A auto-depreciação não é bonita. Não tem charme, não é uma afectação, nem uma espécie qualquer de tique com pinta. A escuridão surge e mina tudo. Dói e é perigosa. É uma espécie de cauterizador involuntário.
Quando surge, ou quando acontece, não dá grandes hipóteses. É como um banho escuro, de água oleosa e gelada. Toca tudo, como uma espécie de carícia maldita e inaceitável.
Não é divertida. Não tem grandes benefícios. Surge e leva tudo consigo. É uma escuridão profunda, um toque degenerativo, um espelho tão pleno de deformações que qualquer imagem estática parece devorar-se e regurgitar-se a si mesma, em repetição.
Mantê-la ao largo é, a mais das vezes, tarefa oriunda de treino. Torna-se mais fácil com o passar do tempo e com uma resiliência que não admite escorregadelas. Mas quando vem, é a força imparável que encontra o que já não é o objecto inamovível. É inevitável como o próximo segundo a cair como o som de uma gota numa enorme caverna.
E toca tudo, como qualquer ausência de luz o fará.
A auto-depreciação não é bonita. Não tem graça. Não acrescenta. É uma espécie de sintoma que deriva de algo que não se pode qualificar como se faria a um vício ou compulsão, mas que é igualmente irresistível.
...
E depois segue. Vai-se, como veio. Como uma maré negra, desfaz-se, dissipa-se. O mar fica exausto, temporariamente vazio, escuro, dorido. Recorda-se. Custa-lhe mais do que será capaz de expressar.
E depois segue-se... Quando os olhos e tudo o resto resolvem, sem saber, passar a alguma clemência...
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