ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, abril 27, 2011

VIVER ACIMA DAS POSSIBILIDADES...

...é a catch phrase do momento. E, em muitos casos, infelizmente acertada. E pode até ser extensível. O conceito não se esgota no universo económico ou pragmático. Em muitos aspectos, muitas pessoas vivem acima das suas capacidades. Acima das suas capacidades humanas, de gestão dos outros, da vivência que provavelmente deveria assentar num esforço de entendimento como primeiro reflexo, quanto mais não seja pela necessária auto-análise que têm de fazer.

Há pessoas que vivem acima da sua capacidade de gostar. Outras, bem acima da sua capacidade de dar. Outras ainda, acima da sua capacidade de ser normalmente usando pó de maquilhagem para pelo menos esbater as pintas que jamais lhes abandonarão a pele. Há ainda outros que vivem acima da sua capacidade de entender. Estão algures entre um cenário proposto e aceitam o papel sabendo perfeitamente que nem o principezinho conseguiram representar na primária, quanto mais o Hamlet na idade adulta. Seguem as marcações, vêm os passos, falam na deixa mas não têm qualquer ideia do que se está a passar.

E finalmente há quem viva acima da sua capacidade humana. Porque esta verifica-se, e em muito, na lógica de calçar os sapatos do outro, de questionar mais que julgar, de saber a empatia é bem mais que um ou dois assentimentos de cabeça em alturas dadas como "acertadas". Há quem não seja capaz de erguer-se de si mesmo, da enorme piscina fervente em que se torna o umbigo, mas aja como tal. Há quem ameace muito mais humanidade do que aquela que tem para apresentar, baseado numa ferramenta romba e tosca como a "ditadura" do sentir, que é por isso mesmo, apresentada como auto justificativa.

Há quem viva acima das suas possibilidade como pessoa, porque o instinto ou reflexo natural não é estender a mão a não ser que seja para sacar alguma coisa. Há quem esteja num plano formal muito acima das suas capacidades materiais como pessoa, e nada mais tenha para oferecer do que aquilo que não é vindo de si, mas sim aquilo que nunca deixa de ser seu.
Numa era em que as fragilidades da vida acima das possibilidades vão trazer o real cenário dos castelos feitos de papel em terra de monções, estas serão tambem questões que virão ao de cima. Aliás, estão bem visíveis, e fora dos locais onde não é bonito ou apropriado falar das várias manifestações da natureza humana, crescem e prosperam. Estão lá. Toda a gente sabe. É como um mendigo sujo e pré-agonizante na vitrina do restaurante. Toda a gente sabe que está lá, mas pode ser que ele se vá embora se não olharmos.

Vivemos acima das nossas possibilidades porque estas são somente (alguns) outros. Os que me assustam porque são os que vivem abaixo das suas imensas possibilidades... mas isso é outra conversa.

O resto é propaganda bancária de um mundo de humanidade básica e empatia semi-falida.


terça-feira, abril 26, 2011


Acho que é comum a ideia de um desejo de justiça como corolário da necessidade de certos eventos. Especialmente quando as pessoas têm a noção de que o individualismo ou as ferozes reclamações do próprio estômago e umbigo já foram longe demais. Sei que é uma ingenuidade, e sei que a definição das coisas está definitivamente no balanço do poder e como este pode ser gerido. Por outro lado imagino que em meio ao fogo da auto-centralização está a cegueira própria do que há já muito foi o abandono do pensamento, do senso, da lógica que não seja produzida nas entranhas.
E é engraçado como há quem simplesmente se orgulhe disto. No epicentro de uma necessidade de prevalência dessa vontade, há todo um esquecimento do que é a mínima capacidade de tentar ver o próximo. Há, sim, uma espécie de despotismo auto-justificativo, quase um culto da personalidade (que vemos, por exemplo, no nosso país) que esquece coisas simples como factos, lógicas, axiomas, consequências.
Mas, sinceramente, espero que em certa medida as coisas acabem por revelar-se pelo que são, que a verdade, como fundamentação da realidade enquanto aquilo que é, não seja apenas uma espécie de brincadeira idiota de alguns meninos perdidos, algures numa ilha tropical, com um Deus morto num trono acidental.
Que seja nítido como água de nascente que a liberdade pessoal não se tolhe, não se pede, não se circunscreve ou convence. A liberdade não é passível de acordos, de jeitos, de ajustamentos ou arranjos. A liberdade do querer não se conquista por sonegação. A liberdade importa na medida em que os que são livres, escolhem então que façamos parte dessa vontade, e não constrangimento, em ser ou fazer assim ou assado. A liberdade está em perceber que, apesar de tudo, as coisas vão sendo feitas, e sã-no por um sentido omnipresente. A liberdade está em conseguir pensar mesmo quando se fazem malditos comícios de celebração de uma espécie de ditadura do sentir, que faz de tudo terra queimada. A liberdade é respeitar. Tudo o mais é obsceno.

quarta-feira, abril 13, 2011

Pára lá um bocadinho. Sim. Respira. Toca em qualquer coisa só para perceberes que não estás a pairar em pleno ar, que as situações são num nó feito de cordas tecidas em filamentos do possível e gerível.
Aceita que estás a descobrir como se faz. Que não tens muita certeza, mas ao apagar a luz a lógica da certeza e definição toma conta daquilo que já lá está antes que a mente construa o cenário e o estratifique.
Aceita que mesmo em meio ao muito que te pertence, escorregarás na dúvida do que te atreves a perguntar. E perante as paixões próprias da natureza que te faz questionar constantemente, está o corte fervente do reconhecimento. De quê? Do que é teu. É e provavelmente nunca deixará de ser. Do que vive porque em certa medida está solitário contigo e solidário com tudo o que lhe apresentas, apesar de abanar a cabeça em empática compaixão. Do que te come vivo(a) começando pelos lábios, lingua e dedos, para que tenha a perfeita noção de que toda  a tradução que faças não passa da tentativa de passar essa informação adiante. Do mar que oscilava ali à frente e causava o que não podias explicar. Da denúncia pelos olhos. Pelas pistas, pelos dentes, pelas cicatrizes, pela simples incapacidade de te verteres num copo e directa percepção de um algo complexo no palato, que não se esquece, precisamente porque não se sabe mutio bem o que é.
Nem tudo é um caos estúpido, nem todas as aleatoriedades são impurezas ou desperdícios a retirar do caldo. É o que esperas. É o que se espera. Sim. É.
Já paraste?


Não?
Claro que não.
Pois com certeza que não, porra...
Sorri (so)...

segunda-feira, abril 11, 2011

O cuidado é bilateralizado. Há que saber providenciar, mas também receber. É uma rua de dois sentidos, um "contrato" de duas iniciativas, não há sujeitos activos nem passivos, não há espera ou acção de forma plena. O cuidado é ir onde é perigoso e exibir a educação própria de quem sabe estar perante um privilégio, pensando ao mesmo tempo na sala igual que tem lá em "casa"...

A lógica suicidária não passa só pelo plano material. Há pessoas que se esforçam mesmo muito por morrerem num universo onde talvez fossem imediatas ou quase consequência de se limitarem a ser. E o tempo passa, alargando a perspectiva do desperdício. Acentua-se a ideia da entrega de certo ouro a uns tipos disfarçados de funcionários da Wells Fargo. E como tal, esse aparente disfarce simplesmente se dilui no tempo, retirando a identidade dos agentes, e deixando apenas os factos. O lastro é um cinzel de personalidade, rombo, tosco a espaços, e que em alguns pontos nem a erosão do tempo consegue suavizar.

Os agentes "matam-se". Tornam-se o pó de realidades mascaradas de pele descartada por crescimento e secura. E fica, nos momentos silenciosos, a inexplicável e intraduzível sensação do caminho trilhado e como, em alguns pontos, as passadas lá dadas nem o benefício fatalista de uma ideia de destino conseguem dignificar. O som que surge é igual ao de uma bota velha em cima de solo árido, pedregoso e pleno de cardos antigos e teimosamente agarrados a uma paródia de vida.

Os suicidários são assim, dualidades.

Está esquecidos, cada vez mais, enquanto indivíduos, e vivem apenas como depositários de ideias que, em alguns casos, nunca deveriam ter o formato ou consequências que tiveram. Porque parece que foram apenas provação sem moral no fim. Pensem no princípe feliz sem ouro para dar...

Não sei bem se será. Em bom rigor, acho que em grande parte a consciência da lógica predatória de poder deixa apenas lugar às "pequenas" bondades, honestidades e morfologias de amor. Começa a ser cada vez mais complicado ter a noção de um "Bem" enquanto substrato universal, na sociedade em geral, com base em perspectivas que não sejam relativizáveis com o velho argumento da "cultura". Talvez o que seja possível sejam as "pequenas bondades", os gestos, o microcosmos de humanidade que dispensamos nas acções mais comuns e quotidianas. Diziam os ingleses que "casa" é onde está o coração. Eu tenho outras ideias, vá, somadas a essa. Talvez a ideia de coração, da concretização da nossa "finalidade" enquanto seres sensíveis e portadores de afecto, esteja no que consideramos casa ou quintal. Aquele pedaço de mundo que ainda é "nosso", onde se cultivam coisas que plantámos, outras que nem sabemos como lá aparecem, e que se alimentam do que de bom realmente lhe possamos fazer. Não vejo aí uma espécie de convicção de obrigatoriedade, mas somente uma evidência cristalina e plena nos seus efeitos.
No fundo, é a essa mesma casa que estamos sempre a tentar chegar... Acho eu. E se o mundo não serve e a honestidade é uma espécie de pilhéria infantil a disciplinar rapidamente, então só resta a  simples faculdade de dar qualquer coisa a alguém, como reduto último dessa liberdade inexpugnável.
Talvez seja... mas muito mais pequeno...

terça-feira, abril 05, 2011

"I heard a joke once: Man goes to doctor. Says he's depressed. Says life is harsh and cruel. Says he feels all alone in a threatening world. Doctor says, "Treatment is simple. The great clown Pagliacci is in town tonight. Go see him. That should pick you up." Man bursts into tears. Says, "But doctor... I am Pagliacci." Good joke. Everybody laugh. Roll on snare drum. Curtains" - Watchmen - Alan Moore