ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, maio 12, 2011


É coisa antiga verificar a capacidade que temos de magoar outros, ou fazê-lo a nós próprios, ou sermos magoados, e a sua directa proporcionalidade em razão do paradoxo de quem teria "menos motivos" para o fazer. Além de coisa antiga, é meio estúpida, e irritante, mas não deixa de ser uma verdade inderrogável. A proporcionalidade directa é quase uma espécie de legenda secundária, de sussurro do ponto, perante a relevância das coisas.

Podemos desejá-las ou não, mas o reconhecimento dessa capacidade nasce das pequenas ou grandes dores que afectam o raciocínio e aventam descobertas dificilmente concretizáveis em palavras. Pelo menos de início, quando o rombo quente de uma ou várias ondas de choque cimentam as percepções, mas queimam a pele que tocam. A pele, quando queimada, retrai-se, fechando os poros em protecção, juntando-se para aguentar o embate e criar espessura e profundidade para que o motor da renegeração seja protegido e comece imediatamente a trabalhar quando a explosão amaina.

No meio dessa renegeração contam-se os golpes, limpam-se as feridas com o esgar de quem as reconehce como tal. Sorri-se pela história que a cicatriz traz, não na perspectiva de ser recordada, mas naquele tipo de histórias que afinal crescerá, porque só começaram. Nessa capacidade paradoxal, a impiedade é uma espécie de vento furioso, capaz de esculpir as formas dos conceitos em rocha, num doloroso processo de génese e formatação. É como cozer pele a sangue frio, com cuidado, para que a marca seja a força de uma recordação necessária e não o estrago perene de uma deformidade.

A verdade é que não podemos escolher os efeitos que os detentores dessa capacidade podem causar. Seria giro e bem prático ser ecléctico nesses efeitos, como se fosse possível ser ingénuo ao ponto de achar que as sombras necessárias não dão, também, consistência a essa capacidade. Como se pudessemos de alguma forma dar consistência a um desenho bidimensional, sem sombras, de traço limpo, como o de Hergé, e continuar sem ter a certeza que tal coisa não existe.Como se entrando a luz pelos olhos dentro, pudéssemos ser ignorantes da necessidade da sombra.

O poder que, intencional ou inadvertidamente, atribuímos a outros, nasce, em muitos casos, com o desconhecimento daqueles. Aqueles que se borrifam completamente nas nossas objecções convenientes e constroem vias até ao que em nós é fulcral e, claro está, acabam por atropelar umas quantas coisas.
Assim, a capacidade que temos e que têm de (nos) gerar dores e destruições, numa roda viva de renegeração, é o que faz das histórias (reais) aquilo que são. É o que as levanta da bidimensionalidade. O que as faz cortar o vento e apanhar algumas gotas de chuva. É, também pelo menos, o que as salva da morte. Mesmo que seja interna.



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