Quando se encolerizam, as pessoas só dizem dois tipos de coisas. Agressões impensadas, ou verdades que resguardam com o cuidado da afeição. E quando, por sua vez, são estas que emergem, percebemos até que ponto elas vão, e o quão sentidas são por quem as profere e guardou durante tanto tempo. E guardará.
Quando assim é, por mais dolorosa que seja a conclusão associada a essa verdade, não vale a pena escapar-lhe. Ou sequer tentar. Temos apenas a revelação de algo que tentámos toda uma vida alterar, apenas para perceber que certo tipo de esforços de nada valem porque nunca conseguimos senão dar essa imagem ou conceito de nós próprios. E é aí, que ao percebermos as ineptitudes e insuficiências, só podemos escolher, igualmente, uma de duas coisas. Continuar a tentar alterar aquilo que nunca se alterou, ou mudar, assumindo em pleno um papel que ainda que não reconheçamos, é o que acabamos por ter. Lamentavelmente, na cólera de certas coisas, surgem verdades dolorosas, e sabemos exactamente, a olhos importantes, aquilo que de não passamos. E assim é tempo de mudar, e aceitar isso mesmo. Viver de acordo com o que se é, ainda que julguemos uma coisa, e percebamos, ao longo de tanto tempo, que nunca deixaremos de ser uma (pequena) outra. Assim seja.