Quando era miudo, repetia aquela gargalhada porque lhe pedia. Recitava algumas frases em espanhol porque me divertia, e contava e recontava detalhes da história porque conseguia com que me perdesse no tanto que sabia, e como o sabia contar.
Era um tio. Um homem de quem gostava, que guardo comigo em muitas memórias, que me fez imaginar algo parecido com a idade dele, na capacidade de saborear a simplicidade de uma vida até algo espartana, mas plena de uma capacidade de ser, encantador, um homem à antiga sem o que de mau isso possa representar.
Foi-se, consumido por uma daquelas injustiças que a natureza resolve leccionar às células, mas nunca o vi, ainda que debilitado, com mais do que um queixume que, ainda assim, lhe conseguisse roubar a capacidade de conversar, de falar de tudo quanto se passava, de trocar connosco uma laracha sobre o nosso malfadado clube do leão.
Num dia já de si pouco fácil, eis que desaparece, ainda que anunciadamente, alguém de quem gostava. Alguém que não era família por acidente, e a quem até sinto que tenha faltado, estupidamente, nestas alturas. Mas gostava dele, e o vazio que sobrevém não é alheio ao manancial de coisas preciosas, de tempos menos violentos, das quais ele fazia parte.
Ainda voltarei a escrever sobre ele.
Por ora fica-me a gargalhada que nunca esquecerei, a paixão pelos livros com que me infectou desde cedo, bem como a música que tanto adorava.
Fica também um pequeno filme que, por alguma razão, também me faz lembrar não só dele, mas do que este instante faz sentir.
Second Wind from Ian Worrel on Vimeo.
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