VIVER ACIMA DAS POSSIBILIDADES...
...é a catch phrase do momento. E, em muitos casos, infelizmente acertada. E pode até ser extensível. O conceito não se esgota no universo económico ou pragmático. Em muitos aspectos, muitas pessoas vivem acima das suas capacidades. Acima das suas capacidades humanas, de gestão dos outros, da vivência que provavelmente deveria assentar num esforço de entendimento como primeiro reflexo, quanto mais não seja pela necessária auto-análise que têm de fazer.
...é a catch phrase do momento. E, em muitos casos, infelizmente acertada. E pode até ser extensível. O conceito não se esgota no universo económico ou pragmático. Em muitos aspectos, muitas pessoas vivem acima das suas capacidades. Acima das suas capacidades humanas, de gestão dos outros, da vivência que provavelmente deveria assentar num esforço de entendimento como primeiro reflexo, quanto mais não seja pela necessária auto-análise que têm de fazer.
Há pessoas que vivem acima da sua capacidade de gostar. Outras, bem acima da sua capacidade de dar. Outras ainda, acima da sua capacidade de ser normalmente usando pó de maquilhagem para pelo menos esbater as pintas que jamais lhes abandonarão a pele. Há ainda outros que vivem acima da sua capacidade de entender. Estão algures entre um cenário proposto e aceitam o papel sabendo perfeitamente que nem o principezinho conseguiram representar na primária, quanto mais o Hamlet na idade adulta. Seguem as marcações, vêm os passos, falam na deixa mas não têm qualquer ideia do que se está a passar.
E finalmente há quem viva acima da sua capacidade humana. Porque esta verifica-se, e em muito, na lógica de calçar os sapatos do outro, de questionar mais que julgar, de saber a empatia é bem mais que um ou dois assentimentos de cabeça em alturas dadas como "acertadas". Há quem não seja capaz de erguer-se de si mesmo, da enorme piscina fervente em que se torna o umbigo, mas aja como tal. Há quem ameace muito mais humanidade do que aquela que tem para apresentar, baseado numa ferramenta romba e tosca como a "ditadura" do sentir, que é por isso mesmo, apresentada como auto justificativa.
Há quem viva acima das suas possibilidade como pessoa, porque o instinto ou reflexo natural não é estender a mão a não ser que seja para sacar alguma coisa. Há quem esteja num plano formal muito acima das suas capacidades materiais como pessoa, e nada mais tenha para oferecer do que aquilo que não é vindo de si, mas sim aquilo que nunca deixa de ser seu.
Numa era em que as fragilidades da vida acima das possibilidades vão trazer o real cenário dos castelos feitos de papel em terra de monções, estas serão tambem questões que virão ao de cima. Aliás, estão bem visíveis, e fora dos locais onde não é bonito ou apropriado falar das várias manifestações da natureza humana, crescem e prosperam. Estão lá. Toda a gente sabe. É como um mendigo sujo e pré-agonizante na vitrina do restaurante. Toda a gente sabe que está lá, mas pode ser que ele se vá embora se não olharmos.
Vivemos acima das nossas possibilidades porque estas são somente (alguns) outros. Os que me assustam porque são os que vivem abaixo das suas imensas possibilidades... mas isso é outra conversa.
O resto é propaganda bancária de um mundo de humanidade básica e empatia semi-falida.