ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, maio 31, 2011







«Nolan - "Why do you value your failures more than your successes?"

House - "Successes only last until someone screws them up. Failures are forever."

Nolan - "So, you accept that fact? You accept that there is nothing you can do?" 


House - "Okay, I accept the fact that there's nothing I can do. Now, what can I do?" 


Nolan - "You acknowledge failure. And you move past it. You apologize." 


House - "Wow. Powerful things these apologies. Get someone to jump off a building and you say two words and you move on with your life. Hardly seems fair." 


Nolan – "Is that the issue? You caused him pain. If the world is just, you have to suffer equally?"
Nolan chuckles. "You're not God, House. You're just another screwed-up human being who needs to move on. Apologize to him. Let yourself feel better. Then you can learn to let yourself keep feeling better." »


Podemos ser "felizes" na infelicidade? Quero eu dizer, podemos ter uma espécie complicada de propensão para nos sentirmos familiares com ondas e ondas de uma tristeza quase reconhecível. Bem sei que pelo menos um dos bardos, e talvez metade da poesia conhecida, falam da doçura sorumbática. Mas no mundo dito real, pragmático. Será normal? Será comum sentir uma propensão para a familiaridade com os aspectos mais escuros da natureza humana, para sentir que cada coisa que se faz de bem é normalmente sujeita a um tal implacável auto-escrutínio que parece fazer da luz um necessário recorte para a sua sombra?
Não faço ideia.
É uma ideia preocupante porque é um local onde as coisas são facilmente definíveis até porque nunca se sucumbe à tentação niilista. Há uma denúncia, há uma percepção generalizada de que a maioria das coisas são tentativas, enquanto não conseguimos impedir que alguém se magoe com as piruetas dadas no imenso quarto que, apesar de escuro, tem sons e cheiros de casa.
Será porque é mais fácil? Será que na adversidade algo destila como uma espécie de representação da essência? Será porque quando o medo aumenta, a expectativa pintada a tons escuros torna-se mais fácil de delinear? Ou será uma forma de conseguir não pedir ajuda, levando as coisas aos extremos mais subtis, precisamente porque são derrocadas internas?
É que nem por isso se deixa de ser bem disposto, mas há uma sede imensa de ter razão, e ver ocorrer os vacticínios próprios da beleza própria do desejo por acontecer, porque não há imaginação maior.
O mais complicado é que isso nao se entende. Não se sabe de onde vem, e combate-se o melhor que se sabe, embora algo fique agarrado, como um sinal na pele ou uma emanência no olhar que não se consegue disfarçar. Marca a pele, e tudo o resto, e empresta uma dimensão. São texturas atrás de texturas, e tudo parece um imenso berro que parece fazer esquecer a noção de silêncio. É como se a beleza própria da luz que irrompe pela adversidade ainda se tornasse mais fantástica pela natureza composta que a constitui. Um jorro de claridade, mas amarelo mais torrado, à falta de melhor metáfora.
Uma vez li um livro onde o protagonista falava do tremendo esforço para que a felicidade não fosse uma espécie de conceito soluçante. Ao ouvir uma entrevista de Hugh Laurie (coincidência, ou talvez não) ele fala do prazer e da felicidade como uma espécie de percepção de uma rampa descendente em direcção ao escurecimento.
Não concordo exactamente com isto, mas pergunto-me como se convive com uma espécie de traço do nosso contorno feito a bold e carregado de sombreados, numa ideia de sistema complexo, funcional, e ávido de aprendizagem talvez mais iluminada. Como é que se vive com a percepção de que os nossos passos caminham firmes tanto em solo fértil como numa planície cheia de cinza e vastidão riscada a pretos e cinzentos?
Mais complicado ainda é conseguir transmitir uma adaptação daquilo que Gramsci dizia - "pessimismo do intelecto, optimismo da vontade" e unidade de pertença a ambos.
E como explicar que isso não se consegue evitar, mas tão somente tornar mínimo no grande esquema de uma personalidade que, por isso mesmo, será sempre parcial, mas necessariamente, falha?
Como é que conseguimos desculpar-nos por aquilo que, em parte, nunca ninguém nos acusou?
Complicadote, diria eu...



terça-feira, maio 24, 2011


A auto-depreciação não é bonita. Não tem charme, não é uma afectação, nem uma espécie qualquer de tique com pinta. A escuridão surge e mina tudo. Dói e é perigosa. É uma espécie de cauterizador involuntário.
Quando surge, ou quando acontece, não dá grandes hipóteses. É como um banho escuro, de água oleosa e gelada. Toca tudo, como uma espécie de carícia maldita e inaceitável.
Não é divertida. Não tem grandes benefícios. Surge e leva tudo consigo. É uma escuridão profunda, um toque degenerativo, um espelho tão pleno de deformações que qualquer imagem estática parece devorar-se e regurgitar-se a si mesma, em repetição.
Mantê-la ao largo é, a mais das vezes, tarefa oriunda de treino. Torna-se mais fácil com o passar do tempo e com uma resiliência que não admite escorregadelas. Mas quando vem, é a força imparável que encontra o que já não é o objecto inamovível. É inevitável como o próximo segundo a cair como o som de uma gota  numa enorme caverna.
E toca tudo, como qualquer ausência de luz o fará.
A auto-depreciação não é bonita. Não tem graça. Não acrescenta. É uma espécie de sintoma que deriva de algo que não se pode qualificar como se faria a um vício ou compulsão, mas que é igualmente irresistível.
...
E depois segue. Vai-se, como veio. Como uma maré negra, desfaz-se, dissipa-se. O mar fica exausto, temporariamente vazio, escuro, dorido. Recorda-se. Custa-lhe mais do que será capaz de expressar.
E depois segue-se... Quando os olhos e tudo o resto resolvem, sem saber, passar a alguma clemência...


 


segunda-feira, maio 23, 2011


Ao olharmos para cada um dos quotidianos, julgo que será tentador definí-lo como normal. Bem sei que o esquadrão do anti-politicamente correcto atacará essa expressão, mas de facto julgo que é "normal" pensar assim. Eu próprio tenho essa ideia tão vincada, como acho que a mesma está errada. Como acho que a linearidade das interpretações está profundamente errada, ou a mais das vezes, sofre do pecado da precipitação.

A verdade é que se não escrutinar, alguém o fará por mim. Fá-lo-á por todos nós. Podemos prestar mais ou menos atenção, mas o formato do decorrer da nossa história só simplifica com a morte em vida, ou aquela propriamente dita. A capacidade de viver e lançar um olhar para o passo mais adiante levará a questões, e as questões levarão a pensar em quão desfasada da paz está a intensidade e importância dos acontecimentos. Não há só linhas rectas. As pessoas que amamos, seja de que forma ou com que intensidade for, irritam-nos. Desejamos o seu silêncio e rugimos perante o peso da irrtiação que o ser quem são provocam. As disfuncionalidades na família acabam por caracterízá-la. No amor em todas as suas formas, mais numas que outras, vá, provam o poder do seu ecletismo de sobrevivência. Nas relações sociais testam a tolerância recíproca, aquela que de alguma forma leva a que as ordenemos e nos surpreendamos com a capacidade que temos de não deixar que o coração se envenene, por mais cansados que estejamos.

A força da disfuncionalidade, do surrealismo que faz dos afectos coisas contorcentes e transmorfas, mas sempre feitas de uma matéria reconhecível, surge pela necessidade de contar uma história. Não, esperem. Da necessidade de ser algo de história, de ver que o mundo se move inexoravelmente, mas alguns passos são necessariamente dados. Na direcção da sua rotação ou em contrariedade à mesma.
Eu tenho uma noção da "normalidade", como calculo que todos tenhamos. E do quão disfuncional pode ser o funcionamento do mundo para que me destaque dele, renegando os seus efeitos, mas principalmente as suas causas e actos subjacentes. E também imagino até que ponto pode ser complicada a visão que têm das minhas coisas que não se entendem, das minhas flexões de arquitectura de alma que não fazem qualquer sentido, da minha escuridão pessoal e necessária, da minha tremenda disfuncionalidade.

No entanto, acho que onde algo se passa, as linhas da ordem sofrem sempre embates. Algo é sempre inegavelmente estúpido, estranho, e humanamente maravilhoso ou terrível. Na disfuncionalidade reconhecível, passamos o cartão de humanidade na ranhura de todos os entendimentos, e sabemos de antemão que poucos poderão abrir uma porta, ou acender uma luz.

Sei da normalidade aquilo que ela não me dá.

Adivinho a insuficiência das minhas questões, mas também pouco se denuncia a dimensão voraz das minhas vontades, cozido ao mundo, como acho que por vezes estou.

São raras as coisas que não entendo acerca de mim, em termos de funcionamento. E no entanto, essas coisas são como a demografia numa Tundra ou um Sahara. Poucos lá deambulam, mas o espaço gigantesco pertence-lhes. A disfuncionalidade é, assim, a perpetuação de um querer abstrato que se manifesta nas imensas paisagens internas onde tudo está pronto para receber, mas poucos por lá passam. Ser imune às dentadas e doenças de tal paisagem não é algo que se aprenda ou uma adaptação extrema.

É, simplesmente, da reorganização da ordem ver, finalmente, o "normal"..



terça-feira, maio 17, 2011

Por alguma razão que desconheço, ou talvez não, sempre achei graça a uma certa marca de desgraça nas pessoas. Não de desgraçadice ou "calimerismo". Mas um traço de destroço, uma racha profunda num olha de semblante quase perfeito, um prenúncio de história, um emergir que é uma espécie de redenção contínua.
Chego à conclusão que essas pessoas conseguem rir como ninguém. Estendem a mão e tocam com a percepção de que ilusão é uma palavra que surge algures na letra "I" do dicionário, sabendo perfeitamente que o perigo está na pouca magia que pode ter a sorte de ser real.
Essas pessoas, que na partilha dos seus universos, contam histórias pingadas de negro, não desdenham qualquer cor. Olham como pele cortada mas nunca morta. Exibem uma espécie de candura irada, bem contida, emersa em mil teias complexas de ideias que nem elas percebem bem, a mais das vezes, mas que definem constantemente, como o mais próximo que se possa imaginar a uma canção da alma.
Os olhos estão quase sempre ligeiramente arregalados. Olham em frente com destemor e polidamente ao lado para poderem respirar.
A traça da desgraça é uma espécie de verniz vintage que faz do gesso recém-nascido uma espécie de bronze contador de histórias, sendo que o brilho metálico é a forma consciente como deixam que emerjam as vitórias de espíritos que não se quebram.
Essas pessoas, cujos pés têm uma parte mínima chamuscada pelo inferno, troteiam pela terra num misto de respeito pela sua verdade e gratidão consciente pela sua natureza luminosa. E a maioria desse tão ínfimo grupo ama com a raiva própria de quem sabe o que são pretensos sulcos na pele, mas que afinal deixam cicatrizes na cabeça. Envergonham as histórias contadas a meio conceito, sorriem exibindo o tecido cicatricial, e são, em parte, indefinidamente diáfanas. E é assim que nunca morrem num formato, deixando-se conhecer no que se reinventam, mas que afinal de contas, é tudo aquilo que são.
Por alguma razão, sempre fui vulnerável a um estilhaço de desgraça numa expressão. Talvez porque seja esse que prove, sem sombra de dúvida, que aquilo que importou, acabou por levar a melhor.
Mesmo quando era impossível.

As pessoas que são fundamentais para nós fazem-nos correr um terrível risco. Sendo fundamentais, estão ali, são parte do tecido de todos os dias. E esse tecido veste-nos, dá-nos uma pele, uma identidade, e prega uma terrível partida, que assenta num juízo de naturalidade. De algo que é tão importante que está ali, faz parte do real, parece que não se destaca dele, e por isso mesmo, talvez não acabemos por dar a importância que merece.

Não...
Não é verdade. Não tem a ver com a importância. Tem a ver com a manifestação dessa importância.

Nessa linha, não julgo que desfarei ninguém ao dizer que é fácil reconhecer o pilar. Quem sustenta nas costas o peso do que todos gostaríamos de ser capazes de ser. De ser o exemplo da integridade com que crescemos ou vivemos. De ter a sabedoria simples para perceber o que se consegue saber com a pureza da linguagem da pele, do laço, da pertença, da carne. De admirar a força centrada num porvir de acções e cuidados que mais do que um exemplo, são uma história, e as verdadeiras histórias vivem para sempre.
Por isso, acho que não dizemos suficientemente aquilo que deveríamos. Eu sei que de certa forma, reconheço que os laços titânicos e umbilicais que formam esta unidade, por vezes impedem o afecto de sair em palavras simples, suaves, e tão directas como as demonstrações quase automáticas o permitem.
Mais do que gostar tanto da minha mãe, e celebrá-la, de ter a sorte pelas escolhas que ela me deixou fazer, de usufruir da paciência pela dificuldade que é, por vezes, entender o que faço ou digo, ou melhor, o que todos somos, é absolutamente necessário vê-la pelo que é, pelo que faz, por quem me (nos) tornou.

Mas não só celebro a tua vida, mas aquela que tens a bondade de me (nos) proporcionar.



quinta-feira, maio 12, 2011


É coisa antiga verificar a capacidade que temos de magoar outros, ou fazê-lo a nós próprios, ou sermos magoados, e a sua directa proporcionalidade em razão do paradoxo de quem teria "menos motivos" para o fazer. Além de coisa antiga, é meio estúpida, e irritante, mas não deixa de ser uma verdade inderrogável. A proporcionalidade directa é quase uma espécie de legenda secundária, de sussurro do ponto, perante a relevância das coisas.

Podemos desejá-las ou não, mas o reconhecimento dessa capacidade nasce das pequenas ou grandes dores que afectam o raciocínio e aventam descobertas dificilmente concretizáveis em palavras. Pelo menos de início, quando o rombo quente de uma ou várias ondas de choque cimentam as percepções, mas queimam a pele que tocam. A pele, quando queimada, retrai-se, fechando os poros em protecção, juntando-se para aguentar o embate e criar espessura e profundidade para que o motor da renegeração seja protegido e comece imediatamente a trabalhar quando a explosão amaina.

No meio dessa renegeração contam-se os golpes, limpam-se as feridas com o esgar de quem as reconehce como tal. Sorri-se pela história que a cicatriz traz, não na perspectiva de ser recordada, mas naquele tipo de histórias que afinal crescerá, porque só começaram. Nessa capacidade paradoxal, a impiedade é uma espécie de vento furioso, capaz de esculpir as formas dos conceitos em rocha, num doloroso processo de génese e formatação. É como cozer pele a sangue frio, com cuidado, para que a marca seja a força de uma recordação necessária e não o estrago perene de uma deformidade.

A verdade é que não podemos escolher os efeitos que os detentores dessa capacidade podem causar. Seria giro e bem prático ser ecléctico nesses efeitos, como se fosse possível ser ingénuo ao ponto de achar que as sombras necessárias não dão, também, consistência a essa capacidade. Como se pudessemos de alguma forma dar consistência a um desenho bidimensional, sem sombras, de traço limpo, como o de Hergé, e continuar sem ter a certeza que tal coisa não existe.Como se entrando a luz pelos olhos dentro, pudéssemos ser ignorantes da necessidade da sombra.

O poder que, intencional ou inadvertidamente, atribuímos a outros, nasce, em muitos casos, com o desconhecimento daqueles. Aqueles que se borrifam completamente nas nossas objecções convenientes e constroem vias até ao que em nós é fulcral e, claro está, acabam por atropelar umas quantas coisas.
Assim, a capacidade que temos e que têm de (nos) gerar dores e destruições, numa roda viva de renegeração, é o que faz das histórias (reais) aquilo que são. É o que as levanta da bidimensionalidade. O que as faz cortar o vento e apanhar algumas gotas de chuva. É, também pelo menos, o que as salva da morte. Mesmo que seja interna.



quarta-feira, maio 11, 2011

Julgo que em alguns casos, é fácil confundir desejo de simplicidade com probabilidade da mesma. No fundo é quase um argumento cartesiano. Se está lá, e é em si simples, porque não imediatamente aplicável? A verdade é que durante muito tempo cresci com a noção de que as coisas acabariam por ter um enquadramento lógico e adequado, seja lá o que essa merda for exactamente. Achei que as decorrências da vida, entre medos, agruras e todo o género possível de ganhos, assentava numa metáfora simples. As peças eram limadas pelo tempo, ao mesmo tempo que lentamente rodavam, até produzir um estalido de encaixe, num imenso puzzle de sentido, ou prova do mesmo. Simples não é? Clic e pronto.

Rapidamente fui emerso em dúvidas acerca disso, porque os factos foram contrariando as minhas ingenuidades. O amor à pessoas que me cercavam e cercam, os que sabem dele e os que não sabem, era, e é, uma espécie de sabonete passado a água morna, que desliza com a graça de algo livre e incontido. Ri-se dos meus reflexos, escapa-se a todas as tentativas, e no entanto desliza, ali, perto da pele e do entendimento, cobrindo as minhas intenções a caos e as suposições a perguntas. Nesta puerilidade, julguei que os meus pais não envelheceriam, que alguém faria uma excepção no caso deles. Que as pessoas de quem gosto não sofreriam, porque isso seria estupido e ilógico, já que eu não via nenhum merecimento nesse revés. Que tudo seria simples, que conseguiria explicar todas as formas oscilantes que me faziam uma espécie de seguidor de um sol de cara séria.

Julguei que, com o tempo, não teria medo, deixaria de me surpreender, que as coisas doeriam de forma "adequada", que cresceria para fora dos meus anseios e deixaria de parte um dialecto demasiadas vezes declamado em eco.

Julguei que, por venerar a simplicidade, tudo seria de facto simples.

O que, convenhamos, é muito complicado...

segunda-feira, maio 02, 2011

Vivemos numa espécie de ordem social bem comportadinha, onde em cima da mesa se fala das cercas brancas compostinhas, e em baixo os pés trocam-se como mãos de náufragos que tentam, às cegas, agarrar-se ao que puderem como alternativa para a balsa de madeira podre à qual chama de vida. E não se fazem prisioneiros na rua cheia de ulmeiros moribundos onde morrem as irmãs Lisbon. Não se poupa nada ao cinzento dos tijolos com reboco e dos arranjinhos bem organizados e sem ondas. É uma espécie de crosta bem desenhada debaixo da qual infecta e sucumbe qualquer vida num fedor de náusea. A hipocrisia, o juízo, a arrogância das soluções para quem em si não passa de um destroço tão poucos anos que nem sequer se pode chamar detentor de uma vida.






Sim, vem fora de tempo, mas assim é mais original. Ou talvez só me tenha apetecido agora. Ou qualquer outra razão, já que pude estar com ela no dia, como estou frequentemente, o que só por si é uma benesse e privilégio. A verdade é que em Maio, celebro-a duas vezes. Ou melhor, celebro-a novamente mais duas vezes.

Nunca é demais aquilo que possa dizer dela, mas sai sempre curto, quase afásico, face ao que dela penso. Jamais, em tempo algum, conheci alguém com uma capacidade de resiliência tão férrea e uma tão inquebrantável energia. Além disso, o conhecimento intuitivo que tem, (e neste caso sou suspeito para falar, mas será assim), de cada um dos que a rodeiam, é matéria de compêndios acerca da simplicidade de processos em matéria relacional. Professora de contenção, ensinou-me, sem o saber, a distinguir cada um dos efeitos das coisas que realmente importam, e a forma como os posso honrar na percepção e manifestação contida dos mesmos, mas sem nunca me deixar esquecer o que de facto faz diferença. Cuidadora por natureza, tem a irritante mania de mal cuidar de si, e queixa-se tão esporadicamente quanto neva na cidade onde vive. A minha mãe, a minha definição de umbilicalidade, será, no velho clichê, a melhor mãe do mundo. Para mim certamente, e tenho confiança que se a inscrevesse num campeonato da especialidade, daria cartas em todas as provas.

Mas julgo que aquilo que nunca me canso de celebrar e agradecer-lhe, é a lucidez. A forma como sempre me permitiu pensar pela minha cabeça, com fortes valores de exigência, mas sempre regados a tolerância vasta pela forma como as pessoas conseguem ou desejam viver as suas vidas. É uma bebedora de diversidade, aceitante do mundo onde vive, sempre curiosa, sempre à procura. No meio do seu universo, não tem uma palavra de rendição para oferecer, e espera sempre as opiniões para poder complementar com a sua. Vive com aquela ideia de que no tempo dela era diferente, e que se respeitavam os mais velhos e que os políticos conspurcavam menos a vida dos outros. Se está certa ou não, eu não me arrisco a definir. Mas sei que o faz com um olhar questionador, coisa que me pegou e jque amais desapareceu. Gostaria de escrever algo mais acerca da sua história, mas intuo-a na presença e na recordação do caminho que me permitiu trilhar, tendo eu a plena consciência de que quaisquer falhas minhas (epá, e aí tinhamos pano para mangas...) não a têm como sequer remota responsável. Dizem que os pais fazem sempre o melhor que podem. A minha mãe, no que me diz respeito, sempre se excedeu.

É a minha. Tem a dimensão que tem, que para mim, é feita de coisas que só mesmo o céu consegue abarcar ou cobrir.