ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Nunca é demais recomendar esta amiga.

Deve andar sempre à mão, para bem da sanidade mental diária e não só :)

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Era um daqueles meus familiares que oscilava entre a proximidade e os ritmos estúpidos de uma vida sem tempo ou as contingências da idade adulta. Voz grave mas meiga, saber enciclopédico, sentido de humor irresistível, Sportinguista de gema, um historiador auto-didacta, dono de uma gargalhada que faria furor entre quaisquer sons semelhantes na meca do cinema. De óculos de massa preta, que atravessavam ambos os lados do crânio calvo e venerável, recitava momentos da história com uma memória e uma capacidade de contar que faria qualquer episódio um deleite semelhante à melhor das histórias em torno de uma qualquer fogueira. Comia com a boca semi-aberta, dando estalidos e sorvendo o vinho com o gosto próprio de quem sabereava cada pequeno prazer. Fora funcionário do Estado, e não era difícil imaginá-lo no fato de corte clássico, com os eternos óculos protegendo o olhar bondoso e o mundo de letras e música clássica que lhe perpassava pela mente. Tenho uma imensa colecção de discos em vinil, preciosidades que teve a bondade de ofertar-me e que lá estão, à espera de um móvel e um "gira-discos" que lhes faça justiça.
Quando era miudo, repetia aquela gargalhada porque lhe pedia. Recitava algumas frases em espanhol porque me divertia, e contava e recontava detalhes da história porque conseguia com que me perdesse no tanto que sabia, e como o sabia contar.
Era um tio. Um homem de quem gostava, que guardo comigo em muitas memórias, que me fez imaginar algo parecido com a idade dele, na capacidade de saborear a simplicidade de uma vida até algo espartana, mas plena de uma capacidade de ser, encantador, um homem à antiga sem o que de mau isso possa representar.
Foi-se, consumido por uma daquelas injustiças que a natureza resolve leccionar às células, mas nunca o vi, ainda que debilitado, com mais do que um queixume que, ainda assim, lhe conseguisse roubar a capacidade de conversar, de falar de tudo quanto se passava, de trocar connosco uma laracha sobre o nosso malfadado clube do leão.
Num dia já de si pouco fácil, eis que desaparece, ainda que anunciadamente, alguém de quem gostava. Alguém que não era família por acidente, e a quem até sinto que tenha faltado, estupidamente, nestas alturas. Mas gostava dele, e o vazio que sobrevém não é alheio ao manancial de coisas preciosas, de tempos menos violentos, das quais ele fazia parte.
Ainda voltarei a escrever sobre ele.
Por ora fica-me a gargalhada que nunca esquecerei, a paixão pelos livros com que me infectou desde cedo, bem como a música que tanto adorava.
Fica também um pequeno filme que, por alguma razão, também me faz lembrar não só dele, mas do que este instante faz sentir.

Second Wind from Ian Worrel on Vimeo.



Quando parece que finalmente se está a fazer alguma coisa, a fazer alguma diferença, é quando se deve ter mais cuidado. É nessa altura em que se uma forma ou outra, virão todas as demonstrações da lupa inversa com que nos observam...

A génese da filhaputice nasce da habilidade pretensamente política. É inerente a algumas pessoas que conseguem, sem pestanejar, emitir a mais profunda das desonestidades intelectuais, com um sorriso torpe, próprio de uma espécie de terra de ninguém intelectual situada algures entre a inteligência sabuja e dúbia, e a chico-espertice de quem encontra um furo que lhe garante (alguma) imunidade.
Este género de filho da puta, asqueroso e normalmente pleno de uma prosápia que nem sequer consegue defender em básica argumentação de cariz comprovável, exibe a sua plumagem gordurosa como uma espécie de distintivo grotesco e comprovativo da velha parábola do rei nu.
E no entanto, passam incólumes, mascarados por uma espécie de causa que nem sequer defendem, porquanto pela mais pequena visibilidade venderiam a própria mãe. É como se a vileza fosse tão vislumbrável que já toda a gente encolhe os ombros e permite a passagem, como algo normal em termos de escória, mas que unta uma espécie de engrenagem.
É muito raro sentir algo de tão visceralmente negativo relativamente seja a quem for, mas ocasionalmente sou forçado a confrontar-me com a mais asquerosa demonstração do pior que vejo nas pessoas, na pele de um imbecil a quem espero sinceramente que um dia o vejam como realmente é.
"Maldito é o homem que vive em época decadente", já lá dizia R. E. Howard.
Triste a sorte de quem com eles tem de aparentar civilidade....

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Há situações complicadas. De facto. Daquelas que nada têm a ver connosco, das que não dizem respeito ao nosso dia-a-dia, daquelas que não assentam na nossa compreensão dos que chamamos de nosso ou característico. E no entanto, ao vislumbrarmos o desespero com que essas situações são "desempenhadas", há toda uma aura de seriedade que nos lança na dúvida entre tentar a todo o custo calçar aqueles sapatos, ou simplesmente achar que há um limite para tudo.
Eu não tenho ideias muito concretas acerca desse assunto. Já sei que calçar os meus sapatos é do caraças, e por vezes sei até que ponto algumas situações são complicadas de gerir ou mesmo resolver. E no entanto... há pontos aos quais se chega onde já nada parece pulsar, onde soçobra apenas uma indignidade. Esta é feita de qualquer desejo que já não se identifica como o admirável estertor teimoso de vida, mas como uma espécie de agrura prolongada, na qual as mãos já ensanguentadas batem num peito que jamais se moverá por si.
No entanto, nos olhos há aquele desespero, aquela recusa, aquela infinda pressuposição de que os dias assim nada mais são que um estender de imobilidade dorida. Aos vislumbrá-los, resta apenas o silêncio do respeito, a mão aparentemente inútil sobre o ombro, o calor da proximidade feita de pés demasiado pequenos para os tais sapatos.
E ainda assim, há alturas em que, de facto, já basta. Por muito que não o possa dizer, ou seja inútil que o faça, espero que na minha contenção possível se leia o que outros olhos também já transpiram.
Já basta. Mesmo que não seja para melhor, o dia amanhece, e de facto, nunca sabemos o que ali vem...

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

O problema da oposição como elemento de complementaridade assenta, em meu ver, num pressuposto (parcialmente) frágil. Se em muitos casos a própria natureza de contrário é em si o conceito de complementar e por isso, uno e final (sexo, ligação eléctrica, a natureza do debate), já noutros a oposição é a negação do conceito, pelo menos duradouro, como é o caso de calor perante gelo, ou o último segundo do crepúsculo.
Em suma, até quando falamos em complementaridade, está é muitas vezes paradoxal e inconclusiva, porque se é certo que há Bonnie and Clyde, também existia Newman e Woodward (neste último caso, para mais referências, vide ultimo filme de Mike Leigh).

"De maneiras" que é assim... :)

Poderão dar-lhe o nome que desejarem. A verdade é que poucas coisas se multiplicam mais no comportamento que as estratégias de defesa. E são tão mais eficazes precisamente porque em muitos casos já ultrapassam a vontade do seu detentor. Assim como afectos teimosos ou incapacidade de desgostos figadais persistentes, muitas defesas também não dão cavaco ao seu portador, e exibem-se como um banho de prevenção ou uma aura de escalpelização através da qual o cérebro parece arrumar tudo num terrível porque claro sucedâneo de causas e efeitos. Elas erguem-se como um parlamentar de retórica imbatível. São ondas do próprio que depois se tornam arguidas nos seus pequenos crimes.

As defesas ficaram na moda. Há todo um "boom" de terapias, quer porque alguém as quer, ou porque outro alguém as quer descartar, ou porque em certa medida ainda há aqueles para quem a voz interna grita tão alto que a única solução é a dormência do quase sono. São como os últimos segundos de um crepúsculo silencioso, onde até a natureza se cala perante si mesma, e repetidos indefinidamente. As defesas também podem ser assim, induzidas, criando uma calmaria que encerra em si mesma nada mais que a necessidade do posterior, do pós-luz, de algo diferente.

Mas a verdade é que o receio é honesto. A protecção surge como um apelo suave de respeito pelo que é frágil. É simplesmente pedir um pouco de calor porque se está nu. E quando isso é repetidamente posto em causa, resta aquilo que qualquer animal acuado fará, por mais pequeno ou debilitado que esteja.

É discutível, é verdade, mas é tão real e frequente que, em muitos casos, é como fazer queixas do vento. Ou abrigamo-nos, ou esperamos que passe.


quinta-feira, fevereiro 17, 2011



Não raras vezes, em conversas com amigos e conhecidos, chego à conclusão que não há um entendimento generalizado dos meios termos. Quer isto dizer que, nessas conversas, deambula-se entre a obsessão por alguma coisa, ou a distância higiénica de (quase) todas as outras. Uma prática recorrente, um gosto coleccionador, uma entrega a algo que exige tempo e esforço na sua concretização, vive algures no reino da obsessão ou, como eu prefiro, nos arrabaldes da "geekolandia." Há uma espécie de distanciamento quase "crescido", que não entendo muito bem, e que diz respeito à vida onde tudo é feito com suposta parcimónia. Devagarinho pá. Com contenção. Ecléctico, mas com moderação "adulta", certo?

No fundo, é espantosa a quantidade de pessoas que não tem qualquer "disparate" pessoal arauto de alegrias ou expectativas cíclicas, mas vivem numa relação diplomática com tudo porque efectivamente não sentem curiosidade por quase nada. O que não me chateia. O seu a cada um, não é? O que me aborrece não é sequer o letreiro geekish, ou algo parecido, mas o ar "crescido" com que qualquer sorriso condescendente dos equidistantes qualifica tudo o que faz tremer a vida a alguns, por oposição ao nada reiterado e cool que segura a deles. Como accionistas maioritarios da "CimporSocial", são como monos que ali estão, qual farol do bugio, a observar o bulício das "crianças". Sim, monos. Afinal, se eu visto a t-shirt proto-geek, posso apelidá-los de penedos que se arrastam num monocarril conversacional.

Obsessões?
Com certeza. Seja lá o que for que lhe chamem, quero sempre mais uma dose.














(Esta é a minha casa e aqui digo os disparates que me apeteça. Não lhe mostro a língua porque afinal a boa educação é inegociável.)

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Uma frase que ouvi em conversa era evidente. Evidente pela dificuldade da premissa, e porque ao dizê-la, sei exactamente o que querias dizer. Sei que o passar do tempo, a marca dos dias, o feixe de dor nos músculos pelo percorrer dos degraus, tuso isto só implica uma forma de descanso. Descanso não, erro meu, e também não é pacificação, não em estou a adiantar ao que me disseste. A frase era reportada ao que eras. A quem eras. Mesmo perante a dificuldade em reconheceres a dificuldade que é saber o que fazer com algumas coisas que és, sei há muitos anos o que isso significa para ti. Começou na lembrança de coisas como franjas persistentes e na impossibilidade de aceitar histórias recontadas. Quem sabe o que é a tua luta? Mas podiam saber algo disso... por tão impossível que parece.
Se estás ou não, é complicado dizer, porque é como perguntar a mim, acerca de mim, e já adivinhamos o problema não é? Sabemos explicar? Não caraças. O problema é mesmo esse, porra, num só segundo, uma só vez, não completem a merda das frases, não adivinhem os enunciados, apenas não anunciem a morte quando temos de pedir demasiadas vezes.
Não sabes, eu não sei, porra, terá sido assim que o desenharam, e não disseram, não deram cavaco nem instruções. Não sabes, não sei, tenho duas mãos esquerdas para desenhar uma simples palavra que signifique um pedido. Tu também.
E por isso, será assim. Será que não estamos?
A tua frase era essa. Essa mesma. A certa altura, todos temos de ser alguma coisa. Ou é o que acham, e é aí que a porta se fecha, e os trancamos todos lá fora.
É esse o meu temor. Porque temo por ambos. Há anos...

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Uma única luva...

(Tosse)


Era curioso perceber que nunca antes pensara nisso, mas naquele instante, além de sentir um impulso nervoso para tocar, (o que era uma novidade), intensificava-se ao mesmo tempo uma outra sensação. Essa sensação traduzia-se numa percepção visceral de que estava perante algo que não era para mim, que não poderia dizer-me respeito. Como de costume, aliás...

Que bom quando voltam os velhos amigos...

Nunca fui propriamente partidário da ideia de que tudo acontece por uma razão. Fatalismos não são comigo, porque me parece qualquer coisa parecida a determinar o percurso das particulas de pó quando empurradas por uma ligeira brisa. Isto, no entanto, não quer dizer que ignore o sentido de determinadas coisas que, ao sucederem, transferem um formato para o entendimento, quase como colocar um escantilhão na realidade e formar máximas.
E no entanto algumas pistas transformam-se em realidades, e perante as mesmas, limpamos as gotas de suór do rosto e expiramos. Em certa medida, relembramos não só porque vivemos, mas porque afinal talvez tenhamos escapado de algo. Não que saibamos exactamente o quê. Mas é pungente e recortado como a memória persistente de um sabor. Imaginamos o que seria, a espiral, a impossibilidade de dobrar a luz ou comandar o vento, e como isso poderia transformar-se num jogo de culpa ao invés da assumpção de uma natureza. No fundo, seria injusto para todos os envolvidos. Um querer que provavelmente seria apenas matéria para dentes em viagem, para questões justas, mas cujas consequências poderiam levar a cenários de (ainda mais) resistência ao mundo alternativo porque iluminado.
Há quem lide com a realidade, responda a perguntas, sujeite-se, pelo menos na maioria dos casos, à vergastada da verdade na sua pior dimensão. E vive-se com isso, em locais escuros visitados pelo menos dez vezes por dia, na tremedeira do sofrimento causado pelos medos, angústias, incapacidades, insuficiências. Mas por vezes é necessário olhar para fora e não perceber, mas dar a entender. Nem que seja um pouco. Sob pena das verdades parecerem simbologias herméticas, fechadas em desejos de ecos que ignoram que para isso precisam de um som.
A verdade é que, não sendo adepto de fatalismos, reconheço que algumas coisas parecem ter em si mesmas algum sentido. Piscam-nos os olhos porque nos deixaram escapar, porque sabiam que eram reais, mas eram já morte antes mesmo de pulsarem irrestritas.
E por isso mesmo, há que recordar... E resistir a essa ideia. Sempre. Mesmo que pareça ou seja inútil...


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Bem, casa nova, porta sem trancas, estaminé inconsequente.

Tudo na mesma, tudo diferente, e em nossa casa podemos fazer o que quisermos...

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