Por alguma razão que desconheço, ou talvez não, sempre achei graça a uma certa marca de desgraça nas pessoas. Não de desgraçadice ou "calimerismo". Mas um traço de destroço, uma racha profunda num olha de semblante quase perfeito, um prenúncio de história, um emergir que é uma espécie de redenção contínua.
Chego à conclusão que essas pessoas conseguem rir como ninguém. Estendem a mão e tocam com a percepção de que ilusão é uma palavra que surge algures na letra "I" do dicionário, sabendo perfeitamente que o perigo está na pouca magia que pode ter a sorte de ser real.
Essas pessoas, que na partilha dos seus universos, contam histórias pingadas de negro, não desdenham qualquer cor. Olham como pele cortada mas nunca morta. Exibem uma espécie de candura irada, bem contida, emersa em mil teias complexas de ideias que nem elas percebem bem, a mais das vezes, mas que definem constantemente, como o mais próximo que se possa imaginar a uma canção da alma.
Os olhos estão quase sempre ligeiramente arregalados. Olham em frente com destemor e polidamente ao lado para poderem respirar.
A traça da desgraça é uma espécie de verniz vintage que faz do gesso recém-nascido uma espécie de bronze contador de histórias, sendo que o brilho metálico é a forma consciente como deixam que emerjam as vitórias de espíritos que não se quebram.
Essas pessoas, cujos pés têm uma parte mínima chamuscada pelo inferno, troteiam pela terra num misto de respeito pela sua verdade e gratidão consciente pela sua natureza luminosa. E a maioria desse tão ínfimo grupo ama com a raiva própria de quem sabe o que são pretensos sulcos na pele, mas que afinal deixam cicatrizes na cabeça. Envergonham as histórias contadas a meio conceito, sorriem exibindo o tecido cicatricial, e são, em parte, indefinidamente diáfanas. E é assim que nunca morrem num formato, deixando-se conhecer no que se reinventam, mas que afinal de contas, é tudo aquilo que são.
Por alguma razão, sempre fui vulnerável a um estilhaço de desgraça numa expressão. Talvez porque seja esse que prove, sem sombra de dúvida, que aquilo que importou, acabou por levar a melhor.
Mesmo quando era impossível.
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