As pessoas de quem teimosamente gosto, ou a minha incapacidade de guardar rancores, fazem-me duvidar um pouco de mim. Arrisco talvez aconteça a outras pessoas. Obriga a uma reavaliação da ideia que temos de nós, e da fundamentação para certas formas de estar, especialmente aquelas que têm a ver com acolhimentos na central afectiva.
A verdade é que a percepção desse estado afectivo, embora em alguns casos bem blindado, é uma forma de liberdade. É algo que em mim, e creio que nas outras pessoas que o possam reconhecer, ultrapassa a minha própria noção analítica da pessoa que sou e como reajo perante outras pessoas ou fenómenos.
Não me faz duvidar de mim porque ache que entreguei Calais sem luta. Em certa medida, nem sequer se pode já falar em cerco. Faz-me duvidar porque a percepção afectiva não tem outro remédio senão manter-se secreta, oculta, pessoal, como um segredo (mais um guilty-pleasure? humm, mais ou menos...) que cada vez mais se caracteriza como apenas isso mesmo.
A dúvida acerca da forma como eu me caracterizo surge então do confronto eclético dos sujeitos de análise. Uma espécie de análise quse automática dos reconhecimentos. As duas colunas. Mau e bom. Cada vez mais objectiváveis, e como tal, menos eficazes. Mas ainda assim estão lá, não como uma espécie de passado ou presente pouco edificante, mas sim como uma triagem. Uma triagem que permite não dar cabo da cabeça com fundamentos porque, afinal, é uma análise parcial. Ao sê-lo, retém aquilo que nos fundo causa a dúvida de que falava acima, e a qual é muito simples. A que ponto chegará até que essa análise deixe de ser automática, e o ecletismo passe a ser forçado e desde logo, morto, porque já não é livre?
Até que ponto esse estado de dúvida se manterá a partir do momento em que seja necessário começar a fazer contas nas colunas?