ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

quarta-feira, agosto 31, 2011


A (quase) unanimidade é engraçada. Tem uma espécie de lógica muito curiosa, porque chega a uma certa altura em que explicá-la é quase como tentar definir o seu objecto mais do que ele se consegue definir a si mesmo. E quando é negativa, é ainda mais engraçado, porque qualquer resistência é mesmo fútil. Definem-nos ou definimo-nos, e ainda assim, o resultado e o custo é o mesmo. Mais vale sorrir. Quando se consegue. :)

quinta-feira, agosto 25, 2011


Como eu, certamente muitas pessoas já tiveram ou terão um lugar num grupo de amigos que perdura ao longo do tempo. Certamente ninguém ignorará que esses grupos perduram mesmo com heterogeneidades vincadas entre os seus membros, e a pergunta relativamente ao substracto afectivo deverá se recorrente. E no fundo a pertinencia desta pergunta assenta numa outra, ou outras. Quais? Simplesmente as que têm a  ver com a solidez, pro-actividade e efeitos dos laços (criados?). Como são esses laços. Como se manifestam? De que forma as pessoas investem nos mesmos? Se o fazem, porquê? Se não o fazem, porque não? Como se alimentam? Como se dão uns aos outros? Que papel tem a verdade das coisas e dos factos na solidez da estrutura afectiva e gregária que sustenta um grupo de amigos? Que benefícios poderão ter as mentiras, brancas ou não, quando estas se tornam complicadas à medida que certas coisas se aprofundam ou acontecem, como sofrimentos, mudanças, cedências e até invasão de espaços por novos intervenientes? Até que ponto é que os membros desses grupos acham que devem saber das coisas antes de especularem sobre as mesmas?

Nada disto é de fácil resolução. Até porque, e isto baseado apenas na minha experiência pessoal, é algo recorrente. Parece haver uma inversão proporcional entre a profundidade das questões e a perenidade dos laços. Há uma alergia subreptícia à verdade ou ao aprofundamento dos efeitos da mesma. Há uma lógica estranha que parece subsistir de uma espécie de "pax romana", porque olhar para certos fenómenos pode ter várias consequências - ver o que não se quer, e poder chegar à conclusão que está à nossa porta.

A verdade é que em muitos grupos as pessoas evitam dizer a verdade. Evitam confrontar-se com ela porque há uma ideia de que esta é incompatível com a convivência das tais heterodoxias. Como se a verdade dos factos pudesse dinamitar o equilibrio dos laços. Ora, em meu ver, e muito simplesmente, se isso for levado ao extremo, é a própria solidez dos laços que está em causa, porque aparentemente está assente em pressupostos que não são reais. Quem constitui os grupo não é então quem lá está, mas uma representação conveniente e adaptada. A malta arranja-se, encaixa-se, e enquanto a convivência for mais leve e superficial, tudo é passível e possível.

Mas no meio de tudo isto entram as dores, as perdas, os danos, os enganos, os descasos, as solidões. E quando se tornam relevantes, a superficialidade estala como gelo demasiado fino debaixo da Popota patinadora. A profundidade torna-se uma evidência, e com ela, a verdade terá necessariamente de vir, ou o que se vende é precisamente aquilo que já existe. E a verdade pode ser chata e dolorosa. Uma filha da puta, ocasionalmente, que não poupa ninguém ou quase ninguém. E que pode mesmo por à prova os laços, porque se eles não existirem de facto não resistirão a um estirar brusco feito da realidade onde de facto se vive.

Assobiar para o alto é uma hipótese. Montar o teatro é outra. Deixar andar e esperar que passe é ainda outra. Mas a questão que se coloca é até que ponto a auto-mentira se torna tão convicente ao ponto de se externalizar como uma máxima ou cartilha de pertença, gregaridade ou mesmo, pasme-se, afecto. Gostaremos então enquanto não se levantarem ondas? Mente-se de forma branca para não arranjar chatices? Ou porque não temos tempo para ir em direcção a alguém porque temos tanto a tratar no nosso dia?

Façamos um exercício. Quantas vezes é que perguntámos como é que ela realmente se sentia? Quantas vezes é que descartámos o alívio ou descanso de consciência que nos dá o conveniente "não se passa nada"?  Quantas vezes é que quisemos mesmo ver para dentro do caos de alguém e retirar sobreviventes? Quantas vezes é que a verdade menos bonita, mesmo entre amigos, poderia vir para cima da mesa e ser discutida como algo absolutamente necessário e característico dos laços?
Pois... pois é....

O problema nestas coisas é que a mentira branca também se encarde, e a acumulação das ditas começa a enegrecer o cenário. A convivência e a sobrevivência dos laços e das diferenças não pode assentar apenas na deformação dos factos, ou na ideia de que é convincente uma única demão de tinta que estala por todo o lado. A verdade pode morder, mas normalmente, desde que em alguns casos afirmada com coração aberto e de pendor construtivo´, serve como cimento de secagem rápida, e não martelo de demolição. Nem toda a verdade é possível, e quem o acha, é ingénuo. Nenhum tipo de laço sobreviveria a tal abstracção. Mas há verdade necessárias, muitas, e a solidez dos laços não pode ser apenas enunciada pelos sorrisos dos reencontros, mas pelo conhecimento de facto de quem são os membros desses grupos, e o reconhecimento do afecto através da percepção real do outro. Ir lá. Mexer. E saber a verdade, mesmo que isso signifique que ficamos mal na fotografia, mas até queremos remediar e reconstruir.

Só assim se impedem mortes, especialmente aquelas que nunca o aparentam.
Só assim, em meu ver, se é parte de algo múltiplo, rico, e acima de tudo, verdadeiro. Porque só assim realmente vive.

(SPOILER ALERT! - O TRECHO DO FILME É O FINAL DO MESMO, PORTANTO QUEM NÃO VIU E QUISER VER, NÃO DEVERÁ CORRER O LINK - O FILME É "LES PETIT MOUCHOIRS" E RECOMENDA-SE.)





segunda-feira, agosto 22, 2011


Muitas pessoas tendem a pensar que eu sou uma espécie de pessimista sorumbático que procura os lados escuros para aumentar este estado, ou para ter um tipo de prazer ilógico, como se me alimentasse do que não é bom, do que custa ou do que é menos bonito.

A primeira reacção é, passo a expressão, reagir. Negar e explicar em termos muito lógicos, ou assim gosto de pensar, a razão pela qual essa não é a intenção de todo. Depois paro e penso um bocadinho sobre o assunto. E sei que quando vejo a cor escura, ela de alguma forma entra no sistema, como uma necessidade de escorar a realidade em alicerces que, pelo menos, não me aldrabem condescendentemente. Há algo na descoberta das faces ocultas que me faz gostar mais das solares. É como se algo naquele tipo de seres fosse confiável, como se o desejo de ultrapassar ou pelo  menos incorporar de forma minoritária essas tais "falhas" tornassem as virtudes tão mais humanas, sinceras e palpáveis.

A natureza humana é vária, já la me dizia alguém, e embora negue violentamente o niilismo como sendo a pior forma de cobardia existente, a verdade é que há algo nos cantos escuros que enverga o fascínio das coisas complexas e passíveis de viagens de descoberta. E não há gozo maior que esse da viagem. Afinal, quando evoluímos, julgo que o tentamos fazer para fora dos nossos pântanos, mas é desonesto fingir que a lama não se colou às nossas vestes.

Não procuro avidamente a escuridão das coisas, mas ela dá-me alguma tranquilidade. É estúpido, eu sei, mas tendo a desconfiar de visões límpidas e bonitinhas das coisas. Odeio de morte os "felizinhos", a tontaria alegre que empurra qualquer coisa com mais substância com a barriga, chamando-lhe curva da felicidade e não o que é, excesso de peso devido a cú preguiçoso e pesado. E tanto pior se for metafórico/intelectual.

As pessoas "normais" e "muito felizes" assustam-me. É muito chato dizer isto, mas desconfio delas e das suas máximas açucaradas e permanentemente afundadas num anúncio de cerveja. Sou um fã muito maior dos cenários poeirentos de onde a ternura e a felicidade emergem como brilhos verdadeiros, não importando a superfície de onde refulgem. Deve ser por isso que (também) gosto de histórias brutais, inclementes, duras, mas de onde também jamais surja a cor podre da desesperança niilista que se traduz na dormência. Deve ser por isso que me surge um sorriso quando da boca do moralista surge a perversão, quando do honesto nasce a dúvida, quando do determinista aparece a questão, quando no pano alvo há a nódoa que lhe dá consistência ou função. Gosto quando nos conseguimos ultrapassar, mas quando não nos renegamos. Quando assumimos a nossa contribuição para o clube da escuridão, mas somos afinal filiados na associação luminosa. Quando sabemos que tudo nunca pode ser só um estado, e nos tornamos tão mais interessantes por termos dois hemisférios onde dia e noite, lá está, alternam.

Sou, por isso, um pessimista moderado. Não me alimento da fatalidade menos limpa, mas apenas das histórias onde esta vence, e especialmente aquelas onde ela vai à barrela. Para mais esclarecimentos, ver "Pequenas Mentiras entre Amigos", e alguém o explicará infinitamente melhor do que eu. Fingir que nada se passa, ou que está tudo bem, é uma mentira tão grave que pode chegar à morte.
E disso sim, não quero fazer qualquer parte...




Tendo a pensar que me preocupo demasiado com as coisas que não controlo.

Acho que não é patologia isolada, mas nem por isso a torna mais justificável.

O problema é que também não a evita. :)

terça-feira, agosto 16, 2011

Não há nada mais hilariante e, ao mesmo tempo, mais susceptível de pena e desprezo, do que alguém que se apercebe e orgulha em ser estúpido que nem uma porta, e reforça essa opção.
A ignorância pode ser uma fatalidade por factores não imputáveis (a sabedoria não obedece a padrões), mas a estupidez é opcional. A opção pela parvoíce é própria de uma concepção do mundo onde tudo é possível, mas precisamente pela antínomía da liberdade, ou seja, o mundo como uma ostra própria, onde só o habitante é que ainda não percebeu do cheiro a podre.



Alguns idiotas sem nome veicularam uma ideia de que a minha pretensa sexualidade ou identificação sexual estaria em causa. E são tão estúpidos que nem sequer percebem o que me aborrece nessa parvoíce ou pretenso golpe de maledicência.
O que me chateia não é que façam esse juízo, por muito absurdo que seja, mas porque achem que isso me incomodaria ou ofenderia enquanto pessoa, se por acaso fosse verdade. Chateia-me precisamente porque me medem com os olhos deles e a sua visão pequena, triste e ofensiva do mundo. Vêem-me à sua imagem, e a ofensa está aí. Nada me envergonharia mais.

segunda-feira, agosto 15, 2011

É curioso quando conseguimos, mesmo sem saber como, percorrer todos os espectros de opinião ou afecto nas mesmas pessoas. No entanto deixa-nos perplexos, porque seremos nós que mudamos sem dar por isso, ou percebemos que muitas pessoas simplesmente não faziam ponta de corno de ideia de quem éramos (somos)? Que a preguiça associada à tacanhez e incapacidade de questionar minimamente as coisas torna mais fácil a detracção, mesmo que em nada corresponda à verdade?
Chega a ser estonteante a diametralidade de versões mirabolantes de uma vida que, epá, que estranho, é a nossa, e que aparentemente alguns se permitem dar lições e versões sobre algo que conhecemos, ou devíamos conhecer bem melhor que qualquer "opinador" de serviço.
E o mais espantoso é que o fazem sem fazer uma única pergunta, demonstrar um único facto ou confrontar uma única vez o objecto de tão fantasiosas transferências para uma vida que não têm ou nunca tiveram.
Seria divertido, se não fosse triste. Pensando bem, dá vontade de rir, pelo menos em parte, como a "punch-line" de uma piada de humor realmente negro e quase insultuoso.




Ser um pessimista moderado é fazer um acordo com a realidade sem partir todas as lâmpadas ou tapar todos os focos de luz. Fica colado como pele. Nunca se cresce para fora dela, por mais que se ache o contrário. Mas é a medida de luz que também a constitui que lhe dá a lucidez, e rejeita a cobardia do niilismo, ainda que se tenha uma pontaria, talento ou tendência para ver o mais escuro nas pessoas e realidades...




segunda-feira, agosto 08, 2011

A palavra porcaria tem uma dimensão que ultrapassa em muito a sua lógica imediata. Em primeiro lugar é uma palavra justa, pelo menos a maior parte das vezes. Assinala um estado de apodrecimento, de corrupção da matéria que, no entanto, pode não ser exactamente estrutural. Como assim? Bem, se eu deixar cair um maravilhoso e fresco pedaço de pão alentejano ao chão, em cima de uma porcaria de uma poça de lama ou de óleo, posso sempre colocá-lo em cima da mesa, agarrar numa faca e cortar o pedaço que está sujo. A porcaria colou-se, mas não tomou conta do objecto.
Doutra forma, de eu deixar um iogurte fora do frigorífico, ao sol, durante dois dias, fica uma porcaria. Torna-se uma porcaria, irrecuperável, feita em si mesma de tudo o que não presta, e uma vez entrada em qualquer sistema, vai fazer estragos, normalmente daqueles que necessitam de intervenção médica. O que fica apenas é a recordação de algo que era são, mas que se tornou uma porcaria.
E finalmente, há a terceira forma. Se alguém fizer uma ferida e infectar, aquela zona do corpo fica uma porcaria. O pus tem um cheiro pestilento e repugnante, mas no fundo é o produto da expulsão do corpo, quando este recusa a morte ou a porcaria. E no meio de um organismo são, a porcaria pulsa, porque o corpo a tenta expulsar, porque sabe que a sua corrupção pode tornar-se perigosa para a integridade de um sistema que não é, vá lá, pelo menos uma grande porcaria. É por isso que os meios curativos podem arder, mesmo, ou especialmente aqueles que podem abalar a própria estrutura na defesa que lhe fazem. E é a estrutura que se prepara para isso, que se prepara para as consequências de um reconhecimento através do qual, a muito duras e solitárias penas por vezes, nadar no meio da porcaria não significa de facto aceitar de ânimo leve qualquer confusão com ela.
O ardor da terapêutica é um pouco a lógica do merecimento e estar preparado para aceitar que qualquer recuperação nunca elimina a noção de dano é por sua vez dar uma luz límpida a tudo o que se reconstrói. A porcaria pode fortalecer o sistema do qual faz parte. A graxa ou óleo de motor são sujos, mas sem eles a engrenagem não funciona, nem sequer se optimiza. A porcaria é a própria catapulta das coisas que brilham. É a consistência da complexidade, é o que temos a descobrir nos outros, são aqueles dentes podres, mas bem afiados, de que a verdade também é feita.
A consciência é isso mesmo. É o que fazemos emergir da porcaria, e através da verdade mais conseguida (porque total, esqueçam lá isso), consegue talvez fazer bem mais do que a ilusão de linearidade. Essa linearidade é como um leite creme impecavelmente queimado. O problema é que quando se vai a partir a casca, percebe-se de que real material é feita aquela capa castanha ou preta, e o cheiro que sai do amarelo leitoso é tudo menos doce. E isso sim, é a porcaria que infecta e mata. Aquela que, enquanto não lhe mexerem, dura uma vida inteira.





quinta-feira, agosto 04, 2011

Algumas (muitas infelizmente) pessoas são pequenas. Crianças. Nos seus joguinhos patetas de invejas, conspirações, segredinhos, conjecturas e manipulações, são como pirralhos a quem faltou um bom par de lamparinas. Sorriem nos plenários dos seus pequenos golpes de estado, com os dentes expostos num esgar asqueroso, próprio das insignificantes megalomanias das suas “vidinhas”. Algumas pessoas são pueris, na sua crueldade infantil, na sua manipulação, no seu egocentrismo monstruoso mascarado de boa vontade preventiva, derivado do facto de já não serem do tamanho das crianças.

Algumas pessoas intitulam-se "normais", na pior forma que esse termo pode assumir, o qual assenta numa malevolência indignada e dirigida seja a quem for, num formato mais próprio da definição de preconceito. São crescidos, dizem, já sabem o que é a vida, afirmam, e atiram a matar para tudo o que foge da sua concepção pré-falecida do que é precisamente, estar vivo. O ponto a que essa velhacaria pode ir, deveria ser cómico e não assustador, deveria gerar humor involuntário e não tristeza, mas é pequeno e danoso como um vírus, e assim como a ignorância, é da cor do ar. Infiltra-se e destrói.

As ovelhas negras confessas, ou os "indesculpados", assumem-se então de pleno direito. Sabem que jamais serão desculpadas pelo ultraje de se permitirem viver e deixar viver. Chatice do caraças, digo eu... :)