de algo que era são, mas que se tornou uma porcaria.
E finalmente, há a terceira forma. Se alguém fizer uma ferida e infectar, aquela zona do corpo fica uma porcaria. O pus tem um cheiro pestilento e repugnante, mas no fundo é o produto da expulsão do corpo, quando este recusa a morte ou a porcaria. E no meio de um organismo são, a porcaria pulsa, porque o corpo a tenta expulsar, porque sabe que a sua corrupção pode tornar-se perigosa para a integridade de um sistema que não é, vá lá, pelo menos uma grande porcaria. É por isso que os meios curativos podem arder, mesmo, ou especialmente aqueles que podem abalar a própria estrutura na defesa que lhe fazem. E é a estrutura que se prepara para isso, que se prepara para as consequências de um reconhecimento através do qual, a muito duras e solitárias penas por vezes, nadar no meio da porcaria não significa de facto aceitar de ânimo leve qualquer confusão com ela.
O ardor da terapêutica é um pouco a lógica do merecimento e estar preparado para aceitar que qualquer recuperação nunca elimina a noção de dano é por sua vez dar uma luz límpida a tudo o que se reconstrói. A porcaria pode fortalecer o sistema do qual faz parte. A graxa ou óleo de motor são sujos, mas sem eles a engrenagem não funciona, nem sequer se optimiza. A porcaria é a própria catapulta das coisas que brilham. É a consistência da complexidade, é o que temos a descobrir nos outros, são aqueles dentes podres, mas bem afiados, de que a verdade também é feita.
A consciência é isso mesmo. É o que fazemos emergir da porcaria, e através da verdade mais conseguida (porque total, esqueçam lá isso), consegue talvez fazer bem mais do que a ilusão de linearidade. Essa linearidade é como um leite creme impecavelmente queimado. O problema é que quando se vai a partir a casca, percebe-se de que real material é feita aquela capa castanha ou preta, e o cheiro que sai do amarelo leitoso é tudo menos doce. E isso sim, é a porcaria que infecta e mata. Aquela que, enquanto não lhe mexerem, dura uma vida inteira.





quinta-feira, agosto 04, 2011

Algumas (muitas infelizmente) pessoas são pequenas. Crianças. Nos seus joguinhos patetas de invejas, conspirações, segredinhos, conjecturas e manipulações, são como pirralhos a quem faltou um bom par de lamparinas. Sorriem nos plenários dos seus pequenos golpes de estado, com os dentes expostos num esgar asqueroso, próprio das insignificantes megalomanias das suas “vidinhas”. Algumas pessoas são pueris, na sua crueldade infantil, na sua manipulação, no seu egocentrismo monstruoso mascarado de boa vontade preventiva, derivado do facto de já não serem do tamanho das crianças.

Algumas pessoas intitulam-se "normais", na pior forma que esse termo pode assumir, o qual assenta numa malevolência indignada e dirigida seja a quem for, num formato mais próprio da definição de preconceito. São crescidos, dizem, já sabem o que é a vida, afirmam, e atiram a matar para tudo o que foge da sua concepção pré-falecida do que é precisamente, estar vivo. O ponto a que essa velhacaria pode ir, deveria ser cómico e não assustador, deveria gerar humor involuntário e não tristeza, mas é pequeno e danoso como um vírus, e assim como a ignorância, é da cor do ar. Infiltra-se e destrói.

As ovelhas negras confessas, ou os "indesculpados", assumem-se então de pleno direito. Sabem que jamais serão desculpadas pelo ultraje de se permitirem viver e deixar viver. Chatice do caraças, digo eu... :)

quinta-feira, julho 07, 2011

Quando se encolerizam, as pessoas só dizem dois tipos de coisas. Agressões impensadas, ou verdades que resguardam com o cuidado da afeição. E quando, por sua vez, são estas que emergem, percebemos até que ponto elas vão, e o quão sentidas são por quem as profere e guardou durante tanto tempo. E guardará.
Quando assim é, por mais dolorosa que seja a conclusão associada a essa verdade, não vale a pena escapar-lhe. Ou sequer tentar. Temos apenas a revelação de algo que tentámos toda uma vida alterar, apenas para perceber que certo tipo de esforços de nada valem porque nunca conseguimos senão dar essa imagem ou conceito de nós próprios. E é aí, que ao percebermos as ineptitudes e insuficiências, só podemos escolher, igualmente, uma de duas coisas. Continuar a tentar alterar aquilo que nunca se alterou, ou mudar, assumindo em pleno um papel que ainda que não reconheçamos, é o que acabamos por ter. Lamentavelmente, na cólera de certas coisas, surgem verdades dolorosas, e sabemos exactamente, a olhos importantes, aquilo que de não passamos. E assim é tempo de mudar, e aceitar isso mesmo. Viver de acordo com o que se é, ainda que julguemos uma coisa, e percebamos, ao longo de tanto tempo, que nunca deixaremos de ser uma (pequena) outra. Assim seja.


quinta-feira, junho 30, 2011

"You had something to hide

Should have hidden it, shouldn´t you

Now you´re not satisfied

With what you´re being put through

It´s just time to pay the price

For not listening to advice

And deciding in your youth

On the policy of truth

Things could be so different now

It used to be so civilised

You will always wonder how

It could have been if you´d only lied

It´s too late to change events

It´s time to face the consequence

For delivering the proof

In the policy of truth

Never again is what you swore the time before

Never again is what you swore the time before

Now you´re standing there tongue tied

You´d better learn your lesson well

Hide what you have to hide

And tell what you have to tell

You´ll see your problems multiplied

If you continually decide

To faithfully pursue

The policy of truth

Never again is what you swore the time before..."

Policy of Truth - Martin Gore
Como em todas as coisas importantes, a gestão da verdade é um dos maiores bicos de obra da vida em sociedade, ou da mecânica relacional e gregária em geral. Esta faixa dos DP é das mais brilhantes alusões a um facto que me faz recordar a frase recorrente de uma amiga minha acerca da verdade necessária e de natureza humana vária. A verdade e as suas consequências têm uma dimensão dual. O binómio assenta na procura da mesma, mas na necessária gestão desta. A verdade é o que é. É a realidade das coisas, como elas acontecem, o que efectivamente se passa. E está-se a borrifar absolutamente para os nosso condicionalismos, ou para a preparação que podemos ter ou não para ela. É inexorável, e cedo ou tarde, caso seja gerida como uma inconsequência derrubada por camadas de ilusão mais ou menos convincente, vai apanhar os seus maus utilizadores na curva. A verdade assenta na percepção não só de como as coisas são, mas como podem ser. A verdade percebe que a linearidade não é um facto consumado, nem nada que se pareça, mas os factos pertencem-lhe, e qualquer protesto de motivação subjectiva, por mais válida que seja, é inútil. No fundo, e recordando o que essa minha amiga também me disse, é necessário querer recorrer a ela o mais possível, e perceber ao mesmo tempo que nem sempre é possível. Porque não somos sempre aqueles de quem queremos orgulhar-nos, ou como dizia Sócrates (o grego "cicutado") aqueles que queremos parecer, porque por vezes queremos coisas que não deveríamos querer, porque por vezes a voz interna e as acções daí decorrentes não estão de acordo com as ideias arrumadas de harmonia mínima. Perceber o carácter real da natureza humana é saber que naquele anda o lado negro da força, e que o Hieraclito é que a sabia toda quando nos provava os conceitos pelo recorte do oposto. É bom desejar que as coisas sejam de uma determinada forma, e melhor ainda acreditar na possibilidade que assim possam ser. Mas é um erro achar que isto se cola exactamente com a política da verdade, com a história que os factos produzem. É um erro porque a verdade não tem necessariamente a ver com um dever-ser, mas algures entre o "querer-ser" e o "com-sorte-pode-ser-que-seja". O mellhor que podemos fazer pela verdade é perseguí-la o mais possível, sabendo que nunca o conseguiremos fazer ou prever completamente. É saber que o recorte humano, e por maioria de razão imperfeito, delimita o país da verdade necessária, e do desejo pela mesma como um objectivo a alcançar numa perspectiva de evolução e nunca de concretização sumária. Normalmente os deterministas e os que pouco se questionam são, infelizmente, os que pior manuseiam o periclitante equilíbrio entre a verdade necessária e a mentira humano/naturalistica. Como também me disseram, o silêncio aí vale ouro, e a perspectiva de entender diversidades e julgar pouco, é, no meu modesto ver, sinal de honestidade superior e um repúdio da hipocrisia (Já bem basta a que se tem de gerir noutros contextos, como por vezes o profissional - o que jamais presupõe a desonestidade, especialmente a intelectual, fique bem assente! ).

No fundo, como diz o clichê, a virtude está no meio, e já agora a ausência dela também. E o melhor que podemos fazer é tentar sempre desequilibrar a balança para o lado da verdade, de a querer sempre mais, de a procurar, e aceitar que pela natureza imperfeita que todos temos, ela jamais será holística e totalmente abrangente. Fazemos o melhor que podemos. E se tivermos sorte, até podemos fazer muitas vezes bem. E com verdade.

"Never again is what you swore the time before..." é isso mesmo. Como os gajos que na fogueira da ressaca dizem que nunca mais bebem. Não somos assim. Não é disso que somos feitos. Aceitemo-lo, e acredito que até conseguiremos ser melhores por isso mesmo.

Acredito mesmo.





segunda-feira, junho 27, 2011


Há um mecanismo engraçado em algumas pessoas que me tem intrigado ultimamente.
Aliás, mais do que um mecanismo, trata-se do efeito de algumas pessoas sobre os outros, e como esse efeito parece ressaltar de forma inversamente proporcional ao que seria reactivamente lógico. Concretizando, há pessoas que são umas verdadeiras bestas, não sempre mas frequentemente, e no entanto as pessoas simplesmente não desistem das primeiras. Aliás, é curioso como o incremento da "bestice" (bestialidade aqui não parece muito adequado) parece levar os acolhedores a extremos inauditos. Quando se pensa que algum limite pode ser quebrado, eis que os tais indefectíveis aumentam a intensidade da sua acção de forma retroalimentada, como se a "bestice" alimentasse a capacidade dos primeiros em contornar os dentes da besta.
Tomemos como exemplo a personagem Gregory House. Uma besta quadrada, um tipo a espaços execrável, e não raras vezes mesmo insuportável, e no entanto há um Wilson, uma Cuddy, e talvez até mesmo outros. É um tipo que deveria afastar qualquer capacidade de tolerância por força de exaustão da mesma, mas a malta lá vai andando. Mais do que aceitar essa característica, ela parece tornar-se uma espécie de elemento mais identificativo que os outros, e leva as pessoas à preocupação é não à revolta ou à retribuição das coisas menos agradáveis. Leva a extremos. Há salvações e recuperações de contacto verdadeiramente espantosas. Saindo do elemento ficcional, pois acredito que algumas pessoas julguem que ninguém aturaria de facto um House, a verdade é bem outra. Existem, e conheço-os. E o que me espanta é a capacidade, inata creio, que possuem em manter indefectíveis. Há a justificação dos afectos, o que de si é a melhor de todas. Quanto mais relevantes forem os afectos do indefectível, mais desculpas um tipo vai inventando para equilibrar a balança e levar a máxima do "aceitar o gajo como ele é" a novas alturas e dimensões.  É curioso, mas quanto mais esse despojamento se acentua, mais os indefectíveis intervêm ou percebem que têm de o fazer...
No fundo este é um juízo de perplexidade pelo mecanismo, mas também de honesta e genuína inveja. Não sei como se faz, e sinceramente gostaria de saber. Não sei como se implementa nos outros aquela centelha de incondicionalidade que, mesmo que muito a espaços, traz a cavalaria ao mais singelo sinal de alarme. Wilson, Watson, Pança, Gamgee, Sexta- Feira, Hastings, e por aí fora. Os que mesmo ao virar costas, não desistem, seja por afeição, princípio ou interpretação do que julgam ser humanidade básica.
Como é que será que isso funciona?

(*) (A única coisa nos personagens em causa que fura o esquema é que House tenta retribuir, à sua maneira, essa incondicionalidade, mesmo que saia asneira da grossa...)

sexta-feira, junho 24, 2011

Por mais que se tenha em mente certas concepções, não existem reais simplicidades. Tudo é complexo, entrelaçado em pequenos teares que nascem connosco e nos cobrem em malhas cada vez mais apertadas.
Olhar à volta é ver que nada se simplifica. Talvez não seja nada, mas apenas muito pouco. O carácter multifacetado daquilo que nos prende de uma forma e nos liberta no outro extremo é a directa demonstração do que não conseguimos exactamente demonstrar e nos faz experimentar uma inexplicável tristeza. É o que de nós quer verter para que permita que algo seja visto e sejam necessárias cada vez menos perguntas. Tememos cada perda com dores próprias, que rasgam a integridade da nossa figura com a necessidade de sermos simplesmente mais humanos e reconhecedores da passada de outros. Abraçamos cada triunfo com o sorriso de quem não pode acreditar o tanto que custa perceber que surpreende mais o que nos trata bem do que o que nos dilacera. E depois profere-se uma linguagem feita de sussurros temerosos, de vulnerabilidade branda, de desejo por abraços de aço e uma voz dissuasora de algozes eficazes. Nada é simples porque a busca de pertença usa os riscos das cicatrizes para baralhar a cartografia dos mapas de que somos feitos. E ansiamos, sofremos, queremos, fazemos, e resta apenas a simplicidade própria de esperar o melhor porque se fez o possível. Assim são todas as formas de amor. Assim arriscamos pelo menos a pensar que aquilo que nós dói também pode, por mais improvável que seja, "curar-nos". Não existem reais simplicidades. Só existimos nós. E isso já é um cabo dos trabalhos...

sexta-feira, junho 17, 2011

Dizem que a vida é o que acontece após a reunião que tens com ela, e em cada instante em que te apercebes que a acta não traz absolutamente nada do que achaste ter acordado como conceito de plano ou destino.

Quem o diz, só se engana por defeito...



quinta-feira, junho 16, 2011

Acho que é Vox Populi o facto das pessoas cobiçarem originalidade. Eu cá sei que a persigo, por uma série de motivos, mas essencialmente porque uma vez retirado do meu posicionamento dito normal, sei mais acerca de mim. Não se trata exactamente de um teste de limites, mas uma verificação de contorno. Ao saber o formato pelo menos posso desconfiar onde posso ter uma hipótese de encaixar. Ou pelo menos afastar-me do que destoa, por simples respeito ao que não é originalidade nem diversidade, mas simples antinomia.

No entanto, é a verificação do reconhecimento que traça a solidez de certas formas de querer. A originalidade é uma espécie de meio. É a veste pela qual as mensagens, intuídas, sentidas e amadas em solidão, encontram para se revelar. É uma espécie de lento strip-tease, ou inflexão de uma frase musical que inesperadamente acerta num sentido que o próprio sabia dentro de si, mas incapaz de formular em materialidade. É o sussurro da verdade ao mesmo tempo que se aprende (reconhece?) a língua em que ele surge.

O dilema da originalidade é esse. Ou a riqueza. Ou a eficácia, talvez. É por isso que os beijos nunca são iguais, que o movimento do lançamento pode ser correctíssimo mas nem por isso a bola entra, que sete notas não se esgotam, e que as histórias nunca se repetem pelo simples facto de serem nossas.

Na originalidade aceite está um feliz paradoxo. É aí que nos encontram, nas raras vezes em que isso acontece.

quarta-feira, junho 15, 2011

É engraçado como Terrence Malick volta a estar numa espécie de encruzilhada da minha vida. A referência à "Árvore da Vida" cabe aqui como uma espécie de golpe de estranheza, de embate indirecto, da dificuldade de processar as ideias que em tese são claras, mas que na prática se assemelham a tentar montar uma tenda frágil no meio de ventos inesperados. Graça ou natureza? Alegorias religiosas à parte, (coisa que nem sequer me atingiu como tal no filme), o que aparentemente é uma escolha não o é, embora a expectativa genérica é que o seja sempre. Ninguém admite a espera pelo cavalo branco, mas quando surge o alazão, as gargantas pigarreiam e algo nos olhos consome mais um segundo de brilho.  Especialmente quando os espectadores são, em parte, espelhos.
No fundo, porque é que cometemos erros? Porque é que de alguma forma, para a construção da humanidade básica e do que muitos designam de contorno de personalidade, o erros são condição necessária, mas quando surgem, tingem todo o tecido, impondo uma descaracterização que à partida não dependia da existência dessas imperfeições? Diz-se que as pessoas aprendem a gostar dos erros, defeitos e imperfeições dos outros, mas não é verdade. O alazão pode transportar, mas quando o pelo não é de um branco luzidío, mas do "cinzento-burro-Shrek", poucos são os que afinal conseguem mesmo afagar o animal com a mesma intenção. Ainda que digam que o pelo crespo e cor anódina
Claro que do outro lado está a pergunta de algibeira, ou seja, porque raio não começa de uma vez a muda do pelo? Será porque esperamos que aceitem os defeitos, ou nos salvem deles? Será porque pomos uma responsabilidade demasiado pesada na aceitação, quando também estamos algures na turba à espera do corcel branco?
Não faço ideia. Simplesmente julgo que, no meu pequeno atrevimento intelectual e o mais básico dos sensos comuns, a ideia está no entrelaçar da Graça e Natureza, e naquela impossibilidade que realmente há entre aceitar o burro em tese, e estar sempre à espera da aparição do cavalo.

Foda-se...








 

terça-feira, maio 31, 2011







«Nolan - "Why do you value your failures more than your successes?"

House - "Successes only last until someone screws them up. Failures are forever."

Nolan - "So, you accept that fact? You accept that there is nothing you can do?" 


House - "Okay, I accept the fact that there's nothing I can do. Now, what can I do?" 


Nolan - "You acknowledge failure. And you move past it. You apologize." 


House - "Wow. Powerful things these apologies. Get someone to jump off a building and you say two words and you move on with your life. Hardly seems fair." 


Nolan – "Is that the issue? You caused him pain. If the world is just, you have to suffer equally?"
Nolan chuckles. "You're not God, House. You're just another screwed-up human being who needs to move on. Apologize to him. Let yourself feel better. Then you can learn to let yourself keep feeling better." »


Podemos ser "felizes" na infelicidade? Quero eu dizer, podemos ter uma espécie complicada de propensão para nos sentirmos familiares com ondas e ondas de uma tristeza quase reconhecível. Bem sei que pelo menos um dos bardos, e talvez metade da poesia conhecida, falam da doçura sorumbática. Mas no mundo dito real, pragmático. Será normal? Será comum sentir uma propensão para a familiaridade com os aspectos mais escuros da natureza humana, para sentir que cada coisa que se faz de bem é normalmente sujeita a um tal implacável auto-escrutínio que parece fazer da luz um necessário recorte para a sua sombra?
Não faço ideia.
É uma ideia preocupante porque é um local onde as coisas são facilmente definíveis até porque nunca se sucumbe à tentação niilista. Há uma denúncia, há uma percepção generalizada de que a maioria das coisas são tentativas, enquanto não conseguimos impedir que alguém se magoe com as piruetas dadas no imenso quarto que, apesar de escuro, tem sons e cheiros de casa.
Será porque é mais fácil? Será que na adversidade algo destila como uma espécie de representação da essência? Será porque quando o medo aumenta, a expectativa pintada a tons escuros torna-se mais fácil de delinear? Ou será uma forma de conseguir não pedir ajuda, levando as coisas aos extremos mais subtis, precisamente porque são derrocadas internas?
É que nem por isso se deixa de ser bem disposto, mas há uma sede imensa de ter razão, e ver ocorrer os vacticínios próprios da beleza própria do desejo por acontecer, porque não há imaginação maior.
O mais complicado é que isso nao se entende. Não se sabe de onde vem, e combate-se o melhor que se sabe, embora algo fique agarrado, como um sinal na pele ou uma emanência no olhar que não se consegue disfarçar. Marca a pele, e tudo o resto, e empresta uma dimensão. São texturas atrás de texturas, e tudo parece um imenso berro que parece fazer esquecer a noção de silêncio. É como se a beleza própria da luz que irrompe pela adversidade ainda se tornasse mais fantástica pela natureza composta que a constitui. Um jorro de claridade, mas amarelo mais torrado, à falta de melhor metáfora.
Uma vez li um livro onde o protagonista falava do tremendo esforço para que a felicidade não fosse uma espécie de conceito soluçante. Ao ouvir uma entrevista de Hugh Laurie (coincidência, ou talvez não) ele fala do prazer e da felicidade como uma espécie de percepção de uma rampa descendente em direcção ao escurecimento.
Não concordo exactamente com isto, mas pergunto-me como se convive com uma espécie de traço do nosso contorno feito a bold e carregado de sombreados, numa ideia de sistema complexo, funcional, e ávido de aprendizagem talvez mais iluminada. Como é que se vive com a percepção de que os nossos passos caminham firmes tanto em solo fértil como numa planície cheia de cinza e vastidão riscada a pretos e cinzentos?
Mais complicado ainda é conseguir transmitir uma adaptação daquilo que Gramsci dizia - "pessimismo do intelecto, optimismo da vontade" e unidade de pertença a ambos.
E como explicar que isso não se consegue evitar, mas tão somente tornar mínimo no grande esquema de uma personalidade que, por isso mesmo, será sempre parcial, mas necessariamente, falha?
Como é que conseguimos desculpar-nos por aquilo que, em parte, nunca ninguém nos acusou?
Complicadote, diria eu...



terça-feira, maio 24, 2011


A auto-depreciação não é bonita. Não tem charme, não é uma afectação, nem uma espécie qualquer de tique com pinta. A escuridão surge e mina tudo. Dói e é perigosa. É uma espécie de cauterizador involuntário.
Quando surge, ou quando acontece, não dá grandes hipóteses. É como um banho escuro, de água oleosa e gelada. Toca tudo, como uma espécie de carícia maldita e inaceitável.
Não é divertida. Não tem grandes benefícios. Surge e leva tudo consigo. É uma escuridão profunda, um toque degenerativo, um espelho tão pleno de deformações que qualquer imagem estática parece devorar-se e regurgitar-se a si mesma, em repetição.
Mantê-la ao largo é, a mais das vezes, tarefa oriunda de treino. Torna-se mais fácil com o passar do tempo e com uma resiliência que não admite escorregadelas. Mas quando vem, é a força imparável que encontra o que já não é o objecto inamovível. É inevitável como o próximo segundo a cair como o som de uma gota  numa enorme caverna.
E toca tudo, como qualquer ausência de luz o fará.
A auto-depreciação não é bonita. Não tem graça. Não acrescenta. É uma espécie de sintoma que deriva de algo que não se pode qualificar como se faria a um vício ou compulsão, mas que é igualmente irresistível.
...
E depois segue. Vai-se, como veio. Como uma maré negra, desfaz-se, dissipa-se. O mar fica exausto, temporariamente vazio, escuro, dorido. Recorda-se. Custa-lhe mais do que será capaz de expressar.
E depois segue-se... Quando os olhos e tudo o resto resolvem, sem saber, passar a alguma clemência...


 


segunda-feira, maio 23, 2011


Ao olharmos para cada um dos quotidianos, julgo que será tentador definí-lo como normal. Bem sei que o esquadrão do anti-politicamente correcto atacará essa expressão, mas de facto julgo que é "normal" pensar assim. Eu próprio tenho essa ideia tão vincada, como acho que a mesma está errada. Como acho que a linearidade das interpretações está profundamente errada, ou a mais das vezes, sofre do pecado da precipitação.

A verdade é que se não escrutinar, alguém o fará por mim. Fá-lo-á por todos nós. Podemos prestar mais ou menos atenção, mas o formato do decorrer da nossa história só simplifica com a morte em vida, ou aquela propriamente dita. A capacidade de viver e lançar um olhar para o passo mais adiante levará a questões, e as questões levarão a pensar em quão desfasada da paz está a intensidade e importância dos acontecimentos. Não há só linhas rectas. As pessoas que amamos, seja de que forma ou com que intensidade for, irritam-nos. Desejamos o seu silêncio e rugimos perante o peso da irrtiação que o ser quem são provocam. As disfuncionalidades na família acabam por caracterízá-la. No amor em todas as suas formas, mais numas que outras, vá, provam o poder do seu ecletismo de sobrevivência. Nas relações sociais testam a tolerância recíproca, aquela que de alguma forma leva a que as ordenemos e nos surpreendamos com a capacidade que temos de não deixar que o coração se envenene, por mais cansados que estejamos.

A força da disfuncionalidade, do surrealismo que faz dos afectos coisas contorcentes e transmorfas, mas sempre feitas de uma matéria reconhecível, surge pela necessidade de contar uma história. Não, esperem. Da necessidade de ser algo de história, de ver que o mundo se move inexoravelmente, mas alguns passos são necessariamente dados. Na direcção da sua rotação ou em contrariedade à mesma.
Eu tenho uma noção da "normalidade", como calculo que todos tenhamos. E do quão disfuncional pode ser o funcionamento do mundo para que me destaque dele, renegando os seus efeitos, mas principalmente as suas causas e actos subjacentes. E também imagino até que ponto pode ser complicada a visão que têm das minhas coisas que não se entendem, das minhas flexões de arquitectura de alma que não fazem qualquer sentido, da minha escuridão pessoal e necessária, da minha tremenda disfuncionalidade.

No entanto, acho que onde algo se passa, as linhas da ordem sofrem sempre embates. Algo é sempre inegavelmente estúpido, estranho, e humanamente maravilhoso ou terrível. Na disfuncionalidade reconhecível, passamos o cartão de humanidade na ranhura de todos os entendimentos, e sabemos de antemão que poucos poderão abrir uma porta, ou acender uma luz.

Sei da normalidade aquilo que ela não me dá.

Adivinho a insuficiência das minhas questões, mas também pouco se denuncia a dimensão voraz das minhas vontades, cozido ao mundo, como acho que por vezes estou.

São raras as coisas que não entendo acerca de mim, em termos de funcionamento. E no entanto, essas coisas são como a demografia numa Tundra ou um Sahara. Poucos lá deambulam, mas o espaço gigantesco pertence-lhes. A disfuncionalidade é, assim, a perpetuação de um querer abstrato que se manifesta nas imensas paisagens internas onde tudo está pronto para receber, mas poucos por lá passam. Ser imune às dentadas e doenças de tal paisagem não é algo que se aprenda ou uma adaptação extrema.

É, simplesmente, da reorganização da ordem ver, finalmente, o "normal"..



terça-feira, maio 17, 2011

Por alguma razão que desconheço, ou talvez não, sempre achei graça a uma certa marca de desgraça nas pessoas. Não de desgraçadice ou "calimerismo". Mas um traço de destroço, uma racha profunda num olha de semblante quase perfeito, um prenúncio de história, um emergir que é uma espécie de redenção contínua.
Chego à conclusão que essas pessoas conseguem rir como ninguém. Estendem a mão e tocam com a percepção de que ilusão é uma palavra que surge algures na letra "I" do dicionário, sabendo perfeitamente que o perigo está na pouca magia que pode ter a sorte de ser real.
Essas pessoas, que na partilha dos seus universos, contam histórias pingadas de negro, não desdenham qualquer cor. Olham como pele cortada mas nunca morta. Exibem uma espécie de candura irada, bem contida, emersa em mil teias complexas de ideias que nem elas percebem bem, a mais das vezes, mas que definem constantemente, como o mais próximo que se possa imaginar a uma canção da alma.
Os olhos estão quase sempre ligeiramente arregalados. Olham em frente com destemor e polidamente ao lado para poderem respirar.
A traça da desgraça é uma espécie de verniz vintage que faz do gesso recém-nascido uma espécie de bronze contador de histórias, sendo que o brilho metálico é a forma consciente como deixam que emerjam as vitórias de espíritos que não se quebram.
Essas pessoas, cujos pés têm uma parte mínima chamuscada pelo inferno, troteiam pela terra num misto de respeito pela sua verdade e gratidão consciente pela sua natureza luminosa. E a maioria desse tão ínfimo grupo ama com a raiva própria de quem sabe o que são pretensos sulcos na pele, mas que afinal deixam cicatrizes na cabeça. Envergonham as histórias contadas a meio conceito, sorriem exibindo o tecido cicatricial, e são, em parte, indefinidamente diáfanas. E é assim que nunca morrem num formato, deixando-se conhecer no que se reinventam, mas que afinal de contas, é tudo aquilo que são.
Por alguma razão, sempre fui vulnerável a um estilhaço de desgraça numa expressão. Talvez porque seja esse que prove, sem sombra de dúvida, que aquilo que importou, acabou por levar a melhor.
Mesmo quando era impossível.

As pessoas que são fundamentais para nós fazem-nos correr um terrível risco. Sendo fundamentais, estão ali, são parte do tecido de todos os dias. E esse tecido veste-nos, dá-nos uma pele, uma identidade, e prega uma terrível partida, que assenta num juízo de naturalidade. De algo que é tão importante que está ali, faz parte do real, parece que não se destaca dele, e por isso mesmo, talvez não acabemos por dar a importância que merece.

Não...
Não é verdade. Não tem a ver com a importância. Tem a ver com a manifestação dessa importância.

Nessa linha, não julgo que desfarei ninguém ao dizer que é fácil reconhecer o pilar. Quem sustenta nas costas o peso do que todos gostaríamos de ser capazes de ser. De ser o exemplo da integridade com que crescemos ou vivemos. De ter a sabedoria simples para perceber o que se consegue saber com a pureza da linguagem da pele, do laço, da pertença, da carne. De admirar a força centrada num porvir de acções e cuidados que mais do que um exemplo, são uma história, e as verdadeiras histórias vivem para sempre.
Por isso, acho que não dizemos suficientemente aquilo que deveríamos. Eu sei que de certa forma, reconheço que os laços titânicos e umbilicais que formam esta unidade, por vezes impedem o afecto de sair em palavras simples, suaves, e tão directas como as demonstrações quase automáticas o permitem.
Mais do que gostar tanto da minha mãe, e celebrá-la, de ter a sorte pelas escolhas que ela me deixou fazer, de usufruir da paciência pela dificuldade que é, por vezes, entender o que faço ou digo, ou melhor, o que todos somos, é absolutamente necessário vê-la pelo que é, pelo que faz, por quem me (nos) tornou.

Mas não só celebro a tua vida, mas aquela que tens a bondade de me (nos) proporcionar.



quinta-feira, maio 12, 2011


É coisa antiga verificar a capacidade que temos de magoar outros, ou fazê-lo a nós próprios, ou sermos magoados, e a sua directa proporcionalidade em razão do paradoxo de quem teria "menos motivos" para o fazer. Além de coisa antiga, é meio estúpida, e irritante, mas não deixa de ser uma verdade inderrogável. A proporcionalidade directa é quase uma espécie de legenda secundária, de sussurro do ponto, perante a relevância das coisas.

Podemos desejá-las ou não, mas o reconhecimento dessa capacidade nasce das pequenas ou grandes dores que afectam o raciocínio e aventam descobertas dificilmente concretizáveis em palavras. Pelo menos de início, quando o rombo quente de uma ou várias ondas de choque cimentam as percepções, mas queimam a pele que tocam. A pele, quando queimada, retrai-se, fechando os poros em protecção, juntando-se para aguentar o embate e criar espessura e profundidade para que o motor da renegeração seja protegido e comece imediatamente a trabalhar quando a explosão amaina.

No meio dessa renegeração contam-se os golpes, limpam-se as feridas com o esgar de quem as reconehce como tal. Sorri-se pela história que a cicatriz traz, não na perspectiva de ser recordada, mas naquele tipo de histórias que afinal crescerá, porque só começaram. Nessa capacidade paradoxal, a impiedade é uma espécie de vento furioso, capaz de esculpir as formas dos conceitos em rocha, num doloroso processo de génese e formatação. É como cozer pele a sangue frio, com cuidado, para que a marca seja a força de uma recordação necessária e não o estrago perene de uma deformidade.

A verdade é que não podemos escolher os efeitos que os detentores dessa capacidade podem causar. Seria giro e bem prático ser ecléctico nesses efeitos, como se fosse possível ser ingénuo ao ponto de achar que as sombras necessárias não dão, também, consistência a essa capacidade. Como se pudessemos de alguma forma dar consistência a um desenho bidimensional, sem sombras, de traço limpo, como o de Hergé, e continuar sem ter a certeza que tal coisa não existe.Como se entrando a luz pelos olhos dentro, pudéssemos ser ignorantes da necessidade da sombra.

O poder que, intencional ou inadvertidamente, atribuímos a outros, nasce, em muitos casos, com o desconhecimento daqueles. Aqueles que se borrifam completamente nas nossas objecções convenientes e constroem vias até ao que em nós é fulcral e, claro está, acabam por atropelar umas quantas coisas.
Assim, a capacidade que temos e que têm de (nos) gerar dores e destruições, numa roda viva de renegeração, é o que faz das histórias (reais) aquilo que são. É o que as levanta da bidimensionalidade. O que as faz cortar o vento e apanhar algumas gotas de chuva. É, também pelo menos, o que as salva da morte. Mesmo que seja interna.



quarta-feira, maio 11, 2011

Julgo que em alguns casos, é fácil confundir desejo de simplicidade com probabilidade da mesma. No fundo é quase um argumento cartesiano. Se está lá, e é em si simples, porque não imediatamente aplicável? A verdade é que durante muito tempo cresci com a noção de que as coisas acabariam por ter um enquadramento lógico e adequado, seja lá o que essa merda for exactamente. Achei que as decorrências da vida, entre medos, agruras e todo o género possível de ganhos, assentava numa metáfora simples. As peças eram limadas pelo tempo, ao mesmo tempo que lentamente rodavam, até produzir um estalido de encaixe, num imenso puzzle de sentido, ou prova do mesmo. Simples não é? Clic e pronto.

Rapidamente fui emerso em dúvidas acerca disso, porque os factos foram contrariando as minhas ingenuidades. O amor à pessoas que me cercavam e cercam, os que sabem dele e os que não sabem, era, e é, uma espécie de sabonete passado a água morna, que desliza com a graça de algo livre e incontido. Ri-se dos meus reflexos, escapa-se a todas as tentativas, e no entanto desliza, ali, perto da pele e do entendimento, cobrindo as minhas intenções a caos e as suposições a perguntas. Nesta puerilidade, julguei que os meus pais não envelheceriam, que alguém faria uma excepção no caso deles. Que as pessoas de quem gosto não sofreriam, porque isso seria estupido e ilógico, já que eu não via nenhum merecimento nesse revés. Que tudo seria simples, que conseguiria explicar todas as formas oscilantes que me faziam uma espécie de seguidor de um sol de cara séria.

Julguei que, com o tempo, não teria medo, deixaria de me surpreender, que as coisas doeriam de forma "adequada", que cresceria para fora dos meus anseios e deixaria de parte um dialecto demasiadas vezes declamado em eco.

Julguei que, por venerar a simplicidade, tudo seria de facto simples.

O que, convenhamos, é muito complicado...

segunda-feira, maio 02, 2011

Vivemos numa espécie de ordem social bem comportadinha, onde em cima da mesa se fala das cercas brancas compostinhas, e em baixo os pés trocam-se como mãos de náufragos que tentam, às cegas, agarrar-se ao que puderem como alternativa para a balsa de madeira podre à qual chama de vida. E não se fazem prisioneiros na rua cheia de ulmeiros moribundos onde morrem as irmãs Lisbon. Não se poupa nada ao cinzento dos tijolos com reboco e dos arranjinhos bem organizados e sem ondas. É uma espécie de crosta bem desenhada debaixo da qual infecta e sucumbe qualquer vida num fedor de náusea. A hipocrisia, o juízo, a arrogância das soluções para quem em si não passa de um destroço tão poucos anos que nem sequer se pode chamar detentor de uma vida.






Sim, vem fora de tempo, mas assim é mais original. Ou talvez só me tenha apetecido agora. Ou qualquer outra razão, já que pude estar com ela no dia, como estou frequentemente, o que só por si é uma benesse e privilégio. A verdade é que em Maio, celebro-a duas vezes. Ou melhor, celebro-a novamente mais duas vezes.

Nunca é demais aquilo que possa dizer dela, mas sai sempre curto, quase afásico, face ao que dela penso. Jamais, em tempo algum, conheci alguém com uma capacidade de resiliência tão férrea e uma tão inquebrantável energia. Além disso, o conhecimento intuitivo que tem, (e neste caso sou suspeito para falar, mas será assim), de cada um dos que a rodeiam, é matéria de compêndios acerca da simplicidade de processos em matéria relacional. Professora de contenção, ensinou-me, sem o saber, a distinguir cada um dos efeitos das coisas que realmente importam, e a forma como os posso honrar na percepção e manifestação contida dos mesmos, mas sem nunca me deixar esquecer o que de facto faz diferença. Cuidadora por natureza, tem a irritante mania de mal cuidar de si, e queixa-se tão esporadicamente quanto neva na cidade onde vive. A minha mãe, a minha definição de umbilicalidade, será, no velho clichê, a melhor mãe do mundo. Para mim certamente, e tenho confiança que se a inscrevesse num campeonato da especialidade, daria cartas em todas as provas.

Mas julgo que aquilo que nunca me canso de celebrar e agradecer-lhe, é a lucidez. A forma como sempre me permitiu pensar pela minha cabeça, com fortes valores de exigência, mas sempre regados a tolerância vasta pela forma como as pessoas conseguem ou desejam viver as suas vidas. É uma bebedora de diversidade, aceitante do mundo onde vive, sempre curiosa, sempre à procura. No meio do seu universo, não tem uma palavra de rendição para oferecer, e espera sempre as opiniões para poder complementar com a sua. Vive com aquela ideia de que no tempo dela era diferente, e que se respeitavam os mais velhos e que os políticos conspurcavam menos a vida dos outros. Se está certa ou não, eu não me arrisco a definir. Mas sei que o faz com um olhar questionador, coisa que me pegou e jque amais desapareceu. Gostaria de escrever algo mais acerca da sua história, mas intuo-a na presença e na recordação do caminho que me permitiu trilhar, tendo eu a plena consciência de que quaisquer falhas minhas (epá, e aí tinhamos pano para mangas...) não a têm como sequer remota responsável. Dizem que os pais fazem sempre o melhor que podem. A minha mãe, no que me diz respeito, sempre se excedeu.

É a minha. Tem a dimensão que tem, que para mim, é feita de coisas que só mesmo o céu consegue abarcar ou cobrir.