ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, fevereiro 22, 2011

Era um daqueles meus familiares que oscilava entre a proximidade e os ritmos estúpidos de uma vida sem tempo ou as contingências da idade adulta. Voz grave mas meiga, saber enciclopédico, sentido de humor irresistível, Sportinguista de gema, um historiador auto-didacta, dono de uma gargalhada que faria furor entre quaisquer sons semelhantes na meca do cinema. De óculos de massa preta, que atravessavam ambos os lados do crânio calvo e venerável, recitava momentos da história com uma memória e uma capacidade de contar que faria qualquer episódio um deleite semelhante à melhor das histórias em torno de uma qualquer fogueira. Comia com a boca semi-aberta, dando estalidos e sorvendo o vinho com o gosto próprio de quem sabereava cada pequeno prazer. Fora funcionário do Estado, e não era difícil imaginá-lo no fato de corte clássico, com os eternos óculos protegendo o olhar bondoso e o mundo de letras e música clássica que lhe perpassava pela mente. Tenho uma imensa colecção de discos em vinil, preciosidades que teve a bondade de ofertar-me e que lá estão, à espera de um móvel e um "gira-discos" que lhes faça justiça.
Quando era miudo, repetia aquela gargalhada porque lhe pedia. Recitava algumas frases em espanhol porque me divertia, e contava e recontava detalhes da história porque conseguia com que me perdesse no tanto que sabia, e como o sabia contar.
Era um tio. Um homem de quem gostava, que guardo comigo em muitas memórias, que me fez imaginar algo parecido com a idade dele, na capacidade de saborear a simplicidade de uma vida até algo espartana, mas plena de uma capacidade de ser, encantador, um homem à antiga sem o que de mau isso possa representar.
Foi-se, consumido por uma daquelas injustiças que a natureza resolve leccionar às células, mas nunca o vi, ainda que debilitado, com mais do que um queixume que, ainda assim, lhe conseguisse roubar a capacidade de conversar, de falar de tudo quanto se passava, de trocar connosco uma laracha sobre o nosso malfadado clube do leão.
Num dia já de si pouco fácil, eis que desaparece, ainda que anunciadamente, alguém de quem gostava. Alguém que não era família por acidente, e a quem até sinto que tenha faltado, estupidamente, nestas alturas. Mas gostava dele, e o vazio que sobrevém não é alheio ao manancial de coisas preciosas, de tempos menos violentos, das quais ele fazia parte.
Ainda voltarei a escrever sobre ele.
Por ora fica-me a gargalhada que nunca esquecerei, a paixão pelos livros com que me infectou desde cedo, bem como a música que tanto adorava.
Fica também um pequeno filme que, por alguma razão, também me faz lembrar não só dele, mas do que este instante faz sentir.

Second Wind from Ian Worrel on Vimeo.

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