É coisa antiga verificar a capacidade que temos de magoar outros, ou fazê-lo a nós próprios, ou sermos magoados, e a sua directa proporcionalidade em razão do paradoxo de quem teria "menos motivos" para o fazer. Além de coisa antiga, é meio estúpida, e irritante, mas não deixa de ser uma verdade inderrogável. A proporcionalidade directa é quase uma espécie de legenda secundária, de sussurro do ponto, perante a relevância das coisas.
Podemos desejá-las ou não, mas o reconhecimento dessa capacidade nasce das pequenas ou grandes dores que afectam o raciocínio e aventam descobertas dificilmente concretizáveis em palavras. Pelo menos de início, quando o rombo quente de uma ou várias ondas de choque cimentam as percepções, mas queimam a pele que tocam. A pele, quando queimada, retrai-se, fechando os poros em protecção, juntando-se para aguentar o embate e criar espessura e profundidade para que o motor da renegeração seja protegido e comece imediatamente a trabalhar quando a explosão amaina.
No meio dessa renegeração contam-se os golpes, limpam-se as feridas com o esgar de quem as reconehce como tal. Sorri-se pela história que a cicatriz traz, não na perspectiva de ser recordada, mas naquele tipo de histórias que afinal crescerá, porque só começaram. Nessa capacidade paradoxal, a impiedade é uma espécie de vento furioso, capaz de esculpir as formas dos conceitos em rocha, num doloroso processo de génese e formatação. É como cozer pele a sangue frio, com cuidado, para que a marca seja a força de uma recordação necessária e não o estrago perene de uma deformidade.
A verdade é que não podemos escolher os efeitos que os detentores dessa capacidade podem causar. Seria giro e bem prático ser ecléctico nesses efeitos, como se fosse possível ser ingénuo ao ponto de achar que as sombras necessárias não dão, também, consistência a essa capacidade. Como se pudessemos de alguma forma dar consistência a um desenho bidimensional, sem sombras, de traço limpo, como o de Hergé, e continuar sem ter a certeza que tal coisa não existe.Como se entrando a luz pelos olhos dentro, pudéssemos ser ignorantes da necessidade da sombra.
O poder que, intencional ou inadvertidamente, atribuímos a outros, nasce, em muitos casos, com o desconhecimento daqueles. Aqueles que se borrifam completamente nas nossas objecções convenientes e constroem vias até ao que em nós é fulcral e, claro está, acabam por atropelar umas quantas coisas.
Assim, a capacidade que temos e que têm de (nos) gerar dores e destruições, numa roda viva de renegeração, é o que faz das histórias (reais) aquilo que são. É o que as levanta da bidimensionalidade. O que as faz cortar o vento e apanhar algumas gotas de chuva. É, também pelo menos, o que as salva da morte. Mesmo que seja interna.
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