ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, março 30, 2011

As pessoas de quem teimosamente gosto, ou a minha incapacidade de guardar rancores, fazem-me duvidar um pouco de mim. Arrisco talvez aconteça a outras pessoas. Obriga a uma reavaliação da ideia que temos de nós, e da fundamentação para certas formas de estar, especialmente aquelas que têm a ver com acolhimentos na central afectiva.
A verdade é que a percepção desse estado afectivo, embora em alguns casos bem blindado, é uma forma de liberdade. É algo que em mim, e creio que nas outras pessoas que o possam reconhecer, ultrapassa a minha própria noção analítica da pessoa que sou e como reajo perante outras pessoas ou fenómenos.
Não me faz duvidar de mim porque ache que entreguei Calais sem luta. Em certa medida, nem sequer se pode já falar em cerco. Faz-me duvidar porque a percepção afectiva não tem outro remédio senão manter-se secreta, oculta, pessoal, como um segredo (mais um guilty-pleasure? humm, mais ou menos...) que cada vez mais se caracteriza como apenas isso mesmo.
A dúvida acerca da forma como eu me caracterizo surge então do confronto eclético dos sujeitos de análise. Uma espécie de análise quse automática dos reconhecimentos. As duas colunas. Mau e bom. Cada vez mais objectiváveis, e como tal, menos eficazes. Mas ainda assim estão lá, não como uma espécie de passado ou presente pouco edificante, mas sim como uma triagem. Uma triagem que permite não dar cabo da cabeça com fundamentos porque, afinal, é uma análise parcial. Ao sê-lo, retém aquilo que nos fundo causa a dúvida de que falava acima, e a qual é muito simples. A que ponto chegará até que essa análise deixe de ser automática, e o ecletismo passe a ser forçado e desde logo, morto, porque já não é livre?
Até que ponto esse estado de dúvida se manterá a partir do momento em que seja necessário começar a fazer contas nas colunas?

sexta-feira, março 25, 2011

De alguma forma, calculo que todos (também) se recordem dos marcos representativos do último momento em que foram inocentes.

E que tenham dúvidas acerca da necessidade da nostalgia abstracta e sensorial, face ao ganho de percepção. Entre o calor irresistível da ilusão e o banho de luz da verdade feliz (ok, às vezes), a hesitação é normal, mas a escolha parece óbvia... A última até pode ter o efeito das duas.

terça-feira, março 15, 2011

Lamento não fazer melhor. Não ser mais. Não ver mais além. Não fazer bem. Não desenhar sem levantar a caneta do papel. Não olhar apenas em frente. Não ser mais que a expectativa. Não conseguir explicar. Não ser maior. Não estar menos dorido. Não ter menos culpa. Não acabar histórias. Não ser o iman do holofote. Não ser o que gostaria(s/m). Só estou cá eu. Lamento.

segunda-feira, março 14, 2011

Algumas pessoas conhecem-nos. Isso não está nunca em questão. Conhecem o que é possível, assim como conhecemos o que elas possibilitam. Um quid pro quo,nem sempre consciente, mas já muito antigo. Reconhecível. E no entanto, de uma recorrência espantosa.
Outras, poucas, levam isso um pouco mais longe. Arranjam uma chave mestra, e levam-nos às conclusões mais díspares acerca de nós, e até a atitudes ou juízos afectivos contraditórios. Em simultaneidade, tocam e repelem, agradam e incomodam, um pouco como um queridíssimo amigo que volta e meia entra com os pés sujos e patinha alguns tapetes. Mesmo que saibamos que o mal pode estar no tapete, que não é assim muito bonito e mais vale estar mas é arrumado na garagem, ainda assim a coisa não é pacífica.
Essas pessoas enervam-nos, mas tocam. Exaltam, mas desenham (nos).
E eu, pessoalmente, reconheço que nem sempre lido bem com todas as manifestações dessas raras pessoas, por muita razão que efectivamente lhes dou.
No entanto, ainda assim, há de facto coisas que nem essas pessoas presumem. Raciocínios que não batem exactamente certo, confusões que nem sequer começaram a ser mapeadas pelo próximo, afectos que dança na cabeça como prateleiras de apoios fendidos que arriscam desequilíbrios à ordem do sótão. Há coisas que não são efectivamente como os visitantes julgam, partes da casa que não estão exactamente na planta.
E é por isso que as coisas acontecem, e por vezes nada podemos fazer contra ou em função disso.
Afinal, o traçado do arquitecto dificilmente aceita sugestões ou protestos do edifício. Mesmo que se calhar em alguns aspectos o projecto seja as linhas de um automóvel.
Brincadeiras à parte, mesmo para que nos conhecem e aí navegam com a maior
das seguranças, há que entender que o rio nem sempre obedece às margens.
E aí tudo é diferente.

quinta-feira, março 10, 2011

Eu passo a vida a dizer a muitas pessoas que não passo de um ingénuo. E isto porque de facto custa-me horrores a acreditar que as pessoas sejam capazes, sem pestanejar, de encetar más acções, de forma torpe e subreptícia, sem que isso lhes troube o sono. Sou, como ingénuo confesso, incapaz de acreditar que as pessoas na sua maioria possam, deliberada e calmamente, prejudicar alguém que nunca lhes fez mal algum, só porque podem. Ingenuamente, acho que será difícil conceptualizar uma série de acções onde as pessoas genuinamente acham que os seus interesses legitimam automaticamente as suas acções só porque em ambos os casos são suas.
E de facto sou um ingénuo. Acho difícil que as pessoas consigam desligar-se das más acções, da vileza e calma fria com que as executam, e ao verificar que as mesmas acontecem, fico ainda assim sempre estupidamente surpreso. Pelo menos um bocadito, o que, vindo de alguém não optimista, parece um contrasenso.
Como racionalista, creio numa lógica tendencialmente construtiva, e embora seja descrente quanto aos fatalismos, creio que em alguns casos a impunidade não tem duração ilimitada. Embora saiba que a prosperidade e a filhaputice andam em  muitos casos de mãos dadas, são os exemplos contrários que podem dar aquela velha noção de que não pode chover sempre.
Que os sonhos e momentos de reflexão daqueles que o fazem possam assombrá-los indefinidamente, porque a crueldade, a maldade e o desrespeito deveriam ser já um castigo em si.
Lá está, como se vê a maior das ingenuidades.

"Maldito é o homem que vive em época decadente" - Robert E. Howard...

terça-feira, março 01, 2011



"There's a harsh truth to face. No way I'm gonna make it on the outside. All I do anymore is think of ways to break my parole, so maybe they'd send me back. Terrible thing, to live in fear. Brooks Hatlen knew it. Knew it all too well. All I want is to be back where things make sense. Where I won't have to be afraid all the time. Only one thing stops me. A promise I made to Andy."

Bem sei que encontramos conforto ou senso de casa em coisas convencionais, ou, pelo contrário, nas particularidades que, em espaço de segundos, fizeram todo um universo de diferença.
Há quem tenha "livros psiquiatra", quem se dedique a um hobby ou talento, quem se escape para um local específico à procura das cores e sons onde se possam camuflar como se completassem uma paisagem. Os refúgios são feitos de inviolabilidades. Daquelas coisas que ninguém ou nada pode efectivamente adulterar porque em parte não são nossas para que as possam furtar. Estão ali. São feitas da capacidade de desejar, e essa é peça inamovível porque é um reconhecimento.
Este é um pedaço da minha vida que encontrei no velho e extinto "Xenon", uma sala antiga, plena de odores discutíveis, na corrente de prédios antigos do lado direito da avenida da liberdade que desemboca em plena Praça dos Restauradores. E por alguma razão, é sempre o anti-desespero. É sempre algo feito sem cinismo, sem estratégia, sem programa. É algo que entra sem pedir licença e traz a pacificação do que invade sem más intenções. No fundo faz parte do pouco que resiste à adulteração adaptativa do que é ter de saber viver onde estamos.
Existem poucas coisas como aquelas que conseguimos salvar do fogo...
Encontramos santuário nas coisas mais inesperadas... Ou se calhar não são assim tão inesperadas. A ideia é simples. Alguém, algures, num par de minutos, soube acerca de nós aquilo que a esmagadora maioria dos que connosco partilharam ou partilham espaço nem sequer adivinham...